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Burroughs por dentro
Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 9/9/2009 · nenhum
Reprodução
Foi em setembro de 1951. William Burroughs se encontrava no México, para onde escapuliu depois de ser condenado por posse de drogas nos Estados Unidos. Ao voltar de uma festa com Joan, sua mulher, decidiu brincar de Guilherme Tell, aquele conhecido arqueiro que deveria acertar uma maçã colocada em cima da cabeça de uma criança. No caso, Burroughs usou a mulher no lugar da criança, um copo ao invés da maçã e um revólver fazendo as vezes do arco e flecha. O final, porém, foi trágico, com a bala entrando pela testa de Joan.

A tragédia, além de afetá-lo profunda e definitivamente, o colocou novamente em fuga, como um errante, que circulou pelo Marrocos e alguns países da Europa. De certa forma, esse destino construído de forma estúpida também foi a origem de Almoço nu, livro onde transparece esse deslocamento e essa desorientação, de caráter confessional, assim como Junky, publicado anteriormente. Obra mais importante deste escritor - cuja mérito maior foi ter aglutinado em torno de si o que viria a ser a geração beat, formado por jovens intelectuais ávidos por jazz, drogas e liberdade no final dos 1950, começo dos 1960, na América -, Almoço nu - cuja edição definitiva foi lançada por aqui pela Ediouro, em 2005 - apresenta um mundo peculiar permeado pelo homossexualismo, as drogas e a inadequação com o (falso) moralismo e a sociedade de consumo, surgida nos anos do pós-guerra. Para combater o moralismo, a afirmação e a voz aos direitos dos homossexuais; para provocar essa sociedade consumista, o abuso de substâncias como haxixe, heroína, cocaína, ópio, mescalina, cogumelos, LSD. Não à toa, o livro foi um dos últimos a ser banido em sua terra natal. Allen Ginsberg e Norman Mailer testemunharam em defesa do livro, e em 1966 a justiça alterou a decisão, admitindo seu mérito como uma das mais importantes obras literárias do século passado.

O legado e a importância do escritor ganham foco agora com o primeiro documentário que aborda a sua vida e trajetória. William S. Burroughs: A Man Within (Um homem por dentro, em tradução literal) apresenta imagens nunca vistas do escritor, além de entrevistas exclusivas com amigos próximos e colegas como John Waters, Laurie Anderson, Peter Weller, David Cronenberg, Iggy Pop, Gus Van Sant, Sonic Youth, James Grauerholz, Amiri Baraka, Jello Biafra, Donovan, Dean Ripa (o maior colecionador de cobras venenosas do planeta), entre tantos outros. A narração fica a cargo de Weller, e a trilha sonora, da banda nova-yorkina surgida no começo dos 1980 Sonic Youth.

O longa investiga a vida e a lenda por trás deste ícone americano, herdeiro das primeiras máquinas de somar, a Burroughs adding machine. Aborda a tragédia com a mulher e a negligência para cuidar do filho, o culto como um dos padrinhos da geração beat, influência que se estendeu por gerações subsequentes,e a importância que teve e tem por tocar em temas até então (e ainda hoje, em muitos pontos da América) proibidos, considerados "desagradáveis". E tenta responder a pergunta: teria Burroughs encontrado a felicidade? O filme tem estréia prevista para este ano nos Estados Unidos.

> Confira o trailer de William S. Burroughs: A Man Within



tags: literatura william-burroughs burroughs documentario beat geracao-beat beatnik beatniks


 
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