A inocência sempre foi virtude das mais apreciadas. Ela não é apanágio só de criancinhas. Há inocentes bem grandões, de paletó e gravata, inocentes de sandálias havaianas, inocentes analfabetos ou doutores. Há inocentes por vocação – os mais requisitados, quando têm parentes importantes – ou por interesse.
Os inocentes acreditam que a propaganda não tem qualquer efeito sobre o que eles pensam. Cada ser humano é dotado do livre-arbítrio, que lhes permite decidir o que é certo e o que é errado. As grandes corporações do mundo seriam portanto dirigidas por idiotas que jogam fora milhões de dólares todo ano, gastos inutilmente com publicidade. Aqueles que nascem na Arábia Saudita se tornam muçulmanos e não cristãos, por vontade própria, porque aplicaram seu discernimento e decidiram assim. Do mesmo modo os que vieram ao mundo do nosso lado, que é o correto, são mais espertos para ver isso, se tornam cristãos e não muçulmanos.
Como poderia a inocência acabar? Os poderosos adoram os inocentes. Até os deuses sempre mostraram essa predileção. Sempre houve bons motivos para perdoá-los, desde o clássico "eles não sabem o que fazem". Os santos sempre subestimaram nossa capacidade de subverter suas frases.
A inocência de tão apreciada passou a lucrativa, chega a ser fingida, até mesmo treinada. Não ver nada, não saber de nada, não opinar sobre nada – esta locução preciosa define em certos guetos o “bom comportamento”. Alguém aí já morou numa favela?
Mas nem precisa dessa experiência. Numa sociedade de culpados essa prescrição simples – não ver nada, não saber de nada, não opinar sobre nada – pode, como se diz hoje em dia, “alavancar” uma carreira. É claro que esse
nada aí refere-se
àquilo de que não se pode falar. Quem já exerceu uma chefia subalterna de uma repartição pública, sabe como é. No início é um pouco constrangedor, mas logo se acostuma. O “coronel” que adora seus inocentes protegidos, finge por sua vez inocência ao desconhecer convenientemente as falcatruas do deputado ou do prefeito, que lhe retribui fingindo ignorar as suas.
E ninguém fala nada. Há tanto assunto de que não se pode falar! Ou pelo menos, não é conveniente. Pois este artigo, obviamente, é sobre censura. Mas eu quis começar mostrando a dimensão da coisa inteira. E essa censura “consuetudinária”, por assim dizer, é a parte maior do corpo do iceberg. “A mãe de todas as censuras”, diria o finado Saddam.
É claro que a censura mais visível é aquela que se exerce sobre o que sairia num livro ou num jornal. Ou nos meios de comunicação. Mas é preciso reconhecer que a censura sempre existiu, e sempre existirá, e em todos os seus níveis. Já somos censurados desde a tenra infância, por pais dominadores, e segundo Freud até já temos em nós um censor interior, que é o tal do superego. Qualquer um que sente medo, decerto refreará o que vai dizer.
Os inocentes acreditam em “liberdade de expressão”, como se tratasse de um “sim” ou de um “não”, de existir ou não liberdade de expressão. Mas na verdade toda liberdade é sempre exercida dentro de certos limites. Ninguém é mesmo livre o tanto que deseja. A Natureza impõe limites. A ética impõe limites. Então o que existe na prática é uma gradação dessas liberdades.
Há setores mais e menos sensíveis. Eu posso falar mal da classe política que ninguém vai se incomodar, mas a religião, em todo o mundo, é muito intolerante à crítica. Há locais mais e menos permissivos: um jornalista americano tem muito mais liberdade do que, por exemplo, um iraniano. Isso pode ser razoavelmente medido.
Em cada lugar e cada época existe uma fronteira, fundada nos costumes, separando a censura “aceitável” da “inaceitável”. Quem acha que não existe censura aceitável, então que tente publicar uma foto de uma criança nua, ou um artigo negando o holocausto nazista, ou um comercial ridicularizando o cristianismo. Logo verão que
nesse caso, blá, blá, blá, blá...
Eu creio que aqueles que falam de “censura” estão se referindo à “censura inaceitável”, e dessa, a exercida oficialmente pelo poder público. Mas isso é uma gotinha no oceano. Nas democracias a censura praticada oficialmente não é eficiente. Censura bem feita se faz às ocultas. Fica entranhada no “sistema”, no qual o poder econômico é a parte relevante. Há políticos de quem, se um jornalista falar mal, sofrerá sérias retaliações, que não precisam vir necessariamente de uma condenação judicial.
E houve decerto uma evolução desse tema, na história recente. Os rebeldes não vão mais para as masmorras, vão para o olho da rua, simplesmente. Onde poderão subir num banquinho e fazer o seu discurso. E aí, sim, exercer sua liberdade de expressão.
Essa espada de Dâmocles econômica ameaça não só os indivíduos, mas também as empresas de comunicação. Sai muito caro falar mal do
Grande Anunciante. No tempo da ditadura militar o
Jornal do Brasil publicava a previsão do tempo na primeira página. No tempo da democracia, os jornais da TV Globo preenchem seu precioso espaço com receitas culinárias, ou matérias sobre países exóticos e distantes. Eu, que sou meio
gourmet, sou mais chegado à democracia. É sempre bom poder conhecer a origem do pastel de nata português enquanto se prepara para mais um dia de trabalho.
Não faço qualquer julgamento de valor. As ações humanas, devem ser analisadas considerando o contexto em que foram praticadas. Seriam monstros os cidadãos romanos que iam ao Coliseu se divertir e dar boas gargalhadas com os infelizes condenados sendo atirados às feras? Isto se chama “cultura”, e cada época tem a sua. Hoje passa na televisão belos filmes no estilo
National Geographic mostrando leões e tigres caçando e estraçalhando os pobres antílopes, e assim todo mundo continua a se divertir. Não estou dizendo "isto é certo" ou "aquilo é errado" - estou dizendo "isto existe".
A censura ainda se exerce em situações envolvendo certos estilos de época, como em nossos dias existe o do “politicamente correto”. Os leitores mais argutos, acostumados a ler literatura, poderão reparar que todos os jornalistas profissionais considerados exímios no seu ofício escrevem de modo muito parecido. Usam as mesmas palavras para os mesmos fatos. Dizem que é o
Manual de Redação. Eu acho que é essa censura
latu sensu que vai moldando a sua linguagem, moldando o seu pensamento, padronizando, dando segurança – traduzindo-se tudo ao final na seca “eficiência”, inimiga da criação.
Por isso é tão importante ler literatura, não a literatura pasteurizada que sai na lista dos
best-sellers, mas a literatura sincera, descompromissada, amadora - a literatura "sem censura" - ou pelo menos, tanto quanto possa ser.
Cleber Resende é autor do ensaio Massificação Cultural e Religião e do romance A Nossa Cor - Um Retrato do Racismo no Brasil.
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