Heloisa Buarque de Hollanda tem mais de 45 anos de magistério, onde construiu uma carreira singular. Agora, ela lança o livro
Escolhas: uma autobiografia intelectual pelas editoras Língua Geral e Carpe Diem, onde é possível conhecer seu percurso que acompanha nomes e fatos importantes do pensamento e da arte do século XX. A obra se destaca também pelo seu hibridismo, mistura de ensaio e autobiografia, apego à tradição e ao futuro.
São fatos que revelam o seu faro aguçado para descobrir e enxergar, com lucidez, as novas tendências, quando elas ainda nem estavam em evidência. Um visionarismo por sinal bem a moda de seus poetas mais queridos.
Ao mergulhar no universo da cultura digital desde o seu surgimento, por exemplo, Heloisa começou a discutir o futuro do livro como suporte e o da leitura como percepção. Logo observou que a internet proporciona o aparecimento de um novo competidor na disputada indústria cultural: a própria sociedade. Havia então uma transferência de poder que ela identificou, antecipadamente, na produção das periferias.
A obra, que contou com a organização de Ramon Mello, se divide entre o Memorial escrito para o concurso público, quando se tornou professora Titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco/UFRJ), em 1993, e a trajetória intelectual que se seguiu desde então, abordando os desdobramentos do polêmico concurso, a criação do
Programa Avançado de Cultura Conteporânea (PACC), a passagem pela Fundação Carlos Chagas e Fundação Vitae, o trabalho com antologias, as aulas, o mergulho no mundo digital, com a criação deste
Portal Literal, a imersão na cultura das periferias, e o trabalho com a editora
Aeroplano, que mantém junto com Elisa Ventura.
Leia a seguir a orelha do livro, escrita por Zuenir Ventura, e um trecho de Escolhas, onde Heloisa fala sobre o Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC)
Por Zuenir Ventura
À primeira vista, Helô Buarque é incongruente e anárquica ou, como ela mesma já disse, “meio esquisita". Digamos que seja. Será? Como definir uma pessoa que não se deixa nunca pegar, que vive em movimento, que está sempre fugindo para frente? E que se diverte em viajar quando se tenta estacioná-la?
Que é implausível, ah, isso ela é. Implausível, inquieta, incessante, inconformada. O gosto pelas formas e pelo espaço dessa arquiteta frustrada – arquiteta ou mestre de obras, não se sabe bem – lhe deu também o gosto de desconstruir e de desarrumar – para reconstruir e arrumar.
Nos anos 1960 quiseram fazer dela musa e ícone. Quando olharam para monumento em construção, só havia uma mulher em movimento, já correndo em direção aos anos 1970. Como era tempo de resistência, ela resistiu à sua maneira e em sua trincheira. De onde se dizia haver um "vazio cultural", ela desenterrou vinte e seis jovens poetas e revelou que, em meio às trevas da ditadura, havia iluminação poética, havia vida inteligente, havia esperança. Nem tudo estava perdido.
Quando, ainda no fim dessa década, a universidade, amordaçada, se refugiara no hermetismo, na abstração e no autismo, surgiu Helô com
Impressões de viagem. Mais do que uma tese, era o seu próprio percurso intelectual, era a autobiografia de uma geração, com "a marca suja da experiência vivenciada". Com o mesmo desassombro com que quinze anos depois, por ocasião de outra tese, iria afrontar o despeito, a perfídia e a inveja, Helô enfrentou então o corpo mole do marasmo e a resistência da inércia. Teve a coragem de não esperar, como era de costume, que o objeto morresse para então analisá-lo.
Nos anos 1980, ao voltar dos Estados Unidos, onde passara dois anos, Helô rejeitou as modas antigas, inclusive as que tinha lançado, e lançou outras. Aos que lhe pediram um
remake, um requentado, ela replicou com a retirada. Quando a agitação política virou cacoete e a militância virou retórica, ela disse: "Não estou nessa. Nada de agitação, nada de ocupar cargos estratégicos, nada de posição de tática, nada de espaço em jornal. A hora é de sentar e estudar. Agora chega, a hora é de ser competente."
E voltou para dentro da universidade e foi estudar e foi escrever e foi editar e foi pesquisar. A mulher, o negro, o judeu, o homossexual. As diferenças.
Helô é uma metáfora da vida. Helô é matriz. A sua graça está no por vir, o seu estilo é o movimento. Daí a dificuldade. Como apreender o que se agita, captar o que se renova, paralisar o que é energia e movimento?
Helô Buarque não se descreve, aprecia-se. E não sei o que nela mais aprecio – essa mobilidade vital ou a sua emoção que não exclui o rigor, o seu afeto não abre mão da crítica, a generosidade sem pieguice, a inteligência sem afetação.
Ela tem razão: trata-se de uma mulher meio esquisita.
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O Programa Avançado de Cultura Contemporânea | Capítulo do livro Escolhas: uma autobiografia intelectual, de Heloisa Buarque de Hollanda
O PACC nasceu, portanto, do mesmo impulso que gerou o CIEC , uma estratégia de invenção institucional para uma possível sobrevivência institucional. Mas, como 10 anos haviam se passado, o projeto de criação do PACC já trouxe consigo algumas malícias estruturais.
Assessorada por dois amigos queridos e de competência incontestável, Silviano Santiago e Marisa Cassim, o PACC, ao contrário do CIEC, não foi uma criação impulsiva. Juntos, pensamos com extremo cuidado em como construir um espaço de trabalho ágil, dinâmico, que conseguisse escapar do engessamento burocrático das instituições públicas. Depois de muitas discussões, Marisa sugeriu o formato
programa para nosso novo pólo de trabalho. Sugestão sábia. Um programa não é um instituto, nem um centro, nem mesmo um núcleo. Portanto, não teria ingestão burocrática. Simplesmente, não tinha existência nos parâmetros institucionais. Um programa existe enquanto cria e desenvolve projetos. Na falta deles, acaba automaticamente. Descartável. Leve e provisório. Fiquei fascinada pelo formato e intuí que este momento abria-se para a experiência e para a inovação em vários níveis. Começando pelo nível institucional.
Batizamos o projeto de Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Silviano cuidou do campo de ação do Programa. Já nesse início dos anos 90, com a expansão do modelo globalizante da economia e da cultura, a questão da democracia como campo de conhecimento avançava bem para além do estudo focal das minorias. Agora, uma nova lógica de reprodução de desigualdades sinalizava também a emergência de uma nova categoria social: a humanidade excedente. O PACC começa então trabalhando as novas questões culturais colocadas pós Muro de Berlim e pós Consenso de Washington.
Conseguimos um espaço excelente, um prédio desabitado, que havia sido construído para ser uma biblioteca, mas que fora condenado pelos testes de carga para esse fim. Por este motivo, o prédio ficou semi-construído, sem acabamentos, por um longo tempo. Pedi permissão para ocupar o terceiro andar. Licença concedida, entrei no que mais gosto: uma obra pesada, apoiada pela reitoria e financiada pela Finep. Ocupamos um andar inteiro, e com a ajuda de Paulinho e Lucinda, arquitetos da UFRJ, criamos um espaço belo. Sem divisórias, sem hierarquias, tudo aberto, todos se comunicando. Apenas umas poucas divisórias de blindex isolavam as salas de reunião. Espaço inspirador, ou como diria um administrador de empresa, um espaço com valor de salário-ambiente.
Nos mudamos para lá e procuramos configurar com mais clareza o perfil de ação e a missão do PACC.
Silviano nos propõe uma pós-graduação sintonizada com novos tempos. Aprovado, pouco tempo depois, ele volta com um estudo extraordinário. Depois de um amplo diagnóstico da área das pós-graduações no Brasil, Silviano propõe a criação de um doutorado inédito. Um doutorado, digamos,
gerencial. O candidato aceito no Programa ficaria um ano no PACC recebendo aulas e iniciando pesquisas, e caso, não demonstrasse potencial como pesquisador ou criador, apresentaria apenas um trabalho para que, caso aprovado, lhe valeria o título de mestre e em seguida sairia do programa. Os que ficassem, teriam a tutela de um orientador que indicaria os melhores professores e locais de pesquisa em função dos seus interesses e do projeto que apresentasse. Assim, seriam encaminhados para a USP, para a UFF, para UNAM, Sorbonne, NYU ou, enfim, para o programa e para o orientador que mais contribuísse para seu projeto. Seria um Doutorado que investiria apenas na otimização do trabalho dos alunos através do encaminhamento do candidato para os especialistas mais adequados a seu perfil, escolhidos caso a caso, com custo zero para a Instituição de origem. Ovo de Colombo. O projeto não foi aprovado no Conselho de Pós-Graduação por “não especificar o quadro docente do Programa em pauta”. Foi o primeiro confronto do PACC com o surrealismo próprio das burocracias públicas acadêmicas. Ficamos melancolicamente sem o doutorado pioneiro, que seria certamente um projeto de resultado, desenhado por Silviano Santiago. Guardo até hoje esse projeto comigo.
Paulo Pedreira da Coppe, nessa época nosso colaborador, lembrou que no Brasil, ainda não existia nenhum programa organizado para Pós-Doutores. Idéia interessante porque, uma vez terminado o doutorado, o pesquisador não encontra mais um fórum qualificado para discutir suas pesquisas. Pensamos então no PACC como prioritariamente um
ambiente, um espaço de troca, entre pares.
Criamos então nosso Programa de Pós-Doutorado que, hoje, é um programa consolidado, com uma demanda surpreendente e que reúne mensalmente no PACC pesquisadores seniores das mais diversas área de conhecimento e locais de origem. Temos pesquisadores associados de todos os pontos do país, com alta incidência de estados do Nordeste, bem como do exterior. É um momento de alta gratificação profissional e afetiva para mim, a reunião mensal do Pós-Doc, onde se compartilha informações, saberes, experiências as mais diversas num clima de abertura e solidariedade. O tom e a produtividade do Pós-Doc do PACC é um dos meus poucos orgulhos acadêmicos.
Nesse primeiro momento do PACC, o convívio ou a leitura de alguns teóricos me acompanhavam assiduamente.
A área dos Estudos Culturais, de alguma forma, tem ligações com o DNA intelectual dos anos 60. Não dever ser coincidência o fato de que as lideranças dessa área de conhecimento vieram, em grande parte, do grupo da
New Left Review, o canal por excelência dos intelectuais de esquerda da década, que estavam nos anos 1980 aparentemente sem muito espaço de debate e produção.
Desde o início, eu me senti, digamos, muito abrigada, no trabalho com os Estudos Culturais e especialmente com as polêmicas que gerou na América Latina. Era claro que a área de literatura, minha área de origem, havia se fechado sobre ela mesma num momento de turbulência social e cultural e não oferecia mais um território produtivo para a pesquisa e para a produção de conhecimento. Os Estudos Culturais, por sua vez, traziam uma proposta acadêmica interessante: estudar os novos objetos emergentes, bastante complexos e multifacetados, e que estavam dando provas contundentes de não mais caber na grade disciplinar disponível como os estudos de gênero, étnicos, meio ambiente, e tantos outros.
Os Estudos Culturais se identificavam como sendo pós-disciplinares, transitavam entre várias disciplinas e saberes e, especialmente, mostravam um interesse bastante particular na articulação entre a produção acadêmica e os interesses e questões da sociedade civil.
Entretanto, na década de 1990, o entusiasmo em torno dos Estudos Culturais e do multiculturalismo, tal como era experimentado nos Estados Unidos, começava a ser questionado, particularmente pelos intelectuais latino-americanos. A perspectiva de análise sobre as minorias e as questões étnicas pareciam adquirir uma textura própria em nossos países para os quais as teorias criticas norte-americanas não ofereciam um modelo de trabalho eficaz. Da mesma forma, a noção de pós-colonialismo, muito em voga na época, parecia inadequada para nós.
Na América Latina a tradição do intelectual engajado de esquerda é antiga, remonta ao século XIX, conferindo perfil próprio às nossas ciências sociais e humanidades. Tornava-se difícil ignorar a dinâmica do nosso campo intelectual e sua tradição consolidada de compromisso político, bem como da especificidade do contexto particular de desigualdades sociais históricas latino-americanas, uma história feita de ambigüidades e lógicas próprias.
Simultaneamente, o debate em torno da cultura nos países em desenvolvimento, sua função social e perspectivas de mercado esquentou nesse mesmo momento. A pauta de questões nesse período inicial do PACC era convidativa.
Meus maiores interlocturores, além de Silviano Santiago, eram Nestor Garcia Canclini, George Yúdice, Beatriz Sarlo, Jesus Martin Barbero, Josephina Ludmer, Hugo Achugar.
Já nos últimos tempos do CIEC, George havia começado uma extensa pesquisa sobre a natureza dos Estudos Culturais na América Latina, sua genealogia, seus traços diferenciais. Como resultado dessa pesquisa, Nestor e George organizaram um memorável encontro na UNAM (Universidade Autônoma do México), para a criação de uma rede de Estudos Culturais Latino-Americana. A questão central era a demanda e a reformatação necessária dos Estudos Culturais de origem saxônica em nossos países. Foi um período quente esse, de muita discussão teórica e muita produção compartilhada.
A rede nunca vingou. Mas uma frente de trabalho havia se formado com grandes perspectivas de projetos conjuntos. Foram realizados inúmeros seminários e publicações a partir daí e grandes amizades se formaram, espero que para sempre.
Foi nesse momento que organizamos o seminário
Sinais de turbulência, que se tornou um seminário histórico na área dos Estudos Culturais. Prevendo a chegada de turbulências sociais e teóricas, reunimos não apenas os mais reconhecidos pesquisadores da área, mas também artistas e ativistas. Entre esses, DJ Malboro, José Junior, Écio Salles, contando com a presença de Caetano Veloso e muitos outros artistas. O seminário, realizado em 1993, abriu com um show do Furacão 2000, grupo ainda desconhecido na época. Um evento que marcou época e de certa forma anteviu o que viria a seguir na política e na cultura da última década do século XX.
Os Estudos Culturais são uma área de trabalho atrativa talvez por sua própria indefinição disciplinar e pela flexibilização conceitual que requer em contextos geopolíticos diferenciados. Talvez essa seja sua maior riqueza.
Lembro que Fredric Jameson, uma liderança da área, definiu os Estudos Culturais como um desejo ou como um
bloco histórico geracional num de seus ensaios sobre o assunto. Os Estudos Culturais ainda hoje são vistos com bastante desconfiança pela academia. Assim como os estudos de gênero, os estudos das relações raciais, os estudos ambientais. Por falta de espaço, migram para as ONGS e espaços alternativos de produção de conhecimento.
Um trabalho que eu gostaria muito de ter feito é o estudo dos caminhos de um saber em direção à sua legitimação acadêmica. As lutas estratégicas e as lutas de poder que os campos de saber em formação enfrentam para conquistar seu lugar dentro das grades curriculares. É um longo caminho e um belo combate. Lamento não ter investido nessa pesquisa.
O PACC consolidou seu trabalho na direção de uma ampliação do espectro dos estudos das minorias para o universo globalizado, das políticas latino-americanas diante desse universo, e para o trabalho com as novas tecnologias que iriam transformar de forma substantiva o comportamento das novas gerações e evidenciar um forte impacto na produção e no consumo culturais dos anos seguintes.
O clima do início do PACC era de ambições teóricas e articulações com centros de estudos e pesquisa nacionais e internacionais, aliado a um compromisso experimental de abertura do espaço acadêmico para as políticas públicas e para os interesses mais imediatos da sociedade civil.
Desde o começo, minha ex-aluna Beatriz Resende, a essa altura uma intelectual já renomada, se juntou a nós e assim formamos uma equipe que permanece até hoje. Ilana Strozenberg também foi e é uma parceira importante no desenvolvimento do PACC. Para ela deixei o CIEC, que era ligado institucionalmente à ECO.
Hoje quando o PACC já comemora seus 15 anos, nossa coordenação é a mesma. Eu, Beá, Ilana. Nos acompanha uma equipe de funcionários muito especial. Rô e Liane que seguram, com alto astral, todas as pontas administrativas do Programa, e Toni, Amara, Fernando e Coeli auxiliares indispensáveis.
Foi mais ou menos assim a criação e consolidação do PACC, na realidade, um recomeço da minha vida na UFRJ, abalada pelos conflitos com a Escola de Comunicação (ECO).
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