O vencedor do concurso Exercícios Urbanos, com que o Portal Literal premia mensalmente um conto com R$ 300 em vale-livros da Livraria Cultura, foi Fabiano Cotrim com "DesConto de Natal". Confira os outros selecionados. O autor do melhor conto do mês ganha um vale-livro de R$ 300 da Livraria Cultura. Mande seus contos para
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DesConto de Natal
Fabiano Cotrim
Naique José Silva estava acostumado com a resposta. É muito caro, meu filho, não é coisa para gente feito nós, não. Por isso nem pedia à mãe para lhe comprar um pacote de algodão doce daqueles que outro menino vendia. Mas estava contente assim mesmo, afinal eram raros os momentos em que a sua mãe, Elza Soares Silva, o levava para passear, ainda mais à noite. As pessoas na Praça, o movimento dos carros, os peixes do lago, tudo deixava o menino de oito anos contente demais para sentir qualquer tristeza. Não se lembrava do pai que nunca conhecera e a quem Elza Soares sempre se referia como aquele traste, não se lembrava de nada. Apenas passeava de mãos dadas com a sua mãe que ia lhe explicando, mais uma vez, o que significavam aquelas luzes todas que piscavam em guirlandas penduradas nas árvores e por que as lojas estavam abertas àquela hora da noite. É o natal, Naique, e nessa época as pessoas ricas compram presentes uns para os outros, e as lojas vendem tanto que precisam ficar abertas até de noite, é tempo de alegria, por isso é que tem tanta luz acesa, mas eu já lhe expliquei isto, lembra? Elza Soares não percebeu, mas enquanto falava Naique não a escutava, nem mais segurava a sua mão. Do outro lado da rua, em uma vitrine, um brinquedo o fascinara. Uma carretinha dessas cheias de carrinhos menores na carroceria, uma carreta cegonha, que é como se diz. Linda, toda vermelha e com faixas amarelas, pneus de borracha macia, faróis, volante, motorista, tudo...Saiu correndo, atravessou a rua e quase entrou vitrine adentro. Elza chegou logo atrás, nervosa, assustada. Meu filho, quantas vezes já lhe falei que não pode atravessar a rua sozinho? O carro quase lhe pega, você quase me matou de susto! Naique, eu estou falando com você! Mas ele não a escutava. Não notava nem mesmo a sua presença nervosa, estava paralisado pela beleza do brinquedo.
Elza deu mais uns gritos e enfim Naique lhe deu atenção. Desculpa mainha, eu não faço mais não. E tomou de novo a sua mão e ela o abraçou e voltaram a passear. Ele já sabia a resposta. Nada falou, nada pediu. Mas sonhou com a tal carreta e a mãe já o encontrou com febre quando acordou. AAS, café ralo, pedaço de pão e beijo que ela tinha de ir para o trabalho. Como não havia mais aulas ele ficaria sozinho. Cuidado, não mexe em nada, não brinca com fogo, na hora do almoço eu volto pra te ver e dar comida. Naique voltou para a cama assim que Elza saiu. Sentia-se mal, indisposto, enjoado. Voltou a dormir, voltou a sonhar. A carretinha, os carrinhos todos na carroceria, os pneus de borracha macia, ele brincando ali mesmo, no chão do seu quarto, pelos outros cantos da casa. Um sonho intenso, real, tão real que ao ser acordado pela mãe foi logo falando. Mãe, no natal quero de presente uma carretinha daquelas que eu vi na loja. É muito caro, meu filho, não é coisa pra gente feito nós, não. E ele chorou, como nunca havia feito antes, um choro cortado por soluços longos, um choro dolorido. Elza Soares, que sempre lhe dizia não e nunca o vira chorar assim, prometeu. Eu vou ver o que posso fazer, vou ver se dá para comprar a carretinha. O choro passou, a febre passou e os abraços foram tantos, que ela quase perdeu a hora de voltar para o trabalho. Fez as contas. Um pouquinho do Bolsa-Família, um pouquinho do seu salário, um aperto aqui, uma economiazinha acolá, e a carretinha seria o primeiro presente de natal de Naique, que estava mesmo merecendo. Bom filho, bom aluno, não lhe dava trabalho algum e pela primeira vez desejava tanto algo que fora capaz de lhe pedir. Sim, compraria a carretinha, naquela loja da Praça, a mesma daquela noite.
Quarenta e três e cinqüenta, preço de promoção. Quarenta e três e cinqüenta? É brinquedo bom, não é coisa de um e noventa e nove não, minha senhora! O vendedor já não a havia recebido bem. Olhou-a de cima a baixo, pareceu não gostar do vestido pobre que ela usava. Elza agora não sabia nem o que dizer, nem o que fazer. Tudo o que tinha no bolso eram míseros quinze reais. Arriscou. Faz um desconto moço, faz por quinze que eu levo. Desconto? Aí a Senhora já está querendo uma esmola, o máximo que eu posso fazer é dividir em duas vezes de vinte, uma pechincha. Isso se a senhora possuir carteira assinada, comprovar renda, essas coisas. Mas eu só tenho quinze, é para o meu filho, faz um desconto maior, moço, um desconto de natal...A senhora está pensando que eu sou Papai Noel, é? Olha, me dá licença que eu preciso trabalhar, por que a senhora não pede um brinquedinho lá na assistência social, ouvi dizer que eles vão distribuir presentes, lá sim vai ter o Papai Noel dos pobres. Foi. No caminho começou a pensar na sua infância, começou a pensar em uma musiquinha que lhe cantaram na escola, naquele trecho que tanto lhe causou dor. Seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem, ela cantando a música em casa e a mãe, Dona Emilinha, os olhos vermelhos de tanta cachaça, lhe dizendo: Isto não é coisa para gente feito nós, minha Elza Soares, não existe Papai Noel dos pobres, isto é coisa de gente rica. De fato, na sua infância toda, nenhum presente de natal. Mas agora era diferente, pensou Elza, agora até ela acreditava em Papai Noel, acreditava no que dizia a televisão: Brasil, um país de todos. O moço não falou que existe o Papai Noel dos pobres? Pensando assim caminhava em passos lentos, distraída, alegre. Naique ganharia o seu presente, a carretinha dos seus sonhos...
Uma fila imensa dava voltas no prédio e um homem vestido de Papai Noel distribuía as senhas. A pessoa deixava o nome, número do título de eleitor, endereço, nome do filho ou dos filhos e o Papai Noel dos pobres iria entregar os brinquedos na noite de natal. Horas depois foi atendida. O meu filho quer ganhar uma carretinha daquelas cheias de carrinhos em cima. A senhora não acha que já está querendo demais? Ainda mais chegando assim na última hora, no último dia? Sendo menino ele pode ganhar um carrinho sim, agora carretinha acho que não temos não. Que seja, era melhor do que nada. Mas como a senhora chegou tão atrasada não posso garantir nada... Ela não ouviu quando a moça que disse a frase. Estava com pressa, perdera muito tempo na fila e Naique estava sozinho em casa. Além do mais decidiu fazer uma surpresa para ele, já que não ia precisar gastar os quinze reais com o presente. Comprou um par de meias, o único que ele tinha já estava remendado mesmo; comprou uma galinha, uma garrafa do refrigerante mais barato, pediu o troco em docinhos de banana e voltou para casa. Comprou a carretinha mainha? Papai Noel vai trazer Naique, eu comprei outras coisas. Papai Noel vai trazer? Mas a senhora não disse que Papai Noel é coisa de gente rica? Pois é, mas esse ano vai ter o Papai Noel dos pobres. Veja só o que eu comprei.Abriu a sacola, retirou primeiro o par de meias e lhe contou que os meninos ricos faziam assim, penduravam a meia na parede e de noite Papai Noel deixava os presentes ali dentro. E cabe? Cabe sim, Papai Noel dá sempre um jeito. Agora vamos preparar a janta, vai ter frango assado, refrigerante, doce de banana.Oba! Naique era uma felicidade só, ajudando a mãe em tudo, sempre espiando a meia pendurada perto da janela. Comeram, beberam, devoraram os doces. É agora mainha, é agora que ele vai trazer a carretinha? Não, meu filho, ele só vem quando você estiver dormindo, quando todo mundo estiver dormindo. E como ele não conseguia dormir, excitado com a novidade, ela cantou com voz de ninar. Botei meu sapatinho... Dormiram ambos ali mesmo, no sofá. Ela, exausta do trabalho, da fila. Ele, para sonhar mais uma vez com o brinquedo desejado.Acordaram cedo, olharam juntos para a meia que estava lá, pendurada na parede e tão vazia quanto na noite anterior...
Sensibilidade olfativa
Silvio de Andrade
A gente devia nascer sem nariz. Pelo menos uns caras como eu poderiam nascer sem nariz. De que adianta carregar essa tromba, ainda mais a minha que é cheia de buraco, feia, tipo areia mijada, como a molecada falava lá na minha terra? O meu nariz só serve para juntar porcaria e cheirar cheiro ruim. De manhã, aquele fedor de esgoto no banheiro do cortiço. Cheiro quente, pegajoso, que fica na roupa e que arde os olhos. Às vezes, é até pior, quando o marido da velha dona do cortiço acorda cedo e se tranca no banheiro por meia hora, quarenta minutos. O desgraçado sai e o budum fica agarrado em tudo. Não tem nada mais fedida que a porra da toalha amarela que a velha deixa pendurada no banheiro pros trouxas que nem eu enxugar a mão. Chega a ficar verde de tão suja. No primeiro dia, escovei os dentes, lavei a cara, tirei as remelas do olho e fui enxugar a boca naquela toalha. Antes tivesse enfiado a cara num saco de merda. Pior que pano de chão de necrotério, se é que usam pano de chão em necrotério. Sei lá, ainda não fui em nenhum, nem quero ir. Mas deve feder pra cacete, isso deve. E esse velho é podre, não sei porque Deus não leva. Deus é assim, deixa esses tipos zanzando por aí e leva gente bacana, tipo a tia Zulmira, que tinha tanto câncer espalhado que morreu depois de um mês. Tosse a noite toda, larga às vezes a merda da dentadura na pia do banheiro. Deve esquecer... mas como pode? Como alguém esquece os dentes? As baratas tudo pra lá e pra cá e a dentadura lá, brilhosa, risonha, nem aí pra aquele baita fedor. Daí eu pego o ônibus e começa o cheiro de sovaco do povo apertado, balançando, o ônibus só sabe fazer barulho, soltar fumaça, mas não chega a lugar nenhum. Logo cedo e o povo já tá fedendo, suando. Mesmo no frio, o suor não perdoa, oleoso. Até a cadeira de plástico fede. As barras de alumínio pra você agarrar e não tombar cada vez que o animal do motorista freia são só gordura, escorregam, maior nojo. Mas se não segurar, um abraço, cai no chão ou em cima do povo. Daí vira a maior zona. Mulher acha que você tá querendo se aproveitar do aperto e melar a saia dela. Homem pensa que você é viado ou que tá bêbado e já quer logo enfiar a porrada. Então tem que agarrar bem agarrado naquela barra melada e ficar quieto, olhando pro chão, respirando pela boca, pra que eu tenho nariz? Nariz é coisa de rico, porra, que fica cheirando pescoço cheiroso de madame ou colônia que esfrega na cara depois que faz a barba. Eu faço a barba com lâmina enferrujada e fica uma merda, arde depois que eu passo álcool, coça e aumenta os buracos na minha cara, aumenta a areia mijada, mas é o que dá pra fazer. Se aparecer barbudo na lanchonete, o merda do supervisor come o rabo, não tem jeito, tem que fazer a barba e usar aquela maldita touca de viado. Lá, o cheiro é de óleo velho misturado com gordura. Fico de pé umas oito horas fritando aquele monte de hambúrguer gordurento, massudo, que de carne não tem nada, é um monte de sebo que a molecada come. Fede muito, a roupa fica impregnada com aquele cheiro de cozinha, fico tão puto que vira e mexe dou uma cuspida no sanduba que é pra temperar melhor. Hoje, um babaca todo fortão reclamou que tava meio cru o hambúrguer dele, o supervisor veio latindo que realmente tava uma merda, que ia mandar todo mundo embora. Olhei pro chão, eu não tinha fritado aquela porra, tava na minha hora de intervalo, era um outro cara, mas o chefe veio em cima de mim mostrando os dentes. Quis enfiar uma porrada nos cornos dele, esfregar a cara dele na chapa quente, fritar os beiços dele e ver o bicho ficar ao ponto. Mas pedi desculpas, mesmo não tendo feito a cagada, o senhor me desculpa, não vai acontecer de novo e os cambau. Tô fudido aqui, o que eu ganho mal dá pra pagar a velha do cortiço, não devia ter vindo pra cá, larguei o pai, a mãe e a Cida lá no sítio, vivia ajudando o pai na roça e cheirando o cheiro bom de mato molhado, de laranja no pé, das panelas da minha mãe, do cabelo da Cida, até do cheiro de merda de vaca eu tenho saudades. Mas aqui é só cheiro ruim, essa fumaça cinza-amarela que gruda e que vira catarro preto depois. Só sei que o supervisor saiu pisando duro e eu olhando pra ele, olhando pras costas dele, praquela cabeça sem touca, filho da puta, ele se acha grande coisa porque não usa touca e os fudidos que nem eu usam. Começou a me dar um enjôo, uma ânsia, minha testa tava que era só suor e minha mão direita tremendo de leve. Daí fritei bem fritado o hambúrguer do otário que reclamou e, na hora de montar o lanche, enfiei a mão dentro da cueca, arranquei uma penca de pentelhos e taquei junto do molho especial. Nem esperei o esporro que ia dar, tirei a bosta da touca de viado, joguei no chão, dei uma cuspida na chapa – levantou uma fumacinha e fez chiiii, odeio esse barulinho de troço fritando, chiiii – bati a porta, saí e senti o cheiro da rua, de novo aquele cheiro, que agarra e não sai, nem tomando dez-vinte-trinta banhos esse cheiro dessa cidade sai do nariz, nem jogando um litro de colônia no corpo some esse budum do inferno. Peguei o ônibus de volta pra cortiço, pra pegar as minhas coisas, meia dúzia de trapos, um radinho e a foto da Cida e voltar pro sítio. Fiquei de voltar pra buscar a Cida, os irmãos, o pai e a mãe, mas não vou cumprir a promessa. O ônibus tava do mesmo jeito de sempre, aquele cheiro de coisa estragada. Cheguei no cortiço, cruzei com o velho no corredor. Nem falei nada, cheguei perto, ele fez que ia dar um sorriso com aquela dentadura que esquece às vezes no banheiro e eu mandei logo uma cabeçada. Pegou no nariz, queria que tivesse acertado a boca e arrebentado a dentadura. Ele caiu sentado, com a mão na cara, o sangue jorrando de tudo quanto era lado e gemendo feito um não sei o quê. Nem perdi tempo, empurrei ele com o pé, peguei meus bagulhos e saí correndo. Já tava a maior gritaria, a velha gritando, o velho gritando, as crianças do cortiço gritando e eu na rua, chorando e sentindo uma brisa quente batendo na minha cara, enjoativa, lixo puro. Adeus, São Paulo.
Pressentimento
Vera do Val
De alguma forma ela pressentia. Não saberia dizer quando isso começara e nem o porquê. Só pressentia. E isso a angustiava. Deixou o livro de lado, não conseguia concentrar-se. Levantou e caminhou para a janela. Afastou as cortinas e olhou a rua. O sol descambava, as cores rosadas tomavam conta do meio fio. Espreitou a esquina. Nada dele ainda. Seus dias agora se limitavam a isso. Esperar. Cada vez mais um pouco, cada vez mais tarde, cada vez mais complacente. Foi até o armário de bebidas e serviu-se de uma larga dose de uísque. O calor era insuportável. A roupa a incomodava. Despiu-se. Tirou uma camisola leve de seda azul das gavetas. Ele vai pensar que quero seduzi-lo. Não me importa. Que pense o que quiser. A seda desceu acariciante pelo corpo. Arrepiou. Bebeu um gole e olhou-se ao espelho. Era ainda bonita. Tocou os seios macios e claros que enrijeceram marcando o tecido. Riu suavemente. Lembrou-se dos dedos dele e as pernas bambearam. Alguma coisa estava acontecendo. Depois de tantos anos eu o conheço bem. Tantos anos... mais de vinte! O tempo voa. Que droga de clichê ridículo! Estava ficando obvia. Mas que voa , ah... voa! Vasculhou os cabelos em busca dos fios brancos. Estavam todos ali, sempre se recusara a disfarçá-los. Ele dizia que era seu charme e ela fingia que acreditava. Mais um gole e acreditaria em tudo. Não acreditara nele enquanto o tal de tempo obviamente voava? O copo esvaziou-se. Tornou a encher. Voltou à janela e vasculhou a rua. Nada ainda. Foi até o aparelho de som e colocou Billie Holiday. Ele gostava. De que mais ele gostava mesmo? Bebeu mais um pouco e começou a contar nos dedos. Gostava do bom uísque, isso ela nunca deixava faltar. De meias de seda, sempre as usara a pedido dele. Pinicavam suas pernas, mas ela usava. Gostava de charutos cubanos, ela sempre tinha uma caixa cheia dos melhores sobre a mesinha da sala de estar. Não podia se esquecer que ele gostava das suas pernas. Voltou ao espelho e levantou a saia. Elas estavam lá. Meio trêmulas mas estavam. Observou atenta as veiazinhas azuis que teimavam em aparecer. É. O tempo voa e vai escrevendo coisas no corpo da gente. Varizes! Essa agora. A camisola começava a grudar no corpo. Calor miserável. O que mais? Franziu a testa em um esforço para lembrar-se. Ele gostava do que ela fazia porque a vida dela tinha sido dedicada a fazer o que ele gostava. Riu. Voltou a encher o copo. Estava ficando bêbada. Isso importava? Afinal, e ela? Gostava de que? Não se lembrava mais. Nem sabia se gostava mesmo dele ainda. Ou se existia. Afastou os cabelos do rosto. Estava afogueada. Será que ela existia? Entre um soluço e outro começou a duvidar. Vinte anos! Quem era ela mesmo? Gostava de carne vermelha? Gostava de escargôs? Preferia margaridas a rosas? Não sabia mais. Mas Billie chorava alto e o uísque estava acabando.. Mais um pouco no copo e atirou a garrafa pela janela. Viu o explodir na rua deserta. Plof! Uma cabeça apareceu assustada no vitrô da casa em frente, ela recuou entre as cortinas. Dona Coisa Nenhuma, quem é você? Fazia tempo que não se perguntava nada, tinha perdido o hábito. As visitas dele estavam se espaçando mais. E mais. E mais. Andava ocupado, dizia, trabalho, essas coisas. Sentou-se na poltrona e olhou para os pés. Bonitos e cuidados. As unhas estavam pintadas de vermelho. Ela preferia um rosa claro, mas ele queria vermelho. Ele gostava e pronto. As unhas dela seriam vermelhas. Seriam? Rindo foi procurar acetona e algodão. Tirou o vermelho gritante e pegou o vidro de esmalte. Mal conseguiu lambuzar os dedos de cor de rosa. Mais um gole. Estava perfeito. Foi escarafunchar no guarda roupa e achou aquelas sandálias altas e azuis que, em um arroubo, comprara, e ele odiara. Vestiu-as e veio tiquetaqueando outra vez para o espelho. Lindas. Pegou o lápis e começou a desenhar os olhos. Não use pintura, ele dizia. O rímel agora. Droga. As lágrimas borravam tudo. Procurou na cozinha outra garrafa. Abriu e cortou o dedo. Ficou olhando embevecida o sangue escorrer. Era vermelho e ele gostava de vermelho. Bebeu no gargalo. Engasgou, e a bebida lhe escorreu entre os seios. Ele demorava mais que o habitual. Voltou à janela, tropeçando nas sandálias. E se tudo acabasse agora? Ele não despontava na esquina. Aliás, ele não despontava era mais na sua vida. E o que era sua vida senão aquela coisa sem vontade que ele fizera dela? Quem de verdade ela era? Que verdade era a sua? Preguiça. Era isso o que sentia. Uma enorme e inevitável preguiça.
Não. Não valia mais a pena.
Foi até o banheiro levando a garrafa consigo. Lavou o rosto. Esfregou até arder e a pintura sair toda deixando seu rosto queimando Guardou as sandálias azuis bem no fundo do armário. Outra vez a acetona e os dedos molhados de vermelho. Vermelho como o sangue que teimava em gotejar do dedo ferido. Qual era mesmo o vestido que ele mais gostava? Enfiou de qualquer jeito pela cabeça e seus dedos se atrapalharam com o zíper. Escovou os cabelos, ele sempre elogiava o anelado deles. Voltou ao espelho e sorriu. Lá estava ela. Ela? Lá estava a ela dele. Comme il faut... ele diria. Voltou para a poltrona, o livro estava ainda ali, abandonado. Uma caneta sobre a mesa e foi simples deixar o bilhete. Escreveu na primeira página. Olhou a garrafa com carinho. Bebeu mais um gole. Estava meio anestesiada, não seria muito difícil. O dia se fora e ele ainda não chegara. A sala esta quase às escuras, não fosse o luminoso do café defronte que piscava em vermelho forte. Ele gostava de vermelho. Estourou a garrafa na borda da mesinha, o uísque que sobrara encharcou suas pernas. Gostoso. Recostou-se mais na poltrona e fechou os olhos. Quando cortou os pulsos nem sentiu. Deixou-se levar pensando se ele gostaria disso.
Afinal ele gostava de vermelho.
Quando ele chegou, mais tarde, muito mais tarde só pôde ler o bilhete: querido, sua mentira está na poltrona da sala. Eu vou embora levando a minha verdade.
Hipocrisia e contradição
Lisandra Gomes Coelho
Mais uma vez, ele se atrevia a lhe perturbar a paz de espírito, com suas já famosas tentativas de conversão. Mais uma vez, ele acreditava que iria "tocar seu coração" e trazê-la para seu grupo de estudos bíblicos. Mais uma vez, ela engolia em seco, para que, do alto de seu descontrole, não o mandasse para o inferno, junto com suas malditas crenças mofadas.
– Sei que você não crê mas, pense enquanto hipótese, e se um dia... um dia, você precisasse entregar sua vida a Jesus... o que você faria?
– Iria para um convento, seria freira.
– Não estou falando do físico, não digo entregar sua vida fisicamente, e sim espiritualmente.
... mas que espécie de babaquice era aquela agora? Desde quando uma pessoa que se tornava freira não estava entregando sua vida espiritual a Jesus ou a quem quer que seja que a igreja tenha instituído? Mas ela sabia muito bem onde ele queria chegar. "Entregar a vida a Jesus", na concepção muito moderna e elaborada dele, era fazer como os peregrinos fugidos da Inglaterra trocentos anos atrás: nada de risos, nada de música que não fossem hinos de louvor, nada de dança, nada de VIDA enfim.
– Já sei qual é a sua. Esqueça. Já entreguei minha vida física, espiritual, talvez até sensual, a Jesus, a Deus, a Zeus, a Odin, a Tupã, a todos os deuses do Olimpo, do Egito, do Valhalla, a todos os deuses, pagãos ou não, a todos os elementos da natureza, que considero divinos; enfim, a cada momento em que fiz o bem com todo meu coração a alguém (mesmo que este alguém tenha sido eu), uma força divina se manifestou através de mim.
Blasfêmia!! Heresia!!! Ele se debatia contra ela, ofendido em sua crença, a mais perfeita, a mais absoluta, a única a ser seguida enfim.
– Você sabe o quê acontece àqueles que agem como você! O Senhor dará as costas a ti e queimarás no inferno devido à tua descrença!
– Se esse teu Senhor é um cara que dá as costas aos seres que pôs na Terra e se Ele foi capaz de criar algum inferno pior do que este lugar em que vivemos, sinto muito, amigo, não quero conversa com esse sujeito. Vamos, anda logo, chega de discurso, eu vou distribuir uns mantimentos para o pessoal dessa favela que fica aqui atrás e preciso de alguém que me ajude a carregar as sacolas que arrecadei, porque são muitas.
– Agora não posso ir com você. Tenho meus próprios problemas com que me ocupar.
E ela saiu andando pela rua, com sua sacola de roupas usadas e de alimentos a doar, enquanto ele, deprimido, em sua casa, estudando as escrituras, se fechava para um mundo que precisava de atitudes, pensando em uma maneira de ter de volta algo que perdera.
Grande onda
Vera Rossi
Cinza. Era como via aquele dia. Cinza. O céu a se confundir com o concreto pela janela do restaurante. Pensou em um pedido especial porém barato, enquanto deixava-se molhar pelas pequenas gotas da garoa que atingiam o vidro. O cardápio oferecia pratos dissonantes de seu padrão de vida, mas, que seja, já havia economizado demais com seu modo de se desculpar por haver nascido. Torceu seu pequeno guarda-chuva e enxugou seus cabelos úmidos com a mão. Seu pensamento secava salgado, ensinando-lhe a viver um pedaço inutilizado de sua vida. Sequer sentiu o arrepio da pele. Apenas um calor ardido na garganta. Rouca, transpirava uma raiva suave, que, lentamente, invadia seu corpo.
Meio metro de raiva suave a tomar conta de seu corpo lento, enquanto sua blusa sutilmente grudava-se à pele, translúcida de suor. Aquele suor seco, frio, que esquenta a pele morna. Suas axilas escaldavam-se com o salgado vivo de sua raiva. Cerrou os dentes, franziu os sobrolhos, sem que os outros a percebessem patética. Apaixonada e ridícula, diga-se. "Por favor, digo, por gentileza, isto, isto e mais isto. Muito obrigada!", treinou o pedido enquanto o garçom se aproximava. Este assim o fez e ela apenas o encarou, com fúria. Pediu de pronto sem sequer agradecer seu pedido caro! Acreditava ter se mostrado pela roda de suor amarelada sobre as axilas, por isso preferiu esconder-se em sua "má educação".
Um metro de fúria odiosa invadia a sala de estar de sua vida destelhada. Do suor amarelado a escaldar suas axilas, garantiu-se sem porta, janela, teto ou chão. O calor furioso já alcançara o cobertor de seus medos. Não havia como se proteger da noite que se aproximava. Porém, necessitava urgentemente abandonar-se naquele devir obscuro a que seu ódio furioso a levava. Sentia-se flutuar na cadeira do restaurante enquanto bebia a coca-cola light sem gelo e sem limão que acabara de ser entregue pelo engravatado garçom. À medida que a coca-cola light sem gelo e sem limão pinicava sua garganta, seu corpo imergia-se no negro gasoso de sua sede. "Vingança! Vingança!", suspirou ao ver-se afundar sem cobertor no vazio de sua vida arrombada.
Sem porta, teto, chão ou janela, sua ira afogava-se no negro gasoso de sua sede de vingança. Faltava-lhe ar. Não conseguia comer o prato caro que, naquele momento, era posto à sua frente, como que a afrontar sua ira barata. Fechou os olhos na tentativa de perder os sentidos. Mas apenas faltava-lhe ar. A insuportável falta de ar que acometia seu corpo afônico. Não conseguia comer. Não conseguia comer o prato caro que, naquele momento, envolvia seus sentidos entupidos pela ira. Pediu a conta sem tocar na comida. Pagou sua sede de vingança com um cheque sem fundo.
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