Na última semana o site de compras Amazon disponibilizou para a venda no Brasil o Kindle. Aparelho com um monitor de seis polegadas com teclado em que é possível ler e-books. O custo dessa nova tecnologia ainda é alto para o mercado brasileiro, cerca de mil reais incluído frete e taxa de importação. Com o Kindle, é possível levar centenas de livros no bolso com a possibilidade de lê-los em qualquer lugar e fazer anotações utilizando o teclado.
Confesso que quando vi o aparelho fiquei curioso, porém, pensei nos meus livros em papel alguns deles datados do século XIX. O filósofo Roland Barthes, na introdução, se não me falha a memória, do livro A Câmara Clara, fala sobre sua sensação ao ver a foto de Napoleão, imaginar o que os olhos daquele personagem, ou a representação dele, viram. Com o livro penso não ser diferente, quando pegamos qualquer livro, seja novo ou usado, ele traz consigo sua trajetória, sua época.
Quando o livro é antigo, pode-se perceber a gramática, o tipo de letra, as formas de encadernação e, claro, a linguagem usada dependendo da época que foi impresso. Todos esses elementos trazem uma história, uma cultura, uma característica social. Quando é novo, observo a capa, as imagens contidas nela, o prazer de ser o primeiro a tê-lo, além do cheirinho de objeto novo. E quando esse novo é uma das primeiras reproduções de um clássico pouco conhecido? Porém, sua impressão é feita com técnicas do século XIX? Além disso, quem apostaria nesse mercado diante da expectativa de lançamento de e-books?
Pois bem, Vanderley Mendonsa, Criador do Selo Demônio Negro, responsável pela edição de O Guesa de Sousândrade, investe nesse mercado de livros feitos on demand. Ele contou, para o Sarau Literário, como foi o processo de edição e impressão do livro e das expectativas dessa nova publicação. Conta também sobre os lançamentos previstos para o final deste mês.
Quando possível eu comprarei um Kindle, porém, não abro mão de um bom livro em papel, afinal, nada é mais gostoso do que sentir as páginas correndo em suas mãos. E vocês o que acham?
Grande abraço a todos!
Sarau Literário (SL) - De quem partiu a idéia de editar O Guesa?
Vanderley Mendonsa (VM) – A idéia inicialmente nasceu da dificuldade de se encontrar este livro. Eu e o Prof. Vicente Pietroforte (USP) conversavamos com era difícil encontrar (até mesmo em bibliotecas) um livro tão representativo e importante na história da poesia brasileira. Das poucas edições fac-símile nas últimas três décadas, pouquíssimos leitores tiveram acesso. Embora seja muito fácil encontrar estudos e artigos sobre Sousândrade, o livro era quase impossível de se comprar.
SL – Como se deu o processo de edição?
VM – O que determinou nosso empenho em publicar foi justamente fazer um edição à altura da obra (não que as edições americana e inglesa sejam ruins, mas tem um aspecto gráfico que inferioriza o livro, como o corpo dos tipos gráficos muito pequenos, por ex., o formato…). E para isso resolvemos recompor o livro. Montamos uma equipe para digitar e corrigir o texto, a ortografia da época e padronizar alguns detalhes que prejudicaram sempre as edições fac-símiles, como partes borradas dos originais que se utilizavam, para reproduzi-los, alguns problemas de padronização da ortografia vigente (pois as casas impressoras eram de tipógrafos ingleses ou norte-americanos), que a equipe ligada à filologos da USP nos apontou e corrigiu.
SL – Gostaria que explicasse sobre o processo de impressão.
VM – O processo de impressão do selo Demônio Negro é um diferencial que buscamos. Misturamos nossa experiência em tecnologia gráfica e estudos dos sistemas de impressão e acabamento à nossa paixão pela tipografia e composição do livro como arte gráfica. Tentamos sair do aspecto “plástico” que o design do livro tomou nestes últimos tempos devido o excesso de recursos visuais e à formação dos artistas gráficos que conhecem muito pouco sobre a tipografia e suas relações históricas com a produção do livro.
Para produzir os livros do selo Demônio Negro buscamos um resgate da composição clássica das casas impressoras européias dos séculos XVI ao XIX, uso de materias que não são utilizados em processos de impressão industriais, como offset e impressão digital e acabamentos manuais. O Guesa, por exemplo, tem uma capa impressa e montada manualmente.
SL – Quais as expectativas para essa publicação?
VM – Nossas expectativas são muito claras: trabalhamos sob demanda. Não imprimimos milhares de exemplares por que acreditamos que também se pode publicar por outros meios que não apenas o livro impresso em papel. O diferencial é que desta forma mantemos a obra em catálogo permanentemente (salvo rompimentos de contrato com autor, herdeiros, etc), ao contrário dos métodos de publicação convencionais que fazem mil, dois mil ou três mil exemplares e depois de vendidos a obra fica esgotada.
Outros lançamentos que estão em fase final de produção: Pedra de Sol, de Octavio Paz, e 99 Poemas, do catalão Joan Brossa. Os dois bilíngues e para o final de outubro.
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