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Quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos!
 
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Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 22/10/2008 · 68 votos · 1
  
Bá e Moon, respectivamente
Gabriel Bá e Fábio Moon em auto-retrato
Imagens

Capa


Capa


Together


Ilustra exclusiva para a Enterteinment Weekly


Capa da The Umbrella Academy #2


Na breve biografia que abre o site dos criadores das melhores, mais bonitas, sensíveis e bem desenhadas histórias em quadrinhos por estas plagas está lá:

“Fábio Moon e Gabriel Bá são contadores de histórias. [...] Fábio e Gabriel são irmãos. Gêmeos. Eles cresceram juntos, sempre moraram juntos e trabalham juntos. Já publicaram no Brasil, Estados Unidos, Espanha e Itália. [...] Eles sabem que ninguém é uma ilha e a importância que uma pessoa tem na vida de outra e é isso que eles querem contar em suas histórias. Para isso, eles criaram os 10 Pãezinhos. Juntos.”

Ali não é possível vislumbrar, mas uma visita ao site, ou um primeiro impacto que qualquer uma de suas histórias e desenhos proporcionam basta para sabermos que, se os quadrinhos nacionais vêm melhorando dia a dia, muito se deve ao trabalho destes dois gêmeos, que começaram a publicar há pouco mais de dez anos. E não estamos aqui esquecendo de toda uma tradição do traço brasileiro, que começa ainda no século XIX, com Angelo Agostini, passa por J. Carlos, no início do XX, e vai ter um forte impulso com o Pif Paf, de exatos e apenas oito números, criado por Millôr, nos anos 1960, impulso continuado pelo Pasquim e a turma que por lá rabiscava. Mas aí estamos falando de charges, cartuns, tiras. A produção nacional ganha um forte apelo infantil com Maurício de Souza, junto com a crescente produção independente e udigrudi, de revistas como Animal, Circo, Porrada, Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Geraldão, tudo isso nos anos 1980. E aí já estamos falando de histórias em quadrinhos.

E o que os irmãos Moon e Bá vêm fazendo é dar um salto de qualidade na produção daquilo que Will Eisner, um dos grandes mestres de sempre, chamou de arte seqüencial. Eisner que nomeia o prêmio mais importante para HQs, conquistado por brasileiros pela primeira vez neste ano, claro, com trabalhos que incluem os irmãos. Levaram, em parceria com o gaúcho Rafael Grampá, a americana Becky Cloonan e o grego Vasilis Lolos, o prêmio de Melhor Antologia por 5, um trabalho onde um cria e desenha uma história do outro comparsa – Grampá ficou responsável pela capa e abertura das histórias. Além disso, Gabriel Bá levou o prêmio de Melhor Série Limitada, na parceria com Gerard Way, vocalista do My Chemical Romance, que escreveu o texto de The Umbrella Academy. E Fábio Moon, junto com Joss Whedon, levou mais um Eisner Award com Sugarshock, de Melhor Comic Digital.

Conversei com os irmãos Moon e Bá no Centro de Cultura Laura Alvim no final de agosto, quando eles estiveram no Rio participando de um workshop no Centro da Justiça Federal, oferecido pela Editora Abril, e aproveitaram para lançar a antologia 5. Peculiarmente sem texto algum, totalmente independente, ela foi toda impressa em São Paulo, a mesma que foi enviada para San Diego, onde acontece a Comic Con, convenção mais importante do meio, e abocanhou o Eisner.

Em setembro, levaram o Prêmio Jabuti de “Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio”, com a excelente adaptação de O alienista, de Machado de Assis, e começaram a publicar tiras na Folha de S. Paulo aos domingos. Em outubro, dois livros – O alienista e Meu coração não sei porquê – foram selecionados para a lista do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) 2009, e The Umbrella Academy, parceria de Bá e Way, levou mais um prêmio, o de Melhor Desenhista, do Scream Awards. Ainda inédito por aqui, deve sair pela Devir em fevereiro de 2009, além de publicações na Espanha, Alemanha e França e dos direitos vendidos para Universal, que vai adaptá-lo para os cinemas.

Além do inegável talento, muito, muito trabalho e prática de desenho. Eis a receita dos irmãos para produzir boas histórias. Na entrevista – que contou com a participação de Lobo, que também escreve roteiros para quadrinhos, e até recentemente era editor de quadrinhos da Desiderata, que vem lançando importantes títulos na área – falamos das mudanças nestes dez anos em que publicam histórias, alguns gargalos no nosso mercado, que apesar disso, vem produzindo bons HQs em livros, do papel da internet, dos prêmios e de algumas apostas dos dois no cenário vindouro.

> Confira um trecho do vencedor do Prêmio Jabuti na categoria “Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio”, a adaptação do memóravel conto de Machado de Assis, O alienista, considerado por Fábio, inclusive, seu melhor trabalho até hoje.

> Confira ainda o blog 10 Pãezinhos, e desenhos, capas trechos e rascunhos no Flickr da dupla.

> E outra matéria com eles sobre clássicos da nossa literatura adaptadas em quadrinhos.



Vocês já estão a mais ou menos dez anos publicando, começaram com o 10 Pãozinhos, que era um fanzine. O que mudou para vocês nesse tempo, e também na produção de quadrinhos aqui no Brasil?

Fábio Moon.
Mudaram algumas coisas. Há dez anos, as editoras não estavam publicando os artistas nacionais, o que foi uma das razões para a gente fazer fanzine, pra ter um escape, uma vazão para mostrar nosso trabalho pras pessoas. Depois disso, surgiram essas editoras pequenas, que estavam a fim de publicar artistas nacionais, com um trabalho autoral. Então hoje em dia tem um monte de editora que publica e tem também um monte de artistas que se autopublica. Mudou bastante o cenário do que os leitores encontram nas livrarias de autor nacional, que era muito escasso quando a gente começou a fazer o fanzine, há dez, onze anos.

E acho que o nosso trabalho amadureceu muito. Há dez anos, a gente fazia uns experimentos, mais para testar o que que dava para fazer, não sabíamos muito bem qual era o nosso estilo quais as histórias que queríamos contar. E hoje em dia a gente tem isso muito mais definido, determinado. Tanto o que queremos contar, como o quanto isso demora e o quanto a gente pode fazer. A gente sabe muito mais o que a gente quer.

Vocês sempre têm trabalhado juntos, a idéia sempre foi essa? Os dois escrevem, os dois desenham também, ou tem trabalhos individuais?

Gabriel Bá.
Pelo curso natural das coisas, a gente acabou fazendo os trabalhos juntos. É muito difícil a gente desenvolver projetos pessoais, separados. Primeiro, porque tudo dá muito trabalho. Na época em que a gente produziu as histórias do Crítica, eram quase só histórias feitas separadas, são histórias que só o Fábio fez, outras que só eu fiz, sempre histórias curtas. A gente viu que conseguia produzir o dobro de histórias, mas diminuía um pouco. A gente queria focar em trabalhar na mesma história. Hoje em dia, quando fazemos trabalhos em que a gente só desenha histórias dos outros, aí a gente sempre separa, porque temos estilos diferentes. Isso nos ajuda na parte de desenhar, melhora a nossa qualidade como desenhistas. E depois também melhora quando a gente vai contar nossas próprias histórias. Tem essa diferença entre os projetos onde vamos só desenhar, com outro tipo de apelo, e os nossos projetos mesmo, onde a gente escreve também.

Como se deram os primeiros contatos lá fora, para conseguir publicar?

Gabriel.
O primeiro contato mesmo foi o Shane, que a gente conheceu numa viagem de férias. Ele era irmão de uma menina, gostava de quadrinhos e tinha um roteiro. Era um moleque que nem a gente, isso foi em 1996. E a gente começou a desenhar a história dele, que acabou virando o Roland [Rolando, aqui no Brasil] , um gibi autopublicado nos Estados Unidos. Eu e o Fábio bancamos um pouco, o Shane bancou um pouco, e a gente se autopublicou, isso em 1999. Depois disso, a gente começou a publicar aqui, e fomos levando nossos desenhos todo ano para convenção [a Comic Con, em San Diego], principalmente os desenhos, mas não mostrávamos as histórias para muita gente. Em 2003, a gente mostrou o livro do Meu coração não sei porquê para uma editora um pouco menor, e eles gostaram da história pelo que viram no desenho, pediram pra gente mandar uma tradução, a gente mandou e aí esse foi o primeiro trabalho publicado das nossas histórias.

Lobo. Por que vocês não mostravam as histórias? Não levavam elas traduzidas?

Gabriel. Era esperar o momento certo. A gente achava que o desenho tinha um nível para arranjar trabalho como desenhista. Foi só depois, quando a gente tinha a própria história, com Meu coração não sei porquê, que a gente começou a mostrar o desenho e a história.

Fábio. Primeiro, a gente achava que não tinha qualidade o suficiente pra mostrar. Aí começamos a mostrar mais o desenho, porque era um filão que a gente achava que tinha mais trampo. Mas só conseguimos trabalho como desenhista, depois que publicamos algo que a gente tinha escrito também. Mostrávamos muito mais o desenho que as histórias – e essas, para bem menos gente. Porque era mais fácil chegar a ter um trampo desenhando histórias dos outros, do que publicando nossas histórias. A gente queria fazer bem feito. Então, desde 2002, a gente estava mostrando as histórias, que acabaram virando o De:tales, e aqui virou o Crítica. Mas a gente foi fazendo essas histórias curtas durante anos. Mas, por exemplo, a Diana Schutz, na Dark Horse, tinha gostado [das histórias], a gente poderia ter mostrado para outras pessoas, colocado essas histórias em outras antologias, mas ficamos segurando para lançar um livro só nosso. E nisso, ficamos produzindo mais coisas, nosso desenho foi melhorando, mostramos o Meu coração não sei porquê, conseguimos publicar, fizemos o Rock n’ roll, sem falas, para poder vender lá também. E a partir do Rock n’ roll e da tradução do Meu coração não sei porquê, a gente começou a ter propostas boas para desenhar outras histórias, e não só as de um zé mané qualquer, onde iríamos ter que desenhar 300 páginas no mesmo esquema que a gente fazia aqui. E já tínhamos feito o Roland, uma história de outra pessoa, que a gente gostava. A gente não queria desenhar qualquer projeto, só por desenhar. Porque dá muito trabalho e a gente tinha nossa vida aqui, estávamos ralando pra conseguir trabalhos de ilustração e tudo. A gente não ia conseguir dar conta dos dois. O nosso trabalho – naquele tempo muito mais – perde muito a qualidade do desenho quando a gente não gosta da história, quando é qualquer coisa. Hoje em dia, a gente tem mais prática de quadrinhos, a gente sabe, sei lá, enganar melhor. Antigamente a gente sofria muito.

Lobo. Não pode aceitar qualquer projeto. Tem que entender, às vezes, se você tem capacidade para fazer ou não. Eu vejo muito desenhista hoje em dia por aí, com esse boom de quadrinhos, que muita coisa não deveria estar fazendo. Fazem para aproveitar o momento, porque vão pagar...

Fábio. Hoje em dia, as pessoas pulam o fanzine. Até porque a internet é o fanzine de hoje, você faz, coloca qualquer coisa lá e mostra para todo mundo.

Lobo. Para humor, para tira, a internet cumpre muito bem o papel do fanzine. Pra quadrinhos, não.

Fábio. Me perguntaram isso hoje lá [no workshop da Abril sobre ilustração e quadrinhos] e eu sempro falo, pra quadrinhos, não serve. Por ser uma história longa, você precisa do negócio nas tuas mãos, para mostrar para as pessoas, pra levar pra ler em casa. Não é a mesma coisa. E o fanzine funcionava muito melhor. Só que acho que hoje em dia tem muita gente aqui pulando para revista independente. Ficou muito mais fácil fazer negócio em gráfica, produzir com o computador é muito mais fácil também, então as pessoas pulam a parte do fanzine toscão e vão para uma revista independente, só que uma revista independente muito amadora chama muito mais a atenção [negativamente] do que um fanzine amador. Mas as pessoas têm que passar pelo fanzine, porque ali tudo combina, é um amadorismo que combina.

Lobo. É um defeito do mercado brasileiro, não tem mercado para pequenas histórias, então você tem que estar pronto para fazer um álbum. Você não treina, são poucas revistas e pouca gente treina. E o fanzine dá essa possibilidade, ainda mais hoje em dia, em que é tão fácil produzir.

Como é a rotina de vocês, os dois escrevem e daí trocam para o outro desenhar?

Fábio.
A gente sempre parte da idéia de um ou de outro, e temos, ambos que gostar bastante dessa idéia. E aí, a partir disso, a gente tenta desenvolver a estrutura básica da história inteira juntos, e então decidimos quem vai desenhar, depende do estilo que combina mais, ou de quem tem mais tempo livre, ou de quem fez o último projeto legal, para então reservarmos. Meio que depende do momento para saber quem é que vai desenhar.

Vocês nunca mesclam o traço, de um começar, de um fazer os personagens e o outro, os cenários?

Gabriel.
Não, esse negócio de misturar, você perde a personalidade, perde o traço. A mistura cria uma coisa genérica e não é o que a gente quer, só para constar lá. A gente não faz a mínima questão de, ah, “os dois precisam desenhar para os dois baterem ponto no desenho”, isso não importa.

E animação, vocês já pensaram em animação, já rolou a idéia ou, de repente, convite para fazer, vocês têm vontade?

Gabriel.
Não rolou convite. Animação dá muito mais trabalho do que quadrinhos. Se existe alguma coisa no mundo que dá mais trabalho que quadrinhos, é animação. E você precisa de uma equipe, ao menos que você tenha 20 anos pra perder com animação. Então é um pouco por isso. A gente vê um nível de qualidade muito grande nos quadrinhos, você consegue fazer o melhor quadrinho do mundo sozinho. No desenho animado, não. Você precisa de uma equipe, precisa de gente para fazer som, então é algo que foge um pouco das nossas possibilidades. Principalmente porque a gente veio desse negócio de fanzine, onde você cuida de tudo. Cuida da edição, da capa, do texto, da letra, do editorial. Hoje em dia a gente faz umas revistas onde só precisamos desenhar, ou só escrever e desenhar. E, às vezes, a gente sente falta disso, de ter parte em tudo. A gente vê e está o negócio pronto, não fazemos nem a letra, nem a cor, nem a capa. A gente sente falta. Tem muita gente que hoje em dia já entra nessa, de fazer só o desenho, ou só escrever. Acho um pouco mais complicado, é outro caminho. E é isso, em animação você parte de um mecanismo ali. E a gente gosta de ter controle de tudo.

Por isso que é superdifícil de trabalhar com outras pessoas. Coisas que nem o 5, ou o Rock n’ roll, que a gente fez antes, ou o Pixu, que a gente está fazendo agora, é só porque, depois de anos, descobrimos algumas pessoas com quem temos afinidades, que conseguem ter a mesma sintonia de trabalho, o mesmo comprometimento. Mas, mesmo assim, é muito difícil.

Vocês falaram da 5, então esse é um pessoal que vocês já conhecem há um tempo, a Becky, o Grampá, e já tinham feito outros trabalhos juntos...

Fábio.
A Becky conhecemos em 2003, porque ela estava fazendo um gibi na mesma editora que publicou o Ursula, nos Estados Unidos. A gente estava lá lançando o Ursula e ela, o gibi dela, nos conhecemos ali. No ano seguinte, a gente foi encontrou com ela de novo, estávamos fazendo outra coisa, ela também. Gostamos do trabalho dela. No ano seguinte, a mesma coisa, aí vimos um gibizinho que ela tinha feito com o namorado [Vasilis Lolos], e tinha um sentimento ali, um negócio que tinha muito a ver com o que a gente gostava, de fazer quadrinhos, aquela paixão de fazer quadrinhos, sem se importar com formato, ou com mercado, com nada, era muito pela paixão, e dava muito tesão de ler aquele gibi. E aí ficamos com vontade de fazer um gibi com eles. A gente já gostava do trabalho, e meio que via que a sintonia era a mesma, e partiu daí.

O Grampá, a gente conheceu em 2004. Ele estava trabalhando na Lobo essa época e convidou a gente para fazer um trampo lá, que tinha a ver com quadrinhos, mas não era quadrinhos, era motion design, mas tinha a ver com quadrinhos. Ele adorava, mas não fazia quadrinhos, tinha umas idéias superboas, e aí a gente se deu bem logo de cara, incentivamos a fazer quadrinhos, chamamos para fazer uma história no Bang bang, uma antologia só com histórias de faroeste, que a gente participou. E aí convidamos ele para participar do 5 também. Primeiro ele ia fazer uma história, mas aí não iria dar tempo, e ele fez a capa e as aberturas das histórias, e empurramos ele para fazer a história, e é isso. Continuamos apoiando, porque ele é bom, mas essas coisas demoram um tempo. Ele ficou dois anos fazendo esse gibi [Mesmo delivery, recém-lançado pela Desiderata].

Nesses 10 anos, vocês conseguiram lançar 11 álbuns aqui no Brasil, nove lá fora, sem contar as antologias. Entre os prêmios, tem o Eisner Awards de melhor antologia, que saiu agora pro 5, já tinham outros, além dos nacionais, o Agostini, HQ Mix. [Em setembro, levaram o Prêmio Jabuti de “Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio”, com a excelente adaptação de O alienista, de Machado de Assis, e começaram a publicar tiras na Folha de S. Paulo aos domingos. Em outubro, dois livros – O alienista e Meu coração não sei porquê – foram selecionados para a lista do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) 2009, e The Umbrella Academy, parceria de Gabriel Bá e Gerard Way, vocalista do My Chemical Romance, levou o prêmio de melhor desenhista do Scream Awards. Ainda inédito por aqui, deve sair pela Devir em fevereiro de 2009, além de publicações na Espanha, Alemanha e França e dos direitos vendidos para Universal, que vai adaptá-lo para os cinemas. A entrevista foi realizada no final de agosto.] Qual a importância dessa trajetória de vocês, e daqui pra frente, a perspectiva de abrir um editora de vocês?

Gabriel.
Ah, é trabalho, muito trabalho. Abrir uma editora é uma vontade que existe para pular essa coisa de editora, e lidar direto com as livrarias. A parte mais difícil de quadrinhos mesmo no Brasil é a distribuição. E não tem muita solução, é ruim mesmo, é difícil. Só que não tem o que fazer. As revistas independentes que fazemos é quase isso, só que numa escala pequena, mil cópias, duas mil cópias. Quando for para abrir uma editora, vai ser para fazer um negócio maior. Tiragem maior, em papel jornal, só que o mercado de quadrinhos é muito solidificado em bancas, tem a maior máfia de distribuição, da Abril, da Globo, seu gibi vai estar lá no meio de todos os outros, às vezes escondido. É um pouco de cacife, bala na agulha. Foge muito de fazer quadrinhos, para se tornar homem de negócios. Ter uma editora iria nos distanciar muito de fazer as histórias. A gente não vê muita solução por enquanto para isso.

E no começo, foi um processo mais autodidático, fizeram cursos, eram daqueles aficcionados que compravam os livros, álbuns importados?

Gabriel.
Olha, a gente fez um pouco de tudo. Curso de quadrinhos mesmo, que ensina a desenhar, nunca fizemos. Tinha um curso que a gente fazia, num lugar em Pinheiros, onde ficávamos lá fazendo exercícios de uma página, mas era muito mais para desenvolver como você contava a história, o que você quer dizer com isso, porque escolheu isso e não aquilo, do que o desenho. Cada um pôde desenhar do jeito que queria, quem não queria fazer, não fazia, ficava lendo um gibi europeu, ou uma outra coisa. Era bem aberto, e mais voltado para o que você quer dizer com o seu trabalho. A gente fez uma oficina também com o Luiz Gê, de um mês. A gente foi cheio de vontade de desenhar, com 16 anos, aí chegou lá, era cortar papel contact preto e ficar colando na folha sulfite, para contar a historinha da bolinha preta no papel. Então era tudo sobre narrativa, o espaço na página, composição. No final, tudo isso ajudou muito mais do que aula de desenho. Desenho é só prática, só prática. A gente lia de tudo quando era moleque, desde super-heróis à Mônica, Fradim, Mad, Chiclete com Banana, Animal, Milo Manara, tudo. E tudo foi influenciando. Várias histórias eu posso te dizer: “Isso daqui, quando eu fechava o olho, eu via isso. Isso daqui veio disso, isso daqui veio daqui”. Você vai construindo essa gama de ferramentas, de vocabulário gráfico de tudo o que você viu. Por isso que é importante ver muitas coisas diferentes. Se você só ver super-herói, só vai ter aquele tipo de referencial. Então é importante ver de tudo, mesmo que você vá fazer só um negócio, aquilo vai te ajudar a se destacar no meio de um monte de coisa igual. E, além disso, prática, muito prática. Com a prática você vai vendo o que funciona para você, o que não funciona. Às vezes você gosta de uma coisa, mas não funciona, pelo tipo de história que você tem, pelo tipo de desenho, ou pela ferramenta que você vai usar, às vezes você gosta de um estilo que fica melhor com caneta, então não adianta usar pincel, e vice-versa. E isso é só na prática que você vai descobrindo.

Sobre os prêmios, no que eles ajudam, estimulam? Qual o retorno que tem, se é que tem, aqui e lá fora?

Fábio.
Acho que eles chamam atenção pro trabalho. Quando a gente ganha prêmio aqui – ganhamos vários aqui – sempre fazemos mais entrevista pra jornal, aí as agências de publicidade e as revistas meio que lembram que a gente existe e chamam para fazer trabalho. Então o prêmio traz visibilidade, e a visibilidade, um pouco mais de trabalho. E acho que o prêmio lá fora traz um pouco mais de visibilidade, como que uma facilidade para os próximos projetos. Acho que é um reconhecimento, então fica mais fácil eles confiarem na gente, quando estivermos propondo próximos trabalhos, ou até para nos chamarem para alguma outra história. Torna o meio do caminho entre o que a gente vai fazer e eles aceitarem mais fácil. Ao invés de ter que negociar e convencer a pessoas de que a gente é capaz...

Gabriel. A parte de convencer as pessoas de que somos capazes fica cada vez menor.

Quais os autores novos que têm chamado a atenção de vocês, daqui ou lá de fora?

Gabriel.
Lá de fora, é um francês que se chama Cyril Pedrosa, ele fez um gibi, Três sombras, que é muito bom. Ele é um cara que trabalhava com animação, ou trabalha com animação, e fez esse gibi. O desenho é ótimo, a história é sensível e muito legal. Um outro cara, é um italiano chamado Gipi, muito bom, produz muito, tem um estilo bem particular, bem legal. E aqui dentro, tem um cara que está produzindo algumas coisas, o Rafa Coutinho. Ele fez muitos fanzines, uma revista meio independente chamada Sociedade Radioativa. Ele fazia com muitos amigos, então se diluía um pouco o trabalho dele lá no meio, mas sempre se destacou mais do que os outros. E, aos poucos, ele foi fazendo coisas mais legais. Fez uma história pra essa antologia dos Irmãos Grimm [que saiu pela Desiderata, em 2007], a Branca de Neve. E agora está fazendo um história com o Daniel Galera, escritor. E ele é, de longe, o melhor cara novo do quadrinho nacional. Ele precisa amadurecer o trabalho dele, e é só produzindo mesmo, mas ele é muito bom. E a hora que começar a colocar as coisas dele mais, começar a publicar mais, os outros vão ter que dar um gás, porque vai mudar os padrões de qualidade. Ele é rápido, bom, talentoso, produz sem medo, vai indo.



tags: São Paulo SP artes-visuais gabriel-ba fabio-moon hq quadrinhos


 
BÁRBARO, Dorigatti

alice · Rio Grande (RS) · 23/10/2008 12:36
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