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Faulkner inédito
 
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Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 25/1/2009 · 96 votos · nenhum
  
Martin J. Dain
Faulkner guarda um de seus cavalos em seu rancho. 1962.
Confira dois contos de William Faulkner até então inéditos em português. A tradução é de Paulo Moreira, professor assistente do Departamento de Espanhol e Português, da Universidade de Yale, em New Haven, Connecticut, Estados Unidos.

Leia a seguir o texto introdutório de Paulo Moreira para as traduções dos contos "Wash" e "Celeiro queimando".


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Introdução para as traduções de Faulkner
Paulo Moreira


William Faulkner é reconhecido mundialmente hoje em dia antes de tudo por seus romances, especialmente por O som e a fúria, Enquanto agonizo, Luz de Agosto e Absalão, Absalão!. Entretanto as coisas não foram sempre assim. Nos anos 40 no prefácio de Portable Faulkner que Malcolm Cowley editara para tentar reavivar a carreira do escritor que tinha então apenas um romance (Santuário escrito com a intenção manifesta de fazer um Best-Seller) em catálogo nos Estados Unidos, dizia que Faulkner

… não é um romancista antes de tudo; ou seja suas histórias não lhe vêm em unidades de 70.000 a 150.000 palavras. Quase todos os seus romances têm algum ponto fraco na estrutura. (…) Faulkner é melhor e mais à vontade em histórias longas como “The Bear” (…), “The Old Man” (…) e “Spotted Horses”. (Cowley, 18 – minha tradução) [1]

Esse trecho do prefácio de Cowley foi conveniente apagado na segunda edição do Portable Faulkner em 1967, quando Faulkner já era reconhecido mundialmente por seus romances, principalmente depois do prêmio Nobel em 1949, mas pode servir como ponto partida interessante para entender a centralidade da contística na obra do norte-americano, já que os intrincados romances de Faulkner (onde vários de seus contos reaparecem incorporados) trabalham ostensivamente com a noção de multiplicidade de foco através de uma fragmentação que os aproxima todos de uma coleção de narrativas mais curtas que o leitor precisa montar como peças de um mosaico para chegar a um conjunto ao mesmo tempo fantasmagórico e monumental. Em pelo menos dois livros, Go Down, Moses e Palmeiras Selvagens, a fragmentação entre histórias é tal que Faulkner teve que insistir muito com editores e depois críticos e mesmo leitores que esses eram romances e não coleções de contos.

Durante os duros anos 30 da Grande Depressão, bem antes da consagração do Nobel e no que muitos consideram o apogeu da sua criatividade, Faulkner valia-se da venda dos seus contos para revistas para tentar melhorar uma renda pífia com a qual ele sustentava a esposa, os filhos do seu primeiro casamento e a família do irmão morto em um acidente, além de tornar mais habitável Rowan Oak, a grandiosa casa de fazenda quase em ruínas que ele comprara na cidade em Oxford, Mississippi, onde vivia sua família,. A correspondência de Faulkner com amigos e editores nesse período está sempre pontuada por comentários sarcásticos ou quase desesperados sobre suas preocupações financeiras e pelo que o escritor referiu-se uma vez como “rodar bolsinha com os contos” (“go whoring for with the stories”) (Sellected Letters, 59): uma série de submissões e resubmissões de contos pontuada por correções sugeridas por editores ou motivadas por rejeições repetidas.

Nada disso deveria nos desviar do fato que, além de um dos maiores novelistas do século XX, Faulkner é também um mestre consumado da narrativa curta. O reconhecimento dessa parte da obra faulkneriana tem crescido e cada vez mais vários dos contos de Faulkner são reconhecidos como obras-primas inegáveis.

Certamente as duas histórias que traduzi, “Wash” e “Celeiro Queimando”, são obras-primas, e estão entre os seis contos que são mais comumente citados e incluídos em coletâneas (os outros são “Spotted Horses”, “Dry September”, “O Urso” e “Uma rosa para Emily”, esse último o único disponível em português na coletânea Os Cem Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal, organizada por Flávio Moreira da Costa). Ambos seriam posteriormente incorporados com pequenas modificações a dois romances fundamentais de Faulkner: “Celeiro Queimando” entrou em The Hamlet e “Wash” se transformou em um dos momentos capitais de Absalão, Absalão!. Ambos refletem temas e preocupações da Grande Depressão com a inteligência e perspicácia habituais em Faulkner, centrando-se especificamente nas tensas relações entre grandes proprietários de terra (o Thomas Sutpen de “Wash” e o Major de Spain de “Celeiro Queimando”) e os brancos pobres chamados pejorativamente de White Trash, literalmente “Lixo Branco”, vivendo uma existência cada vez mais precária entre a exploração que os aproximava e o discurso racista que os afastava dos negros que eram maioria da população do Mississippi antes e depois da Guerra Civil.

Esses brancos pobres, Abner Snopes e Wash Jones, vivem a Guerra Civil à paisana, à margem das fabulações heróicas que sustentariam o poder das elites rurais do Sul americano mesmo depois da derrota e do período chamado de “Reconstrução”, quando um breve ímpeto reformista parecia conseguir valer os direitos políticos dos negros americanos – essa uma longa e inglória batalha abafada por uma verdade epidemia de linchamentos na virada do século retornaria à pauta nos últimos anos de vida de Faulkner com a luta pelos direitos civis sob o comando de Martin Luther King Jr. Quando jovem Abner Snopes roubava e negociava cavalos dos dois exércitos em guerra e o conto chama a atenção para o fato ao voltar, com a constância obsessiva que marca a cadência da prosa faulkneriana, ao pé cambeta de Abner, atingido por um confederado. Wash Jones decide ficar “em casa” e torna-se inesperadamente o arrimo da família do seu próprio patrão. Sobreposto a esse conflito de classes, Abner Snopes e seu filho Sarty e Wash Jones e sua neta Milly se enfrentam em um igualmente duro conflito de gerações.

“Wash” e “Celeiro Queimando” trazem a visão extraordinariamente complexa de Faulkner para a questão social do sul, frustrando tanto as expectativas dos partidários da literatura proletária em voga na época como as fantasias dos agrarianistas que viam no sul uma sociedade rural pré-capitalista de relações idílicas. Faulkner tinha com o Mississippi uma complexa relação de amor e ódio não de todo diferente da relação que Sarty Snopes, o menino protagonista de “Celeiro Queimando”, tem com o seu pai no conto, uma relação que o próprio Faulkner descreveu em um ensaio nos seguintes termos: “amando todo ele, ainda que tivesse que detestar parte dele por saber que não se ama por causa mas apesar de; não pelas virtudes mas apesar dos defeitos” (“Mississippi”, 42-43). [2]

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[1] No original: “… is not primarily a novelist: that is, his stories do not occur to him in book-length units of 70,000 to 150,000 words. Almost all his novels have some weakness in structure. […] Faulkner is best and most nearly himself either in long stories like ‘The Bear’ […] ‘Old Man’ […] and ‘Spotted Horses.’”

[2] “Loving all of it even while he had to hate some of it because he knows that you don’t love because: you love despite; not for the virtues, but despite the faults."


Obras citadas

Cowley, Malcolm. “Preface”, The Portable Faulkner (New York: Viking Press, 1946).

Costa, Flávio Moreira da. Os Cem Melhos Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal. São Paulo: Ediouro, 2002.

Faulkner, William. Selected Letters of William Faulkner, William Blotner (Ed.) (New York: Random, 1977).

______. “Mississippi.” Essays, Speeches, and Public Letters. Ed. James B. Mariwether. London: Chatto & Windus, 1967. 11-43.

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Os contos

# "Wash"

# "Celeiro queimando"




tags: Estados Unidos literatura faulkner william-faulkner wash conto inedito traducao celeiro-queimando


 
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