Cada vez menos saberemos o que é um jornal. Uma idéia, não será mistério, é menos original quando não a deslocamos de seus domínios costumeiros. Se ao contrário, a movemos, poucos graus que seja, à direita ou à esquerda, pode abrir portas até então aparentemente inexistentes que nos darão acesso a inúmeras possibilidades.
O que é um jornal? Se do ponto de vista do consumidor da informação, um jornal comprado na banca, era essencialmente um produto, na internet, esse “mesmo jornal” começa a ser visto como serviço [no fundo, sabemos, sempre o foi, mas não era um serviço customizável, personalizável]. Se hoje, ainda nos atemos mais à forma do que ao conteúdo [e o meio, afirmou McLuhan, influencia a mensagem], a perspectiva é real de que essa visão [limitada] mude, cada vez mais.
Continuemos. As interfaces gráficas da web [e antes, as dos sistemas operacionais gráficos] exportam para outros domínios profissionais, além da zona acinzentada da tecnologia da informação pura e simples, o paradigma da orientação a objetos, criado, utilizado e disseminado pelos desenvolvedores de software.
É McLuhan novamente, entendem?, só que agora movido alguns poucos graus à esquerda [ou a direita, se esta for a sua preferência].
Todos nós, independentemente da área profissional que atuamos, pensamos orientados a objeto, e estes são a soma de atributos e métodos configuráveis.
Um jornal, um livro, uma revista on-line também são objetos e [apesar de não ficar muito aparente] software em potencial.
A experiência de leitura e “manuseio” destes objetos é, e será cada vez mais, exclusiva de seu leitor. Este configurará o seu ambiente de leitura e essa experiência como melhor lhe aprouver.
Esta é a diferença básica da leitura em dispositivos de armazenamento de informação antigos, inflexíveis, como, por exemplo, o papel, e a experiência interativa da leitura em ambientes on-line.
Os jornais do futuro [e livros, revistas, entre outros formatos de distribuição da informação baseados em papel], em ambiente on-line, não serão muito diferentes dos ambientes integrados de desenvolvimento de software de hoje.
O futuro do livro e do jornal, inevitavelmente, é virar software!
Opa, esperem um momento, imaginemos, não será nenhum absurdo, que o futuro [concordarei com o que disse um inesquecível Papa] começa hoje, e se estica, simplesmente se expande. Então, devemos antes abrir os olhos e mover nosso olhar não para o distante amanhã [o presente deformado por sua natural elasticidade], mas para o inevitável e emergente agora.
Em outubro passado, quase desapercebidamente, aconteceu uma espécie de transmigração do “mundo tal e qual o conhecemos”, para uma nova concepção de acesso aos dados e informações da mídia impressa/digital de jornais [em breve, é certo, leremos essa notícia em relação aos livros].
O jornal The New York Times anunciou sua primeira API [Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicações] e os desenvolvedores de aplicações web passam a poder extrair informações diretamente dos bancos de dados do periódico e usá-los em suas próprias aplicações, interfaces e mashups.
Muito apropriadamente, no site criado pelo jornal para relacionamento com a comunidade de desenvolvedores de software, o Developer Network, pode-se ler a seguinte frase: “why just read the news when you can hack it?” [algo, como “por que SE contentar em apenas ler as notícias quando você pode hackeá-las?”].
Os olhos da mídia tradicional se abrem para o inevitável e, vindo do tradicional NY Times, a mensagem [como na canção de Bob Dylan] adquire maior contundência: hei, pessoal, acordem, os tempos são outros, e estão mudando rapidamente…
Talvez, é algo bastante provável, o NY Times deseja que o futuro realizado, seja bem diferente do sugerido [para a mídia tradicional, o vídeo EPIC 2015 é uma distopia].
Voltemos às APIs do NY Times. A primeira lançada, naturalmente, foi a Campaign Finance API, que permite acesso aos dados da campanha presidencial coletados pelo NYT. As outras APIs já disponíveis são a Movie Reviews API [faz buscas e recupera, por palavras-chaves, as críticas de cinema do NY Times], a TimesTags API [vasculha o conjunto de tags geradas pelas matérias] e a Community API [acessa o conteúdo gerado pelos usuários do NYTimes.com]. Um programa de gerenciamento de banco de dados, o DBSlayer, inicialmente de uso interno do NY Times, também já está disponível para download.
Para uma comunidade inteira de desenvolvedores de software de código aberto distribuída mundialmente, também foi criado um site especial: o Developer Network, onde se pode ler as últimas notícias, baixar atualizações e documentações das APIs, ver uma galeria de aplicações já desenvolvidas e acessar um fórum de discussão técnica com outros desenvolvedores.
Saberemos cada vez menos o que é um jornal [e um livro, não me canso de repetir] porque, como serviço on-line, todo o seu ciclo de produção será, cada vez mais, customizável. Os leitores escolhem as notícias que lhe são apresentadas na interface gráfica, interativa, personalizável do jornal [ou um amalgama de várias fontes] que lêem.
A integração de aplicações e serviços web através de APIs, gerais ou especializadas, permitirão a extração de dados de diferentes fontes e a integração e disponibilização desses dados de maneira não convencional e [característica do gênero humano] cada vez mais criativa.
Mas, isso, claro, não significa que o jornal morreu. Longe disso. Agora, sim, é que a história começa. Dialoguemos.
* Publicado, originalmente, no Pontolit [http://www.pontolit.com.br]
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