Sob um calor de verão, estiveram reunidos ontem, 26 de novembro, uma dezena de livreiros, editores e representantes de redes de editoras independentes, trazidos do Chile, Argentina, Uruguai, Equador, México, Guiné Bissau, Colômbia e Angola, para participar da
Primavera dos Livros 2009, organizada pela Liga Brasileira de Editoras (
Libre), nos jardins do Museu da República, no Catete, Rio de Janeiro, e que conta com o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura.
Dispostos em círculo, os presentes apresentaram os meandros do mercado editorial independente em seus países, discutiram dificuldades e lançaram pautas a serem debatidas ao longo do fim de semana. Mas, você deve estar se perguntando, o que quer dizer a palavra independente no contexto da publicação de livros?
Gilles Colleu, professor do curso de
Métier du livre (Ofício do livro, em tradução livre) da IUT Aix-en-Provence, no livro
Editores Independentes: da idade da razão à ofensiva? , lançado no Brasil pela
Libre na Primavera dos Livros de 2007, tenta responder algumas perguntas que esclareçam, afinal, quem são tais editores. Como se organizam enquanto empresa? Como se divide o capital? São os mesmos os responsáveis por escolhas editoriais e administrativas? O critério principal é sempre a qualidade editorial, com o lucro em segundo plano? Uma característica marcante ressaltada por Colleu é a de que ao invés de serem regidos pela lógica da
demanda, os independentes definem-se por trabalhar sob a lógica da
oferta de títulos variados.
Alguns os chamam de 'editores de criação', pois em tese procuram pôr em praça títulos originais e relevantes que não entram nos critérios da indústria do
best-seller. Para além das ressalvas conceituais sobre editores independentes, o importante é que eles sabem muito bem quem são, possuem diversas redes de cooperação nacionais e internacionais, e estão unidos sob uma bandeira primordial: a
bibliodiversidade.
Termo quase auto-explicativo, a bibliodiversidade se refere a multiplicação de títulos disponíveis ao leitor. Essa multiplicidade foi abraçada como missão pelos editores independentes, pois creêm como natural para eles a valorização da produção editorial específica, de nicho, regional, inovadora, que seja mais eficaz em refletir as matizes culturais entre regiões diferentes (não a toa esse ano a Primavera dos Livros festeja a literatura de cordel). Vale citar que aqui estamos falando também das editoras univesitárias, as quais no Brasil estão unidas na Associação Brasileira de Editoras Universitárias (
Abeu). A questão, em suma, é qualidade antes de quantidade.
Um exemplo que ilustra essa causa foi dado por Guido Indji, representante da
Aliança Internacional dos Editores Independentes, mas que também participa da Primavera como editor, expondo seus livros no estande da
Edinar (Editores Independientes de la Argentina). "Pela dificuldade em trazer os livros, trouxemos apenas um exemplar de cada título. Acreditamos que o importante é demonstrar a variedade de nossas publicações mais do que vender", contou Guido.
O relato nos remete aos principais desafios dessa faixa do mercado editorial: a difusão e a distribuição. No Brasil, por exemplo, mesmo que conste na lei do livro de 2003 (n° 10.753) a "tarifa especial, reduzida, de envio de livros brasileiros", ainda não foi regulamentada pelos Correios nenhuma taxa postal preferencial para livros. Isso dificulta a distribuição homogênea de títulos no território nacional e até impossibilita a exportação. Após um processo de privatização do serviço postal nos países da América Latina, poucos foram os que conseguiram firmar acordos com as companhias logísticas privadas, como a DHL e UPS. É o caso da Argentina e do Uruguai, onde é possível enviar malotes de 50 quilos pela metade dos preços comuns. "Mas muitas vezes o que está escrito não vale e o desconto é feito sobre uma taxa já absurda", nos recorda Anna Mariella Danieli, da editora uruguia Trilce. Outro problema é a falta de regulamentação quanto às vendas consignadas entre países, como os que integram o Mercosul, por exemplo. Hoje, a ausência de leis específicas impede esse tipo de negócio.
A solução para alguns impasses que travam a integração do mercado editorial latino-americano talvez esteja nas co-edições, lembrou Guido Indji ao ressaltar a oportunidade de se firmar parcerias durante a Primavera dos Livros. No caso brasileiro em específico, contudo, tais acordos ficam condicionados a realização de traduções. Esta a importância de instrumentos como o programa de incentivo a tradução por meio de bolsas da
Fundação Biblioteca Nacional (FBN), tema da última palestra de ontem, 26 de novembro, "Programa de Apoio à Tradução da Bibiloteca Nacional. Histórico, aspectos culturais e administrativos", proferida por Georgina Staneck, secretária da instituição. "Para o próximo ano iremos, certamente, aumentar o número e talvez o valor das bolsas", garantiu Staneck.
Vale lembrar que a
FBN apoia também a
15° Primavera dos Livros. "Além disso, há um processo de aproximação da Biblioteca Nacional com a Libre no sentido de viabilizar a presença de ambas nas dezenas de feiras pelo país", declarou Cristina Warth, presidente da
Libre.
Não perca a oportunidade de comprar livros a preços mais baratos. A
15° Primavera dos Livros segue até domingo, 29 de novembro, com cerca de 10 mil títulos, de mais de 90 editoras, com descontos de até 40%.
>Confira a programação completa no site oficial.
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