Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 16/06/2006.
Fanático por futebol, Ruy Castro promete ir às ruas para comemorar cada vitória do Brasil. É um de seus rituais, diz nesta entrevista ao Portal.
Responsável talvez pela melhor biografia de um jogador, Ruy Castro entende do riscado quando o assunto é futebol. Fanático pelo Flamengo, e autor do livro que abriu a Coleção Camisa 13,
Flamengo: o vermelho e o negro (Ediouro), ele também organizou os dois volumes com as melhores crônicas de futebol de Nelson Rodrigues,
À sombra das chuteiras imortais e
A pátria em chuteiras (Companhia das Letras), além da biografia do grande dramaturgo e também um viciado no esporte. Mas o grande momento é a biografia de Mané Garrincha,
Estrela solitária, onde refaz a trajetória, para muitos, do nosso maior ídolo. Nessa entrevista, ele reitera seu amor ao rubro-negro e comenta a seleção de Parreira.
Qual a primeira lembrança que tem do futebol?
Ruy Castro. Ecos de jogos do Flamengo ouvidos pelo rádio, com a voz de Jorge Curi na Radio Nacional. Era uma voz que vinha do alto – talvez de um autofalante em algum lugar, ou de um rádio ligado no andar de cima –, como se estivesse anunciando a chegada do anjo vingador ou coisa assim. A voz de Jorge Curi era bonita e tonitroante como a de um deus. Ou Deus, sei lá. Era essa voz que me anunciava o Flamengo. Eu tinha uns quatro anos ou pouco mais. A partir dali, deixei de acreditar em Sartre, Heidegger e Husserl, e passei a acreditar no Flamengo.
Qual sua relação com o futebol?
Ruy. Tipo visceral. Acompanho os jogos por jornais, televisão e internet, e o Flamengo tem uma grande presença na minha vida. Quando ele ganha, vou dormir feliz e me embalo para dormir reconstituindo os lances dos gols. Quando perde – o que tem sido freqüente nos últimos anos –, acordo de má vontade, porque a primeira coisa que faço de manhã é ler os jornais e sei que eles falarão da derrota.
Joga, torce, freqüenta estádios?
Ruy. Já joguei muito, na rua, na praia e nos campinhos de pelada do Aterro do Flamengo. Sempre fui péssimo. Quando botei óculos, aos 27 anos, tomei vergonha e encerrei a carreira. Já fui até de pular muro para entrar em estádios – como no Pacaembu, em São Paulo, em 1984, para ver um Flamengo x Grêmio em campo neutro (e já tinha 36 anos!). Por preguiça e comodismo, não vou mais – estive no Maracanã pela última vez há seis anos, para ver um Fla-Flu, por sorte o Flamengo venceu. Mas não perco um jogo pela televisão. Minha mulher, a escritora Heloisa Seixas, também adora futebol, e assistimos juntos. Só não podemos ver juntos os Fla-Flus – porque ela é Fluminense...
É um daqueles aficcionados/apaixonados por futebol?
Ruy. Sim, mas só quando o Flamengo está envolvido. A paixão pelo clube precisa ser total, permanente e incondicional. Pode jogar mal e o escambau, mas, se ganhar, está tudo bem. Já quando se trata da Seleção Brasileira, não perco os jogos, mas só torço se estiver jogando bem. O treinador da seleção, no caso o Parreira, que admiro, pode convocar quem ele quiser – e se ele insiste em jogar com Dida, Cafu, Lúcio, Roberto Carlos e Emerson, está no direito dele. Mas ninguém pode me obrigar a torcer por essa turma. Por sorte, o Brasil tem os dois Ronaldos, Adriano, Kaká, Robinho, Juninho Pernambucano, Juan e outros que compensam aquele meio time de cabeças de bagre.
Pela primeira vez em várias Copas, não estarei fechando um livro nem terminando um trabalho urgente. Portanto, espero poder assistir, inclusive aos outros jogos.
Qual seu ritual durante a Copa? Como vai ser sua rotina durante a Copa?
Ruy. Acompanhar pelos jornais, ver os jogos, assistir às resenhas e, nos dias de vitória, sair à rua para comemorar.
Ela afeta, inspira a escrita?
Ruy. Não, não inspira nenhuma escrita, só atrapalha. Mas vou tentar continuar trabalhando entre um jogo e outro.
Qual sua lembrança das outras Copas?
Ruy. Olhem, sem querer parecer filho do Matusalém, minhas memórias de Copa do Mundo vêem desde 1954, quando eu ouvia uns ecos dela pelo rádio. A de 1958, acompanhei integralmente, por rádio, jornal, revista e cinema (sem TV, graças a Deus) – mas, aí, eu já não fazia vantagem, porque era um macaco velho de dez anos. E, desde então, nunca deixei de acompanhar. A melhor, disparado, foi a de 1970.
Nelson Rodrigues afirmou: "Nossa literatura ignora o futebol, e repito: nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral." Concorda com Nelson? Por quê?
Ruy. Não, isso era antigamente. Hoje, o próprio Nelson reconheceria que muitos escritores já aprenderam a cobrar lateral. Mas também ainda não passaram disso.
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