Entrar
Novo no Literal? Registre-se
Jornalismo Literário Brasileiro - A revista Realidade
 
1
j., Rio de Janeiro (RJ) · 21/7/2009 · 158 votos · 1
  
O jornalismo cultural brasileiro tem registrado em sua história alguns momentos em que a reportagem cruzou a romance, adaptando técnicas de literatura para melhor relatar os fatos. A revista Realidade é um marco deste registro, com matérias que demonstravam afinidade com o new journalism norte-americano.

Guardadas as diferenças entre O Cruzeiro e a revista Diretrizes, pode-se afirmar que ambos contribuíram para a consolidação da grande reportagem na imprensa brasileira, abrindo caminho para o surgimento da revista Realidade. Matérias investigativas, não necessariamente denúncias, sobre assuntos que dividiam a opinião pública, eram uma constante em suas páginas. Essas reportagens deviam se sustentar como uma leitura envolvente para o leitor, em função das demandas culturais que formavam o universo do público naquele momento.

Na conjuntura do pós-guerra, o quadro político brasileiro era marcado pela exacerbação do populismo, o nacionalismo e a participação das massas urbanas na polarização, que então tornava-se intensa. A prática do profissional de imprensa dos anos 60 era influenciada por essas circunstâncias, que podem explicar o surgimento da revista Realidade e o uso de técnicas literárias no seu jornalismo.

O clima político-cultural naqueles tempos viabilizou a confluência dos profissionais de imprensa e das estruturas partidárias (algumas apenas semi-legais) que movimentaram Realidade. Opinião, inconformismo, crítica, formulação de utopias, engajamento político e anti-autoritarismo eram elementos que formavam o panorama cultural brasileiro, características indissociáveis da produção intelectual do período. A revista da Editora Abril, lançada em 1966, costuma ser vista em trabalhos acadêmicos como um marco na história da imprensa brasileira, graças ao seu posicionamento político e resistência à ditadura mas também às características de seu estilo, vistas como tendências que não chegariam a se repetir depois do fim da revista. Realidade tornou-se êxito editorial com seu jornalismo de reportagem social, discussões sobre a moral e os costumes da época e as transformações do Brasil. Seu estilo, inspirado no new journalism, buscava unir a técnica narrativa baseada na experiência do jornalista com a realidade que se procurava retratar.

A tese de Doutorado da Profa. Terezinha Fátima Tagé Dias Fernandes, apresentada à ECA/USP em 1988, entitulada “Jorge Andrade, Repórter Asmodeu - Leitura do discurso jornalístico do Autor na Revista Realidade”, analisa os textos produzidos para a revista pelo dramaturgo e escritor Jorge Andrade a partir de 1968, quando Realidade já sob o impacto do Ato Institucional nº 5. Os textos de Andrade foram produzidos quando a liberdade de imprensa no Brasil já se encontrava cerceada. Neles, "o autor assume uma postura crítica diante do fazer jornalístico, por ele próprio definida, ao comparar o repórter moderno à figura de Asmodeu, príncipe dos demônios, na demonologia judaica. Sua característica principal era a de dar a quem o acompanhasse o dom de 'espiar' o lado oculto no interior das pessoas, dos fatos e da sociedade. O repórter cumpre a sua função social como um farejador de fatos, (...) que espia dentro dos outros, descobre, no menor sinal, o rumo dos acontecimentos...".

É segundo este ponto-de-vista que se desenvolve a reportagem “Roberto Carlos queria ser preto”, de Roberto Freire, publicada na edição de Realidade de Novembro de 1968. O jornalista acompanhou Roberto Carlos através de shows, bastidores de programas de auditório, estúdios, camarins e quartos de hotel para traçar um perfil analítico sobre o então ídolo da juventude brasileira. Logo no segundo e no terceiro parágrafos da reportagem, Freire assume-se enquanto participante na história que vai relatar, adotando o uso da primeira pessoa, e dá o tom pessoal que persistirá por todo o texto:

Antes de ir procurá-lo, haviam-se falado muito sobre sérias dificuldades que estaria vivendo e que ameaçavam sua carreira. De fato, a voz e o jeito de cantar aquela canção (“Preciso urgentemente de um amigo”) pareciam diferentes.

Encontramo-nos depois do programa. Eu nunca o havia visto fora do palco e dos vídeos. Ele aceitou a reportagem, mas notei que o fazia contra vontade. Acompanharia seu trabalho no Rio, onde ele iria gravar discos e fazer um programa de televisão. Depois, em Florianópolis, assistiria a seus shows.



Freire relata em seguida a saída de Roberto Carlos do estúdio de TV onde gravava o programa. Aos poucos, começa a pintar um cenário em que o cantor aparece totalmente acuado e para dentro qual o repórter acaba sugado, podendo relatar, de perto, a sensação que Roberto Carlos transmite diante dos acontecimentos que o cercam. O cantor passa por uma crise artística e em sua vida privada: as composições que trazem a ele não o agradam; sua mulher quase perde o filho que esperavam; os fãs e o circo da imprensa o deixam desconfiado; enquanto compositor, Roberto Carlos encontra-se descontente com a repetição de hits baseados no mesmo som que vinha fazendo há anos, busca um som “novo” (“... a gente precisa inventar coisas que as pessoas aprendam a gostar e não o que já se sabe se do gosto delas.”).
À saída do estúdio, dezenas de repórteres procuram o cantor enquanto ele tenta responder às perguntas em meio à gritaria a que se somam também os fãs, agrupados em uma pequena multidão. Roberto Carlos, que até então permanecia “colado a um muro”, é colocado em seu carro e parte rapidamente mas:

Pára em seguida. Ele me chama, oferece carona. Na rua, o carro é cercado. A sensação, de dentro, é horrível, pois o carro é sacudido violentamente, dão murros nos vidros e no teto. Através das janelas e dos pára-brisas, vêem-se os rostos curiosos, tensos, aflitos. E mãos, centenas de mãos. Buzina, gritos. A frustração transforma o carinho em agressão, o entusiasmo em histeria.

O diálogo é parte importante do texto. O repórter reproduz algumas conversas entre Roberto Carlos e os amigos em um jantar para o qual é convidado, no apartamento do cantor. São esses diálogos que vão mostrar Roberto Carlos mais tranqüilo, desobrigado da formalidade de uma entrevista:

A certa altura percebia-se que Roberto Carlos estava cansado mas ele continuava estimulando os amigos a lembrarem o passado. Ouvia com curiosa e quase infantil atenção o que contavam, como se fosse pela primeira vez (...)

- Foi mesmo, rapaz?

- Mas você estava lá, bicho!


A quarta e última lauda da matéria é a mais reveladora e próxima do tipo de jornalismo cultural que a conclusão deste trabalho deverá buscar; Freire livra-se de qualquer resquício de uma postura fria e distanciada e discute abertamente os conflitos de seu entrevistado. Lemos a verdade de Roberto Carlos no momento em que Roberto Freire o encontra, ou seja, no registro que Hunter Thompson afirmou que o olho do jornalista deveria se assemelhar a uma câmera que tudo registra. E Roberto Freire é parte deste cenário, assumindo sua presença ali, expondo suas dúvidas e, na esteira desse olhar ampliado, mostra aspectos do assunto de sua matéria que o leitor jamais poderia vislumbrar em um texto de formato jornalístico tipicamente rígido.

Freire quebra totalmente o protocolo quando chega a explicar, no texto, o que deseja realizar com sua pesquisa e a matéria, comparando seu trabalho a uma idéia de Roberto Carlos. Quando o jornalista se despede do cantor no hotel, é surpreendido com uma pergunta:

- Quer me ajudar?

Não entendi. Ele logo explicou.

- No desenvolvimento do tema da canção “Eu queria ser negro”. Durante os shows, descobri uma pista.

Roberto Carlos estava despenteado, com a camisa aberta no peito e andava pelo quarto, um tanto inquieto.

- Eu até bem pouco tempo não sabia que negro era negro, entende? Eu gostava das pessoas, sem me dar conta de que a cor da pele e o local de nascimento pudessem criar nelas qualquer diferença. Hoje eu sei que essa diferença existe no tratamento dos brancos e dos negros. Mas em mim, isso não existe, viu? Juro. (...) Eu queria ser negro para conhecer os dois lados da coisa. É isso. Queria desenvolver sinceramente essa idéia e cantá-la por aí. Você podia me ajudar a conseguir essa letra.

Disse que sim. E por isso não pude dormir. Não que pensasse na letra mas já começava a me preocupar seriamente sobre o que iria escrever sobre o Roberto Carlos que havia conhecido. No fundo, o que ele pretendia fazer a respeito do negro era exatamente o que eu queria tentar na reportagem. Seria possível saber como se sente um ídolo, convivendo semanas com ele, participando de todos os seus momentos?


O jornalista então relata suas conversas com o fotógrafo (Roger Bester) no avião, em que discutem a crise de Roberto Carlos e sua própria crise diante do que escrever na matéria. Como dizer que o ídolo para quem multidões cantam “Eu te amo, eu te amo, eu te amo”, em cada show está em crise com tudo aquilo que fazia com que o amassem? Freire parte para uma longa definição de “crise”, em que também vislumbra um pouco do processo de criação artística, citando duas idéias de letras de música do cantor:

Considero que crise é um estado natural e necessário em todo processo de evolução (...) São raros os que conseguem suportar a angústia dessas crises e possuem a necessária coragem para superá-las. Daí a curta existência de tantos artistas. (...) Não importa aqui analisar os caminhos atuais da música popular, os problemas novos da televisão e do disco no Brasil. Porque qualquer conclusão a esse respeito nos forneceria receitas e não verdadeiras soluções. Tínhamos duas pistas seguras de que Roberto Carlos já está sondando o futuro através de seu processo mais íntimo de criação: “precisa urgentemente de um amigo” e “gostaria de ser negro”.


Fechando a reportagem, Freire relata trecho do diálogo com o fotógrafo quando tentavam escolher as fotos que seriam usadas para ilustrar a reportagem: “As cores, mais que os ângulos e os enquadramentos, deveriam servir de orientação. As cores iriam traduzir o que Roberto Carlos está querendo dizer, sem letra e sem música.”



tags: Rio de Janeiro RJ jornalismo-midia


 
Muito boa esta matéria.
Meus parabéns, votado e um abraço.
Arimatéia - www.arimateia.com

Arimatéia Macêdo · Gurupi (TO) · 20/7/2009 23:22
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Portal Literal, e adicione seus comentários em seguida.



visite nossa seção de perguntas mais freqüentes
                                 
Termos de uso | Expediente | Privacidade | Alerta
Salvo indicação em contrário, todo o conteúdo (c) 2009 Portal Literal e seus autores