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Lançamento: 1969
Leia: "A alma encantadora das ruas" e a crônica "O homem de cabeça de papelão", de João do Rio.
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
José Antônio José, Godofredo de Alencar, Joe, Claude... Quem foram? Todos eram João do Rio, outro pseudônimo do contista, romancista, autor teatral e jornalista carioca João Paulo Emílio Coelho Barreto. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a vaga de Guimarães Passos e redator de jornais importantes, como
Gazeta de Notícias e
O País, além de fundador do diário
A Pátria, que dirigiu até falacer, em 1921. Deixou livros essenciais como os que publicamos hoje na seção Relançamentos e a crônica, que vocês poderão conferir em nosso Banco de Cultura. João do Rio é a chave para que se compreenda não apenas parte vibrante da história do Rio de Janeiro mas também para que se aprecie a alma de ruas cheia de vida – de qualquer cidade, de qualquer país.
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JOÃO DO RIO -1881 - 1921
"Com o desapparecimento de Paulo Barreto perde o Brasil, sem duvida, uma das mais estranhas e por isso mesmo talvez, mais empolgantes, das suas organisações literarias. Delle poder-se-á dizer com justiça que era em tudo e antes de tudo, como escriptor, um estheta na mais perfeita accepção do vocabulo. O que Olavo Bilac realizou na poesia, João do Rio o foi em nossa prosa contemporanea: a emoção feita estylo para dominio dos sentidos.
Não seria decerto um pensador, mas um artista, impondo-se menos pelo peso dos conceitos do que pela graça e leveza dos proprios pensamentos, a que a phrase incisiva, nervosa e scintillante, communicava, todavia, grande movimentação e emprestava sempre intenso brilho. Dahi, dessa arte que, até certo ponto, constituia uma originalidade em nosso meio, tirava o privilegiado publicista patricio o melhor dos seus effeitos literarios. (...)
João do Rio não foi, em verdade, um commentador grave de homens e coisas, sendo muito embora um observador, por vezes agudo demais. Dir-se-ia que, a despeito da percuciencia da sua visão, elle se comprazia em deixar de lado, propositadamente, tudo o que não encontrasse de banal ou de grotesco no seu exame, para, assim, melhor dar expansão ás suas tendencias incontrastaveis de espirito entre leve e picaresco, e sempre bem humorado de mais para desdenhar das glorias de critico de futilidades. A esta conformação comsigo mesmo deveu, sem duvida, João do Rio os seus inexcediveis triumphos de chronista mundano e reporter... (...)
Onde a vibração da massa pedisse alguem para transmittil-a, ahi estava João do Rio. No seio do povo colhia elle as emoções da sua fonte; registrava-as todas, com o poder retentivo sorprehendente e sem esforços mnemonicos se as transmittia a si mesmo, para, depois de processal-as, apurando-as, em seu engenho, communical-as a nós outros, harmonicas, luminosas e trepidentes.
Nisto, os seus talentos não o trahiam nunca e elle o fazia com amor e convicção. A sua arte era, assim, não só bella, mas sincera. A fantasia, conquanto sua collaboradora, entrava ahi apenas como elemento de realce; não lhe sacrificava a obra, sentida e verdadeira, máo grado os paradoxos que iam por ella para confirmar- quem sabe? - no fundo, a individualidade do seu autor. (...)"
Rio Jornal, 24 de junho de 1921.
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