Entrar
Novo no Literal? Registre-se
O mestre do cotidiano
 
1
Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 1/8/2008 · 24 votos · nenhum
  
Publicado originalmente em 12/10/2004.

Fernando Sabino morreu na véspera de completar 81 anos, mas deixou na lembrança dos amigos o jeito moleque. Leia aqui o depoimento de Zuenir Ventura e "A última crônica", de Sabino.


"Acho que o Fernando foi um mestre da crônica, um dos maiores que já tivemos, eu e todos os meus colegas nos sentimos aprendizes diante dele. Ele teve um mérito enorme em recriar o cotidiano, o dia-a-dia, os personagens, recriando-se de tal maneira que a gente começava a achar que era o cotidiano que imitava o Fernando e não o contrário. Era sempre um texto com muito humor, muita graça, muito cristalino. Sem falar que ele é o autor de O encontro marcado, uma referência para várias gerações, inclusive a minha. Além disso, o Fernando era uma figura humana riquíssima, porque nele se misturavam o autor e a pessoa. Não tinha essa divisão, ele era igualmente divertido tanto na escrita quanto na vida, era tão agradável conversar com ele quanto ler seus textos. Era um convívio muito gostoso, divertido. Fernando era um homem que tinha muitas histórias para contar, principalmente de mineiro. Lembro de uma que resumia o quanto o mineiro era desconfiado. Fernando dizia que, se uma pessoa perguntasse para o mineiro qual o seu nome inteiro, ele responderia: "Qual a parte que você sabe?" Foi uma perda terrível."

Zuenir Ventura

______________________________________


A última crônica
Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.


Crônica publicada no livro A companheira de viagem (Editora Record, 1965).



tags: Rio de Janeiro RJ literatura a-ultima-cronica cronica morte falecimento zuenir-ventura fernando-sabino sabino literatura-online


 
Nenhum comentário até agora!
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Portal Literal, e adicione seus comentários em seguida.



visite nossa seção de perguntas mais freqüentes
                                 
Termos de uso | Expediente | Privacidade | Alerta
Salvo indicação em contrário, todo o conteúdo (c) 2009 Portal Literal e seus autores