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Mãe coragem
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 30/7/2008 · 25 votos · nenhum
  
Publicado originalmente em 04/11/2003.

Rachel de Queiroz morre aos 93 anos deixando vaga a cadeira de matriarca da literatura brasileira e uma obra realista, de cunho social, mas com traços poéticos. Seus dois livros mais conhecidos estão nos extremos de sua vida: O quinze, escrito aos 20 anos, e Memorial de Maria Moura, aos 83.


Está vago o posto de matriarca da atual literatura brasileira. Rachel de Queiroz, que exercia a função com simpatia e fidalguia, sofreu uma parada cardíaca na madrugada desta terça-feira (4/11), enquanto dormia em sua casa, no Rio. A autora de Memorial de Maria Moura completaria 93 anos no próximo dia 17, e ocupava desde 1977 a cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido a primeira mulher a entrar para a instituição. O velório acontece ao longo da terça-feira no Salão dos Poetas Românticos, na ABL, e o enterro está marcado para as 9h de quarta-feira, no Cemitério São João Batista.

Rachel sempre foi pioneira, desbravadora. Seus pais migraram do Ceará para o Rio fugindo das conseqüências da grande seca de 1915, mas logo depois resolveram residir em Belém e, a partir de 1917, novamente em Fortaleza. Ela, então, com apenas 17 anos, já atuava como redatora e poeta no jornal O Ceará, e seu talento começava a repercutir no seu estado e fora dele. Quando lançou O quinze, em 1930, sua carreira de ficcionista se abriu com tremenda força.

O romance relembrava exatamente os tempos da seca de 1915. Seu retrato realista, mas com verniz poético, das mazelas e misérias sertanejas impressionou os relativamente pouco leitores da primeira tiragem (de apenas mil exemplares, paga pela própria autora), entre eles críticos de peso como Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha e Agripino Grieco. O quinze foi o marco inicial da chamada literatura regionalista, mas não envelheceu como tantos outros do gênero. Apesar da antipatia da própria Rachel, que o considerava muito juvenil, tornou-se um clássico indiscutível da literatura brasileira.

Depois de ter o talento reconhecido já aos 20 anos, Rachel não parou mais de escrever. Tanto para a imprensa (Diário de Notícias, O Cruzeiro, O Jornal e, entre outros, O Estado de S. Paulo, para onde colaborava desde 1988) quanto obras literárias. Entre estas estão o romance As três Marias, o volume de crônicas A donzela e a moura morta, a peça A beata Maria do Egito e o livro infantil O menino mágico. Em 1992, já com 82 anos, voltou às listas de mais vendidos com O memorial de Maria Moura, romance que seria transformado em minissérie pela Rede Globo.

Sua obra está quase toda disponível em edições do grupo Siciliano, mas há também textos na José Olympio. Embora sua literatura já estivesse completamente consolidada, fará falta sua personalidade ao mesmo tempo delicada e aguerrida, que cobrava mudanças no panorama social do país e não costumava fugir de polêmicas – inclusive na ABL, onde era uma das vozes mais influentes. Com sua morte, a Academia tem agora três cadeiras vagas, além da 6, cujo novo ocupante já foi definido: Cícero Sandroni.

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