overmundo
Artigos
Arte para Quem?
Daniela Blanco · São Paulo (SP) · 17/5/2009 12:45 · 135 votos
Certa vez, ao assistir um programa na televisão à cabo que mostrava um grupo de artistas que se diziam fazer arte para todos (onde um dos “artistas” andava pelas ruas de São Paulo envolto por luzes de Natal, com o intuito de atingir a todos sabe-se com o que), questionei-me sobre a importância do direcionamento da arte como influência na criação, com o intuito de analisar se, a arte, ao ser direcionada para um público tão amplo e leigo em seu conhecimento, teve neste a “inspiração” adequada para se obter um bom resultado artístico. A questão abordada discute os fatores quantitativos e qualitativos possíveis, ou seja, a importância que se dá ao tema e relevância do objeto de arte ou à quantidade de pessoas que serão atingidas por este.

Muito se discute sobre a questão “arte x público”, mas destas podem se tirar poucas conclusões e até mesmo poucos bons argumentos; já que em sua maioria as discussões sobre o assunto são fundamentadas já desde o princípio erroneamente. O que pode ser percebido quando se discute a importância de a arte ser dirigida para um público mais amplo e de diferentes classes sociais como se isso já tivesse sido feito no passado e como se tivéssemos que recuperar esse valor supostamente perdido na sociedade moderna. Nunca na história do passado a arte foi feita para todos. Esta sempre foi direcionada para uma minoria da elite. Hoje essa dinâmica se diferencia em partes da do passado pelas diversas manifestações artísticas em diferentes classes sociais e intelectuais, mas permanecendo ainda a idéia de que arte é direcionada para pequenos grupos e não para todos.

Se a intenção fosse a de realmente discutir-se a igualdade no acesso às diferentes manifestações artísticas, aí o tema da discussão seria a política e todos os seus dissidentes, como a economia e principalmente a desigualdade social. O papel da arte dentro da sociedade é o de servir como meio de expressão. E a arte só deve ter o papel de igualar os indivíduos dentro de uma sociedade ou de discutir política se assim o desejar seu artista, se este tiver como fim e como inspiração temas de caráter político. Se este não for o caso, então a arte continua sendo um meio de expressão autossustentável e livre dos paradigmas do poder.

Cito nesta discussão diversas manifestações artísticas que diferem entre si no que diz respeito à seu direcionamento. O Grafite por exemplo, surgiu como manifestação artística nas classes mais baixas da sociedade, assim como muitas das manifestações artísticas que utilizam-se de materiais recicláveis como matéria-prima para a construção de diversos objetos de arte. Isso prova que a arte encontra meios de se manifestar em todas as classes econômicas e intelectuais. E até me arrisco a dizer que longe das grandes áreas de conhecimento intelectual surgem novas artes livres dos antigos cânones. Cada uma destas manifestações possui um direcionamento diverso, cada qual tentando alcançar seu público específico através de sua linguagem única que cativa ou não o indivíduo.

Podemos fazer aqui um comparativo entre as artes plásticas e o cinema, que diferente da primeira, é manipulado pela mídia, além de ser ele mesmo uma ferramentada desta, o que o torna muito mais disseminado e popular. Dentro da categoria cinema, existem uma infinidade de subcategorias e classificações que podem atingir o gosto de pessoas as mais diversas. São estas a comédia, o drama e o terror entre outros. Isso nos mostra que até mesmo o cinema, tão popular em diversas classes no mundo todo, é direcionado para grupos específicos, que podem se dividir entre aqueles que optam por filmes “cult” que fazem parte de um circuíto alternativo de cinema até os que optam por filmes “hollywoodianos” que ultrapassem de longe as marcas comerciais dos anteriores.

O importante aqui é afirmar que não existem piores ou melhores manifestações artísticas como um todo, mas sim estilos diferentes direcionados para públicos compostos de indivíduos complexos e únicos. Ao em vez de se perder tempo discutindo sobre uma arte que vise agradar à todos, deveríamos nos focar em discutir a não classificação do indivíduo que aprecia a arte, depreciando sua intelectualidade pelo seu gosto pessoal e intrasponível. O que garantirá aí a qualidade estética de uma determinada manifestação artística será exatamente o seu direcionamento específico, que lhe exigirá conteúdo e relevância sobre aquilo a que se propõe.


tags: São Paulo SP artes-plasticas artes publico estetica artigo

extraído de:



Creative Commons
Alguns direitos reservados