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Picasso, absinto e assassinatos
 
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Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 19/3/2009 · 105 votos · 2
  
reprodução
Picasso, Braque e o retrato de Gertrude Stein
Imagens

Erik Satie em ação


Apollinaire e Braque


Stein, B. Toklas, Apollinaire e Leo


Picasso e Braque malhando Matisse


Braque a espreita


Stein e B. Toklas

Estamos em Paris, em 1907. A cidade-luz está prestes a ser palco e protagonista de um dos mais importantes movimentos artísticos do século que passou. A então capital cultural do Ocidente, ainda livre das mazelas que a Primeira Guerra traria, era ponto de encontro para escritores, pintores, músicos e demais artistas. Todos confluíam para lá, em busca dessa criatividade e modernidade pulsantes. Paris já era uma festa bem antes de Ernest Hemingway passar por lá, no entre-guerras.

A escritora norte-americana Gertrude Stein habitava a capital francesa, e reunia em torno de si e de seu irmão Leo essa nata artística que para lá confluía, mecenas que eram da então nascente arte moderna. Os irmãos realizavam salões onde se reuniam pintores como os franceses Henri Matisse e Georges Braque, o espanhol Pablo Picasso, músicos como o francês Erik Satie, poetas como o também francês Guillaume Apollinaire, sempre regados a muito álcool e farta comida.

Este foi o cenário e os personagens escolhidos pelo quadrinista norte-americano Nick Bertozzi para criar Salon, uma bela HQ, cujo mote envolve crimes seriais com pessoas degoladas e um tanto de realismo fantástico com imersões nos quadros depois de doses generosas de "um absinto muito especial extraído de uma raiz só encontrada no cume de uma montanha remota na Hungria", como descreve Leo ao apresentar a bebida para Braque. Estes crimes, cometidos basicamente contra pintores modernistas, deixa a trupe em alerta, pois muitos ali poderiam ser o próximo. E, em uma trama que envolve Gauguin e sua mulher, saem atrás de pistas para desvendar que poderia estar cometendo esses crimes.

O mote fantástico, vá lá, prende a atenção para o enredo investigativo, atrás das pistas que o assassino deixa. Mas a grande história está nos primeiros passos que Braque e Picasso dão em direção ao cubismo, além do detalhismo que Bertozzi dá às reproduções de quadros famosos, sobretudo de Gauguin e do próprio Picasso. O cubismo buscou retratar em cada quadro diversos pontos de vista, ângulos, todos ao mesmo tempo, através de figuras geométricas. A aparência real perdia seus status para essa múltipla interpretação do objeto, das pessoas, da paisagem. O que chegou a ser considerado lixo, acabou por revolucionar a arte, tornando-se a quintessência mesmo no primeiro quartel daquele século, influenciando todos os movimentos subseqüentes.

E está nestes diálogos entre os dois criadores o ponto alto do obra de Bertozzi, que utiliza também palhetas diferentes para expressar os diversos tempos da estória. Temos aqui um Picasso um tanto arrogante, que gostava de pintar nu, o que, segundo o autor, demonstra a sua imersão e desprendimento no ato da pintura. Esses nus frontais de Picasso inclusive chegaram a levar para a cadeia Gordon Lee, proprietário da Loja de Quadrihos Legends, situada em Rome, Georgia, nos Estados Unidos. Lee foi acusado de distribuir "material indecente" a um garoto de 9 anos, o que, na Geórgia, é um crime passível de prisão. Isso foi em 2004, quando ficou preso por um tempo. No ano passado, Lee foi definitivamente liberado, depois de intensa batalha nos tribunais e um bom dinheiro gasto com advogados, parte dele pelo Comic Book Legal Defense Fund.

Para além da publicidade gratuita que o caso trouxe, Salon, lançado no Brasil pela Desiderata, apresenta de forma bem humorada como teria sido a relação entre alguns dos principais nomes que habitavam Paris naquele tempo, suas picuinhas mundanas, competições, porres, brigas, e o amor entre Gertrude Stein e Alice B. Toklas, permeado pelo suspense que cerca os crimes. Humano, demasiado humano.


# Confira mais sobre Salon e Bertozzi

> Veja mais trechos de Salon, no original em inglês

> Veja o vídeo onde Bertozzi conta como teve a idéia para o HQ e fala sobre o processo de criação da HQ

> Leia um trecho de outro estória de Bertozzi, sobre o mágico Houdini




tags: Estados Unidos artes-visuais hq quadrinhos nick-bertozzi picasso salon braque cubismo gertrude-stein


 
Stein, Apollinaire... numa trama policial. boa sacada, não?
abraço

Marcilio Medeiros · Recife (PE) · 18/3/2009 14:47
Fiquei curioso!
Valeu a dica.
Abraço,
Viegas

Viegas Fernandes da Costa · Blumenau (SC) · 20/3/2009 15:22
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