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Fausto Wolff fala tudo
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 23/9/2008 · 79 votos · 1
  
Publicado originalmente em 11/09/2008.

Leia a entrevista histórica de Fausto Wolff na revista F.: "O jornalismo todo é uma merda. A única coisa que está acontecendo no jornalismo brasileiro de absolutamente excepcional é me deixarem escrever."

Era pra ser uma entrevista. Encontramos o genial escritor Fausto Wolff em seu apartamento de Copacabana para dar sequência à serie que publicamos desde o primeiro número (Fausto fez seríssimas restrições ao nosso último entrevistado, Diogo Mainardi). O problema é que os editores Allan, Arnaldo e Léo - e mais um convidado especial, o quadrinista André Dahmer, colega de FW no Jornal do Brasil - ligaram os microfones com mais do que curiosidade jornalística na cabeça: antes consumiram bebidas espirituosas em quantidade sufi;ciente para comprometer a linearidade da conversa. Como o entrevistado também teve a mesma idéia de abrir o uísque antes de abrir os trabalhos, o resultado foi um bate-papo descompromissado com as regras dos manuais de redação. Falemos a verdade: foi o caos. Ei-lo:

MEDO E DELÍRIO EM COPA

(João, a única testemunha sóbria, liga a câmera. A conversa já começou)
... a única coisa que faz o JB não ser um jornal mais de direita que O Globo sou eu.


ALLAN SIEBER: Mesmo assim cortaram um pedaço grande, cortaram a coluna do Jebão (n: Nataniel Jebão, colunista fi;ctício criado por Fausto que abrilhanta esta edição nas páginas 38 e 39), né?

Mas o Ziraldo... agora ele fez a orelha da tradução que fi;z das obras completas dos Irmãos Grimm, tentando apaziguar... mas não é questão de apaziguar, ele cortou metade do meu salário porra... Mas isso já foi resolvido quando voltei a escrever.

LEONARDO: Você deu um soco na cara dele, não é?

De jeito nenhum. Uma brisa passou pelo seu rosto (risos).

ARNALDO BRANCO: Pô, então o cara ainda está rápido...

ANDRÉ DAHMER: É uma mão grande, também (n: Dahmer passa a entrevista obcecado pelo tamanho das mãos do Fausto, voltando ao assunto em conversas paralelas).

L: Se pegasse ia ser um caso sério...

AS: Ia fazer ele fi;car branco (risos).

AD: Mas na verdade não tem espaço em um caderno do Rio para botar o Nataniel Jebão, sacou? Essa é que é a questão.


Não, se o cara vem falar comigo, eu teria... eu disse pro Ziraldo: "o Jebão como está, ele é pesado demais, pra qualquer jornal". Agora, eu arrumo Jebão. Eu dou uma ajeitada nele pra ele fi;car meio Agamenon.

AD: O Agamenon nada mais é do que uma cópia malfeita do Jebão.

AS: Não tinha também aquele no Pasquim que o Ivan Lessa fazia, o Edélsio Tavares...

AD: Mas o Jebão é que fez a escola, tem tudo que tinha ali.


A idéia do Jebão era criar todo um circo, um clube de personagens em volta de um troço completamente falso. Só que ele era o primeiro a informar!

AS: Nina Rolas, o Boquinão, Tião Weissman, Carlinhos Feijoada Completa... Tudo!

AD: Você acha que está difícil de fazer humor no Rio de Janeiro? Que o carioca não está preparado para rir da situação atual?


Eu vou explicar pra vocês, porque eu sou jovem há mais tempo que vocês (risos). E eu já cansei de escrever isso, eu vou dizer mais uma vez: hoje você pode fazer o que quiser com o povo brasileiro. Vai chegar um momento daqui a dez, vinte, trinta anos em que isso não vai ser possível, mas isso não vai ser por causa da educação. Vai ser porque o povo vai estar tão acuado que ele vai começar a morder.

AD: É um estado de calamidade pública mesmo...


Tá entendendo? Mendigo vai te dar uma mordida na mão.

AD: E vai começar pelo Rio de Janeiro isso...

Não, vai começar pelo nordeste, meninas lá chupam pau por dois reais... então, o único modo é... saiu um artigo meu, e o engraçado é que eles publicam os meus artigos. Ou eles não aceitam ou eles publicam tudo...

AS: Mas você tem essa coisa da rejeição, deles pedirem "Não, manda outro"...

Ah, mas eu mando, não me incomodo. Eu não quero é autocensura...

L: Uma das últimas vezes que eu consegui ler o JB ainda tinha umas cartas, eu ia até te perguntar das cartas...


O "caderno B" tem pouco espaço para cartas. Aí a seção de cartas só sai uma vez por semana - enquanto O Globo publica tudo ali naquela folha da seção de cartas. O jornal vai sair... olha, eu falei pra eles, do esporte, à crônica social, tudo como devia ser. A fotografi;a, a primeira página, posso mostrar pra vocês aqui.

AD: E eles não toparam...

Não, estou esperando. O Ziraldo fez um caderno B que no primeiro dia eu disse pra ele: "está uma merda, não pode ser assim, você não pode ter seis cronistas falando do próprio umbigo". Só pode ter um cara falando do próprio umbigo que sou eu, tenho 65 anos e vi tudo.

AS: Tem um umbigo mais interessante. Não esteticamente, é claro... E o Aldir Blanc... mas o Ziraldo é o Ziraldo, um artista gráfi;co excepcional, mas é um editor de merda, conseguiu cagar a Bundas (n: revista lançada em 1999 pelo homem de Caratinga)... Mas eu conheço o Ziraldo há cinquenta anos.

AS: E como era o jovem Ziraldo?


Ah, uma pessoa maravilhosa. Estava na luta, estava brigando, estava fazendo o Pererê (n: excelente revista em quadrinhos do Ziraldo) dele, estava... sabe? Mas logo, logo...

L: Uma vez você disse que não conhecia nenhum cartunista mau caráter...

AS: Você sustenta isso ainda?

Olha, eu diria que o Ziraldo não é mau caráter, o Ziraldo tem uma má relação com o caráter... ele deu a sorte daquele momento em que a ditadura estava ali acabando... o Ziraldo está sempre ligado a qualquer orgão do governo, sempre ligado ao poder... É impossível não gostar do Jaguar, ele pode fazer as maiores putarias contigo que você perdoa. Por que ele não me chamou pra fazer a edição da coletânea do Pasquim, e chamou o Sérgio Augusto? Chamou o Sérgio Augusto que é um viadinho invejoso, um fi;lho da puta... aí eu tenho, nos primeiros números do Pasquim eu fi;z trinta artigos, o Sérgio Augusto não escolheu um! Eu sou o cara que mais escrevia no Pasquim e fi;cou até o fechamento. E o Sérgio Augusto bota assim: "bom, a seleção é uma coisa subjetiva...". Desses todos, o único que tem vergonha é o Millôr.

AD: Mas você dizia que eles cortaram o Jebão no JB porque tem palavrão...


Não, mas o negócio do Jebão um pouco foi culpa minha, porque eu podia ter adaptado o Jebão... mas eu estava tão cansado de escrever uma coluna do Fausto Wolff e depois mais uma página inteira do Jebão... e o Ziraldo não queria conversar, não queria saber. É uma pena, porque nós nos conhecemos há tantos anos... a primeira peça que o Ziraldo escreveu, chamava-se "Esse banheiro é grande demais para nós dois" ele mandou para eu ler... mas o Ziraldo... psicologicamente ele é surdo, ele não ouve o que você fala (risos).

Tem palavrão...

Não, mas o negócio do Jebão um pouco foi culpa minha, porque eu podia ter adaptado o Jebão... mas eu estava tão cansado de escrever uma coluna do Fausto Wolff e depois mais uma página inteira do Jebão... e o Ziraldo não queria conversar, não queria saber. É uma pena, porque nós nos conhecemos há tantos anos... a primeira peça que o Ziraldo escreveu, chamava-se "Esse banheiro é grande demais para nós dois" ele mandou para eu ler... mas o Ziraldo... psicologicamente ele é surdo, ele não ouve o que você fala (risos).

AS: Essa história dele não broxar, isso é a coisa mais merda do mundo...

Eu quero alguém me explique, porque eu gosto de foder pra caralho, e outro dia eu broxei batendo uma punheta, porra (risos)... minha mulher não estava em casa e eu aproveitei e botei um fi;lme que tinha duas mulheres chupando a buceta uma da outra que é um troço que eu adoro... aí um troço que eu, meia-bomba, coisa e tal e eu, "ah, tá muito ridículo essa porra..."

AB: O Ziraldo já fez aquela campanha "Droga é uma merda"... isso não é hipocrisia?

Não, acho que ele nunca cheirou maconha (risos)...vem cá, eu quero saber o seguinte. Isso é uma coisa que a gente deve estabelecer antes de qualquer entrevista. Eu (pausa)... eu acho que eu sou o cara mais inteligente desse país. Inteligente no sentido de ter humanidade pra procurar ver inteligências. Qualquer coisa que não seja humana me chateia, qualquer academicismo me dá no saco. Vocês não imaginam o que foi pra mim a alegria quando eu cheguei lá na festa do JB e o Tanure (n: Nelson Tanure, dono do Jornal do Brasil) veio falar comigo. E eu fui com a camisa da Banda de Ipanema. Só pra deixar bem claro... e aí o Tanure veio falar comigo "Fausto, eu imaginei que você viesse vestido desse jeito". Eu aproveitei pra falar com ele e pedi um aumento de salário que me foi concedido na hora. Trata-se de um cavalheiro e um patrão que não fi;ca te enrolando. Eu quero saber de vocês, se vocês imaginam... estou com 66 anos... Porra, eu não sou esses putos da propaganda... "não precisa dizer uísque, diga Chivas". Quarenta anos eu tenho levantado a bandeira do comunismo, meu artigo de domingo (n: entrevistamos FW na semana anterior a uma mudança editorial que mudaria o formato do JB e a linha editorial) começa afi;rmando "eu sou comunista". Eu pergunto: se eu for despedido alguém vai chorar por mim?

L: Gente pra caralho, porra. Você é o cara, o diferencial do JB.

Olha, a coisa é tão louca no Jornal do Brasil... a única coisa que eles tem de novo sou eu, e a única coisa que eles escondem também.

AS: Esse Ziraldo...

É um homem de quase 80 anos que quer ir para a Academia Brasileira de Letras. Gente bem mais séria, como o Carlos Drummond de Andrade, como o Millôr, que não... eu sempre disse que a Academia Brasileira de Letras foi cúmplice da ditadura.

AB: Teve o caso do Adelita (n.: o general Adélio Lira Tavares, que entrou para a ABL por seus discursos de posse e poemas adolescentes escritos com esse pseudônimo, "Adelita")...

L: Porra, o Sarney é um imortal!


Mas não é disso que estamos falando, você não pegou o espírito da coisa. A idéia toda é uma merda, o jornalismo todo é uma merda. A única coisa que está acontecendo no jornalismo brasileiro de absolutamente excepcional é me deixarem escrever.

AD: Fausto, você gosta de morar em Copacabana?

Ah, eu sou... minha Pátria é Copacabana, sempre foi. Quando eu cheguei aqui eu tinha dezoito anos, eu vim de Santos de trem...

AD: E a sua família é alemã, não é?

Alemã, porra... minha família chegou em 1824... depois de cento e tantos anos a minha família é alemã? Qual é a família mais estrangeira, a minha que chegou em 1824 ou a do português que chegou em 1940? É que a gente não se misturou, não teve esse negócio de crioulo, nem judeu, nem índio...

AS: Ficou tudo no sul.

L: Santo Ângelo, né?


Se alguém leu meu livro À mão esquerda sabe. Ficou assim porque era absolutamente isolado na colônia... acabam desaprendendo o alemão...

AD: Você lançou sua candidatura a presidente... é ofi;cial?


Não, porque eu não tenho 70 mil assinaturas... preciso de 70 mil para me candidatar a presidente... mas eu vou fazer a candidatura da Heloísa Helena. Um cara que poderia se candidatar, mas está velho, e que eu trabalharia pra ele, não de graça, claro, seria o Pedro Simon. Mas o Brasil está dividido entre os ladrões e os não-ladrões... Tem a ala do Sarney, tem a ala do Garotinho... e tem a ala do Pedro Simon, eu votaria até naquele maluco do Paraná, o Requião. A Heloísa Helena... eu votaria nela, é a melhor candidata, vou fazer campanha pra ela, mas a possibilidade dela se eleger é zero. E é zero porque tanto as duas direitas que estão se enfrentando (risos) confi;am no povo. Sabem que o povo é burro (risos). Que o povo vai votar no melhor candidato, que vai ser aquele que vai gastar mais dinheiro.

AB: Que nem em tribunal, não ganha a melhor causa, ganha o melhor advogado...

O Collor não se elegeu porque era o mais bonitinho, ele se elegeu porque fez a melhor campanha e gastou mais dinheiro.

AS: Não tem essa coisa dele ser o mais bonitão...

L: Mas ajudava a vender.


Ajudava, mas não tanto.

L: Não, ajuda a vender tanto que o Lula só foi eleito depois de passar por várias plásticas (risos)...

AD: Agora, esse governo Lula, essa questão dos bancos... isso tudo igual, não é?


Nada mudou. A última vez que você teve alguma coisa de diferente no Brasil foi entre 1950 e o suicídio do Getúlio. Depois você teve entre 1962 e 1964. Você teve o Getúlio e o Jango brigando pelo povo. O Getúlio era um estadista e o Jango era um cara que queria ser fi;el ao Getúlio, apesar de não ter o estofo do Getúlio. E é isso. E a terceira pessoa disso tudo ia ser o Luís Carlos Prestes. O Brizola apareceu, mas o Brizola era um homem de pouca leitura e não entendeu, coisa que o Fidel entendeu imediatamente, que tinha que ser Marxista. Não existe socialismo sem Marx.

AS: Mas ele tinha carisma.

Mas ele só botava os pés pelas mãos, ele botou o fi;lho pra senador... será que não tem um candidato melhor? – Quando fui cobrar ele me disse: "É um pedido da Nela".

AB: Fausto, a gente tentou te entrevistar antes, mas você estava fazendo uma mega-viagem nternacional...

Agora, resolvi, como a minha mulher ganhou uma graninha, e eu estava cansado de pedir dinheiro, passei quatro meses sem pedir grana... e fui pra esse cruzeiro aí.

L: Na Patagônia, não é?


É, sou o único duro que faz essas coisas...

AS: Foi legal o cruzeiro?

O serviço foi uma merda, mas a viagem foi boa. Não, foi uma merda porque o programa cultural era todo muito ruim, era um programa de auditório, karaokê... o navio era uma beleza, até ganhei no cassino... fi;quei puto porque eu queria ver as baleias, queria dar uma de Capitão Ahab, agarrar uma baleia, eu queria ir até o fi;m do mundo... no lugar onde eu ia ver a fauna e a fl;ora, o capitão teve medo de ir... uma merda, um capitão português, o fi;lho da puta (risos). Não conhecia a Patagônia e adoro viajar de navio, já fui pescador de sardinha no mar do norte... passei seis meses lá... eu tinha sido corneado maravilhosamente por uma mulher e pensei: "o que que eu estou fazendo aqui na Dinamarca? Eu vou embarcar em um navio de pesca de sardinha". Porra, eu tinha 35 anos, vamos nessa. Consegui economizar quinze mil dólares. Você não tem que gastar nada, porra, você está no mar...

AS: Seis meses em um navio sem aportar?

Não, esse aí era um navio-fábrica, os caras pescavam e já enlatavam no navio mesmo. Era tudo com máquina, você não fazia nada. Você jogava a porra da rede, já vinha por computador onde estava o cardume e já pegava duas toneladas daquela merda (risos). A minha função era fi;car escrevendo cartas para os marinheiros, principalmente os marinheiros portugueses, que eram a maioria. Portugueses estão em tudo que é lugar, portugueses e italianos. Espanhóis também.

AD: E o negócio do Lobo na internet? Você percebeu que era importante botar os textos para todo mundo ler, ao invés de botar só no jornal?


Não... eu tenho um camarada lá no sul chamado Jean Charlau que fez o meu site... eu vou dizer para vocês: eu acho que eu sou o jornalista mais querido do Brasil pra quem leva a profi;ssão a sério. Sabe aquele cara que não faz concessões... agora, por outro lado, isso é muito engraçado, até uma certa idade... ninguém esperava que eu fosse agüentar tanto.

Nem eu (risos). Tanto que há dez anos eu disse para o fi;lho do Hélio Fernandes que é o diretor do Jornal O Globo, que eu conheci garoto, eu disse "vamos fazer um negócio: você me dá a coluna de turfe e eu não falo mais sobre outra coisa". Você me entende? Você me dá uma grana direito e eu vou falar sobre cavalo e, porra, vou ser um cidadão comum. Continuar incomodando, mas por aí ajudando, dando palestras... vocês não tem idéia como é difícil para mim manter essa postura no Jornal do Brasil. Domingo, na minha estréia, começo a coluna assim: "Confesso que sou comunista". É o dia da estréia do novo jornal. Não posso conceber a vida de uma outra maneira. Eu gosto da idéia de a cada um segundo a sua necessidade, de cada um segundo a sua possibilidade.

AD: Essa escritora, a Naomi Klein, que fala contra as corporações, que fala que a briga nova não é contra o capitalismo de Estado, mas contra o capitalismo de empresas, da Nike, a Gap... você já leu?


Eu já li, ela é uma das safadinhas. Mas ela não está longe de verdade... porque o que acontece é que sempre tem um safado, que está do seu lado, mas não... o Zuenir Ventura... um dos mais celebrados cronistas cariocas... o cara me veio há duas semanas com uma coluna dizendo que "nós temos culpa pelo que está acontecendo". Ele chega e diz assim "não é só a classe dominante", porque o Ibope fez um pesquisa e aí ele bota sessenta e tantos por cento dizem que roubariam, que fariam nepotismo, que... e trinta e um por cento diz que não. Aí eu digo, engraçado esse repórter, esse cronista não acreditar nos trinta e um por cento. Eu estudei no Grupo Escolar Primeiro de Maio em Porto Alegre, de 1945 a 1950 - nenhum dos meus colegas saiu delinqüente, porque tiveram professores extraordinários. Porque a gente aprendia honra, caráter, dever. Há quanto tempo não se ensina isso? Há quanto tempo eu só ouço a palavra "honra" quando alguém diz "palavra de honra", sem mesmo saber do que está falando? Então eu digo, não é certo isso. E mesmo que fosse certo, quem foi que ensinou o povo a ser fi;lho da puta se não vocês desde 1964? Porque não era assim. Então com 25 anos de TV Globo os caras não sabem nem o que vão dizer para os fi;lhos.

AD: E o Lula, Fausto?

No Lula não se pode votar de jeito nenhum... eu continuo achando, se vocês lêem meus artigos, eu acho que o Lula é um ator. Eu acho que o Lula é um ator contratado para dizer as falas do poder invisível.

L: Mas a partir de quando isso?

Ah, desde o princípio.

AD: 89, não?

Não, desde o princípio, precisavam de um ícone...

AS: Mas isso aí é uma teoria conspiratória.

Não: é uma conspiração. Os jovens fi;lhinhos de papai saíram do Chile, saíram de Paris, um bando de vagabundos, essa turma, já estavam todos com trinta anos e pensaram, o que que a gente faz? "Vamos entrar no Partido Comunista"? Porra, o Partido Comunista era a única força mais ou menos organizada. O PC do B também - mas "o povo não quer saber disso". "Nós vamos fazer um partido de esquerda que não seja comunista". Um partido de esquerda que tenha um Jesus Cristo. Então eles aparecem com um operário, sem um dedo, que é a imagem perfeita pra todo mundo seguir. Cai o Aurélio Buarque de Hollanda nessa, cai o Bicudo nessa, cai todo mundo, porque todo mundo com uma culpa fi;lha da puta dos quatrocentos anos em que botaram no cu de operários, estupraram e o caralho - "agora nós vamos seguir um operário". Ou você acha com os judeus não foi a mesma coisa "agora nós vamos seguir o fi;lho do carpinteiro".

AB: Você já se sentiu bem em algum jornal?

Eu estou me sentindo muito bem no JB, apesar de alguns problemas... porque eu não me lembrava mais, desde o tempo que eu escrevia na Última Hora, como era receber uma resposta do público. Porque no Pasquim eu recebia uma excelente resposta...

AD: Você já tomou porrada, Fausto? Na rua, assim... em boteco... porque eu já te vi batendo... já tomou porrada, porque você é um cara grande...?


Levar porrada eu nunca levei não... levei na cadeia... mas na cadeia você dá e leva... mas como você está preso você acaba levando mais do que dá.

AS: Você fi;cou quanto tempo preso?

Levei umas quatro, cinco canas... por cheirar cocaína, usar maconha... mas nunca era... era pretexto, desculpa. Tanto que nem era grande cheirador... nem bêbado sou mais, porque tenho que cuidar da saúde, senão eu morro...

AS: (incrédulo, olhando pra garrafa de White Horse) Você está cuidando da saúde?


Não...(risos) não tanto quanto eu devia...

AD: Você prefere texto corrido ou texto curto, aforismas, que nem você fez na última coluna...

Não, nessa coluna eu só fi;z isso porque tinha tanto assunto que qualquer um dava um artigo...

AD: Estava muito bom...


Muito bom pros caras mais burros, não é, porque não conseguem ler o texto grande...

AD: Não, jornal não é isso?

Não, cada artigo meu é uma obra de arte, eu faço questão que seja uma obra de arte literária, porra, não é uma obra de arte jornalística não, aquilo ali eu trato com um cuidado de literatura.

AS: Fausto, ainda existem críticos de teatro, de cinema...

AB: De talento...

AS: Essas são profi;ssões em extinção, tem uns idiotas tipo bom-bando fi;lme de merda...


Não, quando eu digo fazer isso, não digo pra fi;car dando noticiazinha... é pra chegar e... sempre levar as artes plásticas em relação ao público que a vê. Levar a... como eu disse, porra... o que foi que os artistas plásticos fi;zeram de 1964 até a anistia? Nada - só ganharam dinheiro. Quem botou o cu no fogo foram os cartunistas. Os outros estavam todos ali, fazendo as belas exposições deles... então eu queria... claro que não podia ser qualquer um, mas o cara que levasse em conta a arte brasileira, a arte com vista no Brasil, a arte com sentido no Brasil. Eu não quero saber, eu quero ver o mamão. O cara me pinta o mamão, eu quero ver se esse mamão é brasileiro ou não é. Você é capaz de pintar um mamão como o Van Gogh pintava?

AS: Por exemplo, o que você acha da Bárbara Heliodora?

A Bárbara Heliodora era, na minha época, o único crítico homem além de mim (risos).

AS: E as mulheres dos seus amigos, todas te odeiam? (risos)...

Claro, todas. Agora, vamos ver qual é a razão: eu obrigo os putos a serem eles mesmos - agora, engraçado, porque a minha mulher não odeia nenhum deles. No O homem e seu algoz... um bêbado, que é o cara que sabe tudo, que ele está ali, e ele é meio ridículo, o que ele fala, ele conhece as coisas, e os amigos o evitam, mas aí acontece um negócio e ele acaba tendo que entrar para a Academia Brasileira de Letras, e as mulheres matam ele... esse pessoal... eles deviam aprender liberdade comigo. O Chico Caruso quando esteve aqui em casa, disse "porra, quando eu estou aqui eu esqueço do mundo"... vou dizer uma coisa pra vocês... eu, de um modo geral, toda entrevista eu peço para ler antes. Essa eu não vou pedir!

AS: Você confi;a na gente a esse ponto?

AB: Você está louco, Fausto...


Agora, vocês sabem da responsabilidade de vocês...

AB: Fausto, você tem boa memória? Porque toda vez que você vai escrever um artigo você usa muitas citações, você vai nos livros clássicos, tudo aquilo não é um trabalho de pesquisa, você cita de memória...


Eu tenho uma coisa que eu decidi quando eu estava na Dinamarca, na Itália, eu digo: o cara que vai ler um troço que eu escrevo vai sair enriquecido. Acho que isso você pode ver em cada artigo meu: eu dou a você oportunidade de ver o que esse cara falou, como ele escreveu... agora, por outro lado, não trato o meu leitor como um idiota.

AD: Fausto, três jornalistas que você acha que valem a pena.


Jânio de Freitas... só. Eu e ele.

L: E o Gaspari?

É um bom jornalista. Agora, se você juntar o caráter aí... porra, ele escreveu um artigo esculhambando com o Lula quando ele bebeu Romaneé Conti...

O Verissimo até escreveu um artigo genial em resposta, com uma ironia que ninguém entendeu, quer dizer, a maior parte dos leitores não entenderam. Por que que eu não digo o Verissimo? O Verissimo é um belo escritor, ele pode se permitir fi;car nas esquinas, nas arestas das coisas... porque ele conta histórias políticas, está entendendo? O Verissimo, ele não quer se aporrinhar... e eu acho que ele está certo, mas eu, por outro lado, eu sempre dei a minha cara a tapa, tanto vocês vêem que, de vez em quando, quando a semana está fraca, eu escrevo uma história...

AB: Fausto, o que você acha da questão da violência, das drogas, aqui do Rio principalmente?


Eu acho que se você liberar as drogas você acaba com a violência...

AD: Mas vão aumentar os assaltos a banco...

Assalto a banco eu também gosto (risos).

AB: Fausto, o homem é o lobo do homem e a gente não pode fazer nada a respeito?


Não, vamos evitar os clichês: há possibilidade de mudar.

AD: Qual é a possibilidade de mudar?


O ideal seria o voto nulo. O ideal seria se nós conseguíssemos ter 51 por cento. Pro mundo ver.

AB: Você acha que a desobediência civil iria deixar os políticos ligados?

Eu vou perguntar pra vocês uma coisa. O José Dirceu, enquanto ele estava levando porrada, ele só escreveu uma carta. Pra mim. Dizendo que eu estava manchando a honra dele. Minha resposta foi tão fácil que... e agora ele está escrevendo no Jornal do Brasil. Vocês tem que entender que eu virei uma curiosidade, uma excentricidade.

AB: Fausto, quando você estava na TV você era censurado? Tipo, no Jornal de Vanguarda da Bandeirantes?

AS: Você comeu a Dóris Giesse?


Claro. Aliás, uma belíssima apresentadora. Que fi;m levou ela?

AS: Está louca.

L: Dizem.

AB: Ela foi em um programa de TV, pedindo esmola.


Que pena. Ela era a mais bonita, e a melhor apresentadora. Você sabe que na minha carteira de trabalho meu último trabalho é Jornal do Brasil, redator, de 1964 e pronto.

L: Você já tomou LSD, Fausto?


Já. Em 1962. Foi extraordinário. Fui eu, o Fauzi Arap, o Paulo Mendes Campos e o Ivan Lessa. Todo mundo escreveu um pouco sobre isso. Você chegava 8 horas da manhã, no dr. Pereira Gomes na rua Miguel Lemos, primeiro andar, chegava lá, isso depois da gente ter levado papos de 3 semanas com ele, você levava uma injeção com uma agulha pequenininha e aí você começava a conversar. E aí você tinha todas as alucinações do mundo, desde as mais primárias, que é de feto, com a criança tentando comer, o umbigo da mãe não dando... e eu tive umas dez sessões com ele até você ter apenas os sentidos, o tato, audição, olfato, a visão extremamente aguçada.

L: Então foi uma experiência ministrada, você teve acompanhamento, foi isso?


É, eu era um garoto, estava no Rio de Janeiro, tinha 22 anos, tinha separado da minha mulher, estava muito triste... então o que qualquer cara tenha feito aqui a não ser troço de chupar pau e tomar no cu eu fi;z antes...

AD: Por que, Fausto, por que não experimentou dar o cuzinho uma vez pra ver como era?

AB: O Jaguar dizia que o Paulo Francis deu uma vez, mas não gostou...


Não, isso é sacanagem do Jaguar...

AB: Você gosta do Francis, tem saudade?

Tenho muita saudade do Francis, ele era muito engraçado...

AB: Mas mesmo o Francis que foi cooptado (faz o gesto de aspas) pela Globo...

Não, o Francis decidiu que queria ganhar dinheiro e ia parar com aquela merda de ser um cara como eu... ele era Trotskista... e aí ele foi e inventou um personagem para ele, ele inventou um Nataniel Jebão pra ele...olha, se tinha um cara que podia dizer "olha, eu sou o herdeiro do Francis", seria eu. Agora, quem é o herdeiro do Francis, o Diogo Mainardi? Ou aquele viadinho cineasta... o Jabor.

L:A gente estava falando até dos jornalistas, a gente citou o Verissimo, o Gaspari... o João Ubaldo Ribeiro é um grande escritor, e hoje ele escreve em jornal e fala sobre...


O João Ubaldo é um belo escritor... ele não chega a ser um dos grandes escritores...

AB: Ainda mais que ele parou de beber...


(Balançando a cabeça) - Beber só faz bem (risos)...

AS: É melhor escrever bêbado ou sóbrio?

Sóbrio.

AB: Você nunca escreve bêbado?

Não consigo.

AB: Qual o seu horário de trabalho, de sentar e escrever?

5 horas da manhã até o meio-dia, todo dia, sem falta.

AB: Como você consegue, as colunas, os romances, a poesia, muita produção...

Porque eu sei escrever e é fácil. Basta você saber o que você tem pra dizer. Eu, por exemplo, já sei o que eu tenho pra dizer pra uma coluna daqui a um mês. Olha, eu disse a vocês, hein: eu não vou pedir cópia!

AD: Mas você vai gostar da entrevista, não vai bater em ninguém, você acha que vai chegar aqui e bater no Allan, que é um cara fraco, pode bater...


Vou bater em você, que é forte (risos)... você sabia que eu sou campeão mundial de queda de braço? O último cara de quem eu ganhei, vocês todos sabem, foi o Mariel Mariscott (famoso policial truculento que integrava um grupo de elite chamado "Homens de Ouro". Foi executado na cadeia).

TODO MUNDO: Do Mariel Mariscott??? Caralho!!!

L: Quais que você considera suas grandes glórias, "tenho orgulho de ter feito isso"...


(desconfi;ado) - Orgulho de quê?

AB: Tudo, pode ser glória literária também... uma dessas histórias pela qual você gostaria de ser lembrado?


(pausa dramática) - Em 1968 eu estava em Búzios e estava nadando entre as pedras ali, na praia da Ferradurinha. Um pouco adiante tinha uma moça de uns 14, 15 anos e eu vi um Guerreiro Português. Sabe o que é isso? Na superfície, ele parece um barquinho de plástico... e o puto tem uns 100 metros de mandíbula... e estou vendo a garota ir em direção a ele. Eu nado até lá, e dou-lhe uma porrada nos cornos... estávamos a 200 metros das rochas, e entrego ela lá... e o pai me dá uma porrada, e eu dou uma porrada no pai... e a menina acorda e me dá porrada. E eu tentei explicar o que ia acontecer, levei eles lá e a porra do bicho já estava em outra, porque ele vai com o vento, nada. Então o maior orgulho que eu tenho é ter salvo a vida dessa moça. E de ter comido a Brigitte Bardot (risos).

AS: Sério? Em Búzios?

Eu namorava uma moça que era socialite e eu fui em uma sexta-feira de tarde pra Búzios. Todo mundo falava que a Brigitte Bardot ia pra lá... e eu fui a praia... eu tinha 23, 24 anos e lá está aquela mulher nua, maravilhosa, vou lá e converso com ela, porra, os cornos da Brigitte Bardot, eu como, ela vai pra um lado, eu vou para o outro - ela falava francês, é claro, era francesa. Vou pra casa, eu estava com a minha namorada e dizem "ih, rapaz, sabe que hoje tem uma festa pra Brigitte Bardot?" (risos).

L: E a sua grande época de comedor foi no apartamento da rua Montenegro?

Não, nessa época eu já tinha 38, 39 anos, a grande época foi quando eu fui crítico de teatro, porra, era o único crítico de teatro homem (risos).

L: Mas afi;nal a história de quando você se mudou pro Leme...

Isso foi uma briga com um sujeito chamado Cafu, em oitenta, noventa e poucos... como eu gosto muito de botequim, desci pro botequim, eu não gosto de caminhar e o botequim mais perto era o do Coutinho, onde acontecia tudo. Aí eu fui lá começamos uma discussão, eu sabia que ia dar merda, ele tentou me dar uma porrada, eu dei uma porrada e fi;camos brigando meia hora, briga de Faroeste, mesmo. E que querendo que apartassem, o cara era forte pra caralho, eu tinha 41 e ele tinha 25. Até que eu botei o pé contra o vidro do boteco e o vidro entrou dentro do meu calcanhar de Aquiles. Aí jorrou sangue pra caralho, o cara foi embora e eu fui para o hospital, me deram pontos pra caralho. Mas aí fi;cou marcado, ninguém mexe ali.

L: E você acompanha internet, esses novos espaços?


Tenho, mas vou falar uma coisa defi;nitiva pra vocês: literatura é sinceridade. Literatura é cojones. Literatura é a capacidade de se olhar no espelho. Só depois vem o estilo. Só depois vem o escrever bem. Aqui de vocês, infelizmente, eu só tenho o exemplo do Allan. Você lembra o que eu escrevi sobre o Preto no Branco? Aquilo é absolutamente sincero. Porque você vê que o cara que fez aquele humor levou todas aquelas porradas que ele disse. Porque eu acho engraçado quando vem uma garotinha e diz "ah, eu fi;z um poema, queria que você lesse"...

AB: Naquele seu artigo sobre a sua isquemia você diz que uma das coisas que você mais odeia é receber originais não-solicitados...


Mas imagina, eu estou preocupado em pagar o meu aluguel, vem um cara e pede pra ler um romance dele?

AS: E você lê?

Claro que não (risos). Eu já decidi uma coisa: mando de volta dizendo "excelente" (risos).

AS: Mas você lê os livros daquela editora do sul, Livros do Mal?

Não, não leio nada. Eu já sei quando começa na orelha "é um cara que... fulano de tal é funcionário público, e o pai dele, etc"...

AB: Você elogiou um cara, o Marcelo Benvenutti...

Esse cara é bom. Isso eu disse logo que recebi o livro. Tem um cara que é bom pra caralho, mas realmente achei um pouco demais até pra mim... que escreveu sobre um cara que o emprego era limpar o esperma...

AB: É o Daniel Pellizzari...

AS: ... das cabines de peep-show...


...e que um dia ele foi lá chupar um pau... e aí eu fui ver... a idéia é de uma certa... mas o que o poema quer dizer? Que o grande negócio é chupar pau (risos)?

AB: Fausto, você tem um índice de rejeição, algumas pessoas não gostam...


Eu vi uma coisa na internet, um crônica, que dizia "eu passava batido pelo Fausto Wolff, achava ele arrogante, e aí alguém me fez insistir e eu estou viciado nesse cara". A internet é engraçada, porque você descobre... um dia eu pesquisei "graveto", e aí descobri que "graveto" em português de Portugal quer dizer viado, além de "paneleiro", aí vem uma lista de sinônimos de viado... porra, nesse sentido internet é do caralho. Não tenho nem que pegar o dicionário.

L: Você é de Santo Ângelo, a sua cidade, não é? Você ainda tem ligação, você voltou lá?

Eu voltei lá, me convidaram, me chamaram para um negócio chamado "Diáspora". Esse negócio de diáspora é negócio de judeu... meu pai e minha mãe saíram daqui porque estavam sem grana... então não foram corridos (risos). Tudo bem. Aí eu vou fazer a palestra e tinha que receber uma Comenda do prefeito. Aí eu dei a palestra e eu pergunto "onde está o prefeito"? O prefeito tinha ido embora. Teve um cara que era um santangelense que aparentemente tinha se dado bem na vida, um cara que era microcirurgião. Aí veio o microcirurgião "ah, mas a minha carreira, é difícil, microcirurgião e tal, mas eu também escrevo poesia". Aí ele disse duas ou três poesias. Aí me chamaram no palco, e eu "meu nome é Fausto Wolff, eu escrevo poesia, mas nas horas vagas eu sou microcirurgião (risos). Se vocês não acreditam, se alguém tem algum problema..." (risos). É claro que eu não sou uma pessoa muito bem querida em Santo Ângelo (risos).

AB: "Eu sou um microintelectual"...

Escuta, vocês viram o quanto eu bebi hoje?

AB: Mais que a gente e estamos bem pior que você. Somos amadores.

L: Você tem saudades de alguma coisa?


(grande pausa) - Eu tenho saudade do tempo em que eu e o Jaguar editávamos o Pasquim. De 78 a 88.

L: Foi na época em que o Reinaldo estava ilustrando, o Reinaldo é um grande cartunista...

Eu particularmente acho o Reinaldo meio duvidoso. Eu acho ele meio duvidoso porque todo mundo acaba na Globo para fazer crítica a favor, porra?!

AB: A Globo acabou com o Henfi;l, por exemplo?

Não! Rapaz, eu fui diretor da TV Globo!

L: Como foi sua saída de lá?


Foi quando eu percebi que era verdade a porra do negócio lá da Time-Life! (n: história nebulosa do início da hegemonia da Rede Globo com injeção de capital estrangeiro do grupo de comunicação Time-Life). Que eles estavam se preparando para tomar conta do Brasil. Isso foi em 65, eu era o assistente do diretor, o Mauro Sales. O Walter Clark só veio depois. Eu fui demitido por razões óbvias, porque eu vi que certos programas não davam pé. Basicamente eu saí quando eles contrataram o Chacrinha.

AB: Ele era um fi;lho da puta?

Não, era só um idiota. Fazia aquele negócio dele lá... eu sempre falei, o programa do Chacrinha era um negócio bobo. O Gláuber Rocha achava do caralho. Aí eu digo, por que é que eu acho bobo? Eu acho bobo pelo seguinte: as pessoas sabiam que elas...

(toca o telefone, Allan atende, é um sujeito do banco querendo falar com o "sr. Faustino". Allan pede para o cara voltar a ligar no próximo sábado, 8 da manhã. Depois de desligar, Allan derruba o telefone no chão)


Aqui tem essa vantagem, pediu para falar com Faustino, eu não estou. Do que a gente estava falando?

AB: A gente estava no Chacrinha.

Ah, bom. Então eu digo: "porra, eles..." (toca a campainha, é o sujeito da videolocadora - e não vamos nunca mais saber tudo o que Fausto Wolff pensa sobre o Chacrinha)

L: O negócio da sua candidatura. Fausto Wolff presidente.


Primeiro de janeiro de 2007. Discurso de posse. Minhas senhoras e meus senhores, terei que dizer coisas que certamente machucarão algumas pessoas. Essas pessoas eu sugiro que comecem a ir rapidamente porque o meu secretário, o Jonhonho (risos) já está ligando para todos os aeroportos do país. Fechando (risos). De modo que esse meu governo vai ser um governo que eu tenho certeza que agradará a todos. Esse meu governo será pai e mãe. Quem não tiver uma casa, terá. Quem não tiver um emprego, terá. Quem não tiver hospital, terá. Quem não tiver uma terra para plantar, terá. E em termos de terra, acabei de dizer ao meu ministro da agricultura o seguinte: que compre todas as terras que não estiverem sendo usadas. E nós vamos pagar o que os proprietários delas declararam pro Imposto de Renda. De modo que a Reforma Agrária já está resolvida. A Reforma Educacional: o Estado é responsável pela educação de todas as crianças. Aquele que depois da educação secundária quiser se especializar em uma universidade, será pago pelo governo, e devolverá ao governo assim que cursar. A partir de hoje, todos somos responsáveis por todos. A partir de hoje todos os pais são pais de todas as crianças. A partir de hoje todos poderão se queixar ao Estado. Poderão se queixar no bairro, no município, no estado ou em escala federal. A partir de hoje não há mais propaganda eleitoral. Enfi;m, a partir de hoje todos os presídios serão examinados. E quem não tiver que estar no presídio será livre. Coisas absolutamente simples.

AS: Fausto presidente! Eles não vão deixar, Fausto, eles não vão deixar.

Não... a idéia que eu fi;xava só seria engraçada pela mídia que eu ganharia, aqui e no exterior. Um jornalista maldito diante de tudo que está acontecendo decidiu... ele diz que é bêbado, ele diz que é isso... o Times publicaria isso, você está entendendo?

L: Será que publicaria, não ia ter um boicote...

Mas claro que ia ter um boicote, claro que eu não seria eleito, mas todo mundo ia falar, no mundo inteiro, sobre esse cara. Cadê aquele menino que estava aqui?

AB: O Dahmer chapou...

L: A gente meio que traiu sua candidatura, porque o Arnaldo lançou a candidatura do personagem dele, o Capitão Presença, a presidência... "Preza presidente"... o Presença é um cara que leva maconha para quem não tem...


(Cagando para a candidatura do Presença) - Mas vocês entenderam o lance da minha candidatura?

LÉO (consertando): ...mas você tinha dito que seria uma candidatura séria... eu votaria! Porque eu vou votar nulo...

Não é problema de votar, seu babaca! É pra esculhambar essa merda!

L: Mas ia ser perfeito se você tivesse um tempo na televisão, no horário político, aquela merda passa toda noite, se você tivesse um espaço pra falar o que quisesse...

Vocês são uns merdas, então... aquela revista F. que só fala no condicional! "Ah, eu poderia, eu faria...". É, é verdade, vocês são uma revista de merda... ou você começa matando a pau ou não vai matar a pau nunca!

AB (evidentemente arregando): Concordo! É isso aí! Merdas, nós somos uns merdas!

L: Somos, mas estamos fazendo, ué...

Não, não, não dá não! Porque numa dessas vai entrar uma propaganda... vocês lembram da última vez que a gente se encontrou o que eu disse pra vocês? Eu disse pra vocês: "não tem limite". Quem é livre não tem limite. Então qualquer coisa que vocês façam pensando em limite, fudeu.

L: Mas a gente não pensa nisso, Fausto.

AS: A gente não pensa (risos)...

L: Agora, a gente é uma mídia impressa, numa época em que não se dá valor a isso.

Você pode explicar isso escrevendo.

L: A idéia da F. é justo o impublicável.


Eu não acho que vocês façam grande coisa a mais do que eu faço no JB. Todo dia eu levo o meu limite ao máximo.

L: Mesmo assim não te permitem fazer o máximo que você pode. Sim, mas eu sei que eu não tenho nada a ver com isso.

L: A gente faz o máximo que a gente pode.


Não. Não é verdade, vocês se autocensuram.

L: Não, você está enganado. Não me autocensuro nem no jornal que eu trabalho.

AB: Fausto, a gente está arrumando briga com nossos próprios pares. Não acho que o Miguel Paiva nem o Chico Caruso gostassem da F.... a gente não topa corporativismo, a gente fala mal de gente... o Ziraldo veio reclamar com a gente...


Eu acho que vocês estão prontos pra entregar essa revista.

L: Discordo.

AB: Eu acho que não, ninguém gosta da gente... na real por enquanto a gente nem é assunto para esses caras...

L: O problema da gente é que revista é uma coisa arcaica, neguinho não se interessa se pode baixar tudo da internet.


Então vocês tem que pensar um negócio: "onde foi que nós erramos?"

AB: Mas essa geração, a nossa e a mais jovem, também não está interessada em porra nenhuma, não foi só a gente que errou...

L: E essa da gente disputar espaço em banca de jornal...


Você sabe quantas bancas de jornal tem no Rio de Janeiro?

AB: Quantas?

Vocês não sabem? Então, vocês são uns merdas. Vocês tinham que saber...

ARNALDO (irônico) - Mas a gente é artista, Fausto...


(cagando pra ironia) - Ah, "artista"... artista dá o cu. Tem que saber quantas bancas, quantas famílias...

AB: Tudo da máfi;a italiana...

AS: Nah, evangélica.

L: Distribuição é um problema, a gente sabe que os caras podem encrencar com capa, e tal...


Sabe quanto custaria conversar com eles? Nada.

L: Ninguém faz isto, Fausto. A gente só sabe fazer revista.


Revista até eu faço.

AB: Nosso nome não tem o seu peso.

L: É inclusive uma honra pra gente te entrevistar...


Cala boca e escuta. Você é um cara que pensa e sabe. Há uma possibilidade da revista F. existir em todas as bancas: (n: pausa GIGANTESCA) a revista tem que transmitir o medo.

L: Mas ela dá medo...

Não dá, vocês vão se fuder, entrevistam aquele idiota...

L: Mas essa a idéia, entrevistar um cara totalmente diferente do outro cada número...

Eu acho que vocês tem que fazer o seguinte, apresentar as coisas como se fosse um grande negócio o cara escrever. Qualquer um, o Rubem Fonseca... vocês tem que ganhar a credibilidade do leitor. Qual foi o primeiro cara que vocês entrevistaram?

L: Cláudio Assis, do Amarelo Manga...


Fraco. Quem foi o outro?

L: Mr. Catra, o rapper. Você é o quarto, o terceiro foi o Diogo Mainardi.


Pois é! É a partir daí que pega... o Diogo Mainardi, eu já disse em uma entrevista, eu se fosse ele já tinha me suicidado (risos). Ah, ele é só um fi;lhinho de papai. Tanto que ele não se mete a me esculhambar. (Pausa. Suspiro). E agora vamos editar essa entrevista...





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Caramba, bateu uma saudade imensa do Fausto!Um dos escritores mais injustiçados do Brasil.Um mestre literário.
Cheguei a trocar e-mails com o grande Lobo, e até hoje os guardo com carinho.
Que o Portal Literal ajude a honrar o nome deste grande humanista. Ele e o Brasil merecem.
Abraços,
Paz e Bem!

Thiago Damato · Niterói (RJ) · 31/10/2009 01:02
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