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Sobre a auto-estima
 
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Cleber Resende, Belo Horizonte (MG) · 21/10/2009 · 37 votos · 4
www.flickr.com/photos/rappensuncle/146681779/
A auto-estima antigamente se chamava narcisismo, orgulho ou egoísmo
Hoje se fala tanto em eficiência que esta palavra já tomou para alguns, como eu, uma conotação pejorativa. Por “eficiência” entenda-se que devemos vender nosso peixe na maior quantidade possível, e obter, como prioridade absoluta, o maior lucro. Em nome da eficiência os produtos já não são mais feitos de acordo com os preceitos dos especialistas na técnica da sua produção, mas visam prioritariamente atender os interesses imaginários da turba dos consumidores.

Assim, compramos produtos ruins porque “o mercado” exige, ou porque “o mercado” não sabe distinguir o bom do ruim. Para vender a marca de um alimento, não se mostra a opinião de um gourmet ou de um especialista em alimentos, mas a de um bonito ator de televisão. Vendem-se símbolos, o que é muito mais eficiente, na equação custo/benefício. E assim todos ficam muito felizes, adquirindo o que querem, ou imaginam querer, pelo menor custo possível.

Até a sagrada atividade política imbuiu-se dessa eficiência: Os projetos devem ser de interesse, não para o país, mas para o egoísmo individual dos eleitores. É mais eficiente, rende mais votos para cada real gasto. E eficiência é isto.

Com os produtos da área cultural a evolução desse princípio da eficiência produziu um efeito avassalador. Escritores eficientes escrevem o que os leitores querem ler. São os que as editoras preferem publicar, e assim, de novo, a maioria fica muito feliz.

Muito mais eficiente é dizer o que os outros esperam ouvir. Cada um de nós deve aperfeiçoar o seu espírito crítico, contanto que não apresente suas idéias aos outros. Chama-se a isto “comunicação”. Comunica-se aquilo que se quer ouvir. Não há receita mais simples.

Os livros de auto-ajuda nada mais fazem que pôr no papel os desejos do leitor. Satisfazer o ego do consumidor parece ser uma bela estratégia, do ponto de vista da eficiência. Escrevem-se livros para o leitor sentir-se feliz enquanto está lendo, ou “saboreando” o livro. É como um alimento gorduroso ou bem açucarado.

Todos os promotores da tal “auto-ajuda”, batem sempre na mesma tecla, quando promovem seus “ensinamentos”: é preciso amar a si próprio, devemos nos valorizar mais, etc. Aumentem sua auto-estima – é o mantra recitado incansavelmente. Confesso que “eficiência” e “auto-estima” são expressões que fazem com que me sinta um exilado no meu mundo.

Houve um tempo em que em vez de auto-estima se falava em egoísmo, orgulho ou narcisismo, e a humildade, pelo contrário, era a virtude mais apreciada.

Pergunte-se a qualquer homem, suficientemente evoluído para já ter vislumbrado os umbrais da sabedoria, qual o maior entrave ao nosso desenvolvimento, e a resposta será, com pequenas variações, quase unânime: é preciso livrar-se primeiro da prisão do egoísmo, libertar-se da barreiras criadas pela ilusão da personalidade, considerar o outro como uma extensão de si mesmo. Há variações desse princípio que se traduzem em palavras e expressões bem conhecidas como caridade, amor ao próximo, sair de si mesmo, etc. Nossa tendência natural já é a de nos valorizarmos demasiadamente.

Será tão difícil enxergar isto? Através dos inúmeros capítulos conhecidos da História, e mesmo através dos nossos amigos e das pessoas triviais do nosso bairro, vemos que os entraves nos relacionamentos humanos vêm quase sempre do fato de as pessoas exercerem um egoísmo militante e obstinado, um excesso de auto-valorização. Até na ficção: a maioria dos personagens literários tem essa tendência.

Na lista clássica dos sete pecados capitais, que durou séculos, está incluído o orgulho, não a baixa-estima ou a humildade. A ética do nosso tempo está mudando bem rapidamente, incentivada por um interesse comercial dos mais baratos. Se o leitor deseja escrever um best-seller, que trate de promover um laudatório da luxúria, do orgulho, da avareza, da preguiça ou da gula. A ira parece já começar a entrar nessa lista – já vemos alguns repórteres de sucesso na televisão pregando abertamente a violência. Por enquanto só contra os criminosos, é verdade, mas já a violência. A inveja, pelo menos por enquanto, parece possuir menos seguidores. Dizem que é a única que se esconde, desses sete pecados.

Por quê os escritores de best-sellers insistem tanto em promover o egoís... quero dizer, a auto-estima? Porque é isto que os leitores querem ler: que você é muito importante, que tem o poder de realizar agora mesmo tudo que quiser – certo? Errado. Somos escravos da nossa história – chame-se isto karma ou o que quiserem. A lição dos grandes mestres sempre foi a da humildade.

Conformar-se com a própria sorte é apanágio das mentes mais evoluídas. Isso não quer dizer inação, quer dizer que somos uma minúscula parte de um Universo, ou de um Todo, ou de um Deus, que é mais importante do que nós.

Entretanto, o Segredo que nos é empurrado goela abaixo por todos livros mais vendidos, por todos os programas de televisão mais vistos, é bisonhamente simples: sejam mais egoíst... quero dizer, tenham mais auto-estima! Vocês devem praticar mais sexo (porque querem praticar mais sexo), vocês devem se dar mais valor (porque querem se dar mais valor), vocês devem curtir mais a vida, acumular muito dinheiro, se divertir mais, dedicar mais tempo a si mesmos, se tornar mais bonitos etc. Não adoeçam, e evitem envelhecer – e de preferência, rejuvenesçam. Devem emagrecer, mas comendo tudo o que desejam. Ganhem todos na loteria, sejam todos donos das suas empresas. O Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos, por que você também não pode ser? Basta acreditar!

Esses pobres leitores não se dão conta de que são marionetes em um comércio. Não se escrevem mais livros para ensinar-lhes alguma coisa, escrevem-se livros para acicatar seus apetites. Um livro de auto-ajuda é assim uma espécie de masturbação mental. Infelizmente a maioria da humanidade é idiota o suficiente para embarcar na ilusão dessa satisfação barata. As drogas, evidentemente mais prejudiciais, produzem um efeito parecido.

Acreditem, a humildade é a qualidade mais demandada hoje. Sei que há casos patológicos de pessoas com exagerada baixa-estima, mas aí estamos falando de alguns poucos doentes a quem certamente esses escritores de best-sellers não se dirigiram.

Um dos axiomas fundamentais de Freud diz: a base da Civilização é a repressão dos instintos. Há muitas variações dessa frase. Repressão dos desejos, o primeiro princípio do Sidarta Gautama, também é por aí. E Jesus Cristo, que todos vivem recitando, ensinou o quê? E é por isso que nos diferenciamos dos animais. Por que ninguém fala em valorizar o outro, ao invés de valorizar a si próprio? Que tal o amor ao próximo? Servir, ao invés de ser servido? Que tal um pouco de abnegação, de trabalho, de sacrifício? Chega de pregadores do hedonismo!

Citei alguns famosos líderes espirituais só para registrar a incoerência dos leitores de best-sellers, que geralmente entendem bem essa linguagem, pois na verdade não estou fazendo pregação moral nem defendendo aqui valores éticos - embora seja suficientemente "careta" para tê-los. Pois vivemos, sim, num mundo idealizado, num mundo simbólico, quer queiram ou não. E se nos fossem retiradas essas "fantasias" - ou seja lá que nome derem, seja "princípios" - nossa vida perderia o sentido. Aqui, por enquanto, estou simplesmente atacando a tal da eficiência, mostrando um dos seus resultados, e criticando o método "meu leitor é uma anta" adotado pelos autores mais aclamados da indústria cultural.



Cleber Resende é autor do ensaio Massificação Cultural e Religião, que pode ser visto no Google Books.





tags: Belo Horizonte MG jornalismo-midia auto-estima narcisismo orgulho costumes best-sellers auto-ajuda


 
Cleber, sou sua fã e gostaria de lhe fazer uma pergunta:
De onde vem toda a sua inspiração e senso de justiça para escrever? Bom, da sua intelectualidade nem precisa citar!
Concordo quando dizes que "cada um de nós, deve aperfeiçoar seu espírito crítico", e por isso reafirmo todo meu apreço pelos seus artigos.
Abraços

Eliane Leandro · Belo Horizonte (MG) · 20/10/2009 10:34
Fantástico!!!

Julia Helen · Contagem (MG) · 20/10/2009 10:49
Bem! Não gosto muito de comentar trabalhos de colegas, mesmo porque, cada um tem uma maneira particular de escrever, de expressar suas idéias, sua maneira de ser. Se gosto, voto, se não gosto deixo de votar.
Seu artigo, como o meu, também não deixa de ser um desabafo perante tantas asneiras expostas por aí. Coerente e com muito nexo. Abstenho-me de dizer mais, sua narrativa diz tudo. Agradeço sua presença em meus textos. Saudações literárias.

Paola Rhoden · Brasília (DF) · 25/10/2009 12:24
Obrigado, poetisa. Eu gostaria que todos os bons colaboradores desse Portal tivessem liberdade para comentar livremente os trabalhos uns dos outros, sem se sentirem constrangidos de um lado, ou melindrados do outro. Deveríamos incentivar essa atitude. Receber elogios é bom, mas nós melhoramos é com as críticas.

Cleber Resende · Belo Horizonte (MG) · 25/10/2009 16:40
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