Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 24/03/2006.
Criador do site
Overmundo, o antropólogo Hermano Vianna quer mudar a forma como a imprensa, o rádio e a televisão divulgam a produção cultural do país.
"Recebo discos de que o público médio jamais vai tomar conhecimento e fico pensando se não seria legal ter um meio de difundir toda essa música. Tem muita gente compondo coisas bacanas no Recife, no Rio, em São Paulo, e me pergunto quando vai chegar a vez do Tocantins, do Amapá" (Lenine,
Bizz, março 2006).
"Nem as gravadoras antigas têm interesse em contratar mais ninguém, porque é muito mais fácil e rápido, o cara grava dentro de casa e tem ótimos estúdios com preços bons, a questão é a distribuição, continua sendo uma coisa muito difícil, mesmo porque hoje você tem milhares de pessoas fazendo discos, e essa gente precisa colocar seu disco no mercado, divulgar seu trabalho, como é que é isso? Esta é uma questão delicada, porque passa pela democratização do processo de divulgação" (Paulinho da Viola,
Caros Amigos, fevereiro 2006).
Não só na música, mas em praticamente toda produção cultural contemporânea, o grande nó que se discute é a distribuição e a divulgação do trabalho artístico. Com a facilidade proporcionada pelas novas tecnologias, o que falta para a produção independente é circulação. Para enfrentar este problema, surgiu o
Overmundo. O site não se restringe ao seu banco de cultura, que disponibiliza mp3, vídeos e textos. Ele pretende dar conta de um panorama cultural brasileiro contemporâneo que ainda não foi descoberto pela grande imprensa.
Qualquer um pode colaborar tornando-se membro da comunidade, escrevendo, editando e opinando sobre a importância do conteúdo publicado na página. Inspirado em sites como o
Digg, o
Newsvine e o
BBC Collective, onde as informações são organizadas de forma descentralizada, democrática e ágil, o Overmundo adapta e amplia sua funcionalidade com tags (palavras-chave), textos originais, edição coletiva, seção de guia e agenda, além de ter todo seu conteúdo em creative commons, ou seja, pode ser distribuído e republicado, desde que sem a intenção de lucro. O Portal Literal conversou com o antropólogo Hermano Vianna, que, ao lado do advogado Ronaldo Lemos, desenvolveu o conceito do site. Aqui ele fala sobre a situação do jornalismo cultural brasileiro, o preconceito quanto ao gosto do público e o receio de ter o acesso à internet na mão de cinco empresas de telefonia.
O jornalismo cultural brasileiro depende cada vez mais de assessores de imprensa e departamentos de marketing de gravadoras, editoras, televisões etc. Como enfrentar isso?
Hermano Vianna. Esse não é o principal problema do jornalismo cultural brasileiro, mas decorrência da mudança do modelo de negócios da imprensa como um todo: a diminuição das equipes, da faixa etária – vejo pelos estagiários que vêem me entrevistar. Os cortes que essas reengenharias propuseram como se fosse a salvação de todos os negócios. Não sei se funcionou assim. Gostaria de fazer um estudo disso – antes e depois da chegada da reengenharia –, se as coisas realmente se tornaram mais lucrativas. Essas equipes pequenas não têm mais tanta capacidade de sair, fazer reportagens, encontrar pessoas, de ver. O
press release apareceu e ganhou espaço em função disso. Já que não posso ir até lá, vou confiar nestes dados que estou recebendo. Isso acontece muito nos jornais do interior, já vi trechos de
releases que eu conhecia reproduzidos em vários lugares. Isso é realmente preocupante.
Qual a importância dos sites culturais neste contexto?
Hermano. Estava vendo a quantidade de acessos do Overmundo na terça-feira, 7 de março, dia seguinte ao lançamento do site. Começou com muito acesso direto e também via Google. A terceira entrada, mais do que o Uol [que na véspera tinha dado chamada de capa para o Overmundo por causa da matéria que a
Folha de S. Paulo fez com Ronaldo Lemos], foi via a coluna do Pedro Doria, do No Mínimo. O Portal Literal também deu muito acesso para a gente. As pessoas estão procurando informação em outros lugares. É uma nova ecologia da produção da informação. É óbvio que os que têm acesso à internet ainda são minoria, mas vejo que esses números mudam todo dia. Talvez com o computador popular isso possa ocorrer mais rapidamente. Mais 60% dos lares no Brasil já têm aparelhos de DVD. Isso significa que as pessoas também estão fazendo sua própria programação, elas compram os DVDs nos camelôs ou em outros lugares e vêem o que querem na hora que querem. O que demonstra como mudou essa ecologia da produção de informação no mundo hoje, e a forma de consumo de informação também. As pessoas gostam de interagir com a informação, de colocar comentários. Voltando da entrevista coletiva em São Paulo, com o Ronaldo, no aeroporto, ele me dizia que a expectativa era que o Overmundo tivesse uns cinco usuários cadastrados no primeiro dia. No final da tarde, já havia 150 inscritos, e pessoas que enviaram músicas e textos para fila de edição, que compraram a idéia. Fiquei impressionado com matérias como "Tradição e alegria no sudeste do Tocantins", do Fred Alves. Acho que a coisa vai mudar realmente. O que a gente passará a ler na imprensa escrita vai ser produto disso.
Como assim?
Hermano. Quando os releases, em vez de ir só para redação, forem para todo mundo – como já recebo por e-mail um monte – isso também vai mudar, por que o jornal vai ter que produzir uma coisa que não está no
release. Os próprios jornalistas estão cansados dessa situação. Vejo isso acontecer nos cadernos culturais de hoje, comparados com os de dois anos atrás: o modelo cansou. Não dá mais, quando o Caetano lança um disco – era uma reclamação do próprio Caetano também – todo jornal dar ele na primeira página do caderno cultural. Uma entrevista matada, feita no dia do lançamento, quando não deu tempo dos repórteres escutarem o disco, ou verem o DVD. Me lembro do lançamento do Música do Brasil [projeto lançado em 1998, com quatro CDs, um livro e uma série de documentários que foi ao ar pela MTV, sobre a ampla produção musical regional brasileira] e foi assim. Se eu quisesse espaço, estava contente, porque a marca do patrocinador saiu em todos os lugares, mas não deu tempo de as pessoas me entrevistarem num dia e escutar grande parte das músicas. Aí entra a questão do furo, que um jornal não pode dar uma matéria depois que o outro.
Há um acordo, sobretudo na parte cultural, para tudo sair no mesmo dia.
Hermano. Sim, porque acredita-se que, se deu no
Estado de S. Paulo, a notícia foi dada. Mas e as pessoas que não compram o
Estado, como não vão saber daquilo? Ou então aquela negociação, que já passei algumas vezes, "se você não der antes pra gente sabe que vai sair sem destaque". Aí o destaque não é a importância do assunto, mas a relação que se estabelece. O que ainda acontece – mas que deve acontecer menos, porque é uma perversão do modelo – é que os jornalistas ligam para os assessores de imprensa querendo notas. O assessor, fazendo o seu trabalho, necessariamente tem um poder na mão, que é dar ou não a nota, escolher a quem vai dar essa nota. E se ele deu algumas notas exclusivas para você, você fica meio dependente dele. Na hora que ele quiser uma matéria grande, vai ser difícil negar. Essa é uma situação que está mudando, já se esgotou. Isso o Caetano já dizia na época de lançamento do
Noites do Norte, quando a gente fez um site. Não tinha entrevista coletiva, só no site. Tudo bem, ele não é louco, sabe que é o Caetano Veloso e a repercussão de qualquer coisa que ele faz, mas ele não queria determinar o dia em que os jornais dariam as matérias sobre aquilo. É uma manipulação de todo o sistema. E, ao mesmo tempo, ninguém fala da Banda Calypso, ou melhor, não se falou até o estouro evidente.
Ainda mais da maneira como eles apareceram.
Hermano. A Banda Calypso estava no festa de abertura do Música do Brasil, em São Paulo, em 1998. Tinha Siba [do Mestre Ambrósio], Banda Calypso, e ninguém prestou atenção.A verdade é que ninguém está satisfeito com essa situação, nós não estamos, o leitor não está, o cara que está sendo divulgado não está também. É claro que interessa para um certo tipo de colunismo social. Eu leio a
Caras – e não estou falando mal da
Caras – como se fosse a
Business Week. Eu vejo que todo mundo ali tem um projeto, está tentando vender esse projeto, buscando patrocinador, e escolheu abrir parte da sua privacidade para aparecer na revista. É tudo negócio. Todo mundo patrocinou alguma coisa, a ilha de Caras etc. É interessante, é um novo modelo, mas não serve para tudo.
Outra questão é sobre o preconceito a respeito do gosto do público. Alega-se que a mídia dá o que ele quer ouvir, ler, ver.
Hermano. Acho que isso nem está mais acontecendo. Quando a gente fez o Mercadão, a série do Brasil Total dentro do Fantástico, no final do ano passado, estava mostrando uma situação que é cada vez mais evidente. As músicas mais populares do Brasil, as que são ouvidas nas ruas e nas grandes festas, não estão no rádio nem na televisão. Então não se pode dizer que "a televisão está mostrando o que é mais popular". Não tem uma ditadura do popular porque não é exatamente o mais popular que está na televisão. Ela descobriu isso e está correndo atrás. A Banda Calypso foi um dos exemplos, quando ela apareceu na televisão já estava estourada em todos os lugares, e o Chimbinha agradece à pirataria: "Piratearam os meus CDs e eu sou conhecido na cidade do interior do Tocantins, dou show lá e ganho dinheiro assim". É um novo tipo de realidade, mas quem faz televisão, conta o Ibope minuto a minuto, tem um julgamento que é feito na hora. Mas isso não significa que o Ibope seja uma aprovação daquilo que viram; muitas vezes as pessoas vêem o que não gostam. Televisão tem esse papel, você vê pra comentar sobre aquilo que viu, pra ter assunto em comum. Muitas das experiências da gente no Brasil Total, colocando matérias produzidas por equipes que não tinham experiência, com apresentadores que não eram conhecidos, chegaram a ser o pico de audiência do Fantástico. Isso mostra que o povo – como disse o Gil – sabe o quer, mas também quer o que não sabe.
Toda essa produção contemporânea, que tem a ver com a internet, coletivos artísticos, literatura blogueira, vai ter que se adaptar às mídias convencionais ou é o contrário?
Hermano. Acho que a internet já é a mídia principal no mundo. Em termos até das grandes empresas: o Yahoo, por exemplo, pertence ao mundo das grandes corporações, das maiores que existem dentro do centro do capitalismo. O Google já surge com essa idéia de Web 2.0, de colaboração etc. Acho que a mídia tradicional vai ter que se adaptar. Saiu aquela música do "Popozão", do namorado da Britney Spears, você faz a procura, tem 50 vídeos das pessoas dançando o "Popozão" nos seus quartos. É uma nova forma de produção de televisão para mim. Na hora, feita por muita gente no mundo inteiro. Algo parecido com o que a televisão já usa, de uma forma ainda primária, que são as videocassetadas. A internet é a mídia das mídias. Hotéis sofisticados na Ásia permitem, por exemplo, que você escute no rádio do hotel a estação da sua cidade natal, que está sendo transmitida pela internet. Tudo isso mudou a relação com a mídia.
Nessa entrevista a que você se referiu, do Ronaldo Lemos, ele afirma que "estamos à beira de uma grande transformação, uma explosão. Há uma janela de oportunidade que vai ser fechada a qualquer momento" pelos grandes conglomerados de entretenimento, que têm pesquisado formas de bloquear os códigos de produtos (CDs, DVDs) para impedir o repasse de músicas, filmes etc. É possível driblar o discurso contra a pirataria?
Hermano. O que a indústria fonográfica tradicional produz e vende no Brasil é uma parcela mínima da vida musical dos brasileiros. Então, se fecharem todo o conteúdo deles, não interessa, vai ter um monte de conteúdo aberto de outro lado. Como é hoje com toda a indústria do tecnobrega, que não é mais pirata, porque não tem mais o oficial. Só tem o produto do camelô. Ou o disco você compra na saída da festa. Isso é uma indústria sobre a qual o ECAD, que cuida da arrecadação de direitos autorais, não manda nada, porque nem sabe o que é. O negócio deles não passa por instituições que poderiam trancar esse tipo de conteúdo. E nem estão interessados em entrar para essa outra indústria. Está funcionando desse jeito e está bom para eles. Como o Chimbinha agora, ele não quer ser contratado por nenhuma gravadora, não é vantagem para ele, ele é dono do seu próprio negócio. O que me mete mais medo é a questão das telefônicas mesmo. O nosso acesso ao conteúdo. Ontem a Velox caiu no Brasil inteiro, por exemplo. Fico louco, pois não posso trabalhar, não posso fazer nada. A gente tem que estar mais preocupado hoje em dia em encontrar caminhos que não sejam ditados por cinco empresas de telefonia que tenham o monopólio do nosso acesso à rede. Talvez o caminho seja criar sistemas de telefonia públicos controlados democraticamente, e não por companhias. Se todas essas empresas de telefonia disserem hoje que nós não teremos mais acesso à internet, nós não vamos ter, tudo passa por linha de telefone ou pelo cabo. É uma questão de segurança nacional. Posso estar falando besteira e sendo ingênuo, mas tenho mais preocupação quanto ao caminho de acesso do que às coisas que vamos acessar.
A mídia privilegia a produção do Rio e de São Paulo. Como o Overmundo poderá minimizar essa visão distorcida?
Hermano. A própria existência do Overmundo prevê a possibilidade de disponibilização, de ter um local que é conhecido por todos, onde você vai saber de coisas que estão acontecendo em todo o Brasil. Isso já é um fator minimizador. De disponibilizar e ter informação sobre as coisas, de você decidir o que tem destaque ou não, o que é publicado e o que não é. O Overmundo é uma ferramenta para encontrar caminhos descentralizadores. E ao mesmo tempo é um local que atrai a atenção porque centraliza essa convivência das diferenças. E, não tenho dúvidas que, nas próximas semanas, por exemplo, a nossa matéria mais votada [na primeira semana de funcionamento do site], sobre o
Antônio Snake, que faz cinema pornográfico lá na Amazônia, no Pará, vai ser assunto dos jornais e revistas. E isso é bom, porque a maior parte da população ainda não tem acesso à internet. Então é bom que saia em outros lugares, que a TV faça matérias com o Antônio Snake. Uma das fontes inspiradoras do Overmundo é a experiência do
Viva Favela, que, por razões óbvias, não é um site muito acessado por favelados. Eles não têm internet – embora haja cada vez mais
lan houses na Rocinha. Mas o site se tornou fonte de pauta para a mídia tradicional. Não é por maldade da mídia. É por total desconhecimento, pelo fato de os jornalistas não saberem entrar numa favela, não terem esse canal. Também não é culpa do jornalismo não saber o que está acontecendo em Belém do Pará. Mas agora o repórter vai ter um acesso muito mais rápido para essas notícias de todo o Brasil, as pessoas vão poder fazer seus filtros e selecionar. Esperamos que haja uma diversificação das pautas na imprensa tradicional, na televisão etc. Trabalho na TV Globo, vejo como isso é necessário, os programas ficam procurando pautas e adoram quando descobrem histórias novas em outros lugares. O Overmundo vai ser muito lido pela mídia tradicional.
Sobre o projeto Música do Brasil, ainda é possível achar os quatro CDs por aí?
Hermano. Não tem mais, você encontra o
livro. A gente quer disponibilizar, é o projeto. Ainda não apareceu o dinheiro para colocar tudo num site. Inclusive, o que a gente quer é disponibilizar seções de
pro tools, que as pessoas possam baixar e escutar só a percussão, por exemplo. A gente tem tudo separado em canal, já digitalizado, mas é caro ainda. É caro armazenar dados, além da conexão. Quando pessoas estão baixando coisas, o site paga esse tráfego e o serviço de conexão. Por isso o Overmundo opta não por ser um depósito de coisas, mas, sim, uma rede
peer2peer (P2P), de ter
bit torrent, porque assim a música, o vídeo está armazenado no seu computador, não está em uma central. E quando você usa
bit torrent, está compartilhando a sua conexão de banda larga para outras pessoas baixarem aquilo que você disponibilizou. A BBC também pensa assim. Ela sabe que não pode criar um arquivo, aliás nenhuma grande empresa pode criar esse arquivo com tudo o que produziu. Não tem dinheiro no mundo para pagar isso – digitalização, acesso e armazenamento.
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