A Arte é parecida nisso com a Filosofia, nos dá retratos (sem trocadilho) de determinadas épocas. É a melhor expressão da cultura de um povo. e sem arte teríamos conhecido muito menos da história da humanidade. Periodicamente surgem novas técnicas e novas idéias. Essa evolução acelerou a partir do final do século 19, e no século 20 veio uma sucessão vertiginosa de modas em todos os campos.
Os estilos que duravam séculos passaram a durar uns poucos anos. São dezenas de movimentos. Dodecafonismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo, concretismo, modernismo, surrealismo, hiperrealismo, abstracionismo, construtivismo, minimalismo e tantas palavras terminadas em “ismo”.
Não há porque criticar essas experiências. Artistas precisam ser criativos. Algumas dessas tentativas foram bem sucedidas, ou inspiraram novos movimentos. A arte moderna produziu muita coisa boa. Na Música e na Literatura há abundantes exemplos de grandes obras que todos conhecem. A
pop art não deixa de inspirar até hoje a publicidade.
Mas muitos desses movimentos foram passageiros, e ficaram na memória apenas como curiosas excentricidades de uma época. Lembram-se da moda
hyppie da década 1965-75, que muitos dos nossos artistas adotaram? Hoje aquilo parece bem ridículo, e ninguém se veste mais daquele jeito.
O principal critério para a permanência de uma forma de arte deve ser, é claro, o comercial - a aceitação do público. Não faz sentido uma arte que ninguém consegue entender. É com essa simplicidade que se definem os primeiros critérios da apreciação estética, porque o artista sem público está fadado ao fracasso. Ou pelo menos deveria estar porque, estranhamente, existem formas de arte que se recusam a ir embora, mesmo ninguém gostando delas.
Dessas, a mais escandalosa é a chamada “arte conceitual”. A arte conceitual é baseada numa "idéia" e não na obra em si. Para ser um artista você não precisa ter qualquer habilidade, basta ter idéias. Só os especialistas em arte conceitual entendem a arte conceitual. Por isso é necessário que a obra venha sempre acompanhada de uma explicação – senão, ninguém entenderia. A gente é obrigado a gostar da arte conceitual. Se não gostar, é porque não entendeu a explicação.
Pois bem, essa arte absurda que é alvo de piadinhas maldosas em qualquer lugar onde se apresente, se recusa a ir embora porque suas premissas são perfeitas para a mistificação. Affonso Romano de Sant'Anna é o único intelectual brasileiro de peso que já vi se posicionar coerentemente contra essa “arte” e de um modo geral contra a malfadada “arte moderna” e seus exageros.
Não estou dizendo que a arte moderna não tem seu lugar. Tem. Não me incomodam os quadriculados de Mondrian, ou os urinóis de Marcel Duchamp, nem a poesia concretista, ou os métodos heterodoxos de pintura de Pollock, ou os parangolés de Hélio Oiticica. Há até gênios verdadeiros aí, como James Joyce, Stravinsky, Picasso e Ezra Pound.
Mas eles produziram, como disse, o retrato de uma época. Alguém que se apresentasse hoje como "pintor impressionista" ou "poeta parnasiano" não iria despertar grande admiração. Mudando a escala, ninguém pensaria em imitar o bruto que um dia rabiscou um bisão numa caverna pré-histórica, e que tem para nós valor inestimável. O que me incomoda é que haja até hoje gente querendo perpetuar modas que não fazem mais sentido.
Um critério que nunca mudou na valoração da obra de arte é o da complexidade, ou dificuldade de execução. Dizendo simplesmente, não pode ter graça expor uma obra que qualquer um pode fazer. Chamar uma obra de “caixa de fósforos” e expor simplesmente uma caixa de fósforos sobre uma mesa é algo insano. Se todos forem artistas assim, então não haverá mais artistas.
É por isso que a arte conceitual lembra coisa de adolescentes, que realmente são muito criativos, mas não gostam de regras. É tudo “muito doido”, eles diriam, como são aquelas vinhetas da MTV. Se eu construir uma montanha de sorvete de trinta metros de altura - ou de milho, ou de estrume, ou de pneus carecas - estarei produzindo algo “muito doido” para cuja justificativa poderei invocar mil alegorias. Listaria as mil aqui mesmo, se não fosse aumentar o tamanho desse artigo. Mas será que esse excesso de liberdade pode ser considerado arte? Nunca foi assim.
Quando Giotto pintou seus retratos “impressionantemente realistas” só ele, ou muito poucos, conseguiriam executar aquilo. Do mesmo modo a técnica da perspectiva usada por Da Vinci, ou as madonas de Rafael, ou o proto-romance psicológico de Goethe. Arte sempre foi feita por pessoas excepcionais, de extraordinário talento e sensibilidade. É por isso que para muita gente a arte moderna cheira a charlatanice.
E não pensem que esse "muita gente" refere-se só a leigos. Há aí autoridades acima de qualquer suspeita. Concedamos a palavra a um bem sucedido artista moderno, e vamos logo ao mais famoso de todos – Pablo Picasso. Em 1951, nos seus 70 anos, foi publicado o seguinte depoimento seu, feito ao escritor italiano Giovanni Papinique, e que ele próprio chamou de “confissão”. Por favor, leiam com atenção – isto é Picasso falando dele próprio:
Na arte de hoje os “refinados”, os ricos, os profissionais do lazer, os destiladores de quintessências, todos desejam apenas o peculiar, o sensacional, o excêntrico, o escandaloso. Eu mesmo, desde o advento do cubismo, alimentei esses companheiros com o que eles queriam e satisfiz os críticos com todas as idéias ridículas que já passaram pela minha mente. Quanto menos eles me entendiam, mais me admiravam. E assim divertindo-me com essas farsas absurdas, eu fiquei célebre, e bem rapidamente. Para um pintor, celebridade significa vendas e conseqüentemente afluência. Hoje, como você sabe, eu sou célebre, eu sou rico. Mas quando estou sozinho, eu não tenho o descaramento de me considerar um artista completo, no velho significado da palavra. Giotto, Ticiano, Rembrandt, Goya foram grandes pintores. Eu sou apenas um palhaço público – um charlatão. Eu entendi meu tempo e explorei a imbecilidade, a vaidade, a avidez de meus contemporâneos. É uma confissão amarga, mais dolorosa do que possa parecer. Mas pelo menos ela tem o mérito de ser honesta. (Pablo Picasso, 1951)
Há quem diga que ele não falava sério, que estava só desabafando com um amigo num momento de descontração. Eu acho que se não falasse sério, não permitiria que a declaração fosse publicada posteriormente em livro. E até consigo entender essa confissão. Ele teve coragem de fazê-la porque sabia que era grande, realmente dominava sua arte, podia pintar o que quisesse, com a mesma maestria com que Ezra Pound dominava a arte da Literatura. “As doze anos eu já desenhava como Rafael” foi outra declaração sua em que todos acreditam. Talvez Salvador Dali, com aquele bigode esquisito, tivesse sido o artista perfeito para fazer essa confissão.
Mas nem tudo está perdido. Os artistas não param de fazer experiências, nunca pararam, e já temos coisa melhor que quadros do Picasso para ser mostrada.
Estamos passando hoje pela maior revolução nas artes visuais que já se viu desde o Renascimento, mas esses simplórios presunçosos que embrulham árvores em papel celofane ou fotografam mil pessoas peladas numa praça achando que são gênios, ainda não perceberam isso. Trata-se de uma nova forma de expressão dificílima de ser executada, que usa uma mídia que só surgiu no final do século 20. Se Da Vinci, Ticiano ou Picasso vissem esse trabalho, ficariam boquiabertos.
O faturamento dessa nova forma de arte já superou o de Hollywood, seus principais artistas ganham salários milionários, mas os críticos insistem em ignorá-la, ou pelo menos em considerá-la uma grande arte. Talvez porque devido aos altos custos teve que escolher temas populares, talvez porque tem público jovem, mas ao fim nenhum desses preconceitos terá como sobreviver. A arte do século 21 já está aqui, bastará nossos críticos retirarem as vendas.
Estou falando da arte 3D dos computadores, que por enquanto só mostrou sua exuberância nos videogames, mas ainda tem um longo caminho pela frente. As possibilidades são imensas. Quem já teve oportunidade de passear pelo cenário de um videogame dos mais recentes, como
Crysis ou
World of Warcraft, sabe do que estou falando.
Não se pintam mais quadros, representa-se um mundo inteiro, tridimensional, artificial, com toda a sua topografia, vegetação, construções, máquinas, homens e animais, cada um emitindo seus sons característicos, e com música de fundo, e dentro do qual se pode passear livremente, e ver todas as coisas de todos os ângulos. Tem até literatura embutida, que são as descrições e as falas dos personagens. Isso é arte como nunca se fez no mundo. Verdadeira arte contemporânea, e digna do nosso tempo tecnológico.
Eu me espanto com o espaço que um jornal da importância da
Folha de São Paulo dá a esses Museus de Arte Moderna e seus performáticos curadores e sua mistificação. É a submissão cega às verdades oficiais. Antigamente o que a Igreja falava era a verdade. Hoje é a Universidade. Tudo
ex-cathedra, como era na Idade Média. Vocês duvidam realmente que qualquer um com um pouco de empenho pode conquistar um doutorado? Antigamente eram bispos, cardeais. Hoje... bem, como vêm, tem coisa que nunca mudou. Até o local dessas exposições é apropriado: a palavra “museu” combina muito bem com “arte moderna”. Marcel Duchamp morreu de velho já faz quarenta anos. Picasso também.
Para que servem aqueles salões vazios? Diante das tais “montagens” a gente pode ouvir o sussurrar do público em comentários cheios de malícia. Aquilo não pode ser sério. Ainda mais hoje, quando o tempo da veneração das idéias já passou. Até os cabeçudos marxistas já abandonaram sua torre. Precisamos que alguns expoentes corajosos do mundo das artes e da sua cobertura jornalística façam seu depoimento sincero sobre a arte conceitual. Picasso já fez sua confissão, agora aguardamos a de vocês. Quem vai dizer que o rei está nu? Vamos lá, confessem!
Cleber Resende é autor do romance A Nossa Cor – Um Retrato do Racismo no Brasil e do ensaio Massificação Cultural e Religião.
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