Bernardo Carneiro Horta
"Nise, você não é psiquiatra, você é maluca!" (Graciliano Ramos)
No fim dos anos 1980, um grupo de colegas que se formaram juntos em comunicação, do qual eu fazia parte, decidiu realizar um trabalho audiovisual que priorizasse a
imagem. Havia algum tempo, acontecera uma exposição com obras de internos do Hospital Psiquiátrico Pedro II, confeccionadas no Museu de Imagens do Inconsciente, fundado pela Dra. Nise da Silveira, médica e psiquiatra. Ao ler a reportagem de capa sobre o assunto, numa revista semanal carioca, fiquei impactado com as pinturas e esculturas. Além de criatividade, força imagística e estética arrojada, me impressionou especialmente a figura de Nise na foto em que estava com um gato no colo. Sua história me comoveu e tive vontade de conhecê-la, mas não sabia como me aproximar. Passei a admirá-la, à distância.
Quando o filme
Imagens do inconsciente, de Leon Hirszman, sobre a obra da Dra., foi exibido no circuito comercial, nosso grupo teve a chance de assisti-lo, o que foi fundamental para a decisão de visitar o Museu, no bairro carioca de Engenho de Dentro. Ao chegar lá, percebi que o acesso à instituição era mais facilitado do que parecia. Após a visita, pedi um estágio de dois meses, que me foi concedido. Neste período, ia cerca de três vezes por semana a Engenho de Dentro e passava a tarde inteira observando os internos atuarem nas diversas atividades – eles pintavam, desenhavam, esculpiam e encadernavam, com o acompanhamento de monitores, psiquiatras e psicólogos. De cara, percebi a forte presença de elementos espirituais e religiosos na loucura, com citações que abordavam principalmente a figura de Jesus Cristo. Comentei esta descoberta com meu grupo, que também considerou tal manifestação interessante.
Fugindo ao padrão acadêmico, no qual teses e documentários apresentam o louco sob um olhar distante e analítico, resolvemos realizar um audiovisual em que o protagonista fosse o esquizofrênico. Para isso, seguindo a sugestão dos internos, adaptamos a via-crúcis relatada no Evangelho de São João para dentro do hospício - colocamos o louco no papel de Cristo, e a crucificação simbolizava a própria loucura. Num processo despretensioso e discreto, coletamos diálogos, frases, observações e fotografamos obras relativas a estes temas. Os dois meses em que freqüentei o Museu foram duros e por muitas vezes passei mal, com vômitos e dores de cabeça. Minha admiração pelas pessoas que trabalham ali aumentou, especialmente pela Dra. Nise da Silveira, que dedicou décadas de sua vida à criação e à manutenção do Museu. Uma vez pronto e apresentado, o audiovisual foi bem recebido e os terapeutas de Engenho de Dentro sugeriram que mostrássemos o trabalho para a Dra. Então, surgiu a oportunidade de conhecê-la de forma espontânea e adequada.
Nós, estudantes do grupo, temíamos pela sua reação por sabermos tratar-se de uma pessoa extremamente rigorosa e de posições muito definidas. Estávamos ansiosos. Contaram-nos que, em determinadas situações, ela não hesitava em expulsar gente de seu escritório-biblioteca, na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. No dia da apresentação do trabalho, o nervosismo era geral. Dra. Nise chegou na cadeira de rodas, trazida por uma acompanhante e por sua amiga, Dra. Alice Marques dos Santos, também psiquiatra. Entrou muda e continuou calada. A figura de Nise, idosa, com as mãos levemente contorcidas e o corpo afundado da cadeira, era marcante - sobretudo, pelo olhar atento e profundo, lúcido e sagaz. O que o tempo havia desfeito no físico, a experiência potencializara no intelecto e nos sentimentos. Nise estava vivíssima num corpo antigo, consciência eterna e iluminada na queda livre da matéria.
No final de nossa apresentação, acendemos a luz da biblioteca e, por minutos intermináveis, ela permaneceu muda com as duas mãos juntas, na altura da boca. Todos calados, aguardávamos sua reação, mas ninguém ousava perguntar. De repente, ergueu os dois braços para cima, como quem festeja, e disse em tom épico: "Viva! Então vocês vestiram o escafandro e mergulharam fundo..." Tal era minha ignorância, já com vinte e tantos anos, que, sinceramente, eu não sabia o que significava
escafandro. "Eu preciso de escafandristas que estejam dispostos a mergulhar no fundo da psique, que acompanhem a viagem do esquizofrênico e depois retornem à superfície com ele", prosseguiu Nise, enfática.
A Dra. havia gostado do audiovisual e pudemos, então, relaxar e bater um papo mais descontraído. Nise e Alice fizeram outros comentários sobre o trabalho e, ao final do encontro, a Dra. me convidou para visitar o Grupo de Estudos C.G.Jung, que reunia-se ali em todas as quartas-feiras. "Aqui estudamos Jung, mas também há lugar para Freud, Spinoza, Marie-Louise von Franz, Nietzsche, Laing e Bachelard", disse, em tom de brincadeira. Vale registrar que foi a única grande intelectual brasileira do século XX que semanalmente abria sua biblioteca para todos que quisessem mergulhar na obra de Jung. Não se pagava nada, e quem preferisse não precisava dizer seu nome, profissão e nem por que tinha vindo. Para minha surpresa, ela era aberta e acessível.
Na quarta seguinte eu estava lá e, após algumas semanas, me tornei integrante do Grupo de Estudos. Com o passar do tempo, fui compreendendo que ali encontrava-se um gênio vivo - uma jóia de valor incalculável. No apartamento-biblioteca, repleto de livros raros, também viviam vários gatos que urinavam livremente sobre as obras - pelo cheiro, era fácil adivinhar. Ao longo de décadas, dezenas de felinos tinham passado por ali – ela chegou a criar 23 deles ao mesmo tempo. Havia algo de animal na genialidade de Nise, quem sabe para conter sua humanidade excessiva. Na sala, ficavam uma mesa retangular, cadeiras e, em torno, bancos de madeira. As janelas permaneciam fechadas para que os gatos não caíssem e o ventilador era ligado na potência mínima, para a Dra. Não se gripar. Nos dias de calor, um desafio... Não era pra qualquer um. "Aqui, prefiro os que sentam nos bancos, pois eles compreendem melhor a natureza deste Grupo. Nunca dei importância a letreiros, como: 'médico', 'psicólogo', 'advogado'... Prefiro pessoas sem muitos babados, inteligentes, sensíveis, que dispensam títulos e diplomas", costumava dizer. “Para estudar, preciso de pescadores, gente simples, boa e com disposição.”
Durante a leitura, ela permanecia concentrada e atenta - somente ao final da reunião falava sobre Jung e a Psicologia Analítica, fundamentada por ele. Às vezes, mencionava Freud, quem também admirava. "Freud abriu a porta para o século XX, mas não entrou. Ficou no XIX", brincava. "A psiquiatria tradicional perdeu totalmente suas bases, precisamos de uma nova psiquiatria. Nos últimos séculos, a física deu um grande salto, ela dá o tom de todas as ciências, em todas as épocas - tenho uma grande admiração por Einstein. Então, é preciso que as outras ciências também saltem. Geralmente, os psiquiatras não olham no olho do cliente (esquizofrênico), e o olhar do cliente é um tesouro preciosíssimo. Sem a relação de uma pessoa com outra, não há cura possível. Psiquiatria é a compreensão do processo psicótico, o que está ocorrendo com o indivíduo em sua relação com o mundo exterior e com seu mundo interior - e não entupir as pessoas com remédios para acalmá-las. Às vezes, remédios são necessários para amansar bicho brabo, mas isso não é psiquiatria. Psiquiatria é entender o processo interno psíquico e, para se fazer isso, não é preciso ser psiquiatra. Há uma tendência de tentar ajustar o louco aos costumes da sociedade, mas confesso que considero esta sociedade mais louca que os esquizofrênicos. O psiquiatra deve vestir o escafandro e mergulhar dentro da psique, não adianta distribuir carteiras de identidade do Instituto Félix Pacheco. Afinal, o que Napoleão e Maria Antonieta vão fazer com uma carteira dessas na mão? Nada. Na verdade, aprendi mais com os animais do que com os psiquiatras", disparou Nise, certo dia.
Empolgado com o que aprendia naquele Grupo fantástico, eu anotava tudo incessantemente. Nise não gostava, achava estranho. Simpatizava comigo, mas inicialmente mantinha uma distância estratégica. Era desconfiada. Dependendo da fase, até mesmo agressiva. Uma vez, irritou-se de tal forma com minhas anotações e metralhou: "Pára com isso! Vê-se bem que você é jornalista, inconveniente, oportunista, ignorante, não entende de nada! É perigoso... Calado!!! Você é burro! Está anotando o que eu digo pra quê? Vai mandar para Platão?!" Eu levava na brincadeira - e foi exatamente por isso que consegui me aproximar cada vez mais da Dra. Com ela, era preciso não levar o dito ao pé da letra. Havia muito de coração na história. Ela se expressava exageradamente, com franqueza e emoção exposta, e muita gente não estava preparada. Naquele mesmo dia em que me xingou na frente de todo mundo, me chamou ao final da reunião e disse baixinho no meu ouvido: "Não gosto de quem não reage às minhas broncas e abaixa a cabeça. Quando brigo com alguém, gosto que reaja" - e me olhou com carinho e firmeza. Convivi somente 12 anos com a Dra., por oito, estive sempre com ela - e durante cinco deles freqüentei assiduamente o Grupo. Apenas após dois anos de amizade, Nise passou a confiar em mim. Era radical.
De tempos em tempos, dependendo da situação, de fato expulsava pessoas da biblioteca. "Veio um pessoal me entrevistar, mas as perguntas eram fúteis e riam do que não tinha graça. Então eu disse: 'Podem ir embora, vocês não entenderam nada!' Meu lado Lampião não se segurou. Na verdade, tudo o que não quero é ferir gente que amo, mas quando vejo, já fiz." Lembro-me de que uma moça veio conhecer o Grupo de Estudos C.G.Jung e, sincera, disse que não entendia o porquê de o Grupo se chamar assim. A Dra. Nise ficou olhando por alguns segundos para ela e disse: "A sua sorte é que eu não como carne vermelha, senão dava uma mordida no seu braço." A gargalhada foi geral. Quando queria, Nise era muito engraçada. No entanto, a moça ficou sem graça. "O Grupo de Estudos C.G.Jung é a raiz do meu trabalho, a base de tudo, é o instrumento com o qual melhor sei trabalhar. Me sinto como uma costureira, com cinco, sete tesouras, mas que prefere uma delas para costurar", acrescentou, com bom humor. E mesmo para falar da própria morte, brincava: "Quando eu me mudar para outra galáxia..."
Olhando para ela, durante as reuniões, eu pensava: "Como essa mulher, durante 40 anos, conseguiu despencar do Flamengo para Engenho de Dentro e lidar com o que há de mais difícil e sofrido na condição humana, com poucos recursos e dificuldades burocráticas? É inacreditável..." Mas ela o havia feito - e muito mais. Além de fundar o Museu de Imagens do Inconsciente, criou o Grupo de Estudos, abriu a Casa das Palmeiras (para readaptação do esquizofrênico à sociedade, após a internação) e instituiu uma Sociedade de Amigos do Museu, com intuito de garantir sua manutenção. "A palavra recuar não faz parte do meu dicionário", afirmava, séria.
Aos poucos, além de admirador e aprendiz, tive o privilégio de me tornar seu amigo. Num domingo, ao visitá-la, perguntei como havia começado seu trabalho, de que ponto tinha partido. Nise respondeu: "Tudo começou com um rol de roupas. Foi ao assistir uma interna, considerada demente, corrigir a grafia da palavra
peignoir numa lista que me convenci de que não havia demência nenhuma." Nise, desde nova, recém-formada, era anticonvencional, rebelde e questionadora. Já no início de sua carreira, nos anos 1930, quando trabalhava no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, deixava que os internos a penteassem à moda Luís XV e circulava pelo hospício à vontade. Seus colegas psiquiatras riam e não conseguiam compreender aquela atitude aparentemente sem sentido.
Uma de suas principais qualidades era a obstinação. "Há no meu temperamento essa fúria. Quando quero uma coisa, eu insisto. Todo o dia, sem falta, eu levantava cedo, pegava o ônibus e ia trabalhar em Engenho de Dentro. Todo dia, todo dia... Nada me tirava daquele caminho. Mas não era fácil, havia muitas dificuldades: burocracia, resistência a mudanças, falta de material. Por isso, quando eu entrava no Hospital Psiquiátrico Pedro II, dizia a saudação de Buda: 'Paz a todos os seres.' É preciso ter tutano para se fazer certas coisas."
Convivendo com a Dra., percebi, lentamente, que o resultado genial de seu trabalho havia nascido da realização cotidiana de atividades criativas. Inicialmente, me pareceu inacreditável - mas era isso mesmo. Seu trabalho foi desenvolvido ao longo de décadas, tecido com incrível paciência: "No Hospital, eu apenas observava os clientes do Museu de Imagens do Inconsciente desenhando, pintando, modelando. Não criticava, não falava nada. Apenas olhava contemplativamente, gostando, aprovando." Desta forma, Nise atingia seu objetivo – de que os internos se manifestassem espontaneamente através da produção plástica de imagens. Ela sabia que, somente assim, poderia entrar em contato com seus mundos interiores e, conseqüentemente, com a possibilidade da cura, da reintegração à sociedade. Foi Jung quem lhe revelou que o esquizofrênico se comunica através de imagens profundas, míticas, arquetípicas – ao contrário dos denominados neuróticos, que costumam tratar-se pela expressão da palavra.
Generosa, inteligentíssima, perspicaz, bem-humorada e agradável - assim ela se mostrava em muitos momentos. Noutras vezes, agressiva, insensível, arrogante, irritada, chata. Arrojada nas idéias, não fazia questão de acompanhar os avanços tecnológicos da cultura: "Pra mim, manusear estas máquinas é muito difícil! Cheguei ao telefone por um milagre e, hoje, tenho medo de computadores, como se fossem baratas. Fax, me explicaram, mas não entendi. Não gosto de gravador, é coisa mal-assombrada. Essas tecnologias são um atentado contra a privacidade das pessoas. Gosto muito de segredos, eu penso e me calo, não tem quem me arranque o pensamento. Falo muito aqui no Grupo de Estudos, mas normalmente sou igual a sururu, uma ostrinha que custa a sair da casca".
Anticartesiana, tendia mais para Dioniso do que para Apolo. Nise não andava em linha reta, não tinha início-meio-e-fim, nem classificava em ordem alfabética. Conviver com ela era um constante aprendizado entrecortado em diferentes assuntos, entremeado com longas pausas - como saltos para uma compreensão mais profunda e para a escolha das palavras certas. Não havia seqüência didática. Uma coisa solta, livre. Era preciso estar atendo para entender. Pra mim, trepidante numa adrenalina quase adolescente, mais parecia um labirinto. "Eu sei a história, mas não me lembro das datas. Não sou muito de passado, sou de futuro. Quem olha demais para trás, fica", comentava, quando lhe perguntavam sobre uma possível autobiografia. Recusou-se a escrevê-la.
Seu tempo era outro - levava 10, 15, até 40 segundos para responder uma pergunta ou numa pausa de conclusão. Basicamente, por duas razões: pela dificuldade de respirar que a cadeira de rodas lhe causava e pela seriedade em
pensar antes de
falar. Aqueles que não estavam acostumados, achavam que ela já havia concluído o raciocínio, parado no meio ou que tinha esquecido sobre o que estava falando. Ledo engano - após um silêncio impensável para os frenéticos tempos atuais, Nise concluía seu pensamento com exatidão. Desenvolvia um raciocínio minucioso, longo, sofisticado - sobretudo com um profundo sentido do que dizia. Não jogava conversa fora, era rigorosa no discurso e, principalmente, na ação. Aceitar qualquer tipo de apoio financeiro para seus projetos, era difícílimo. Tinha a paranóia de que poderia ser usada pelas instituições e temia perder a sagrada liberdade de orientar seu trabalho. "Prefiro ser uma loba faminta a ser um cão gordo e encoleirado. A palavra que mais gosto é
liberdade. Gosto do som desta palavra", disparou frente à proposta de apoio de uma multinacional. Quase sempre, a resposta era
não.
Eu nunca me conformei com tais atitudes, pois sabia que, por conta disso, muitos projetos seus eram cancelados. Assim aconteceu com o plano de publicação de um livro de denúncia sobre o assassinato de crianças de rua. Levamos dois anos escrevendo e, numa discussão de dois minutos, ela desentendeu-se com um editor e foi tudo por água abaixo. E ponto final, já que sua democracia tinha limite - uma vez decidida, não havia consenso que a fizesse mudar de idéia. Não tinha pressa e quando perguntavam como estava passando, costumava dizer: "Bem, fazendo planos para o ano 3000."
Numas férias, visitei Maceió, cidade natal de Nise. Telefonei para ela de um orelhão e disse:
- Dra., estou na Praia da Pajussara! Isso aqui é uma coisa linda e me lembrei da Sra.!
Ela calou.
- Alô! Alô! - insisti.
O silêncio continuou.
- Dra, a Senhora ainda está na linha?
Após alguns instantes, ouvi a voz quase sussurrada:
- Estou.
- Com este silêncio, achei que a ligação havia caído...
- Foi um silêncio de emoção... Saudades da Pajussara - disse ela, comovida.
Por alguns instantes, calamos. Eu, olhando o mar de Alagoas, onde Nise tinha nascido e crescido. Ela, na biblioteca do Flamengo, havia muitos anos não via aquela praia.
Quem a olhava com displicência ou preconceito, não suspeitava do que aquela mulher era capaz. Aparentemente, mostrava-se discreta, desligada e até mesmo alheia. Que nada! Sua genialidade, inesperada, surgia do comum e, quase sempre, do que é considerado lixo, doença e inutilidade. Nise, leitora voraz, ficava calada, olhando, pensando, sentindo, como quem não queria nada - e de repente, sem ostentar brilhantismo, quando não se esperava, ela pinçava um diamante tirado do lodo, da sombra, do deserto. Garimpava onde ninguém acreditava haver ouro - mas o extraía e mostrava com firmeza, orgulho e fé. Acreditava na condição humana e sempre citava Artaud: "Vivemos diferentes estados do ser." Ela procurava não discriminar.
Nise era a genialidade do cotidiano, colhida no invisível e mesmo no repugnante. Foi no comum do dia-a-dia que descobriu mandalas nos desenhos dos clientes do Museu, as mandou para Jung e deu o primeiro passo para definir sua linha de trabalho. Foi no comum do dia após dia que acompanhou a evolução de Fernando Diniz, Adelina e Carlos Pertuis, que tornaram-se três casos clássicos, dando origem ao belíssimo filme dirigido por Leon Hirszman, cineasta que lhe foi apresentado por seu amigo Rubens Corrêa. Após a interferência de Nise na psiquiatria, aqueles que antes eram considerados doentes mentais crônicos ascenderam à categoria de artistas plásticos, prestigiados por feras como o esteta Mário Pedrosa, admirador da Dra. e um dos primeiros a reconhecer e divulgar sua obra.
As práticas propostas por ela não eram complexas e, muito menos, autômatas. Quando "inovações" como choque elétrico e insulínico surgiram, Nise discordou e preferiu ser "rebaixada" para o setor de terapêutica ocupacional. Um dia, ao entregarem uma trouxa de lençóis para os internos costurarem, a Dra. protestou e orientou para que bordassem, que usassem criatividade. Colocou os internos para modelar, encadernar, pintar - e tal foi a surpresa de sua descoberta, que a própria Nise não tinha idéia de que aquela iniciativa e a realização de atividades alternativas fossem resultar numa técnica única e revolucionária:
a emoção de lidar. "A loucura está profundamente ligada ao desamor e, por isso, é preciso amor para salvar alguém da loucura", ensinava.
Abrir as portas do hospital psiquiátrico para que os internos pudessem circular livremente pelas ruas do bairro, organizar uma festa semanal com música e dança, ou montar um salão de beleza no hospício parecem ações insólitas ou corriqueiras - mas foi exatamente assim que ela fez a diferença e transformou a psiquiatria. Há quem diga que Nise colocou em prática teorias que o mestre Jung concebeu - mas não teve tempo de praticar.
Acho que se eu a tivesse visto décadas atrás, caminhando pelas ruas do Curvelo, no bairro de Santa Tereza, onde morou, jamais imaginaria que aquela moça franzina se tornaria a fera da antipsiquiatria no final do século XX, homenageada na França, na Itália... Quem diria? A médica que se recusou a apertar o botão para aplicação do eletrochoque em pacientes - por isso tida como covarde ou desatualizada pelos colegas da época - acionou novos mecanismos de tratamento, em nível internacional.
Suas descobertas são fruto de um processo lento, sobretudo obstinado. Não é à toa que foi reconhecida somente após os 50 anos de idade. Escreveu poucos livros e fazia questão de não ostentar intelectualismo arrogante. Com tudo o que sabia, bem o podia fazer, mas preferia - a partir do estudo da obra de Jung - denunciar mais um absurdo social ou cultural que acontece em nosso país, como a Farra do Boi, por exemplo. Até o fim de sua vida não acomodou-se, criticou tudo que considerava retrógrado, desonesto, desumano - e, além de amar a gente, tinha adoração pelos animais, especialmente pelos gatos. "Também admiro os cachorros, que sabem perdoar incondicionalmente. Por isso, estou abaixo de qualquer cachorro, pois eu não sei perdoar. Vocês pensam que eu sou gente? Não sou não, sou bicho, me sinto um deles. O ser humano é perigosíssimo", revelou numa quarta-feira, em tom desafiador. Sempre que podia, elogiava a amiga Lia Cavalcanti, também amante dos animais.
Muitas vezes, parecia magoada com a realidade brasileira e não compreendia como a matança de crianças e a desigualdade social podiam ser consideradas "coisas normais". "Ninguém se espanta com nada hoje em dia! Estão todos acomodados. Acho vocês, do Grupo de Estudos, de uma moleza medonha. Merecem um puxão de orelha, o qual me permito dar como Matusalém. Ouçam bem: nós todos caminhamos para uma diferenciação. A massa dos iguais é um verdadeiro muro e, para não se amoldar a ela de novo, é preciso lutar sempre."
Não foi reconhecida e descoberta por psiquiatras e nem por autoridades ligadas à saúde no Brasil. Basta dizer que quando foi reintegrada ao serviço público, oito anos após sair da prisão, nenhum de seus colegas de profissão comemoraram ou a parabenizaram. "Agiam como se nada tivesse acontecido...", contava, perplexa. Foram artistas, estetas, intelectuais e gente libertária os primeiros a divulgar seu trabalho, baseado no amor, na seriedade, na dedicação e no incansável espírito de luta.
Rebuscada e coloquial, repetitiva e surpreendente, trafegava sem dificuldade por diferentes situações sociais e culturais. Às oito da noite assistia à novela mexicana Topázio e disputava o galã com a acompanhante - o que não a impedia de, meia hora depois, na biblioteca, ter uma discussão acalorada com renomado intelectual da intelligentsia brasileira. Admirava Leonardo da Vinci e era fã de Charles Chaplin. Jogava nas 11 posições, discutia com o juiz e, de vez em quando, brigava com a torcida.
Era uma guerreira invejável. Foi presa durante o Estado Novo e resistiu com espírito caralâmpico às dificuldades daquele período. Companheira de cela de Olga Benário. Por conta da prisão, foi exonerada e penou oito anos de desemprego antes de ser reintegrada ao serviço público. Viveu dez anos de cegueira progressiva e, depois, recuperou a visão. Nos últimos 12 anos de existência, ficou numa cadeira de rodas, o que lhe causava transtornos físicos, principalmente respiratórios. Não se abateu, enfrentou tudo com força e otimismo. "O mal está de tal modo solto, que não pode ser combatido com violência, mas sim com música e poesia. Há coisas que acontecem pela ação de forças astrais. Elas existem - pelos acontecimentos, sou levada a acreditar. Eu confesso que acredito em anjos. Não me sinto competente para dizer como e o que são, mas eles me aparecem em momentos terríveis de dificuldade, em momentos fundamentais", me disse a Dra, ao falar do ano em que perdeu o marido e quebrou a perna.
Para mim, nunca se disse abertamente espiritualista - nem professava religião -, mas era visível que nela a realidade metafísica não era objeto de crença, e sim dimensão do ser. Anos mais tarde, vim a saber: era católica e marxista. “A família de Jesus o tratava como louco, incapaz - e, no entanto, eu o considero um grande gênio.” Nise sentia o mundo e os seres com amor deliberado. Ao meu ver, ela doou sua vida às pessoas numa existência claramente devocional. Ofertou seu trabalho para amenizar a dor da gente que sofre e denunciou a indústria do medicamento e do eletrochoque: "Entre as ciências, a medicina é a mais resistente a modificações. A doença e a morte são uma das principais fontes de lucro do mundo e os médicos são a categoria mais reacionária que já conheci." Ela trabalhava ressurreição - de vida, de arte, do psiquismo. Deu novo sopro aos que estavam socialmente mortos. Curou pessoas consideradas crônicas - não por tê-las tornado "normais", mas sim por tê-las aceito como manifestações de
outros estados do ser. Um coração aberto a experiências.
Numa noite de encontro do Grupo de Estudos, apareceu uma senhora, dona-de-casa, que pela primeira vez participava da reunião. Visivelmente deslocada, não era psicóloga, psiquiatra ou outro "psi" qualquer - tratava-se apenas de uma mãe de família de classe média, que, tendo ouvido falar do trabalho de Nise com um sobrinho seu, cliente da Casa das Palmeiras, emocionou-se e quis conhecê-la. Ao saber das reuniões das quartas-feiras, conseguira o endereço e viera de um bairro distante até o Flamengo, toda arrumada - para ver a Dra. de perto.
Chegou e, sem querer, sentou-se na cadeira ao lado de onde Nise sempre ficava. Minutos depois, a Dra. entrou na biblioteca. Durante duas horas, a visitante olhou discreta e encantada para aquela anciã notável, sentada na cadeira de rodas, com fala arrastada e gestos dramáticos. Não entendeu muita coisa, já que a leitura não era fácil:
O eu e o inconsciente, de Jung. Na verdade, poucos entenderam. Mas a dona-de-casa não se mostrava incomodada, queria apenas olhar Nise. Ao final da reunião, as pessoas foram saindo, até que ficamos ela, eu, a doutora e a acompanhante. Então, Nise olhou fixamente para a visitante que, ao tomar coragem, falou:
- Que bom conhecer pessoalmente a Sra., doutoura Nise... A Senhora é como Madre Tereza de Calcutá.
- Imagine! - reagiu Nise - Eu não chego aos pés de Madre Teresa.
- Chega, sim - disse a mulher, com certeza e simplicidade. Logo depois, despediu-se e foi embora.
Nise, Leonardo da Vinci, Adelina, Madre Teresa, Jung, Fernando Diniz, Leon Hirszman, Nietzsche, Mário Pedrosa, Rubens Corrêa, Freud, Alice Marques dos Santos, Spinoza, Lia Cavalcanti, Einstein, Marie-Louise von Franz, Carlos Pertuis, Laing, Bachellard, Raphael, Chaplin, Emygdio, Artaud... Agora todo esse pessoal está em outra galáxia para novas invenções e evoluções. Nós, os escafandristas, esperamos que às vezes eles venham nos visitar.
De vez em quando, eu sonho com Nise, nas mais variadas situações. Há alguns anos, tive um sonho revelador: inconformados com a queda física da Dra. e sua morte iminente, nós, do Grupo de Estudos, conseguimos localizar uma equipe médica estrangeira que realizava transplantes de cérebro. Então, conspiramos que o cérebro de Nise seria transferido para um outro corpo, jovem e saudável. "Só lhe falta um corpo novo, pra que você continue viva!", dizia-lhe eu, ansioso. Os amigos, colaboradores e clientes estavam eufóricos com tal possibilidade. A equipe foi chamada e a operação, marcada. A Dra. limitava-se a ficar calada, séria, olhando. Quando vieram pegá-la para o transplante, Nise, com gesto lento e dramático, disse: "Não. Eu não quero. É preciso seguir o curso da natureza." No dia seguinte, acordei confuso e um pouco decepcionado. É difícil acostumar-se à idéia da morte física, da separação, da ausência. Depois, na reunião de quarta com o Grupo, contei meu sonho à Dra., que àquela altura me parecia estapafúrdio. Nise ouviu risonha e, após uma pausa, disse baixinho: "É isso mesmo, o sonho está certo..."
Ela estava sempre me ensinando: "Matéria e energia são a mesma coisa e, mesmo hoje, nas escolas, isso ainda não é ensinado."
Nise deu o pulo do gato.
EXCLUSIVO:
>>> Leia textos de Bernardo Carneiro Horta sobre a Dra. Nise da Silveira
- ‘Em 2009, difusão de vida e obra de Nise da Silveira remete à senha para a construção da identidade brasileira: memória...’,
AQUI!
- ‘O Centenário de Nise da Silveira’, publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2005,
AQUI!
- Poema: ‘Pintura de Nise em Canção’,
AQUI!
>>> Assista entrevista em vídeo com Dra. Nise da Silveira, concedida ao professor Edson Passeti,
AQUI!
>>> Conheça o livro
Nise - Arquéóloga dos Mares, de Bernardo Carneiro Horta,
AQUI! E leia o primeiro capítulo.
>>> Conheça o
Museu Imagens do Inconsciente e a
Casa das Palmeiras.
>>> Leia textos de Nise da Silveira,
AQUI!
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