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Morte sem holofote
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 11/9/2008 · 50 votos · nenhum
  
Arquivo pessoal. Gal Costa
Wilma Dias, Gal Costa e Isabel Câmara, no Carnaval de 1973
Imagens


Publicado originalmente na Revista Bula.
Republicado no Portal Literal em 07/12/2006.



Poeta, cronista e, sobretudo, dramaturga, a mineira Isabel Câmara morreu esta semana quase esquecida. Poucos ainda lembram da autora da peça "As moças", que sacudiu o teatro brasileiro em 1969.


ISABEL CÂMARA
A morte da rebelde anárquica


EULER DE FRANÇA BELÉM
Publicado originalmente na Revista Bula.


A poeta, cronista e dramaturga Maria Isabel Câmara — Isabel Câmara ou Bel Câmara — morreu no domingo, 3 (ou na segunda-feira, 4 — não se sabe exatamente a data precisa), deitada na cama de seu apartamento, um quarto-e-sala do Edifício Atlântico ("O meu pequeno oceano", dizia a poeta, sempre atenta aos detalhes), situado na Rua 90, no Setor Sul, em Goiânia. A escritora tinha 66 anos.

Depressiva, Isabel passou quatro meses na casa da mãe e da irmã Cândida. Isabel e Cândida se adoravam. "Ela quase não falava", diz Cândida. Na semana passada, Isabel decidiu voltar para sua casa, pois, de algum modo, amava sua solidão. "Ela estava melhor", conta Cândida. Acredita-se que Isabel teve um infarto — o laudo do Instituto Médico Legal de Goiânia ainda não está pronto —, pois estava deitada na cama, bem composta e coberta. Numa mesinha, um exemplar do Jornal Opção, o jornal que mais amava. Quando não recebia seu exemplar, ligava para reclamar ("me esqueceram?"). "Ela adorava vocês do Jornal Opção", afirma Cândida.

Na mesinha simples de Isabel, os visitantes sempre percebiam uma edição em francês de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. "Leio Proust em francês porque, a exemplo de Flaubert, manejava a língua francesa de modo clássico, com precisão, mas tornava-a mais flexível do que outros escritores franceses. Era um gênio", costumava dizer. Da França, havia outro autor caro a Isabel — Mallarmé. "É um poeta difícil, sem dúvida, mas, quando se toma pé da qualidade de sua poesia, de como faz as palavras dançarem, como se se equilibrassem sobre um fio de lógica-ilógica, não há outro poeta igual." Não há?, perguntava eu, atônito. "Porra, Euler [Isabel foi a primeira mulher que ouvi falar a palavra "porra" com naturalidade], Mallarmé mora no lado direito e Rilke mora no lado esquerdo do meu peito." Mas o esquerdo não é mais importante? "E quem disse que o coração fica exatamente do lado esquerdo? Tendo a ver o coração como o badalo de um sino. Ele bate dos dois lados." Liberdade poética? Pode ser. Isabel não se preocupava tanto com normas — nem as morais. Era livre. "Nasci para ser pássaro, não para ser gaiola", dizia-me, rindo e fingindo compenetração. "Detesto a seriedade excessiva de algumas pessoas." Certa vez, comparou-se a Darcy Ribeiro, que, como Isabel, não teve filhos. "Os pais são carcereiros e, ao mesmo tempo, prisioneiros dos filhos", disse-me mais de uma vez. "A pessoa que tem filho não pode se dar o luxo de ser irresponsável, o que é triste. Ele tem de ser exemplo, parâmetro e aí começa a farsa. Ninguém é exemplo para ninguém. A hipocrisia começa e se expande quando as pessoas têm filhos."


Rilke, Mallarmé e Proust

Entre os autores "do coração" de Isabel, menos citados do que Proust, Mallarmé e Rilke, também estavam D. H. Lawrence e Virginia Woolf, lidos também em inglês. "A prosa de Lawrence é de primeira, porque filha da poesia, e sua poesia, que parece prosa, também é de primeira." Lawrence, pontuava Isabel, é visto como um "ideólogo do sexo" em seus romances. "Não era nada disso, mas, como sujeito livre, até onde se pode ser livre numa sociedade de amarras, apostava também no sexo livre, liberto de peias morais. Seu romance Mulheres apaixonadas é deslumbrante e pode ser lido de várias formas. Recomendo que se leia este romance sólido como uma rocha e frágil como um copo de vidro, contradição espantosa, como se fosse poesia, uma biografia poética do homem moderno."

Numa de minhas visitas, dei a Isabel uma coletânea dos melhores poetas portugueses. Como Isabel nada comentou, liguei e perguntei: "O que você achou?" A resposta, sempre franca e direta: "Achei que era porcaria e deixei jogado num canto. Depois, li algumas poesias e redescobri que a poesia portuguesa vai além de Camões e Fernando Pessoa. Belo, belo, belo", dizia, repetindo as palavras e rindo (o riso às vezes parecia uma careta). "Menino, é uma maravilha, assim como a música de Cesária Évora, a cantora de Cabo Verde."


Joaquim Pedro de Andrade

Um dia, depois de uma breve visita, na qual levei a biografia de Joaquim Pedro de Andrade, Isabel convidou-me para visitar uma adega no Setor Sul. Lá, meio estabanada, derrubou copos. "Um bom vinho não faz mal a ninguém", disse com sua cara irônica e esperta de adolescente. "Joaquim Pedro", como ela chamava o cineasta, "morreu cedo demais". Ao ler um livro de Sábato Magaldi, no qual o mais importante analista do teatro brasileiro cita Isabel, a poeta reage: "É um livro bom e contém uma pesquisa séria". Não se entusiasmou muito, apesar da citação. "Sinto-me melhor lendo os verdadeiros criadores — os prosadores e os poetas." Ela gostava de citar a perspicácia de Freud — que buscou nos gregos e em Dostoiévski exemplos para reforçar o poder de compreensão da psicanálise. "Um dos objetivos da literatura, se ela tem objetivos, é mostrar que a realidade é um universo muito mais rico e complexo do que se imagina", teorizava. "A realidade é ampliada pela literatura, que a torna mais compreensível." Debochando, acrescentava, como se duvidasse do que havia dito antes: "Estou muito séria, que coisa feia."

No seu pequeno apartamento, no qual as idéias sempre pareciam imensas, ela dizia adorar a floreira. "Os pássaros vêm me ver todos os dias." Ouvia música. Mexia nas suas coisas — poucas — e conversava com os amigos. Quando esteve internada no Araújo Jorge, no qual se tratou de um câncer no seio, fui visitá-la. Sempre brincalhona, Isabel me disse: "Quer ver como ficou?". Estava muito magra, mas não reclamava de nada, nem das dores.


Antônio Bivar e Carlos Sussekind

Nos últimos anos, cobrei que escrevesse mais poesia e rascunhasse suas memórias. "Poesias, sim; memórias, não. Não quero lembrar", resumia. Ela havia optado por escrever crônicas nas quais falava de seus amigos, como uma filha do poeta Jorge Lima, que mora no Rio de Janeiro, Joaquim Pedro de Andrade, Maria Bethânia, Domingos de Oliveira, Antônio Bivar, Carlos Sussekind.

Perto dos amigos, era desbocada. Neste ano, num almoço com o poeta Carlos Willian, a estudante de publicidade Tainá Corrêa (filha do publicitário Ailso Braz Corrêa) e eu, Isabel estava bem disposta, falando muito, discutindo literatura, falando de projetos e, como de hábito, irreverente. Carlos Willian e Tainá beberam refrigerante. Isabel falou no meu ouvido: "Nada de caretice. Vou tomar um chope". Tomou dois. "O objetivo da doença não é nos matar, e sim destruir nossa alma, nossa força interior", disse, no mesmo dia do almoço, por telefone. Ela adorava andar. "As idéias melhoram quando andamos."

No enterro, às 9 horas de terça-feira, 5 de dezembro, Isabel estava "serena" no caixão. O rosto parecia ostentar um sorriso irônico. Se pudesse falar, certamente diria, a nós que chorávamos alto ou baixinho: "Por que estão chorando. Vamos rir um pouco". A rebelde não descansou — sua obra fica para atormentar os contentes com um mundo do qual reclamava ser muito igual, muito certinho e muito frio. "Fausto roubou a alma do homem moderno." Até suas roupas e cabelo eram diferentes. O cabelo era curtíssimo. As roupas largas, masculinizadas. Um dia, numa visita na redação do Jornal Opção , sentamos no sofá da recepção e fizemos uma fotografia. Nós dois, parecidos com Alberto Einstein, colocamos a língua pra fora. Até a repórter-fotográfica Ana Paula Abrão riu do gesto. Dias depois, entreguei uma cópia para Isabel. "Que língua grande, Chapeuzinho Vermelho", brincou.

Viva, Isabel andava esquecida, mas não totalmente. Depois de ler uma reportagem do Jornal Opção , uma produtora do Rio de Janeiro localizou-a em Goiânia e ganhou autorização para adaptar As moças para o teatro. Isabel não viu a peça, mas gostou de ser lembrada. Mais tarde, foi convidada para dar palestras numa universidade norte-americana. Falou em inglês, disse palavrões, explicou o Brasil, ao seu modo, o do "método confuso", e agradou. "O que faz do Brasil um país tão interessante é sua falta de lógica."

Isabel era uma revolucionária? Talvez possa ser definida mais como uma revolucionária anárquica, dessas que não aceitam controle político ou cultural e não se organizam em grupos. Era uma rebelde. Os rebeldes, como se sabe, às vezes não tem um fim tão glorioso. "Como Rimbaud, nasci para ser pecadora", afirmou, certa vez, quando conversávamos sobre Verlaine e Rimbaud. "Os pecadores sabem que sempre serão condenados."


A reportagem que resgatou Isabel

A reportagem sobre Isabel Câmara foi publicada no Jornal Opção na edição de 25 a 31 de janeiro de 1998. Três anos depois, o jornal a republicou, a pedido dos leitores. Na oportunidade, escrevi um pequeno texto de apresentação, que se segue: "Não se pode dizer que Isabel está esquecida, pois publicou o livro de poesia Coisas Coiós (Editora Sette Letras), com repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo , e sua peça As moças deve ser montada no Rio. Depois de uma cirurgia delicada, Isabel está bem — "apesar da intensa dor de cabeça, como a de João Cabral de Melo Neto. A diferença é que ele tomava aspirina e eu tomo tylenol". Ela alterna momentos criativos e momentos de melancolia: "Eu quero o meu silêncio, mas a sociedade precisa de barulho, de vulgaridade. No lugar de escrever o livro Era dos Extremos — O Breve Século 20, o historiador inglês Eric Hobsbawm deveria publicar A Era da Vulgaridade. Globaliza-se o consumo, mas não a cultura. No lugar de Shakespeare, Mercedes Benz e BMW. Não se constrói uma nação só admirando o que se produz, em termos de consumo, noutra nação. É preciso consumir e, sobretudo, entender, por assim dizer, o que há por trás da civilização que produz um carro da qualidade do Mercedes e do BMW. Trata-se de uma cultura consolidada, fundada não apenas no consumo, mas na qualidade, no refinamento. Então, que venham os Mercedes, mas juntos Goethe, Hölderlin, Rilke, Beethoven, Wagner e Thomas Mann. A globalização, se inevitável, precisa ser integral". Mas Isabel está mesmo bem? "Estou e não estou", contou, enigmática, ao Jornal Opção na semana passada, por telefone. "Às vezes, a vontade de dormir é mais intensa, mas resisto. Meu medo é metafísico. Não dá para explicar — é como o jazz, na acepção de Louis Armstrong."

Depois, ao publicar a segunda e última parte da entrevista, voltei a entrar em contato com a poeta. Isabel tem um hábito que não considera produtivo, mas avalia como agradável: "Leio vários livros ao mesmo tempo. Na cabeceira de minha cama, estão, entre outros, um livro de Sábato Magaldi sobre teatro, a biografia Joaquim Pedro de Andrade — A revolução intimista [Isabel era amicíssima do diretor de cinema Joaquim Pedro, com quem manteve um diálogo intelectual durante anos], de Ivana Bentes, livros poéticos de Ivan Junqueira e Chico Alvim [que lê e relê]". Isabel está relendo as obras completas de Mallarmé ("em francês, para não perder o contato com a língua", conta). "Mallarmé é um poeta que melhora seu leitor. É o poeta dos poetas. Sua poesia é uma universidade poética. Ele encanta e, ao mesmo tempo, ensina. E faz pensar. É, mesmo, uma escola." Isabel ganhou as obras completas de Tomás Antônio Gonzaga. "A edição é linda."

As leituras são acompanhadas pela música de Beethoven, Brahms e, mais recentemente, Cesária Évora, a cantora de Cabo Verde, e Omara Portuondo, a cantora cubana. "Este é um belo presente da globalização", brinca.

Isabel está em paz consigo mesma? "Só os mortos podem dizer isso. E eu ainda estou bem viva", diz — e ri. "Nos últimos anos, converso muito com minha mãe, de 83 anos, e minha irmã, Cândida. Falamos de tudo, de cultura e da vida." [A mãe de Isabel hoje tem 88 anos] Explosiva, Isabel também sabia ser cordial com aqueles que amava. (Euler de França Belém)


Um gênio literário está vivo
(mas esquecido) em Goiás


Isabel Câmara, autora da peça As moças e do livro de poesia Coisas Coiós, mora em Goiânia, totalmente incógnita, até ser descoberta pelo Jornal Opção. Ela foi redatora da TV Globo e tradutora, com o escritor Carlos Sussekind, da Prensa Latina. Sua poesia e seu teatro são admirados pelo jornalista e escritor Luiz Carlos Maciel.

FERNANDA FERNANDES, HERBERT MORAES e EULER DE FRANÇA BELÉM

"Não, não é louco. O espírito somente / É que quebrou-lhe um elo da matéria. / Pensa melhor que vós, pensa mais livre, / aproxima-se mais à essência etérea." Junqueira Freire


A pequena Três Corações deu ao Brasil pelo menos dois gênios: Pelé, no futebol, e, na literatura, Maria Isabel Câmara. Como Isabel Câmara gosta de coincidências, uma é, de fato, impressionante: ela e Pelé nasceram no mesmo ano — 1940. Minas deu Isabel Câmara ao Brasil, mas o lucro ficou para Goiás. A dramaturga e poeta mora em Goiânia há mais de 12 anos. Mas, se permanece festejada nos meios cult do Rio e de São Paulo, é praticamente desconhecida dos goianos — até dos intelectuais. Três jornalistas conversaram durante dois dias com os principais escritores e criadores de teatro do Estado, numa verdadeira caçada telefônica a Isabel 'Wally' Câmara. E nada. "Já ouvi falar, mas não sei onde ela mora" — esta, a resposta básica. A esta altura o leitor há de perguntar: por que a procura por Isabel?

Isabel Câmara é uma dramaturga consagrada, autora de peças com ampla influência no meio teatral e na televisão (Globo). Enfim, na vida cultural do país. As Moças , de 1969, é uma peça que sacudiu toda uma geração, provocando polêmicas. Hoje, as teses de mestrado das universidades examinam esse trabalho como ponto de chegada de um tempo no teatro e ponto de partida de outro tempo (é analisada, para ficar num exemplo seminal, por Sábato Magaldi). Isto significa que deixou raízes, que fez e é história. Não se quer dizer, porém, que a peça está datada, que morreu com a década de 70. Há autores que se datam, e são devorados com o seu tempo, e há autores que se perenizam, sobrevivendo a todos os tempos. Os que mais se datam são os autores engajados, mas sem densidade artística. Criadores como Isabel Câmara, ao pensarem o presente, apostam no futuro: ao não produzirem uma obra engajada (sobretudo no aspecto político), longe de se alienarem, desnudam o homem como ele é, nas suas minúcias psicológicas. A peça de Isabel é quase uma volta ao Crátilo de Platão: suas palavras buscam recuperar o homem sem suas máscaras. Seu teatro arranca as entranhas da vida. Numa interpretação apressada, e como tal forçada, se dirá que As moças é moderna porque repõe o tema do homossexualismo em discussão. O homossexualismo é, sim, um grande tema e, por isso, não é pretexto. Mas Isabel vai adiante.

Isabel não é representativa tão-somente por causa de As moças, ou por ser menos comportada, digamos, que a Lygia Fagundes Telles de As meninas. (Aliás, material para romance é o que não falta em As moças. O livro daria um romance do primeiro time, ou, quem sabe, uma novela — não telenovela.) Isabel é autora de outras peças — Os viajantes, A escolha e O quarto mundo. Todas elas foram compradas pela TV Globo.

É óbvio que peças de teatro são escritas para serem levadas ao palco. Mas as boas peças, que vão além do caça-níquel, da circunstância, também brilham se publicadas como literatura. Shakespeare, Molière, Racine, Bernard Shaw e Bertolt Brecht estão aí — mais "vivos" do que nunca — para provar a tese. As sacadas de Isabel Câmara também funcionam como literatura. A sua frase às vezes é teatral e poética. ("Sabe o que eu aprendi, sabe? Que a única coisa boa que eu tenho, a única coisa verdadeira, enorme, inteira, é o meu medo.") Outras vezes, é grossa, crua — o que reflete, sem dúvida, a vontade de aproximar a obra da vida. De algum modo, Isabel lembra a Doris Lessing de O carnê dourado. Doris Lessing conta que nesse romance, visto como feminista, o que ela contesta, entronizou personagens de seu meio sociocultural. Daí a linguagem culta, ou, noutras palavras, moderna — o que agradou as feministas, que não perceberam que as elites se liberam anos-luz à frente do povão, das maiorias. As moças, resistindo ao tempo, voltará ao mercado, brevemente, pela Editora Sette Letras. No palco, com certeza fará sucesso.


A Razão Atenta

Antes de As moças voltar ao mercado, o que está saindo do forno literário é o livro de poesias Coisas Coiós. Em texto de uma página para O Globo, Luiz Carlos Maciel, o supostamente integrado ex-filósofo da contracultura, reexplicou ao país quem é Isabel. Coisas Coiós é, pois, um sucesso antes mesmo do lançamento.

Esta obra poética, que também sai pela Sette Letras, é a última criação de Isabel. Eram "apenas" rabiscos, mas amigos, como o escritor Carlos Sussekind pressionaram e Isabel liberou os textos. O leitor atento percebe que, apesar de todos os atropelos da vida de Isabel (ela esteve internada em clínicas de repouso durante anos), sua razão atenta está mantida. É uma poeta nitidamente de dicção inglesa, ou, melhor, européia — ela que é filha literária tanto de uma Virginia Woolf quanto de uma Emily Dickinson e de um Walt Whitman. "Mas no meu altar poético está sentado, quieto e sólido, o alemão Rainer Maria Rilke, o amante de Lou Andreas-Salomé", diz Isabel, com um pingo de voz, quase sussurro. "Esse poeta alcança alturas inimagináveis", pontua. "Sei que Virginia tinha suas divergências — ciúmes literários — com Katherine Mansfield, mas sei amar as diferenças das duas. Um teto todo seu, um belo ensaio, e o romance Um passeio ao farol, de Virginia, são livros que habitam o meu coração. Mansfield Park, de Jane Austen, reforça a nossa sensibilidade artística". Joyce? "Li, apaixonada, Dublinenses e Retrato do artista quando jovem, que são ensaios para a opus magna Ulysses, este, por sua vez, ensaio para Finnegans Wake. Comecei a ler Ulysses, mas não terminei. É um romance inaugural — praticamente impenetrável —, que precisa de explicação, de teses acadêmicas. É uma obra a ser desmontada e, a cada leitura, montada pelos leitores, que, sem ajuda de especialistas como Richard Ellmann, nada compreendem." (Isabel tem uma exigência: autores que escrevem em francês e inglês devem ser lidos no original. "Não falo o inglês da rainha, mas certamente leio o inglês da rainha", diz, à farta. "Meu francês permite a leitura de Mallarmé e Proust.") Não se pense, porém, que a angústia da influência de Isabel é só européia — ela que aprendeu inglês e francês ainda menina (aos 17 anos, traduziu A primeira viagem, de Thornton Wilder; a peça foi encenada por Carlos Kroeber, em Belo Horizonte , em 1957). Ela leu muito Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge de Lima (uma grande paixão literária), Cecília Meirelles. "O Drummond me ensinou muitas coisas, pelo telefone. Conversava fácil e doce. Era um mestre sem arrogância. Outra mestra é Dora Ferreira da Silva, uma tradutora e escritora refinada. Sua tradução de Sonetos de Duíno, de Rilke, é qualquer coisa... Ela é uma grande rilkiana."

Com tanta influência poética, a poesia de Isabel não perdeu em qualidade. Ao contrário, ganha força a cada releitura. Não é um Rilke ou Rimbaud de saias. É Isabel. Ponto. Do livro 26 poetas hoje, organizado por Heloisa Buarque de Hollanda, temos uma mostra do talento de Isabel, o poema "Manhã de frio": "Trata-se de uma certa dama/que acorda aflita pelo dia/ observando da janela do seu/ Disco-Voador/ o cinza que se irradia/desde a música —/ Romântica e Alemã/ até a cor fria da Dor". Ela está falando da manhã ou de uma mulher? Das duas — claro. Essa ambigüidade é arte pura. É Isabel, leitora de Henry James, o príncipe da ambivalência.

Nos poemas de Coisas Coiós que examinamos, Isabel troca o discurso pela concisão, mas o tom do drama pessoal está registrado. Há uma mágoa pontuada, sob relativo controle. Como todo grande artista, Isabel altera o que é vida (sangue do seu sangue) e, disto, faz arte.

Uma das formas de (tentar) matar em literatura é ignorar a obra de um escritor. Pior que a crítica contundente é a indiferença do leitor e dos críticos. Isabel é uma espécie de J. D. Salinger. O autor de O apanhador no campo de centeio (clássico que influenciou, ou superou, a geração beat) vive isolado, não conversa com jornalistas e, se produz literatura, ou qualquer outra coisa, não publica nada. Isabel não é diferente. Está isolada num pequeno apartamento, no Setor Sul, em Goiânia. Vive sozinha. A diferença entre Isabel e Salinger é que ela quer publicar. Precisa disso para sobreviver, não só fisicamente, mas como criadora. Sua arte faz com que não perca a razão.


Coração das Trevas

Encontrar Isabel foi uma via-crúcis. Depois de perceber que estava desconectada com a vida cultural de Goiânia, ligamos para a Editora Sette Letras, no Rio de Janeiro, que nos deu telefone de Carlos Sussekind e de Isabel Câmara. E, assim, chegamos até ela. A entrevista é mais uma conversa feita de reticências, de passagens que precisam ser caladas — Isabel quer e precisa viver: tem muito o que escrever. Quando a entrevista já havia sido concedida, ela ligou para a redação e revelou que tem vontade de retomar a peça Ressurreição. "A idéia está na minha cabeça. Só falta colocá-la no papel. É uma revisão da bonita história de Lázaro, mas com referências à Lapa, Madame Satã (o homossexual negro, "bom de porrada", que concedeu uma entrevista histórica ao Pasquim), Ismael Silva e a uma menina do interior, a quem darei o nome de Maria Callas. É um arco-íris de paixão. Pretendo mudar o nome da peça." Isabel ainda exigiu: "Não esqueçam de falar da minha paixão por William Blake e Christina Giorgina Rossetti, autora admirável que nasceu em 1830 e morreu em 1894". Christina Rossetti é citada em Coisas Coiós.

Pessoalmente, ou por telefone, Isabel não pára de declamar poesias, de preferência no original, num inglês preciso. "A arte é minha válvula de escape", resume. Em seguida, faz marketing do amigo Carlos Sussekind: " Armadilha para Lamartine está sendo relançado pela Editora Companhia das Letras. É um livro maravilhoso, que influenciou toda uma geração".

Isabel diz que falar dela é falar da dor. Mesmo assim, e sem fazer gênero, ela riu muito durante a entrevista. E, do mesmo modo, tossiu. Ela nos recebeu enrolada num roupão atoalhado bege, que cobria uma camiseta branca com listras verdes. Estava descalça. "Não fiquem assustados com a minha aparência", pediu, com um sorriso frouxo nos lábios. Magra, Isabel parece ter mais do que 57 anos. Filha da contracultura, experimentou drogas pesadas. Hoje, detesta drogas. "Agora só tomo uma cervejinha, ou melhor, umas cinco cervejinhas." Fala e ri. Ela é filha de uma geração que experimentou o sucesso muito cedo e, em muitos casos, não soube o que fazer com seus resultados (como dinheiro).


Caos e Harmonia

Depois das apresentações, Isabel pediu para ser entrevistada no quarto (ela passou por uma cirurgia). No quarto, tem uma cama de casal com lençóis brancos e amarrotados. No criado-mudo, cartões postais e fotos. Uma fotografia do quarto de Virginia Woolf é a ilustração preferida de Isabel. Na escrivaninha, vários livros, a maioria em inglês. Depois de meia hora de conversa, Isabel nos levou até a cozinha e nos serviu café e torta de frango com catupiry comprada na "padaria do Zé", na Rua 90. Os móveis são antigos. A geladeira estava cheia. A sala do apartamento, em dois ambientes, tem sofás de alvenaria e almofadas estampadas com flores em tom rosa. Atrás, uma mesa de jantar redonda, de vidro, com dois vasos de plantas bem verdes. O conjunto de som três-em-um perdeu o CD. "Vendi para pagar contas", lamenta esta amante da música brasileira (Caetano, Chico Buarque, Bethânia) e da música erudita (Mozart, Beethoven, Brahms, Bach e Vivaldi). No banheiro, um pôster do filme Memórias do Cárcere, com a foto de Carlos Vereza, que faz Graciliano Ramos no filme.

Os olhos castanhos escuros de Isabel são grandes e embaçados, como se estivessem sempre úmidos. O cabelo curto está grisalho, Isabel é, decididamente, uma mulher frágil. Fisicamente, pelo menos.

Mas Isabel faz a diferença quando fala, com sua voz pequena, pausada. A memória não é das melhores, mas é quase sempre certeira. Quando começa a falar, as palavras saem em profusão. Há uma harmonia que reflete a Isabel acostumada a lidar com textos e palavras. Há um quê de caos. Porém, no final, há lógica.

Na década de 40, Três Corações era uma cidade pequena, mas diferente da Governador Valadares de hoje, a cidade brasileira que mais exporta gente para os Estados Unidos. Seus habitantes mais cultos queriam sair de lá não para fazer fortuna fácil. Estavam em busca de cultura. Um amigo (e paixão) de Isabel, Antônio Fernando, o Tom-Tom, que morreu aos 23 anos em Málaga, Espanha, escapou para a Inglaterra e trabalhou no programa radiofônico da BBC de Londres. "Ele era bonito, magro, comprido e estranho. Tinhas as mãos enormes. Esse amigo abriu a picada. Ganhei uma bolsa para Cambrigde quando tinha 17 anos. Meu pai, a quem amo, apesar de tudo, me tirou da Cultura Inglesa. Eu estava fumando um cigarro com a sobrinha do cônsul. Ele me proibiu de ir para a Inglaterra. Eu disse para mim mesma: 'Se não posso ir para Cambrigde, vou para o Rio de Janeiro'. Era uma espécie de exílio voluntário. A minha mãe era dona de casa, mas era sofisticada. Saí de Três Corações aos 8 anos. Fui para Belo Horizonte e, de lá, para o Rio."

Isabel pára de falar e olha para nós. Parece perscrutar a nossa alma. Olha fundo. Silencia-se. Depois, dispara: "Eu sou grosseira. Sou rude. Não tenho paciência. Quando perco a paciência, quebro as coisas, me firo. Não tenho limites. Eu sei me machucar". Como contraponto da violência verbal, uma voz quase inaudível. Notamos que alguma coisa do passado magoava Isabel. Ela fala e pára. A respiração fica mais forte. Ao se recriminar — "sou tudo e sou nada" —, fica mais calma. A memória volta: "Lembro-me que, ainda menina, adorava ler Dostoiévski — não comecei com Pobre gente, seu primeiro livro —, Sartre e Tolstói. Na infância, meu ídolo literário era Monteiro Lobato. Peguei livros da biblioteca do Sesi e levei para casa. Quando voltei do colégio, os livros estavam no Córrego Leitão. Meu pai jogara os livros no córrego".

Como explicar o amor pela cultura? Isabel diz que é parente de dom Helder Câmara — o bispo que abalou o país ao trocar as idéias integralistas de Plínio Salgado, na década de 30, pela defesa dos direitos humanos, depois do golpe civil-militar de 64 — e do folclorista Luís da Câmara Cascudo. "Na verdade, eu nasci assim — amante de todas as artes, descontente com o coro dos contentes. A minha avó, que não sabia ler nem escrever, me dava a maior força. A minha mãe mandava comprar revistas, como Tico-Tico, escondido do meu pai. Com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), eu quase 'pirei'. Quando me dava sapituca, eu dava uns pulos e saía correndo. Subia nas paredes. Quando queria ler, pegava um livro e subia numa árvore. Ninguém me achava. Era um negócio meio mágico. Eu gostava da solidão e achava bom brincar com as sombras. Eu inventava: 'Hoje, vou ter medo de sombra'. Aí esperava determinada hora e ficava inventando histórias de sombras. Eu dizia 'hoje é dia da sombra do meio-dia'. E ficava brincando com minha sombra." Mesmo "maluquete", Isabel tinha muito amigos. "Era campeã de bola de gude e futebol. Andava no meio dos meninos."


Cinema Paradiso

A paixão pelo cinema é antiga. "O meu avô, certa época, começou a perder os bens. Então apareceu um homem, em Três Corações , e disse que queria fazer um cinema. Ele comprou um terreno do meu avô, que impôs suas condições. O cinema teria que se chamar São Miguel — Miguel era o nome dele. Meu avô exigiu também três cadeiras cativas. Mas a gente não podia entrar pelo quintal e assistir os filmes — se quiséssemos vê-los, era preciso pagar. Meu avô usava as três cadeiras. Sentava numa, colocava a bengala na outra e, na terceira, punha o sobretudo. Depois de acomodado, dormia durante todo o filme. Só acordava com o apito do cinema uuuuuuuuuuuuu! — era uma sirene igual à da música de Noel Rosa 'Você que atende o apito na fábrica de tecidos...'. A fábrica de tecidos, para mim, era o cinema." (Tempos mais tarde, Isabel foi assistente de direção de Domingos de Oliveira nos filmes A Culpa e Simonal. Foi co-roteirista de Uma Viagem com os Mutantes [parceria com Domingos de Oliveira], A Estrela Sobe [parceria com Bruno Barreto, Gilberto Loureiro e Antônio Calmon] e Helena [parceria com Antônio Calmon], roteiro baseado no romance de Machado de Assis.)

Adepta da tese de que determinados autores só funcionam na sua própria língua — com a tradução sendo uma "puta traição" —, Isabel dedicou-se com afinco ao estudo do inglês (seis anos consecutivos) e francês (cinco anos de Aliança Francesa). Por isso, traduz bem — trabalhou como tradutora da Prensa Latina, com Carlos Sussekind — e fala inglês fluentemente. Lê Marcel Proust no original — e o cita com facilidade. (Em busca do tempo perdido está sempre em cima de sua mesinha de leitura. Permanentemente aberto. Ela relê nem que seja uma página por dia. "É um dos meus oxigênios", diz.) O universo é verdadeiro para todos nós e diferente para cada um. E o maior flagelo? As pessoas que não reconhecem o que é o bem e ignoram as doçuras do afeto. No caso do amor, ela é também meio proustiana. "É melhor falar em amor à última vista."

Uma vez, numa rua de Belo Horizonte, num encontro fortuito com um professor de português, ele disse: "Menina, o que você ainda está fazendo em BH? Sua cabeça está noutra. Você gosta de teatro e de escrever". Aos 17 anos, Isabel já havia faturado dois prêmios literários. "Eu escrevia contos, que se perderam. O nome de um prêmio era muito estranho, acho que Meu Amigo de Olivares."


Pé na Estrada

Aos 18 anos, sua idade da razão, Isabel caiu fora de BH. "Fomos ao cinema, eu e uma amiga, e, a certa altura, eu disse: 'Vou ao banheiro'. De lá, fui para a rodoviária, onde encontrei um grupo de amigos. Eles estavam com minha sacolinha de livros e meia dúzia de roupas, uma saia justa e um salto alto".

O sonho de morar na Europa não deu certo. Mas Isabel passou um mês na "civilizada" Europa, um continente "bárbaro". "Fomos eu, Norma Bengell, José Grillo, Zé Vicente e Antônio Bivar. Em Barcelona, ficamos num hotel que, apesar de funcionar também como puteiro, era mais barato. Na avenida Las Ramblas, descobrimos um restaurante que fazia uma paella maravilhosa. Assistimos às touradas."

Ao descobrir o Rio, Isabel se descobriu escritora feita — sem fazer planejamento. A peça Os viajantes começou a ser gravada, para televisão, sob direção de Domingos de Oliveira, com Rubens Corrêa, Manuel Pêra e Iracema de Alencar, mas foi vetada pela direção da TV Globo, que considerou a história violenta. Roberto de Cleto decidiu levá-la ao Conservatório de Teatro. "O teatro havia sido queimado pela repressão, mas mesmo assim encenamos a peça. Era para ficar um dia, mas ficou uma semana com o teatro lotado. Yan Michalski escreveu a primeira crítica a meu respeito. A história é parte verdadeira e parte recriada por mim. Um homem mata mulheres e depois se mata. A história é parecida com Ratos e homens, de John Steinbeck."

A fama veio mesmo com As moças. A madeleine de Isabel foi uma carta de sua tia Emília: "Um dia eu estava em casa, me queixando da vida, sozinha, com 10 cruzeiros na bolsa. Era tudo o que eu tinha. Eu pensava: 'Ai, meu Deus, o que vou fazer com esse dinheiro? Estou devendo, eternamente endividada'. Lembrei-me, então, de uma tia solteirona, que vivia em Araruna, no sertão da Paraíba, e mandei o dinheiro para ela. Eu expliquei, em carta, que ia gastar o dinheiro com besteiras, quando só precisava de Apracur. Ela respondeu 10 dias depois. Seu manuscrito parecia um tratado. A tia Emília dizia que não queria o dinheiro — queria um reloginho de pulso. Era só o que queria na vida. Ela falava assim: 'Não é para mostrar para ninguém, pois meus braços são magrinhos. É que eu gosto de consultar as horas quando vou à Igreja e à feira. Pode até ser um relógio de segunda mão. Quando perguntarem, eu direi que foi a Maria Isabel quem me deu'. Na detalhada carta, ela frisava: 'Minha mortalha lilás, a cor de Nossa Senhora das Dores, já está pronta'. Mandei o relógio. Ela ficou feliz".

Na dissertação de mestrado A cena do eu: dramaturgia brasileira em 1969, aprovada na Universidade do Rio de Janeiro, Ana Lúcia Vieira de Andrade, criticando os analistas que defendiam o teatro engajado, escreve que há, em As moças, uma "tentativa de, a partir da experiência privada, particular, traçar um painel do descaminho, das frustrações e da descrença na idéia de superação de um presente estagnado, comum a todos aqueles que, dos 20 aos 30 anos, naquele contexto histórico, ao seu modo, buscavam uma sociedade mais justa e mais livre".

Ana Lúcia acrescenta: "As moças, após uma primeira temporada morna em São Paulo (1969), com encenação de Maurice Vaneau e elenco formado por Célia Helena e Selma Caronezzi, foi um sucesso memorável na montagem carioca de Ivan de Albuquerque, com as interpretações de Leila Ribeiro e Tetê Medina, para o Teatro Ipanema. (...) Como provam as diversas representações posteriores às de 69/70, As Moças é uma obra que retrata personagens e situações cujo alcance vai muito além da problemática particular da autora (o caráter autobiográfico, é o que está dizendo a crítica). Apesar de ter sido escrita a partir de vivências pessoais (e de se ter divulgado bastante isto), sempre houve a preocupação de se retirar dessas experiências o sentido existencial amplo que lhes daria um caráter coletivo, universal".

Num depoimento, Isabel Câmara interpretou a própria obra: "De repente eu soube que era sobre o acúmulo de frustrações familiares, das quais somos os herdeiros, que eu queria escrever. Herança pela metade que recebemos, de um mundo pela metade. Falsos valores contra os quais lutamos e que, no fundo, fazem parte de nós, da nossa personalidade; o cotidiano que nos é imposto, como nos é imposta a vida que não pedimos; metades. Era sobre metades que eu queria escrever". (O leitor que perceber o dedo de Sartre nessas palavras não deve estranhar. Isabel é filha de uma geração sartreana, que desafiou a moral do seu tempo. Suas simpatias são destinadas mais a Simone de Beauvoir.)


Metade da Alma

Ana Lúcia alonga as idéias de Isabel: "Como a própria Isabel faz questão de enfatizar, era sobre 'metades' que ela queria escrever, ou seja, sobre pessoas que carregavam uma sensação de fracasso por não conseguirem expor livremente sua sexualidade, por não conseguirem agir de modo efetivo, transformador. A vida era 'pela metade' porque não era vivida com coragem, não era assumida em todos os seus riscos. Fazer um teatro que desabafasse esse sentimento significava romper com esta covardia, assumir um eu que não se tinha coragem de assumir". (Em 1969, a repressão era violenta, inquisitorial. Mas a dramaturga Isabel, mesmo notando isso, fala também de outra repressão, que é mais arraigada, que é a repressão dos valores, dos valores que recusam o elogio da diferença.)

Sobre a carta, Ana Lúcia é luminosa: "A carta de tia Emília, que tanto impacto causou em Isabel Câmara , era o relato da falência em todos os sentidos, a história de alguém a quem a vida havia negado tudo, tanto no nível emocional quanto material: aos 74 anos, vivendo absolutamente só (nunca se casara) numa cidade pequena do interior nordestino, tinha, ainda, problemas graves de ordem financeira (precisava contar com a ajuda de parentes e amigos) que não a permitiam aspirar a qualquer realização. Praticamente reduzida a uma espera da morte, tia Emília tinha um único sonho: possuir um relógio de pulso que a permitisse consultar as horas a todo momento". É curioso o que escreve Ana Lúcia porque, sem querer, está retratando Isabel hoje. Como Flaubert disse a respeito de Emma Bovary, Isabel pode dizer: "Tia Emília sou eu". Não estará mentindo. Coincidência. Mais uma. Ou, como queria o suicida Walter Benjamin, cacos da história.

Aos que vêem mais lesbianismo na peça, explorando mais o que há de instinto, Ana Lúcia propõe outra visão: apesar das divergências entre as personagens Ana e Tereza (Isabel, é claro, mas não só; é uma mistura como os personagens de Proust), de As moças, elas são muito parecidas. "Até a paixão (nunca assumida) que existe entre as duas é decorrente disso. Mais do que uma forte atração física, o que parece ligá-las é a mesma insatisfação, a mesma impotência diante da vida", nota, com agudeza, Ana Lúcia. "O teatro brasileiro antes de 69 havia sido muito discreto com relação ao homossexualismo. Nelson Rodrigues já tinha escrito e encenado O beijo no asfalto, mas o tema continuava a ser ainda um tabu nos palcos nacionais. (...) Isabel Câmara, com As moças, propõe o tema, mas, do mesmo modo que Zé Vicente em O assalto, não faz dele tópico principal em seu texto, colocando-o como parte de uma problemática muito maior: a da libertação do indivíduo face uma sociedade repressora e alienante, marcada pelo isolamento e pela falta de aspirações". Em poucas palavras, Isabel não quer demonstrar, quer mostrar. Para ela, a revolução está na qualidade da peça — que garante sua permanência —, não nas boas intenções (que nem sempre são tão boas assim, remember o realismo socialista).


Maria Bethânia

Um tanto avessa à teoria, porque aposta mais na independência da arte, Isabel disse ao Jornal Opção: "A peça fala de mim e de Maria Bethânia. Nós duas éramos muito amigas e moramos juntas durante um bom tempo. Era uma amizade apaixonante. De profundo respeito. Era um tempo feliz. Bethânia, mocinha, fazia sucesso no Carcará, no Opinião. Ela era linda. Às vezes, cantava uma música do Edu Lobo: "O tempo é como o rio, onde lavei os cabelos da minha amada". Eu dizia: "Bê, toca para mim. E ela tocava".

Um dia um homem bonito, o espanhol Pedro Soler, chega e diz: "Meu nome é Pedro, sou flamenco, a Bethânia mora aqui?" Isabel conta: "Com aqueles olhinhos de menina, Bethânia ficou paralisada, olhando aquele espanhol lindíssimo. Ele tocou das 8 horas da noite às 3 da manhã. Bethânia foi embora — estava conquistada. Ficamos amigas, felizmente. Na peça, as duas personagens não chegam a conclusão nenhuma. Elas se ferem, se machucam, e não sabem quem é quem, não se sabe por que se está ali. Só se está ali. E o Rodrigo (o Pedro) é só um retrato na parede". Isabel faz uma pausa e diz: "Pronto, contei!" Ela exclama como se se sentisse aliviada ao contar essa história bonita, que é vida, mas também pura literatura, ou seja, vida que engrandece a arte.

Com a fama, e devido ao fato de escrever bem, numa prosa clara e esperta, Isabel ganhou o cargo de redatora no Telenotícias, espécie de Fantástico da TV Globo de então (início da década de 70). "A Globo me deu chance. Me pagava bem." Se não tivesse "pirado", Isabel hoje certamente estaria entre Dias Gomes, Glória Perez, Sílvio de Abreu, Benedito Ruy Barbosa e Gilberto Braga. Ou, talvez, estivesse escrevendo peças questionadoras como As moças.

Antes da piração, gerada pelas drogas, Isabel conviveu com toda a elite cultural do Rio de Janeiro, lia filosofia (Sartre e, proustiana, Bergson), esoterismo e literatura. "Montei um apartamentinho, com móveis doados por amigos. Segundo Luiz Carlos Maciel, Villa-Lobos, que morreu em 1959, morava ou havia morado perto." Ela conversava com Vinícius de Moraes. Era amiga de Luiz Carlos Maciel, Maria Bethânia, Chico Buarque de Holanda — de toda uma geração criativa que ainda está por aí, produzindo música, teatro, cinema e literatura. ("Ou só ganhando dinheiro.") "Namorei rapidamente com Tom Jobim, que namorava muitas mulheres. Durante a Copa de 62, fechamos o Zepellin e fiz strip-tease enrolada na bandeira do Brasil. Tom Jobim e outros cantavam sem parar. Até o cronista de Ipanema, Carlinhos de Oliveira, cantava. Eles cantavam o hino nacional. Muitos batucavam nas mesas. Foi uma festa linda. O Oscar, o dono do bar, subiu num balcão e recitou versos de Goethe em alemão."


Tira em quadrinhos para Isabel Câmara
Uma historinha, uma lembrança ligada a Isabel Câmara


Carlos Sussekind *


São muitas. Todos nós, seus amigos, podemos falar horas sobre sua argúcia, sua presença de espírito, sua sensibilidade, seu senso de humor, sua palavra poderosa. Especialmente para a ocasião — lançamento próximo de seu livro Coisas Coiós pela Editora Sette Letras, do Rio de Janeiro, que interrompe um longo silêncio da escritora — acho que me veio uma idéia. Hoje motivo de orgulho para Goiânia, onde reside, como o foi para o Rio de Janeiro, nas décadas de 1960 e 1970, quando a fiquei conhecendo, Isabel, a partir deste livro, associou-se, para mim, a uma coincidência (ela que, como eu, adora coincidências).

Em 1961 (1962?), trabalhamos juntos como tradutores numa agência de notícias internacional. Nossas escrivaninhas ficavam ao lado uma da outra. Conversávamos muito e produzimos pouco. Lembro-me de uma seqüência de quadrinhos que desenhei então, em que, no primeiro, estamos ambos em silêncio, olhando fixamente para as nossas máquinas de escrever, mas com os braços inertes, pendentes para os lados, grande desânimo, ela com um cigarrinho esquecido entre os dedos. Nada acontece. No segundo quadrinho, ainda tenho o braço esquerdo inerte, mas, com o direito, estou erguendo para mostrar ao leitor (depois, claro, de havê-la mostrado a Isabel) uma folha em branco. De minha cabeça sai um balão com a legenda: "Minha produção!" Isabel, triste, desconsolada, fumando. Num terceiro quadrinho da tira, continuo com o braço direito erguido mostrando a folha em branco, agora com novos dizeres no balão: "Pensar é fácil... mas escrever!...". No quarto quadrinho, nada mudou, Isabel desconsolada fumando, eu com a folha em branco erguida, e, agora, no balão: "Os pensadores pensam para dentro, os escritores para fora". Quinto quadrinho: tudo igual, mas estes dizeres no balão: "O escrever está na massa do meu sangue. Não saberia viver sem o fazer!" Isabel me examina com um olhar descrente. Sexto quadrinho: baixo a cabeça, envergonhado; na mão direita, sempre erguida, ainda a folha em branco. Balão : "Mas escrever, mesmo... nada!" Isabel desabou com a cabeça sobre a sua escrivaninha, os braços largados, desespero total. No sétimo quadrinho, começo a reaprumar-me (a folha em branco sempre erguida na mesma posição) e aparecem no balão os dizeres: "Vogais a-e-i-o-u". Isabel também se recompõe e tem no rosto uma expressão simpatizante. Oitavo quadrinho. Dizeres no balão: "Consoantes b-c-d-f-g-h-j-l-m-n-p-q-r-s-t-v-x-z". Isabel levantou-se, sorridente e interessada, vem olhar de perto a folha em branco que continua erguida na minha mão direita. No nono e último quadrinho, os dois, de pé, agora de costas para o leitor, fitam atentamente a folha em branco. De ambos sai o balão: "O saber consiste na ignorância dele próprio".

Assim termina a seqüência de quadrinhos e, mais de 30 anos depois, impressiona-me a coincidência de ver a vitória sobre o bloqueio de escrita ser assinalada pela apresentação da primeira página de uma cartilha, tanto na historinha da folha em branco como no final de Coisas Coiós (onde, em seguida à tabela de vogais e consoantes, começa o texto fascinante que diz: "Aquela menina é tua irmã?/Não. Aquela menina é minha amiga./Eu sou a amiga da amiga./Eu sou o amigo do amigo./Eu sou amiga das amigas e dos amigos./Aprendo a escrever./Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?).

Isabel Câmara nunca tomou conhecimento desses quadrinhos, a não ser daquele inicial, com a legenda Minha Produção!, que lhe dei de presente e que, segundo ela, se perdeu numa enchente em Petrópolis.

Não sei se a coincidência se estende também ao último balão, "O saber consiste na ignorância dele próprio", cujo significado, desde aquela época, não entendi bem qual possa ser; mas, hoje, pela sedução que emana da coincidência com a "Cartilha" de Isabel, estou inclinado a interpretar como sendo, ao mesmo tempo, a negação e a afirmação da folha em branco. E olha aí que boa definição de Coisas Coiós!

* Carlos Sussekind, autor de Armadilha para Lamartine, é escritor.


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