Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 12/08/2008.
O repórter Bruno Dorigatti conversou com o poeta, ensaísta e tradutor Alan Mills, sobre sua vida nômade e ativista em prol da divulgação da poesia pós-guerra da Guatemala. "Nós somos a periferia da periferia, nosso olhar é fundamental."
Alan Mills tem um
blog, como sói ocorrer entre autores que buscam exatamente o que a proposta da edição da
Flap! 2008 destaca, ao trazer ao Brasil convidados como Mills e outros do México, Uruguai, Chile e Argentina: uma maior interatividade, integração entre os autores latino-americanos.
"Nós somos a periferia da periferia, por isso o nosso olhar é fundamental. Nenhuma dificuldade pode nos parar, sabemos usar novos espaços como a web, para espalhar nosso discurso e nossas obras." - Alan Mills.
Poeta, ensaísta e tradutor (inglês e francês) e eleito "cicerone nômade" dos amigos de outros países na Flap!, publicou os livros
Los nombres ocultos (Magna Terra Editores, 2002),
Marca de água (Editora Cultura de Guatemala, 2005),
Poemas sensibles (Editora Praxis, México, 2005) e
Testamentofuturo (Editora Librosmínimos.org, versão eletrônica, 2007). Sua poesia já foi traduzida para o inglês, alemão, português e italiano. Síncopes, seu livro mais recente, teve edições no Peru, pela Editora Zignos; no México, pela Limón Partido; e na Bolívia, pela Mandrágora Cartonera. É editor de livros do Centro Cultural da Espanha na Guatemala, e atua também em projetos editoriais alternativos. Colabora com diversas publicações hispano-americanas e foi bolsista do Ministério da Cultura em Madri.
Poderia falar um pouco da sua trajetória como poeta?
Alan Mills. Comecei a escrever depois do meu fracaso na política estudantil, na Universidade de San Carlos (estatal), e depois que o meu grupo de rock não alçou vôo, lá pelo ano de 2000. Ajudou-me muito o fato de ter conhecido Mario Monteforte, grande escritor e mestre. Publiquei o meu primeiro livro,
Los nombres ocultos, em 2002, o qual teve uma excelente recepção da crítica local e da imprensa. Naquele ano ganhei o prêmio de "Revelación del año en letras" da Fundación Von Humboldt, Ministério de Cultura. Comecei a participar dos festivais de poesia a partir do ano 2003; até hoje já participei em mais de 20, em 10 países (México, Colombia, Perú, El Salvador, Nicarágua, Espanha, Francia, Chile, Brasil, Suécia). Alguns dos mais relevantes são "La poesía tiene la palabra" da Casa de América de Madrid (2005); Tordesilhas, São Paulo, Brasil (2007); e o Festival Internacional de Poesia de Medellín, Colômbia (2008). Também posso destacar que em março fui o "escritor invitado" da Casa de la Cultura Latinoamericana en Malmö, Suécia. Em 2008 participo da FLAP!, e ainda no Festival Internacional de Poesía "Poquita Fe", no Chile e no "Les belles étrangères", organizado pelo Centre National du Livre, em França.
Em 2005, enquanto eu residia em Paris, França, publiquei os livros
Marca de água (Editorial Cultura, Guatemala) e
Poemas sensibles (Editorial Praxis, México). O conjunto dos meus três primeiros livros, titulado
Testamentofuturo, foi publicado como e-book no 2007 pela Libros Mínimos (www.librosminimos.org) e qualquer um pode fazer downloads de graça.
Em 2007, após uma residência de vários meses em Madri, Espanha (fruto de uma bolsa de estudos de especialização em Sociedade da Informação e Conhecimento), publiquei o livro
Síncopes, simultaneamente em três pequenas editoras do México (Editorial Literal), Peru (Editorial Zignos) e Bolívia (Editorial Mandrágora Cartonera). Atualmente, prepara-se a edição trilíngüe (espanhol, português e francês) pela Demônio Negro de São Paulo, além da edição bilíngüe (espanhol e inglês) pela Piedrasanta, na Guatemala.
Síncopes foi recebido com muito entusiasmo pelos poetas jovens da América Latina e pela imprensa, como
La Jornada, no México, e revistas literárias em todo o continente. E não é um dado menor ter sido comentado como leitura referencial pelo Trent Reznor, de Nine Inch Nails, na sua página wiki.
Nunca participei de qualquer concurso de poesia, ou coisa do gênero.
Acho que a poesia me transformou num
vagamundo com o visto de poeta. Embora eu prefira pensar que na realidade sou um tipo de missionário pós-apocalíptico, que percorre os países mostrando a poesia que se escreve numa Guatemala sobrevivente do genocídio, do pós-guerra e do neoliberalismo mais radical.
Como começou e como é a sua relação com a poesia em seu país, a Guatemala?
Alan Mills. Na Guatemala, depois do final do conflito armado (1996) que fez o país sangrar por mais de três décadas, surgiou a "poesía de la posguerra", movimento geracional, diverso, autônomo e contestador do qual faço parte. A poesia recuperou, então, nessas últimas duas décadas, a sua presença nos espaços culturais, mostrando líricas urbanas, nômades, lacinantes e politicamente incorretas. Assim desafiamos o
establishment nacional (que ainda espera a resurreição com eletrochoques do nosso Prêmio Nobel de Literatura, Miguel Ángel Asturias, ou dos poetas do "compromisso político" dos anos 70) e uma sociedade conservadora, hipócrita e violenta. Os novos poetas da Guatemala convivemos em harmonia com artistas plásticos, músicos e outros, criando novos espaços para o debate, a livre expresão e a análise, por fora dos circuitos oficiais da direita e da esquerda.
Acontecem festivais por lá?
Alan Mills. Temos um festival que cresce a cada ano e chegará a ser considerado entre os festivais importantes da América Latina, chama-se Festival Internacional de Poesía de Quetzaltenango. Teve convidados como Evgueni Evtushenko, histórico poeta da Rússia.
Quais as facililidades e dificuldades para se publicar?
Alan Mills. Temos as mesmas dificuldades que encontra qualquer poeta novo para publicar em qualquer país da América Latina (talvez com a notável exceção do México). Não obstante, existem muitos esforços independentes (e algums estatais, como a editora Cultura) que estão abrindo as suas portas para a criação jovem. Mas nenhuma dificuldade pode nos parar, sabemos usar novos espaços como a web, para espalhar nosso discurso e nossas obras.
Como a poesia guatemalteca circula entre os países vizinhos da América Central, e também pela América Latina e pelo mundo?
Alan Mills. A poesia da Guatemala circula muito pouco na América Latina e no mundo. Salvo casos como o do Humberto Ak'abal (reconhecido poeta
quiché), alguns mais, dois poetas e o meu caso particular (aos poucos estou conseguindo levar o meu trabalho a várias regiões) trata-se duma poesia subterrânea, invisível, à espera de ser redescoberta pelos leitores e escritores do mundo. A Guatemala ficou isolada pela profunda guerra que tivemos e agora encontra-se atribulada neste terrível pós-guerra, que torna difícil estabelecer contatos. O nosso país e a sua poesia têm muitas coisas a dizer ao mundo, falar desde nossas muitas origens (maia, hispânico, garífuna), desde as nossas muitas feridas e aprendizagens. Nós somos a periferia da periferia, por isso o nosso olhar é fundamental.
Como vê esses festivais de poesia pela América Latina e pelo mundo?
Alan Mills. Os festivais internacionais de poesia transformaram-se numa janela aberta, no espaço mais desestabilizador para um ambente literário governado pelas grandes editoras e os seus critérios basados só no consumo e no
entertainment (a FLAP! é um bom exemplo de resistência). As grandes editoras já nem sequer querem publicar livros de poemas. Então, essa onda de festivais de poesia pelo mundo inteiro confirma-se como o espaço germinal onde irão nascendo as novas formas de entender o feito poético, as novas poesias e onde se formarão novos projetos editoriais autônomos, diferentes e cada vez mais radicais para se bater contra o pesadelo mediático do novo milênio.
Onde enxerga uma poesia pulsante, viva, nos dias de hoje?
Alan Mills. Estou convencido de que a poesia mais forte, heterodoxa e radical do mundo é produzida na América Latina. Só para nós a poesia é algo com trascendência nos campos sociais e criativos, além do comentário acadêmico que governa a poesia na Europa, por exemplo. Eu admiro os grandes novos poetas mexicanos, chilenos, peruanos, brasileiros e guatemaltecos, especialmente. Em Medellin, eles têm o festival mais importante do mundo, com leituras que reúnem até 3 mil pessoas, uma coisa incrível. Temos antecessores maravillosos como Raúl Zurita, Alejandra Pizarnik, Haroldo de Campos, Luis Cardoza y Aragón, César Vallejo. A poesia na América Latina é parte da nossa vida, mesmo sem nos darmos conta disso.
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