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Objeto: saudade
 
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Paulo de Toledo, Santos (SP) · 21/1/2009 · 103 votos · 1
Roberto Coura e Amador Ribeiro Neto
Saudades
OBJETO: SAUDADE



Obras feitas a quatro mãos são mais ou menos comuns. Algumas dessas obras funcionam bem, parecendo até que as quatro mãos transformaram-se numa só, guiada por uma única e onisciente cabeça. Mas, em outros momentos, as quatro mãos parecem cada uma querer seguir um caminho diverso, como um monstro de várias patas que se rebela contra a mente que o tenta controlar.
Felizmente, o “livrobjeto” Imagens & Poemas (Ed. Universitária da UFPB, João Pessoa-PB, 2008), de Roberto Coura e Amador Ribeiro Neto, não se transformou em uma monstruosidade, mas, ao contrário, os autores conseguiram, na maior parte das vezes, criar aquilo que, na introdução do livro, chamaram de “terceiro objeto”: “Algo mais que poemas legendando fotos”.
Imagens & Poemas é formado por vinte lâminas de papel dobradas ao meio, sendo a face externa toda branca e a interna, composta por um poema (lado direito) e uma imagem (lado esquerdo). Além dessas vinte lâminas, há mais duas em que se lêem os dados bibliográficos, a introdução e as dedicatórias. E todas as lâminas são acondicionadas em uma caixa de papel cartão que também serve de capa ao “livrobjeto”.
Em nossa opinião, dentre os vinte poemobjetos que compõem a obra, o que mais alcança aquela unidade intentada pelos autores é o “Saudades”.
Como se pode ver, a fotografia foi modificada no computador, distorcendo não apenas as cores “naturais” do ambiente marinho, mas construindo uma imagem cheia de “ruídos” e “imperfeições”. Não se trata, absolutamente, de uma foto bela, de uma imagem de cartão postal.
O poema ao lado da fotografia já fora estampado no livro Barrocidade, de Amador, mas isso não quer dizer necessariamente que Roberto criou a fotografia para dialogar com o poema de Amador. Este poderia ter visto a imagem de Roberto e escolhido seu poema para “ilustrar” a imagem. Enfim, o que importa é que “Saudades” se nos mostra como um poemobjeto íntegro, em que as “voltas de tu em mim” são por nós sentidas não apenas pelos ecos sonoros espalhados pelo poema, mas também pelas ondas que vão e voltam sobre as negras pedras duras do tempo que não volta mais.
O céu e o mar acinzentados, meio sépias, carregam uma tristeza que se assemelha a uma dança em que um dos parceiros do bailado não está presente e o dançarino solitário agarra apenas a lembrança do calor daquela perdida mão amada.
No poema, lemos “brinco tupiniquim”, “coco de roda” e “cirandas”, termos que sugerem um mundo pré-urbano, um mundo mais ligado à natureza, à inocência, à “simplicidade”: “simples / como um brinco tupiniquim”.
Esse mundo natural também faz parte do ambiente marinho retratado, porém, na fotografia, a natureza soa mais brutal, mais selvagem, enquanto, no poema, a natureza parece entrar em harmonia com o homem por meio da dança e da música, como se o poemobjeto tentasse mostrar que a saudade pode ser uma onda violenta que arrebata tudo à sua frente, mas, ao mesmo tempo, essa mesma saudade, a despeito da imensa dor que provoca, pode ser transformada em lágrima mole que tanto bate até que cura.
Em Imagem & Poesia, a imagem da poesia e a poesia da imagem, como duas almas gêmeas, amalgamam-se: poesimagem.


tags: Santos SP literatura


 
Grande amigo, pesquisador, ensaísta, crítico e poeta Paulo de Toledo, como sempre criativo... Gostei muito do seu texto: poesimagem... Parabéns... Abs do Josealoisebahiabhzmg...

José Aloise Bahia · Belo Horizonte (MG) · 26/1/2009 14:34
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