A necessidade já foi a mãe da invenção; agora é a invenção que é a mãe da necessidade.
Basta olhar à sua volta. Você consegue imaginar sua vida sem celular, laptop, controle remoto, acesso à internet, pen drive, cartão com chip? Você não se pergunta, às vezes, como é que os mais velhos (incluindo aí seus pais) faziam para se virar no passado? TV em preto e branco, ligações de longa distância via telefonista, ausência total de qualquer tipo de controle remoto, filmes de fotografias que demoravam uma semana para serem revelados...
A tecnologia digital não está deixando pedra sobre pedra e, além de criar novidades jamais sonhadas, reinventa constantemente aquilo que já existe. Assiste-se ao vídeo no computador, televisão, celular; a música virou intangível (alguém já viu um arquivo de mp3?); a imagem digitaliza-se e se multiplica à velocidade da luz. A distinção entre original e cópia simplesmente desaparece, já que o original traz em si a própria cópia, e a cópia nada mais é do que o original.
Chegou a vez do livro. Esta invenção, cuja paternidade é atribuída a Gutenberg, viveu sossegadamente entre nós pelos últimos 500 e tantos anos, sempre no mesmo formato (exigindo a leitura sequencial, página após página) e no mesmo suporte físico (o bom e velho papel). Pois não inventaram o livro eletrônico? O Kindle, da Amazon, e o Sony Reader são os dois produtos líderes de mercado, e o recém-lançado Nook, da Barnes & Nobles, promete não fazer feio.
Pausa. Aqui cabe uma rápida explicação sobre o conceito de livro eletrônico, que na realidade significa duas coisas distintas: o aparelho específico que possibilita ler de forma digital (os acima citados), e o conteúdo em si (os arquivos). O que é novo é o suporte tecnológico, pois os escritos digitais já existem há um belo tempo.
E, como sempre, quando surge uma nova tecnologia que ameaça mudar o jeito de como as coisas sempre funcionaram, a chiadeira acontece. Quando o rádio foi inventado, as gravadoras da época tentaram impedir a todo custo que as estações tocassem música, pois temiam que ninguém nunca mais comprasse discos. Na década de 60, no século passado, o lançamento do mini K7 gerou o mesmo medo avassalador; cada LP adquirido em loja poderia gerar umas dezenas de cópias destas fitas domésticas, e perderiam-se vendas. O advento do mp3, no final da década de 90, tornava possível a utopia de se comprar apenas um CD, oficialmente, e de distribuir infinitas cópias digitais pelo mundo afora .
A única resposta que a indústria da música conseguiu dar foi negar esta nova realidade de ouvir música e tentar punir crianças, vovozinhas e malfeitores que pirateavam (e ainda pirateiam) pela internet. Fomos todos empurrados para o crime, e aprendemos a gostar da situação. Baixado não é roubado está quase virando um artigo do Código Penal, mas isto é assunto para outro dia.
Acredito, porém, que a indústria do livro seja um pouco mais inteligente, e que saiba defender seus legítimos interesses comerciais de forma criativa, proativa, produtiva e lucrativa.
Novas tecnologias criam novos ambientes... que promovem novos hábitos... que geram novos comportamentos de consumo. Dependendo de que lado da mesa você está, ou em que ponto da linha da vida, sua reação pode ser desde a aceitação imediata à recusa total daquilo que se oferece. É difícil largar velhos hábitos quando já se está há algum tempo na estrada, é fácil pegar carona na modernidade quando o mundo está aí para ser descoberto.
A polêmica sobre o livro eletrônico (é bom? vai pegar? o livro de papel vai morrer?) chegou junto com o anúncio do lançamento destas novidades tecnológicas no Brasil. Gente que nunca viu um leitor eletrônico destes já emite opiniões definitivas sobre o triunfo da tecnologia e a decadência do velho livro, ou exatamente o oposto – a permanência eterna do livro impresso entre nós em detrimento deste brinquedinho. A bola de cristal cibernética nunca foi tão lustrada e consultada como hoje, e as previsões e palpites não passam de palpites e previsões.
A única coisa fácil de prever é o que já passou.
O que está acontecendo, na realidade, é que pouca gente realmente entendeu do que se trata; não é do livro, mas sim da leitura. Predizer a morte do livro físico equivale à profecia autorrealizável de jovem que nunca abriu um romance ou história policial e mergulhou em suas páginas; ignorar os avanços tecnológicos, e suas influências em nossas percepções e hábitos, soa mais como lamúria de velho com medo de envelhecer ou incapacidade de acompanhar as mudanças do mundo digital.
Examinemos de perto o livro eletrônico, e percebamos que ele não é apenas a versão digital do livro físico; é muito, muito mais! É o superlivro no modo mega hiper blaster total; confira aqui os acessórios originais de fábrica (variações existem de modelo a modelo):
;; busca de palavra ou expressão
;; dicionário embutido
;; imagens animadas, áudio e vídeo (multimídia)
;; hiperlinks e referências cruzadas com outros livros, revistas online, blogs...
;; realce de texto, marcação de página e anotações
;; empréstimo do livro e envio de trechos/anotações para outras pessoas
;; modo de leitura texto para voz
;; atualização automática do conteúdo
;; oferta de mais de 1.000.000 de livros gratuitos e mais de 360.000 a preços razoáveis (no exterior, a menos de R$ 20,00)
;; leitura no computador, celular, e-book reader...
O assunto aqui é o futuro da leitura, e não o futuro do livro. Os dois livros (as duas formas de leitura) podem e deverão conviver pacificamente, e é irrelevante discutir sobre isto. Os debates sobre prós e contras, a apaixonada defesa de um ou outro, as crônicas saudosistas de uma morte que ainda não se consumiu cheiram a ranço.
Temos aqui e agora dois formatos (suportes, hardwares) distintos. O impresso, em papel, com o qual dezenas de gerações cresceram e todo leitor que se preze mantém uma saudável dependência psicológica; o eletrônico, hoje ainda em formato duro, e que talvez possa se tornar maleável e dobrável no futuro próximo. A tecnologia oferece as opções, nós escolhemos e adotamos o que nos agrada.
A maneira de ler modifica-se com a introdução de novas tecnologias (estruturas, dispositivos e sistemas) e técnicas (nossa habilidade em usar estas tecnologias). O livro eletrônico não é a mera digitalização do livro impresso, e sim o aprendizado e a conquista de um novo modo de leitura. Todas as funções descritas acima – e as vindouras – nos permitem e ensinam a ler de forma não linear, fragmentada, sobreposta, múltipla e compartilhada – instantaneamente – com terceiros.
Ainda estamos nas páginas iniciais desta história, cujo fim ainda não se escreveu. E mesmo que o livro físico desapareça, sempre se poderá imprimir o arquivo digital e mandar encaderná-lo.
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Jerome Vonk é editor da Casa do Psicólogo (jerome@casadopsicologo.com.br), está mais para a harpa celestial do que para a guitarra da juventude, e não só lê compulsivamente como também cheira livros há mais de 40 anos; pedir um de seus exemplares emprestados soa-lhe como total falta de educação e afronta pessoal.
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