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Nove Perguntas e Um Desafio: Simone Campos
Ismar Tirelli Neto, Rio de Janeiro (RJ) · 14/9/2009 · nenhum
Arquivo Pessoal da Autora
Simone Campos
Simone Campos começou notoriamente cedo e já vai no seu terceiro livro, o volume de contos “Amostragem Complexa”. Selecionado pelo Programa Petrobras Cultural quando em estágio embrionário, Amostragem nos mostra uma autora extremamente segura de sua voz e de seu repertório temático; uma voz que transita por gêneros tão diversos quanto a ficção científica e o comentário político, sem jamais perder a singularidade.

As questões que propus à Simone eram, na verdade, 10. É onde entra o tal desafio do título.

Na décima questão, falei à Simone que o Portal Literal queria fazer uma promoção com seu livro, e pedimos que nos receitasse um exercício. Ela deu a idéia, e a coisa ficou assim: o colaborador que melhor responder à batidíssima pergunta “qual conselho você daria a um jovem aspirante a escritor?” será, em breve, o feliz proprietário de um exemplar de Amostragem Complexa.

Pois, sem mais delongas, leiam o papo com Simone, atentem bem em tudo que a moça diz, e depois mandem seus textos para a nossa Redação - redacao@literal.com.br.

Lembrando sempre: não edifiquem. O tempo (de que o mundo dispõe) é curto demais para textos edificantes.

***

1.Redija um poema em prosa respondendo à saudação “Oi, tudo bem?” (é favor incluir as pesquisas para a monografia, a aclimatação à vida-após-a-Bolsa e a repercussão do “Amostragem Complexa”, mais o que te ocorrer e que te der na telha).

Tudo ótimo! Inventei a modalidade do alcoolismo sem álcool, que o elástico do tempo anda meio gasto – muito tempo na piscina e tal. Desocupação e vontade de deitar no chão à tardinha. Mas levanto e faço exercício. Constato que minha vida acabou (destituída de drama). Mirabolei coisas bem inatingíveis e específicas; consegui várias. Cuidado, posso ficar desmotivada. O fracasso midiático é para mim uma cama macia depois da rave. Opero melhor no silêncio das mentes – me deposito lá, aos bocados, alienígena arsênica –, salas de biblioteca quietas e ventiladas. É melhor peregrinar de biblioteca em biblioteca, contando centavos e olhando-os na concha da mão para apreender seu ano de nascimento. Se há caminhos tortuosos e espinhentos, ainda há anelo; a vida é boa. Cuidado.


2.Dos clássicos Simonianos, um dos mais incontornáveis – pra mim – é aquela sua crônica para o Le Monde Diplomatique de março de 2008, “O Yeti com Maleta Exclusiva”, na qual você desanca com propriedade magnífica os autobiográficos patológicos, os itinerantes sexuais e os rebeldes sem fralda. Essa tomada de posição já é, de si, extremamente salutar; mas a coisa fica mais fascinante quando paro e penso que sua vida foi tudo menos desinteressante. Você poderia falar um pouco mais sobre essa relação não-predatória entre vivência pessoal e escrita? Como a experiência do autor pode fazer ato de presença no texto, sem torná-lo tonto?

Mamãe me confrontou outro dia dizendo que eu sou tudo menos não-autobiográfica: todos os meus personagens a lembravam de mim. Gaguejei e expliquei: mas não conto tal e qual; ninguém sabe que eu fui xxxxxxx e xxxxxxxxxx ao mesmo tempo – e ninguém tem que saber. Quero que continue assim. Eu me multiplico pelos meus textos, mas não sou o foco deles. Não quero praticar bukkake com o leitor (“fica aí, paradinho. Isso.”). (Ver pergunta número 4.)


3.Nos idos de muito tempo atrás, arranjei um frila de cronista numa revista de moda e decidi escrever uns apontamentos levianos sobre a Novíssima Literatura. Pedi pra você me passear por Botafogo e conversar sobre literatura, e na época você estava bem no início do Amostragem. Lembro que o grande tema que permeou o papo foi a possibilidade de uma ficção em “camadas”, um texto que pudesse ser lido tanto como experimento lingüístico quanto estória. Você está satisfeita com o Amostragem, nesse sentido? Acha que conseguiu encontrar um equilíbrio entre o experimental e o narrativo? Poderia elaborar um pouco mais sobre esse conceito de “escrita em camadas”?

A resposta à pergunta 1 é um bom exemplo de um texto em camadas; você mandou um pedido jumbo e eu resumi engranzando as camadas, viu?

Mas elaborando: eu queria muito escrever meu livro-cabeça definitivo. Atingi isso com A feia noite – tão bem que o livro-cabeça perfeito encontrou, no Brasil, cerca de 6 leitores completamente apaixonados (risos) e deixou o restante coçando a cabeça ou sem coragem de terminá-lo. Ele exige muito do leitor: referências literárias eruditas misturadas à cultura da minha geração. Satisfeita (ou cheia) dele, tive que procurar novos desafios. No Amostragem tentei criar um texto gostoso de ler, que pudesse ser lido despretensiosamente, mas com camadas mais profundas para esses 6 ou 12 leitores desfrutarem. Deu certo. Pessoas que praticamente me cobraram explicações por A feia noite (tenho nomes) agora me procuraram para falar que adoraram o Amostragem, inclusive apontando este e aquele conto preferido. E um ou outro sacou o que havia por trás, alguns vieram até com um papo de respeito, e isso me fez dar pinotes de alegria. Agora já estou procurando novas sarnas pra me coçar... (ver última pergunta)

Quanto ao A feia noite, acho guardar mágoa do analfabetismo funcional perda de tempo: agora estou terminando a tradução dele para o inglês, Nasty nights, e vou ver se jogo em algum canto da rede.


4.Uma coisa que me saltou bem aos olhos no Amostragem foi a presença da juventude. E mais: da juventude como campo de batalha; seja a luta para permanecer só, por manter-se à parte sem se desgastar muito no processo, ou a luta para encontrar “gente como a gente”, que assume um caráter muito sombrio nos contos. Estou falando bobagem? A juventude é um tema decisivo pra você? Deixaremos, em algum momento, o pátio do colégio?

Da mesma forma que livros com crianças podem não ser para crianças, meus jovens podem não ser jovens literais. Acho que eu os uso como um telescópio: eu miro em algum ponto que quero ampliar e ele salta à vista. Eu uso os materiais que tenho à mão, a minha vivência de mocinha de 26; mas o mais importante é o ponto ampliado.

Me sinto muito velha e muito nova ao mesmo tempo. Benjamin Button e sua amada no mesmo corpo. Um dia, quem sabe, eles se encontram.


5. No conto “Sexo em Anegue (Conto Africano)”, você parece flertar com o cômico de maneira bem aberta, frontal mesmo, estou-me-divertindo-à-larga-enquanto-escrevo. Isso me pareceu novidade. É movimento consciente? Você pretende apostar mais na comédia nos próximos textos? Ou essa visão restrita de gênero é tola, ultrapassada e eu devia passar pra próxima pergunta?


Eu quis flertar mais com o escracho do que com comédia, mas não necessariamente morri de rir escrevendo. A parte da Iasmine com a Ana no quarto foi a última coisa a ficar pronta no livro e foi um ordálio editar até ficar legal: eu queria uma cena bem patética e ligeiramente homoerótica, então espiei Nietótchka Niezvánova (Dostoiévski) e outros livros. Mas acho que dei gargalhadas bem mais altas escrevendo o Wifi, de ficção científica – vai ver que é porque sou nerd. Minha noção de comédia é meio deturpada ou, se preferir, pessoal. Por exemplo: quando vejo um Lada ou um Corcel na rua, eu rio. Pra mim, A feia noite tem momentos hilários.


6.A próxima pergunta: “Composição” é teso, enxutaço, transborda de imagens fortes e é tudo incrível. Parabéns.

Poxa. Obrigada.


7.A última pergunta não foi uma pergunta, eu sei. Mas quis dizer isso num tópico separado, porque me impressionou tanto. Ademais, é como se “Composição” fosse caso de extrema depuração estilística, tipo um Concentrado Simone Campos. O que me leva a uma pergunta de verdade: o progresso é um mito ou procede? Você, como veterana pré-Balzaca das letras, sente-se muito afastada dos livros que já escreveu? Em termos literários, o que a gente perde com a idade? O que a gente ganha em troca?

A gente perde muito o frisson da noite de autógrafos. Vira um ritual chatíssimo. Também fiquei mais fria e calculista na hora de escrever; mas ando mais doida do que nunca na hora em que estou fabulando um projeto.

A idade dos meus personagens deve continuar regulando com a minha ou com uma idade que eu já tive. Mas estou sentindo mais facilidade em aprofundar as reflexões e em tornar meus devaneios estilísticos realidade, a despeito de qualquer idade ou sexo que os personagens possam ter.

Adquiri uma consciência zen do que se passa à minha volta literariamente. Isso ajuda a encontrar novos caminhos a percorrer, mas ao mesmo tempo diminui o quanto você se importa com isso. Certos amigos escritores ficam escandalizados com o pouco que me importo (escuto direto “você é bem tranquila, hein”), e é pra isso, entre muitas outras coisas, que eles servem – para me empurrar a aparecer, eu que prefiro me escamotear.


8. O que mais te impressionou, em literatura, nos últimos anos?

Beatriz Bracher é excelente. Lourenço Mutarelli fala tão bem sem imagens como com. Se puder falar de uns mais antigos que li recentemente, Agustina Bessa-Luís, Bulgakov. Gosto de uns escoceses e japoneses recentes também. São os que me lembro agora.


9. E seus projetos futuros? Quantos, quais, como?

Como já deu pra perceber, cada livro meu tem um objetivo, um público. Meu nicho é todos. Até indico: adolescentes devem ler No shopping, acadêmicos devem ler Penados y Rebeldes, nerds trintões e quarentões devem ler A feia noite, e todos podem ler o Amostragem complexa. Eu não digo foda-se o leitor. Quando mando o livro para o editor, parece que eu já sei que efeito o texto vai ter sobre o leitor; e dá certo. Em parte é por isso que fiz Produção Editorial: puro maquiavelismo.

Projeto um: ficção interativa, uma coisa simples que pretendo fazer de forma a enganchar a geração imediatamente abaixo da nossa. A linguagem do videogame é bem mais familiar a eles do que a do livro; e já que eu domino essa linguagem, estou tramando esse livro online como uma subversão para cooptá-los para a literatura. Eles não vão à lan house fazer o que o pai proíbe? A lan house é o novo rendez-vous. Eu simplesmente tenho que aproveitar isso. Pretendo plantar um vírus que transforme a lan house em biblioteca. Espero que fique pronto a tempo de comemorar os dez anos de No shopping, ano que vem.

O outro é um livro normal, em papel, a sair por editora. Um acerto de contas com o passado do Brasil que se dá num futuro não muito distante. Fala de coisas em que não toquei ainda.

Ainda estou acalentando um terceiro projeto, um romance para celular. O problema é que eu idealizei um romance para celular pra fazer sucesso no Japão, onde romances para celulares fazem sucesso, e não aqui. Esse provavelmente será limado da lista.

E obrigada, Ismar, por não ter encerrado com que-conselho-que-eu-daria-a-um-aspirante-a-escritor. De tanto que me perguntam isso, estou quase aconselhando irem à ABL que os parta.

tags: literatura contos amostragem-complexa simone-campos


 
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