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Kindle, por Rubem Fonseca
 
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Portal Literal 2.0, Rio de Janeiro (RJ) · 20/2/2009 · 97 votos · 16
  
reprodução
Rubem Fonseca comenta em artigo exclusivo para o Portal Literal o que pensa sobre os livros eletrônicos e questiona: "há coisa melhor do que ler em um livro?".


Kindle 2 é como se intitula o novo e-book que está sendo oferecido aos consumidores. Como o nome indica, um livro eletrônico. A primeira versão do Kindle foi lançada em novembro de 2007 pela Amazon, que começou a vida vendendo livros de papel pela internet. O Kindle já oferece para download mais de 88.000 títulos e vai aumentando o numero de títulos constantemente. Por enquanto é vendido apenas nos Estados Unidos. Custa cerca de quatrocentos dólares.

O Kindle está causando um grande furor. As Oprah Winfreys, os David Letterman, os Jay Lenos da tv, os blogs estão alvoroçados. Tem brasileiro indo aos EUA só para comprar o Kindle.

Mas ele não é o primeiro livro eletrônico. Antes dele a Sony lançou o PRS (iniciais de Portable Reader System), que consome energia apenas quando uma nova página é carregada e tem autonomia para sete mil e quinhentas páginas. É vendido nos EUA por trezentos e cinqüenta dólares, acompanhado de um cabo USB para conexão com o PC.

O PRS lê somente os e-books disponibilizados na loja virtual da Sony, que oferece outro dez mil títulos à venda por preços mais baixos (diz a propaganda) do que os livros de papel encontrados nas lojas de varejo.

Parece que o PRS não vem fazendo muito sucesso. Tanto que a Amazon está lançando a segunda versão do Kindle, com o qual espera obter o êxito que o PRS não conseguiu.

Permitam-me uma digressão. Eu me lembro que há tempos comprei um cd denominado “Library of the Future”, com o texto completo de cinco mil livros (5.000). Tem todos os clássicos que você pode imaginar, desde a Ilíada e a Odisséia, de Homero, passando por todas as tragédias e comédias clássicas gregas – Eurípedes, Sófocles, Ésquilo, Aristófanes e também as obras dos filósofos gregos, Platão, Aristóteles, Epicuro – não vou citar todos, a lista é longa) e mais os historiadores como Tucídides e Plutarco, e os livros de Heródoto, Galeno, Demóstenes e Hipócrates. Recordo que entre os vários livros de Hipócrates havia um sobre hemorróidas e outro sobre úlceras, que li com interesse.

Dos clássicos latinos o “Library of the Future” tem, entre outros, Plauto, Terêncio, Catulo, Horácio, Lucrécio, Ovídio, Propércio, Virgílio, Juvenal, Petrônio... Acho que chega. E isso é apenas a literatura clássica grega e latina. Todos, repito, todos os grande livros da história da literatura universal estão nesse cd. Que pode ser adquirido via internet facilmente.

O problema é que está tudo em inglês e o cd tem uma chave que não permite que se faça cut and paste.

Mas voltemos ao Kindle. Será que ele vai dar certo? Ou vai fracassar como o PRS? Talvez o Kindle precise de mais recursos – toque música, faça fotos e filmes, envie e receba e-mails, possa ser usado na caixa eletrônica do banco para tirar dinheiro, permita download de filmes e dispare projéteis de borracha (ou verdadeiros) para assustar ladrões, já que o número de assaltantes aumenta mais que o número de novos e-books.

Uma longa exposição a telas eletrônicas, segundo algumas pesquisas, é prejudicial à saúde. Outras pesquisas dizem que se você mantiver constantemente uma distância de pelo menos 50 centímetros da tela, se parar de ler a cada 30 minutos durante pelo menos vinte minutos, de preferência caminhando neste intervalo, se fizer isso, além de pingar colírios na vista de dez em dez minutos, poderá evitar a “Síndrome de Tela de Computador”, dor de cabeça, olhos cansados e secos, visão embaçada, além de outros sintomas que variam conforme o leitor. Ler na cama está fora de cogitações.

Respondam: há coisa melhor do que ler em um livro? Além disso ele pode ser lido em qualquer lugar. Digam um lugar em que um livro não pode ser lido?
Você pode ler os jornais na internet, no entanto todo mundo prefere ler as notícias no jornal de papel. Por que será? Vício? Conforto? Sabedoria?
O significado da palavra inglesa Kindle é “arder, acender, incendiar.”
Querem saber de uma coisa, aqui entre nós? Esse Kindle me parece fogo de palha.




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A Lexcycle, empresa que produz o Stanza, o mais conhecido programa para ler livros no iPhone, fez uma enquete entre seus usuários para saber onde lêem seus livros eletrônicos. As duas opções mais votadas foram: 31% na cama, 29% no ônibus ou trem. Mais de 5.500 usuários participaram. Não é uma amostragem científica, mas indica claramente que um livro feito para o celular também pode ser lido em qualquer lugar, mesmo.

Certamente, muitas pessoas devem preferir ler notícias, e outros textos, em jornais de papel. Afirmar que "todo mundo prefere" ler no papel, porém, não serve como argumento. E se assim fosse, como explicar a queda brutal de 20% na receita dos jornais norte-americanos nos últimos anos (conforme a revista Exame da quinzena)? As vendas de jornais caíram, porque os leitores, que antes compravam jornais na banca, agora lêem as notícias em meio eletrônico. E pararam de comprar jornal. Para um número muito expressivo de leitores, como se vê, o importante é ler, simplesmente, sem importar o meio em que se lê.

A leitura em uma tela é rotina diária para milhões de pessoas, em escritórios, lojas, lan-houses... Nunca soube de milhões de pessoas portadoras de uma "Síndrome de Tela de Computador". Mas já fiquei sabendo de pessoas com vista cansada, devido a leitura de letrinhas pequenas de livros impressos, por lerem em locais sem luz apropriada, ou na cama, antes de dormir. Se ler provoca doenças, tanto na tela como no papel, talvez devessemos considerar a suspensão imediata de toda leitura.

Brincadeiras à parte, gostei do artigo e devemos discutir mais o assunto do livro eletrônico. Ele não vai substituir o livro impresso, ou o jornal impresso. Quem gosta do papel não precisa temer. Pelo menos, não pelos próximos cinco anos. É certo, porém, que o impresso vai conviver com o eletrônico. O texto na tela só tende a crescer e aumentar em relevância, conforme os leitores escolhem as vantagens do eletrônico, em detrimento das vantagens do impresso, e os empresários percebem e investem seu dinheiro nisso.

Abraço,
Eduardo Melo
editoraplus.org

Editora Plus · Porto Alegre (RS) · 19/2/2009 10:12
Caro Rubem, escrevi algo sobre o Kindle aqui mesmo no Portal Literal. Em resumo: penso que é válido em determinadas circunstâncias, mas que não substitui a experiência de folhear certos livros de papel. Um abraço.

Héber Sales · Salvador (BA) · 19/2/2009 12:45
O Kindle é só mais um tótem tecnológico, que simboliza o triunfo da modinha sobre a necessidade.

Talvez se o gosto pela leitura fosse comum entre adolescentes, venderia bastante por aqui.

Se podemos ler via internet ou celular, para que gastar dinheiro e recursos com uma geringonça dessas?

Natalix · Novo Hamburgo (RS) · 19/2/2009 17:36
Um fanático em RPG acabou de argumentar que o Kindle seria ideal para armazenar seus milhares de volumes, podendo ele jogar a qualquer hora em todo lugar.

Acho que encontramos um uso bastante justificável para o Kindle. rs

Natalix · Novo Hamburgo (RS) · 19/2/2009 17:44
A melhor parte deste artigo são os esclarecimentos do Eduardo Melo, rs. Pois "todo mundo prefere ler as notícias no jornal de papel" e "síndrome de tela de domputador" cairiam bem numa crônica, que aí a gente releva, agora num artigo, sei lá eu, hem.

Denis Pedroso · São José dos Pinhais (PR) · 19/2/2009 19:49
Creio que um livro, o verdadeiro espírito de um livro, ultrapassa o meio, o objeto. Emerson dizia que uma biblioteca é o reduto em que estão adormecidas as vozes de todos aqueles homens e mulheres brilhantes da humanidade. Não importa se o "livro" está entre uma capa e uma contracapa ou em um ebook, um kindle. Creio que quando evoluímos dos pergaminhos para o livro como hoje o conhecemos também sofremos um choque, como bem ilustra este bem humorado vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=xFAWR6hzZek

Também escrevi um artigo sobre o tema hoje. Afinal, o que diria Borges do Kindle?:

http://livroseafins.com/2009/02/20/jorge-luis-borges-gostaria-do-kindle/

Abraços.



Alessandro · Curitiba (PR) · 20/2/2009 16:33
Tive um momento Lewis Caroll, lendo Emerson de uma careca obscena. Hahaha!

Natalix · Novo Hamburgo (RS) · 20/2/2009 17:28
Vou encarar como um elogio, Natalix.

:-)

Imagino que seja.

Beijos!

Alessandro · Curitiba (PR) · 20/2/2009 17:48
Pois é, imagine se para ler um Grande Sertão, um Ulisses tivermos que parar a cada vinte minutos, andar, pingar colírios... O problema em ter um desses é não poder exibir sua biblioteca; né?
Vou iniciar uma pesquisa para saber qual o problema que o mundo inteiro tem com os livros. Sempre aparece um substituto que não o substitui. Procurem sobre livros em jornais.

Ô Zé, este ano tem livro novo? Um abraço
(parece até que somos amigos)

márcioafsouza · Belo Horizonte (MG) · 21/2/2009 16:23
O importante é o conteúdo e não o meio. Acho que as novas tecnologias podem ajudar na conservação da cultura, não substituindo as formas mais antigas.

dudu oliva · Rio de Janeiro (RJ) · 22/2/2009 15:06
Grande Rubem Fonseca! tô contigo e não abro. Livros, na versão tradicional, são de uso ilimitado, assim como o seu conteúdo. Volta e meia eu fico pagando micos em público, lendo no CCBB ou em Shoppings e chorando ou me acabando de rir, conforme o caso, sem falar as caretas de apreensão que vivo fazendo.
Um livro de papel é algo tão incluido em nossos hábitos, que nem o percebemos, simplesmente apresenta-se o texto à nossa frente.
Acho muito legal o ser humano buscar e desenvolver novidades, mas nem por isso as coisas mais antigas devem perder seu lugar.

bia35 · São Gonçalo (RJ) · 25/2/2009 17:10
A discussão avcaba sendo meio vazia. A televisão vai matar o cinema? O CD vai matar o vinil? O MP3 vai matar o CD? O cinema vai matar o teatro? Quem matou Odete Roitman? Na verdade tanto o da Sony quanto o Kindle têm tela opaca, não acabam com a vista, e são fáceis de usar. A vantagem é que não emboloram nem ocupam muito espaço. Tenho um e continuo comprando livros de papel. Renato ( http://www.oerratico.com)

Renatosg · São Paulo (SP) · 26/2/2009 10:00
É muito importante que um autor brasileiro do prestígio de Rubem Fonseca participe do debate a respeito do livro eletrônico. O ebook, à medida que consigamos nos desvencilhar dos velhos hábitos, tende a revolucionar o livro [sua terceira encarnação, chamaria] e a própria leitura. Ler on-line é melhor, por diversos motivos [alguns deles, estudamos e analisamos no blog Pontolit - http://www.pontolit.com.br/blog ]. É importante que se observe que os digital natives, as gerações Y e Z já estão muito mais habituadas à leitura em telas. Há algumas horas, escrevi no Pontolit um artigo sobre um vídeo que apresentava o UNIVAC, um computador lançado pela Remington na década de 1960. Mais interessante no vídeo era a presença de um dos inventores do ENIAC [outro computador famoso, este da década de 40], com uma Business Week nas mãos, comentando um artigo da revista, de 26/03/1960, que enfatizava que nos computadores, o software era tão importante quanto o hardware. Os computadores levaram anos [e diversas encarnações] para chegarem aos nossos lares. Ainda hoje, na mesma Business Week, leio sobre os novos modelos da computação baseados no celular e outros dispositivos móveis. Ainda mantemos [poucos talvez] o hábito de fazer contas de cabeça e guardar de memória alguns trechos de informação que nos sejam de alguma forma importante. Entretanto, os computadores chegaram para ficar e se misturar a diversos outros objetos. Entre estes, o livro. Os livros [ainda o chamaremos assim] serão digitais, não tenho a menos dúvida. E o será para melhor, podem ter certeza. Aliás, os livros, se comunicarão, os leitores se encontrarão nos livros, os livros [como redes sociais] serão lugares de encontro. os livros também serão serviços. Os escritores também serão influenciados por este novo modelo de livro [ainda uma extensão da memória e imaginação, como percebeu Borges]. Os editores [lembro aqui, o movimento dos autores indie nos EUA] precisarão agregar ainda mais valor ao processo de produção [cada vez mais horizontalizado] do livro. As livrarias e outros players devem incluir inteligência e personalização ao processo de venda. Bom, em resumo, é um mundo completamente novo, baseado em tecnologia de ponta, que tende a impactar até o idioma. Imaginem o seguinte cenário [há poucos meses escrevi sobre isso no Pontolit]: um leitor que vasculhe uma base de dados a procura da sugestão de um livro de um autor que tenha um estilo parecido com o de outro autor. Não se trata de Sci-Fi. Análise estatísticas já permitem que isso seja possível. Aqui, por exemplo, em termos do idioma português estamos praticamente na estaca zero. Sim, Rubem, o Kindle lê [usa text-to-speech]. Lê ainda em um estilo meio "freaky", mas já o faz muito próximo ao de um ser humano. O processamento em linguagem natural evoluiu e os computadores aprendem a ler textos não estruturados [como um texto narrativo, por exemplo, contrapondo-se a uma linguagem de programação]. Nesse cenário, de constante mudança, não precisamos mais discutir se os átomos do papel será substituído ou não pelos bytes. Precisamos sim e participar desta mudança, sugerindo, trabalhando em conjunto, colaborativamente, como equipes interdisciplinares. É mais ou menos por aí. Ainda sobre o Kindle: não penso que seja fogo de palha, mas como produto, o Kindle me interessa menos do que como serviço. Aí é que está o seu grande valor. Pense em um livro: poucos cliques, 60 segs depois, ele está lá, no Kindle, à disposição do leitor.

Cláudio de Souza Soares · Rio de Janeiro (RJ) · 1/3/2009 01:53
Prova, Rubem Fonseca, prova!
Coloque a capa d´O Romance Morreu aí na tela e espere por opiniões. Eu aposto com o senhor que a maioria vai insultar, chamá-lo de tudo que é nome e dizer: o romance nunca vai morrer!


márcioafsouza · Belo Horizonte (MG) · 1/3/2009 23:24
Importante mesmo é ler. Num papel de pão ou num troço desses dos "States"...

Grande abraço,
Bruno Nogueira.

nobrurj · Rio de Janeiro (RJ) · 30/3/2009 03:14
Caro Rubem

Apesar de mais jovem q vc, partilho de sua preferência pelos livros, até o ponto do fetiche: o Dom Casmurro que me satisfaz é o exemplar guardado em minha estante, de uma edição popular da Ática em papel jornal, dos meus tempos de escola.

Mas não creio q os aparelhos de leiura digitais sejam fogo de palha. O kindle, na medida em que serve a apenas uma empresa não deve mesmo vingar, mas quando surgir um livro linkado à internet sem fio, com uma boa bateria e que permita anotações, o livro de papel certamente acabará. Tal aparelho uniria o conforto e a paticidade do livro com o irresistível canto de sereia da internet: ter toda a escrita (e mais o audiovisual) do mundo em poucos cliques, muitas vezes gratuitamente. E já há tecnologia para tudo isto: basta juntá-las a um preço razoável.

Quanto ao fato da leitura nestes dispositivos ser cansativa ou fazer mal à saúde, eles já resolveram isto: o que se lê nestes e-papers são mesmo pigmentos análogos à tinta, sem emissão de luz ou qualquer outra radiação: dá tanto desconforto ou faz tanto mal quanto a leitura em papel.

Acho que o livro está demorando cair porque é uma tecnologia muito boa, que vem sendo aperfeiçoada a séculos, mas creio que finalamente está chegando sua hora.

E agora uma provocação: quando as crianças forem educadas em readers, será que eles sentirão amor por livros de papel como nós? Acho que olharão os livros com a mesma curiosidade e espanto que nós apreciamos os papiros antigos nos museus: "eles liam nisto aí?"

--------------------- · Goiânia (GO) · 25/5/2009 16:59
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