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O New York Times lança sua API: Why just read the news when you can hack it? (*)
 
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Cláudio de Souza Soares, Rio de Janeiro (RJ) · 27/11/2008 · 72 votos · 6
Cada vez menos saberemos o que é um jornal. Uma idéia, não será mistério, é menos original quando não a deslocamos de seus domínios costumeiros. Se ao contrário, a movemos, poucos graus que seja, à direita ou à esquerda, pode abrir portas até então aparentemente inexistentes que nos darão acesso a inúmeras possibilidades.

O que é um jornal? Se do ponto de vista do consumidor da informação, um jornal comprado na banca, era essencialmente um produto, na internet, esse “mesmo jornal” começa a ser visto como serviço [no fundo, sabemos, sempre o foi, mas não era um serviço customizável, personalizável]. Se hoje, ainda nos atemos mais à forma do que ao conteúdo [e o meio, afirmou McLuhan, influencia a mensagem], a perspectiva é real de que essa visão [limitada] mude, cada vez mais.

Continuemos. As interfaces gráficas da web [e antes, as dos sistemas operacionais gráficos] exportam para outros domínios profissionais, além da zona acinzentada da tecnologia da informação pura e simples, o paradigma da orientação a objetos, criado, utilizado e disseminado pelos desenvolvedores de software.

É McLuhan novamente, entendem?, só que agora movido alguns poucos graus à esquerda [ou a direita, se esta for a sua preferência].

Todos nós, independentemente da área profissional que atuamos, pensamos orientados a objeto, e estes são a soma de atributos e métodos configuráveis.

Um jornal, um livro, uma revista on-line também são objetos e [apesar de não ficar muito aparente] software em potencial.

A experiência de leitura e “manuseio” destes objetos é, e será cada vez mais, exclusiva de seu leitor. Este configurará o seu ambiente de leitura e essa experiência como melhor lhe aprouver.

Esta é a diferença básica da leitura em dispositivos de armazenamento de informação antigos, inflexíveis, como, por exemplo, o papel, e a experiência interativa da leitura em ambientes on-line.

Os jornais do futuro [e livros, revistas, entre outros formatos de distribuição da informação baseados em papel], em ambiente on-line, não serão muito diferentes dos ambientes integrados de desenvolvimento de software de hoje.

O futuro do livro e do jornal, inevitavelmente, é virar software!

Opa, esperem um momento, imaginemos, não será nenhum absurdo, que o futuro [concordarei com o que disse um inesquecível Papa] começa hoje, e se estica, simplesmente se expande. Então, devemos antes abrir os olhos e mover nosso olhar não para o distante amanhã [o presente deformado por sua natural elasticidade], mas para o inevitável e emergente agora.

Em outubro passado, quase desapercebidamente, aconteceu uma espécie de transmigração do “mundo tal e qual o conhecemos”, para uma nova concepção de acesso aos dados e informações da mídia impressa/digital de jornais [em breve, é certo, leremos essa notícia em relação aos livros].

O jornal The New York Times anunciou sua primeira API [Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicações] e os desenvolvedores de aplicações web passam a poder extrair informações diretamente dos bancos de dados do periódico e usá-los em suas próprias aplicações, interfaces e mashups.

Muito apropriadamente, no site criado pelo jornal para relacionamento com a comunidade de desenvolvedores de software, o Developer Network, pode-se ler a seguinte frase: “why just read the news when you can hack it?” [algo, como “por que SE contentar em apenas ler as notícias quando você pode hackeá-las?”].

Os olhos da mídia tradicional se abrem para o inevitável e, vindo do tradicional NY Times, a mensagem [como na canção de Bob Dylan] adquire maior contundência: hei, pessoal, acordem, os tempos são outros, e estão mudando rapidamente…

Talvez, é algo bastante provável, o NY Times deseja que o futuro realizado, seja bem diferente do sugerido [para a mídia tradicional, o vídeo EPIC 2015 é uma distopia].

Voltemos às APIs do NY Times. A primeira lançada, naturalmente, foi a Campaign Finance API, que permite acesso aos dados da campanha presidencial coletados pelo NYT. As outras APIs já disponíveis são a Movie Reviews API [faz buscas e recupera, por palavras-chaves, as críticas de cinema do NY Times], a TimesTags API [vasculha o conjunto de tags geradas pelas matérias] e a Community API [acessa o conteúdo gerado pelos usuários do NYTimes.com]. Um programa de gerenciamento de banco de dados, o DBSlayer, inicialmente de uso interno do NY Times, também já está disponível para download.

Para uma comunidade inteira de desenvolvedores de software de código aberto distribuída mundialmente, também foi criado um site especial: o Developer Network, onde se pode ler as últimas notícias, baixar atualizações e documentações das APIs, ver uma galeria de aplicações já desenvolvidas e acessar um fórum de discussão técnica com outros desenvolvedores.

Saberemos cada vez menos o que é um jornal [e um livro, não me canso de repetir] porque, como serviço on-line, todo o seu ciclo de produção será, cada vez mais, customizável. Os leitores escolhem as notícias que lhe são apresentadas na interface gráfica, interativa, personalizável do jornal [ou um amalgama de várias fontes] que lêem.

A integração de aplicações e serviços web através de APIs, gerais ou especializadas, permitirão a extração de dados de diferentes fontes e a integração e disponibilização desses dados de maneira não convencional e [característica do gênero humano] cada vez mais criativa.

Mas, isso, claro, não significa que o jornal morreu. Longe disso. Agora, sim, é que a história começa. Dialoguemos.

* Publicado, originalmente, no Pontolit [http://www.pontolit.com.br]

tags: Rio de Janeiro RJ jornalismo-midia new york times nyt pontolit claudio soares api mcluhan jornal livro software futuro


 
belo texto, muito bom.

O NOVO POETA.(W.MARQUES). · Franca (SP) · 26/11/2008 14:20
Obrigado, W.Marques. Sinto apenas [talvez por ser neófito no PL] por não poder acrescentar os links às referências citadas.

Cláudio de Souza Soares · Rio de Janeiro (RJ) · 26/11/2008 17:21
Cláudio, bem informativo seu texto. Lembrou-me de outras coisas que tenho lido, e podem servir mais como um contraponto entre a mídia norte-americana e nossa mídia nativa. Em um sentido contrário, não o de liberar e espalhar a produção do conteúdo da casa, mas o de se apropriar de forma indevida do trabalho dos outros, a Abril Blogs lançou uma proposta indecente, nos termos do jornalista Marcelo Träsel, que foi convidado a participar do projeto, lançado na semana passada.

A indecência vem de, entre outras questões, a permissão para a editora aproveitar-se de "conteúdo criado pelo usuário para veicular publicidade e auferir lucro dessa atividade", além de deter "os direitos de uso de todo o material criado pelos blogueiros, sem pagar um centavo por eles", como menciona Träsel. Lamentável, embora 100 blogueiros tenham entrado nessa.

Ah, sobre os links você pode acrescentá-lo clicando em "Link" e colando-o diretamente na janela que se abre. Qualquer dúvida, pode me enviar os links que publico lá para você.

Abraços e seja bem vindo!

Bruno Dorigatti · Rio de Janeiro (RJ) · 26/11/2008 19:22
Bruno, obrigado pela indicação, fui lá conferir o artigo do Marcelo.

Sabe, um dos motivos pelos quais criamos o PONTOLIT foi justamente participar, informar e estimular a discussão deste tema tão atual e surpreendentemente ainda tão pouco conhecido pelos "players" tradicionais do mercado de comunicação nacional: o impacto da tecnologia sobre os processos de leitura e escrita e, por consequência, de que forma editoras, jornais, leitores, escritores etc podem (e devem) adaptar essas novidades (não tão novas assim, sabemos) em seus modelos de negócio.

Mas, claro, existem formas diferentes de buscar essa adaptação.

Quero acreditar que no caso apresentado pelo Marcelo, a priori, haja uma contundente falta de entendimento (não do convidado, claro, mas de quem o convidou) do que representa a internet e a mudança de paradigma que ela traz à forma de se fazer negócios.

Cada vez menos haverá o domínio do broadcast. Internet é unicast ou multicast.

Os bloggers podem, claro, se juntar em grupos e empreendimentos maiores [muitos naturalmente ligados à mídia tradicional]. Entretanto, o caso relatado no post do Marcelo deve ser encarado como quase um vínculo empregatício, logo, trabalho a ser remunerado.

Já no caso do NYT, como eles ganham [mais] dinheiro? Seguindo a tendência de abrir o conteúdo incentivando a criação de novos serviços, logo, o marketing viral da sua marca. Mais ou menos o modelo do Google Books Search. É mais ou menos assim que funciona: "nós somos uma empresa de comunicação, não de TI, logo, criem suas gadgets e widget, acessem o nosso banco de dados e informações e, assim, todos nós ganhamos com esse novo modelo de se fazer negócios..."

Esse entendimento dos novos tempos, me parece, ainda foge a grande parte da mídia nacional (e empresas de outros setores tb). Na internet não se controla (pelo menos não se deveria) a informação. O modelo internet é compartilhamento. E, acredito, ainda é possível criar modelos de negócio neste cenário.

O grátis (naquela definição clássica da free software foundation) é "free like in free speech, not as in free beer", entende? Agora, os preços inevitavelmente cairão. Ganha-se na quantidade.

Ontem, no Twitter do Pontolit, informamos, por exemplo, os mais de 10.000 assinantes [pagos] do NYT pelo Kindle [mais do que um produto, um sensacional serviço de assinaturas] e sobre a experiência de um autor que mantém a venda constante de um romance beta [draft] pelo Kindle Books, a cerca de US$ 3.00.

Ficaria mais claro, se todos os setores da economia, seguissem [pois está lá o aprendizado] como o conceito “free”, “open source” impactou antes as próprias empresas de tecnologia.

Obrigado pelas boas vindas.

Forte abraço!

Cláudio de Souza Soares · Rio de Janeiro (RJ) · 28/11/2008 13:35
Excelente, Cláudio! Sobre a questão do grátis, da cultura livre, escrevi algumas coisas que linko abaixo.

> O mundo é livre

> Brasil grátis

> Pirata bom, pirata mau

> Indústria vs. Cultura livre

> Cultura livre

> A guerra dos direitos autorais

Abraços,
Bruno

Portal Literal 2.0 · Rio de Janeiro (RJ) · 28/11/2008 14:25
É isso mesmo Bruno. Lerei com atenção seus artigos, mas já reconheço aqui uma saudável compatibilidade de idéias com autores bastante preocupados e engajados na discussão do tema [Anderson, Lessig, entre outros].

No mês passado, o Pontolit publicou uma tradção do Rodrigo Velloso [do Google] para um artigo muito interessante do Kevin Kelly: "Melhor que Grátis". Por que pagaríamos por um produto que podemos conseguir grátis na web? Neste artigo, o Kevin relaciona oito categorias de valor intangível que compramos quando pagamos por algo que poderia ser grátis: imediatismo, personalização são algumas delas.

Forte abraço!

Cláudio de Souza Soares · Rio de Janeiro (RJ) · 28/11/2008 15:06
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