Publicado originalmente em 04/02/2004.
Hilda Hilst morre aos 73 anos depois de um fim de vida sofrido para o corpo, mas feliz para sua obra sempre superficialmente rotulada como "maldita": seus livros estão sendo relançados pela editora Globo e retratam a força de sua prosa e sua poesia.
Depois de mais de seis anos enfrentando problemas de saúde e perdendo, gradativamente, o interesse pela escrita e a leitura, morreu na madrugada desta quarta-feira (4/2), aos 73 anos, Hilda Hilst, uma das personalidades mais fascinantes da literatura brasileira. Ela estava internada desde 2 de janeiro no Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas, em função de uma fratura na perna. Uma infecção hospitalar piorou seu fragilíssimo estado de saúde e ela não resistiu. Hilda lançou 41 livros, mas ao vender os direitos sobre sua obra para a editora Globo, em 2000, a resumiu em 11 livros de prosa e oito de poesia. Para uma autora que sempre foi tachada de "maldita", "obscena", "difícil", "não-comercial", ver seus títulos relançados por uma grande editora foi o final feliz de uma trajetória acidentada. Há boas chances de o tempo vir a comprovar que há muito mais beleza e importância na obra de Hilda do que apenas o fascínio um tanto mórbido por sua suposta maldição.
Reunidos sob um mesmo e bonito projeto gráfico, já estão disponíveis pela editora Globo os seguintes títulos:
A obscena senhora D,
Júbilo, memória, noviciado da paixão,
Cantares,
Kadosh,
Exercícios,
Bufólicas,
Cartas de um sedutor,
Contos d'escárnio/Textos grotescos,
Fluxo-floema,
Rútilos,
Da morte. Odes mínimas. A editora pretende lançar os livros restantes até 2005. Com isso, ficará a obra (ou, pelo menos, o sumo da obra) de Hilda preservada. Já o arquivo pessoal da escritora está, desde 1995, no Centro de Documentação Alexandre Eulálio, do Instituto de Estudos de Linguagem, da Unicamp, fornecendo subsídios para os mais diversos estudos – Hilda é tema de inúmeras teses, inclusive em países europeus onde livros seus já foram traduzidos.
Hilda vivia desde 1966 na Casa do Sol, um sítio perto de Campinas que construiu dentro do terreno da Fazenda São José, da família de sua mãe. Com poucos anos de diferença, entre os anos 1960 e 1970, perdeu o pai e a mãe, ambos tendo passagens por sanatório, ambos referências marcantes para sua literatura. Sem filhos, tendo se casado apenas uma vez - com um grande amigo, o escultor Dante Casarini – Hilda viveu as últimas décadas entre dezenas de cachorros e gatos vira-latas em seu sítio. A reclusão era fato, mas não chegava a ser total. Recebia e hospedava amigos com grande freqüência, entre muitos outros Caio Fernando Abreu e sua grande amiga Lygia Fagundes Telles. Ao optar pela Casa do Sol, largou de vez a vida mundana da juventude, quando, mulher linda e liberal, teve vários amores, sendo alguns namoricos com gente como Dean Martin, Tony Curtis e Howard Hughes. Uma de suas histórias mais conhecidas se deu em Paris, quando conseguiu entrar no quarto de Marlon Brando, que não se interessou pelo que ela pretendia oferecer. "Fiz uma grande cafajestada com Marlon Brando. Acordei o homem a 1 hora da manhã e ele ficou puto da vida. Falei uns dez minutos com ele e acho que ele ficou me odiando!", escreveu ela em 1957 para Lygia.
Também para Lygia, numa carta de janeiro de 1974, escreveu algo especial enquanto recordava momentos vividos pelas duas: "É incrível como tudo isso da memória não termina, um acúmulo de retratos dentro da gente, um acúmulo de sorrisos, de reticências, vida em cima de vida, e a gente respirando cada vez mais depressa, um dois um dois, até bater com o peito na corda da chegada. Em algum lugar deve haver uma corda".
O caminho de vida e literatura de Hilda Hilst foi perfeita e brilhantemente traçado em dezembro passado num artigo de José Castello para o No Mínimo, site parceiro do Portal Literal. Jornalista, crítico e amigo de Hilda, Castello faz um perfil inigualável da escritora, e por isso indicamos.
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