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Raul Seixas, o censurado da vez
Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 2/10/2009 · nenhum
Reprodução
E a censura segue a toda quando se trata de livros que procuram biografar figuras ilustres do Brasil. Roberto Carlos censurou, aravés de decisões judiciais, a obra de Paulo Cesar Araújo, que em nenhum momento desabonava a história e a honra do cantor de Cachoeiro do Itapemirim, tornou-se emblemático e chamou a atenção de herdeiros interessados em bloquear qualquer análise crítica e séria de pessoas que têm grande importância para a compreensão da nossa história.

Depois de Guimarães Rosa, cuja biografia foi censurada e retirada de circulação por uma de suas filhas, no final do ano passado, agora é uma das ex-mulheres de Raul Seixas, morto há 20 anos, que ameaça o biógrafo do maluco beleza. Para piorar, nesse caso o livro ainda nem foi finalizado e deve ser publicado somente em 2010. Ou seja, chegamos a um ponto em que a censura se adianta a uma obra que sequer existe ainda.

O autor do livro que já consumiu cinco anos de pesquisa, Edmundo Oliveira Leite Júnior, recebeu um telegrama ameaçador de Kika Pedroza, quarta das cinco ex-mulheres de Raulzito, informando que: "Caso o senhor insista na realização irregular de tal biografia, serão tomadas as medidas judiciais cabíveis".

Em entrevista ao Estadão, Leite afirmou ter estranhado a reação de Kika, com quem mantém contato desde 2004, e uma das primeiras pessoas a ser informada da biografia. "Fiz duas longas entrevistas com Kika, que deu informações fundamentais e não se negou a responder sobre qualquer assunto, além de fazer uma declaração pública sobre o fato de que ainda falta uma biografia de qualidade do ex-marido", disse o autor ao jornal, que também falou com a filha de Kika e Raul, Vivian, sobre o telegrama: "Fui eu quem notificou o Edmundo Leite porque durante as quatro horas de entrevista que ele fez na casa da minha mãe, Kika, ele só perguntou sobre drogas e foi assim com outras pessoas que ele entrevistou", escreveu ela por e-mail. Ela não considera censura, mas caso de foro íntimo

Edmundo Leite vem trabalhando no livro há cinco anos, entrevistou mais de 100 pessoas, aqui e em países como os Estados Unidos, onde moram as duas primeiras mulheres do baiano, Suíça, Argentina e Alemanha, entre eles o maestro e arranjador que trabalhou com Raul, Miguel Cidras, além de amigos, produtores, executivos de gravadoras, parentes, ex-namoradas, desafetos, artistas. Paulo Coelho, ex-parceiro, liberou o acesso ao seu arquivo particular. Irônico, não fosse triste, é a censura neste caso cair em cima de um livro a respeito de alguém que sempre prezou pela liberdade.

Um projeto de lei do deputado federal Antonio Palocci (PT-SP) apresentado no ano passado pretende alterar o artigo 20 do Código Civil, que embasa as decisões recentes de censura a livros.

Segundo o texto do projeto, que tem parágrafo único, "é livre a divulgação da imagem e de informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública ou cuja trajetória pessoal ou profissional tenha dimensão pública". Com parecer favorável do relator, ele tramita em regime conclusivo, o que significa que não precisará ir a plenário. De todo modo, precisa da aprovação na Câmara, no Senado, para então receber a sanção presidencial. Enquanto isso, ameaças como a de Kika Pedroza lamentavelmente se disseminam por aí.

O Estado de S. Paulo produziu um especial bem bacana sobre Raul, confira aqui


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