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Livro digital: apocalipse ou integração?
Felipe Pontes, Rio de Janeiro (RJ) · 18/11/2009 · 4
Divulgação
Foi consenso entre os palestrantes do debate "Livro digital: apocalipse ou integração? A revolução digital na indústria cultural": as perspectivas do livro tradicional são otimistas e, com a chegada dos e-books, o mercado do livro como um todo tende apenas a expandir.

O debate fez parte do evento "Livro@futuro.com - idéias, debates e workshops sobre o livro e a leitura na web" e ocorreu na segunda, 16 de novembro, na unidade Ipanema do Oi Futuro. Participaram da mesa Fábio Sá Earp, autor do estudo A economia da cadeia produtiva do livro, feito em parceria com George Kornis sob encomenda para o BNDES, Heloísa Buarque de Hollanda, curadora do Portal Literal e da antologia digital Enter e Murilo Marinho, diretor da Mix Tecnologia, empresa responsável pelo Mix Leitor-d, primeiro leitor de livros eletrônicos nacional. A mediação ficou a cargo de Manya Millen, editora do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo.

A respeito da produção literária, Heloisa destacou a crescente fluidez inter-gêneros por parte de novos escritores e a transformação da voz que narra na literatura veiculada na web. No viés do livro como objeto, Heloisa considera que, com a popularização dos livros eletrônicos, o livro em papel ficará melhor, se sofisticará e redefinirá a própria identidade, da mesma forma que a pintura passou a ser mais ela mesma com o surgimento das vanguardas após a invenção da fotografia.

Sá Earp acompanha o pensamento pela abordagem econômica: simplesmente há inventos todos os dias e uns causam mais impacto que outros. A torradeira, por exemplo, provavelmente não ocasionou, ao surgir, grandes comoções nas cadeias produtivas. Já o carro fez desaparecer milhares de empregos, devastando todos os postos de trabalho da indústria da tração animal. Por outro lado, o carro coexistiu com o trem, e essas duas tecnologias evoluíram e perduram até hoje, nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, cada uma com suas vantagens para a locomoção.

Sendo assim, o obstáculo real no caminho para a expansão do mercado do livro no Brasil (quiçá no mundo), talvez não esteja no fato de o livro ser eletrônico ou não. Para Sá Earp, os verdadeiros empecilhos, no caso brasileiro, são logísticos - tiragens pequenas, que prejudicam os custos - e, sobretudo, estatísticos - o Brasil ainda possui pífios índices de leitura.

Nesse sentido, o país é um gigante adormecido. Por um lado há um grande número de pessoas que simplesmente não lêem por opção. Por outro, há um grande público leitor em potencial prejudicado pela dificuldade de acesso à um acervo significativo de títulos. Também pela péssima qualidade do ensino fundamental e médio.

Todos os participantes concordam no potencial dos leitores e livros eletrônicos em atuar nessas três frentes. Isto é: na sedução de uma geração que lê por obrigação, mas considera a leitura uma distração chata; no alcance de acervos a lugares antes à margem da leitura; e no uso do e-book como ferramenta didática.

É por ai que os criadores do primeiro leitor de livros eletrônicos (e-book reader, se preferir) nacional, Diego Mello e Murilo Marinho abordam a questão. Em entrevista ao Portal Literal, Mello destacou, especificamente, duas dessas questões: "O jovem hoje é o maior público leitor no Brasil. Ele já é acostumado, já nasce com uma alfabetização digital, além da sua alfabetização normal. Está familiarizado com esses suportes, esses equipamentos. A gente acredita que isso seja uma motivação, um incentivo. Na palestra que o Murilo vai fazer daqui a pouco, vocês vão ver um pouco dos números do livro e sua distribuição no Brasil. Portanto, verão a importância que os leitores de livros digitais podem ter na questão de levar o acesso a leitura e ao conhecimento a todas as partes do país através da tecnologia", disse Mello pouco antes do debate. Eis os números: 17% dos municípios brasileiros não possuem biblioteca e 65% não possuem uma única livraria.

Durante a apresentação, Marinho destacou também o viés educacional do aparelho. O Mix leitor d, além de trazer especificações técnicas - memória, conectividade, qualidade de imagem, longevidade da bateria - equivalentes aos melhores modelos de e-book readers no mercado mundial, traz ferramentas educacionais, "uma adaptação à realidade brasileira", frisa Marinho. São elas o Interquiz, interface para aplicação de testes, e o WI-AA, capacidade de integrar-se em redes de administração acadêmica.

Marinho continuou a falar da conectividade: "Temos dois modelos que estarão no mercado em junho de 2010; o básico, no valor de R$ 650, com tecnologia wi-fi comum; e o premium, no valor de R$ 1.100, com slot para chip 3G". E continua, "assim, conectado à internet você poderá baixar seus documentos, pdfs, conectar-se a lojas e comprar livros...". Nesse momento, Heloisa interrompe com uma pergunta pertinente, "Mas e as livrarias?".

Sá Earp considera as livrarias o pária da cadeia produtiva do livro e as defendeu como espaço de convívio e, até, como importante área de exposição dos livros. São lançados milhares de títulos por ano, o difícil é ser visto nesse mar. É óbvio, no entanto, que o mercado editorial mudará e com ele terão que ir as livrarias. Talvez o debate desta quarta, 18 de novembro, "O Brasil como mercado para o livro virtual", com a presença da agente literária Lucia Riff e do sócio-diretor da Livraria da Travessa, Rui Campos, ofereça pistas do caminho a ser seguido.

Marinho respondeu à pergunta de Heloisa com uma assertiva e um paliativo, "a Mix tecnologia não pensou em nenhum momento em desconsiderar nenhum elo da cadeia produtiva do livro. Nosso leitor estará disponível para acordo com qualquer livraria e editora, porém sem exclusividade a nenhuma delas". Na entrevista ao Portal Literal ele explicou melhor:

"Uma diferença do Mix leitor d é que o nosso modelo de negócios vai ser aberto a várias livrarias. A livraria que quiser se credenciar a usar a tecnologia, ela vai estar aberta para fazer isso. Assim como editoras e outros meios de comunicação. Diferente das tecnologias do exterior que são fechadas e são monopólios de determinadas livrarias", como a Amazon ou Barnes & Noble.

O que todos parecem concordar é a respeito da transformação sem volta por que passa a indústria editorial, análoga à que passou e ainda passa a indústria fonográfica. É uma onda que vem com força. A expectativa geral é, no mínimo, que ninguém se afogue, como aconteceu com as lojas de discos e vem acontecendo com Hollywood. As previsões são otimistas. O mercado de livros eletrônicos nos Estados Unidos, segundo dados apresentados por Marinho, vendeu 1,5 milhão exemplares em 2008. Para este ano, a previsão é que dobre, chegando a 3 milhões. Para 2010, espera-se vender 18 milhões de exemplares e, em 2014, 30 milhões. Já o faturamento das 80 editoras norte-americanas que atuam no ramo foi de US$ 20 milhões, em 2003. No ano passado, chegou a R$ 113 milhões, alcançando R$ 170 milhões somente no primeiro semestre de 2009.

Outro desafio é a pirataria. Há mecanismos, como o Digital Rights Management (DRM), administração de direitos autorais no mundo digital, que bloqueia o uso de arquivos, textuais ou audiovisuais, a um único usuário e por tempo limitado, se preciso. Mas valer lembrar que o livro possui um status um tanto diferente do da música. Pirateá-lo já é tão simples quanto ir à fotocopiadora da esquina. A fotocópia de livros é amplamente aceita no meio acadêmico e está presente nas universidades em todo planeta, por exemplo. Talvez seja um fato com o qual a indústria editorial esteja mais acostumada. Inclusive, há alguns anos surgiu a Pasta do Professor, que tenta regulamentar as cópias de trechos de livros usados na universidade.

O Portal Literal não manuseou um Mix leitor d, pois não havia, ainda, um protótipo disponível - o que deve acontecer até meados de 2010 - mas sabe-se que a tecnologia dos leitores de livros eletrônicos, verdadeiros simuladores da experiência de ler no papel, ainda têm muito a evoluir. As imagens a cores ainda não estão disponíveis e o tempo de resposta aos comandos, ainda é bastante lento, de mais de um segundo para a mudança de página. Limitações do tipo impedem a navegação na web via browser, por exemplo. Dificuldades, porém, que tendem a diminuir rapidamente nos próximos anos, com o aperfeiçoamento da e-ink, a tinta eletrônica, que só agora começa a ser desenvolvida em um suporte flexível.

Por fim, como afirma Jerome Vonk, no artigo O futuro do livro, o livro do futuro?, a questão primordial é a transformação da leitura, mais do que do livro.

>Confira as especificações técnicas do Mix leitor d no site oficial do aparelho.

>Confira mais detalhes sobre o evento "Livro@futuro.com - ideias, debates e workshops sobre o livro e a leitura na web".


* Com a colaboração de Bruno Dorigatti


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Interessante debate.
Em razão de que ao leitor pertence o escrito, e a idéia que faz do lê, é que me decidi após uma primeira e única edição impressa, publicar na WEB, para leitura grátis, edição digital de minha novela O dia do descanso de Deus, disponível também aqui nesse portal, em meu perfil, entre outros endereços.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 18/11/2009 21:15
O tema: livro digital x livro convencional; muito se assemelha a outro tema recorrente: transporte coletico x transporte individual. É notório que soluções são sempre buscadas, todavia, nenhuma delas apresenta resultados infalíveis e unamines. Sou de entndimento que sempre há espaço para acomodar os interesses dos protaconistas dessa realidade novolesca (editoras x autor x leitor), pois é de consenso, que cada qual tem seu cinco minutos de fama.



Antonio Virgilio · Brasília (DF) · 20/11/2009 11:59
Publiquei um livro no formato tradicional e tenho diversos livros eletrônicos, e-books, no meu website, disponíveis para leitura gratuita de pessoas em todo mundo, desde que saibam português. Considero este debate muito instrutivo e interessante. Lá fora o e-book já é uma realidade há muito tempo (vejam o Projeto Gutenberg), assim como os e-book readers. Aqui, ainda estamos engatinhando. Mas, o lançamento do nosso primeiro e-book reader já é uma excelente notícia. Acredito que ambas as modalidades de livro conviverão pacificamente, para benefício de todos, em um país tão carente de leitores e de livrarias como o nosso.

Abilio Terra · Brasília (DF) · 23/11/2009 17:54
Lamentei muito ter perdido esta palestra sobre o Kindle,o livro digital,eletrônico..Será que ele vai dar certo? Sim, acredito que ele veio para ficar, é a tecnologia, a modernidade, inovação, e prático temos que nos render ao novo, conhecer, experimentá-lo.....”Não parece-me fogo de palha.”Porém ainda tem um custo elevado.Há coisa melhor do que ler um livro? NÃO!Sou apaixonada pelos meus livros de diversos autores, e continuarei a comprar livros. Acredito que com o tempo, poderiam baixar o preço dos livros.
Por enquanto vamos deixar para nova geração, que domina e aprecia a tecnologia. Eu gosto de pegar no livro, ler a sinopse, sobre os autores, editoras, rabiscar tudo o que me interessa reler, consultar algo que me interessa. Quando estou no meu escritório e olho para minha estante, não vejo uma tecnologia ultrapassada, fico feliz. Lá estão eles....Leio geralmente á noite,e não tenho paciência e tesão em ficar lendo textos no computador,para mim o computador é trabalho e pesquisa.
Não vou quebrar minha relação com o papel, apesar da facilidade de uso e pelo conforto da tela. Como já falei não sou resistente, porque sou atual e também inovadora, empreendedora.
Assim chegaram os iPods,foi uma revolução.E quando chegou o DVD,ninguém deixou de ir ao cinema,aumentaram a quantidade de salas no Rio de Janeiro,e elas ficam lotadas.....
Como escreveu o Rubem Fonseca; uma longa exposição a telas eletrônicas é prejudicial à saúde. “Porém, confesso, leio na cama.”
Quando estou trabalhando, também acompanho as noticias pelo Globo On-line,durante a semana,mas quando chega sábado e domingo tenho necessidade de ler o jornal papel é gostoso,relaxa.
Helena Dutra Silva.


Helena Dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 29/11/2009 06:30
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