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De Cabeça Baixa assim que foi lançado, no primeiro semestre deste ano, pela Editora Guarda-Chuva. Mas só agora consegui conversar com Flávio Izhaki sobre o seu bem-sucedido livro. O encontro, no apartamento do autor, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, foi pautado nas expectativas do primeiro livro.
Na história contada por Flávio, o protagonista, Felipe Laranjeiras, encontra seu romance,
Desencanto, num sebo em Curitiba – lugar escolhido de ‘exílio’ pelo personagem após o fracasso do primeiro livro e de um relacionamento amoroso. As páginas do exemplar encontrado estão cheias de anotações críticas. Quem escreveu os comentários? Essa pergunta seduz o leitor e o caminha para uma narrativa angustiante e bem estruturada.
Até o momento, posso afirmar que o livro de Flávio Izhaki foi o melhor lançamento de 2008 entre os ‘jovens promissores’. O autor merece mais facilidade na publicação do segundo livro.
Diferente do protagonista do seu livro, De Cabeça Baixa, você foi muito bem recebido pela crítica. Você teve medo do fracasso?
Flávio – Enquanto eu estava escrevendo o livro, resolvi investigar esse assunto. Mas não fiquei preocupado com o que iriam achar do livro. Até porque para lançar o livro é um processo: escrever, procurar editora, encontrar alguém que esteja disposto a investir... Eu só pensava em escrever. Mas é lógico que dá um nervosismo quando o livro vai para imprensa. Não se sabe como será recebido. Se vai ter uma resenha ou nenhuma. O
Valor foi primeiro veículo a publicar uma resenha do meu livro. Fiquei de sexta para sábado entrando no site do jornal, mas o acesso era restrito para assinantes. Foi um sofrimento. Na
Revista Época, por exemplo, o jornalista foi maldoso. Quando li a matéria tomei um susto com o título: ‘Todos querem ser igual a ela’. ‘Ela’ era Patrícia Melo. Sem julgar a Patrícia Melo, mas não respondi nenhuma pergunta relativa ao trabalho dela. Temos de lidar com essas coisas. Mas fiquei muito feliz com as críticas. Espero que essas resenhas possam ajudar na publicação do próximo livro. A imprensa gosta do novo, sempre tem alguma manchete vendendo um ‘escritor promissor’. Essa expressão cabe em muitos jovens. No meu livro, o protagonista encontra num sebo o livro
Simulacros, do Sérgio Sant’Anna, que diz o seguinte:
‘(...) Você quer saber de uma coisa, Jovem Promissor? Um dia o Velho Canastrão vai morrer e você tomará o lugar. Só que será batizado não de VC, mas de VF. Velho Fracasso’.
Não podemos acreditar nesses rótulos senão não avançamos e caímos do cavalo.
Você publicou esse trecho de Simulacros no seu blog Bohemias, em 2004...
Flávio - Sim. Você conseguiu encontrar? (RISOS)
Como surgiu De Cabeça Baixa?
Flávio - Eu escrevi esse livro há dois anos. Ou seja, quando fui fazer o lançamento, o livro já era estranho pra mim. Tentei escrever
De Cabeça Baixa a primeira vez, mas não consegui. Era sobre a história de um amor que não dá certo, não deu certo. (RISOS) Depois tive uma outra idéia: um escritor que encontra o próprio livro rabiscado num sebo. Escrevi uma sinopse e comecei a desenvolver o início da história. Tive que deixar de lado porque estava trabalhando muito como jornalista esportivo, numa agência de notícias – eu era editor e não tinha vida. Até que comecei a direcionar a minha vida para a literatura. Na época, eu tinha o sonho de ter uma editora. Mas, depois que trabalhei numa editora, desisti. Então, resolvi pedir demissão da agência para poder escrever. Agora já estou escrevendo o segundo livro e as questões já são outras.
Como aconteceu o processo de publicação do seu romance? Demorou?
Flávio – Foi difícil. Enquanto estava escrevendo o livro eu nem pensei em procurar editora. Mas depois que escrevi, juntei as matérias que eu tinha sobre as coletâneas e fui atrás. Primeiro, um amigo falou com um editor sobre o livro. Enviei o material e nada. Aguardei, mas depois o cara parou de responder. Perdi mais de cinco meses. Depois, em 2006, encontrei Marcelino (Freire) na FLIP e ele pediu o meu livro para entregar na Record. Só que três meses depois fui trabalhar na Record. Não sabia se podia perguntar sobre o meu livro. Um dia a Record se pronunciou e disse que gostaria de publicar. Mas logo foi proibido lançar livros de funcionários da editora. Então, o Sérgio França levou o meu livro ao João Emmanuel (Magalhães Pinto), que estava abrindo editora Guarda-Chuva. Em março de 2007, o editor ligou dizendo que tinha interesse no livro. Mas o lançamento aconteceu em maio de 2008. É um processo lento.
Quando a literatura passou a ter importância na sua vida?
Flávio – Não sou daqueles escritores que lêem desde pequeno. Eu comecei a ler tarde, aos 18 anos. Mas depois passei a ler mais e gostar de escrever. Então, comecei a enviar os meus textos para os poucos sites que existiam. A publicação na internet começou a dar um salto com o site Paralelos, em 2002. Na ‘Primavera dos Livros’ teve uma mesa do Paralelos em que a platéia bocejava. Cheguei em casa e escrevi um conto chamado ‘Bocejos’ e enviei para o site. Depois os editores pediram outro conto, assim comecei a levar mais a sério. Comecei a conhecer essa galera: (João Paulo) Cuenca, Cecilia (Giannetti), Augusto Sales... Até que escrevi um conto sobre o Catete e comentei com o Marcelo Moutinho. Pensei em sugerir um tema sobre bairros para o Paralelos, mas ele falou que a idéia dava um livro. Fomos na Casa da Palavra e sugerimos um livro de contos de jovens autores sobre o Rio de Janeiro. A editora se interessou e nós fizemos o livro
Prosas Cariocas. Então convidamos gente que nunca tinha publicado livro. Na mesma época, o Augusto Salles, editor do Paralelos, me pediu contos para a seleção do livro. No período de dois meses eu estava em duas coletâneas. Tomei um susto.
Você é jornalista, formado pela UFRJ, e escritor. Como é a relação desses ofícios?
Flávio – Estou afastado do jornalismo há uns três anos. O único trabalho que faço no jornalismo é resenha para o jornal
O Globo. Não sei dizer se o jornalismo ajuda ou atrapalha a literatura. Tem a vantagem de você ser obrigado a escrever todos os dias. E também tem a questão do olhar, que fica mais apurado.
O jornalismo esportivo interage com sua literatura?
Flávio – Ainda não. Mas em algum momento vai entrar porque sou viciado em futebol. Sou muito Flamengo. Meu quarto está cheio de faixas... (RISOS)
No seu livro tem uma frase do Saramago que diz: ‘é necessário sofrer para escrever’. É assim que funciona o seu processo de criação?
Flávio – O Rogério Pereira, do
Rascunho, fez essa mesma pergunta. (RISOS) Acho que sofremos antes, mas só um pouco. E nem é sofrimento a melhor palavra... Não, não sofro para escrever.
Você cita Cortázar, Sérgio Sant’Anna e Saramago. Quais são as suas influências?
Flávio – São parecidas com as que estão no livro. O primeiro livro é muito pessoal. Acredito que a nossa geração tem uma boa produção. Quando conseguirmos esquecer as questões do primeiro livro, vamos crescer bastante.
Você lê os seus contemporâneos? Quem?
Flávio – Eu sou compulsivo, tento ler todos que lançam livro e chegam à mídia. Tem muita gente boa: André de Leones, Cuenca, (Daniel) Galera, Tony Monti, Tatiana Salem Levy, Julián Fucks... É uma geração muito bacana. O mercado é difícil, mas tem muita gente lançando. E tem o Bernardo Carvalho, Milton Hatoum.
Você possui três blogs: Bohemias, De Cabeça Baixa e Edifício Primavera, que está abandonado. Como é a sua relação com a internet?
Flávio – Você falou de blogs de que nem eu lembrava (RISOS). Tenho muito retorno com os leitores através da internet. Tem muita gente querendo ler literatura. Internet é importante para mostrar o trabalho e experimentar. Você pesquisou e descobriu que uma leitura de 2004 foi publicada no meu blog e depois no meu livro, em 2008. Mas acho que a literatura na internet está em crise.
Você lançou na web o trailer do livro De Cabeça Baixa, dirigido por Débora Pessanha. Como foi o retorno?
Flávio - Foi muito bom como propaganda. As pessoas souberam que o Flávio Izhaki, um desconhecido, estava lançando um livro. Eu e minha mulher formamos uma equipe com alunos da UFRJ para produzir o vídeo e colocar no YouTube. Abriu em espaços em vários jornais de outros estados. É um trabalho interessante.
Por que você escreve?
Flávio - Não sei explicar. Talvez, porque eu sinto necessidade de escrever. É difícil saber o porquê.
De que um jovem necessita para se tornar um escritor?
Flávio - Não tem como fugir: tem que ler e escrever muito. Depois tem que procurar alguém que está no mesmo momento para trocar. Leia a produção dos contemporâneos. E cuidado com a figura dos gênios literários, não tente inventar a roda. Gullar costuma dizer que ‘a vanguarda já bateu no teto’. Acredite e caminhe passo a passo.
Assista o trailer do livro De Cabeça Baixa, AQUI!
>>> Entrevista publicada originalmente no
blog CLICK(IN)VERSOS.
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