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Escritoras suicidas
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 25/8/2008 · 21 votos · 1
  
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 16/11/2005.

Você pode adorar Sylvia Plath e Ana Cristina Cesar. Ou simplesmente detestar. O que não dá é para perder o novo site Escritoras Suicidas, em que 18 autoras (e autores disfarçados) experimentam um tema mensal em contos e poemas. Confira a entrevista coletiva das editoras suicidas.


Não cansam de surgir blogues, revistas de literatura e poesia pela rede, mas as Escritoras Suicidas surgem com uma proposta diferente. Com um tema mensal, 18 escritoras (e escritores disfarçados de) experimentam contos e poemas, de diferentes tamanhos e estilos. "Quando se trata de Literatura, não estamos interessadas na discussão (caduca) sobre gênero. A não ser do modo que estamos experimentando, com bom humor, ironia e leveza", afirma uma das editoras do projeto, Silvana Guimarães na entrevista abaixo. A idéia foi de Eliana Pougy, que teve que deixá-lo, e é tocada por Silvana, Silvia Devereaux e Mara Cordello. Reúne algumas escritoras que estréiam com as Suicidas, outras já publicadas, em livros próprios ou antologias, além do cada vez mais prolífero universo dos blogues. Toda autora tem um belo retrato ilustrado por Marcio Enrico. Na entrevista a seguir, as três editoras falam sobre o projeto, cutucam a mania por rótulos e dizem o que pensam sobre esse papo de literatura feminina. E não deixe de conferir os textos. O tema da primeira edição é justamente sobre... escritoras suicidas.


Como surgiu a idéia pro site?

Silvana Guimarães.
A idéia foi da Eliana Pougy, que hoje, por questões particulares, não está mais conosco. Um site só de mulheres, uma ironia ao estigma que impuseram à "literatura feminina" = drama + depressão + suicídio. Ela convidou autoras conhecidas (dela), algumas aderiram, convidaram outras e começou. Aliás, eu convidei outras e outros. Porque decidimos que seria um site onde todo mundo é mulher, até os homens (a Eliana andou pensando em mudar pra Escritores Suicidas). Há homens entre nós. Devidamente travestidos, claro. Por isso, a única explicação, sutil, na primeira página: "Um site de mulheres e homens que fingem de".

Silvia Devereaux. Falou a mãe das mortas. Eu fui uma das convidadas ao suicídio; compareci, matei-me a rigor, e justamente por conta dessas questões particulares & defecções, fui convocada a ajudar a editar. Aceitei, até porque nada se nega a Silvana Guimarães, como se percebe.

Mara Coradello. Fui convidada e fiquei na sala de estar até a duas semanas atrás, quando Silvana, sobrecarregada, me pediu para colaborar como editora. Aceitei, porque simpatizo com o estilo e com a contestação irônica a respeito da existência de uma literatura feminina. Aliás, há bem pouco tempo um editor de um site cultural afirmou — em resenha do livro 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, organizado por Luiz Ruffato — que uma antologia só de mulheres despertava nele a vontade de encontrar uma mulher fisicamente estimulante e fatal entre as autoras. O mesmo sujeito usou de analogias torpes e jogo de palavras batido, cometendo imprudências, como comparar algumas de nossas escritas com costura. Depois disso, resolvi encarar a questão e me juntei de bom grado ao site.

Expliquem um pouco como ele deve funcionar.

Silvana.
De maneira singela: todo mês escolhemos um tema. E escrevemos sobre ele. Podemos usar voz feminina, masculina, gay, infantil, animal, angelical, divina. Pode ser crônica, conto, poema. Isso não importa. O tema de novembro é Fúria e vai ao ar no dia 25 de novembro. Que — não por coincidência — é o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. Quando se trata de Literatura, não estamos interessadas na discussão (caduca) sobre gênero. A não ser do modo que estamos experimentando, com bom humor, ironia e leveza. Mas estamos unidas na defesa de nossos direitos sociais. Nós e eles, os homens que fingem.

Silvia. Pois é isso mesmo, sem tirar nem pôr (oh, dó).

Mara. Concordo em número, gênero e grau.

Poderiam falar um pouco sobre as convidadas a participar do projeto. Muitas já desenvolvem seus trabalhos em blogues, algumas lançaram livros, mas outras estão estreando com o projeto, certo?

Silvana.
Certo. E algumas não têm livros publicados, não têm blogues, mas têm textos publicados na Web. A mais inédita de nós é a jornalista Verônica Couto, que está, de fato, estreando com o projeto. E a publicitária italiana Nora Putti, que também nunca foi publicada na Web. Entre os homens — cujas biografias são fictícias —, apenas um não tem livro publicado (mas tem blogue e está em outros sites). Um deles é escritor de 12 livros, com participação em antologia recente e importante, digamos assim. Outro é autor teatral, também. Há um macho, sertanejo rude e forte, de caligrafia especial, cujo nome está em evidência nas rodas literárias e jornalísticas: uma flor! (Eu tô rindo.) O nome verdadeiro deles? Não conto. Nem pra mamãe.

Silvia. Tanto ela não conta, que eu não sei quem é macho na roda. E, não sabendo quem é, fico ansiosa, tentando ler nas entrelinhas das biografias fajutas, sem pescar nadinha, que eu sou uma tontinha. Em todo caso, uma vez que há tantos pseudônimos, especialmente entre os moços, eu cá acho que podemos considerar a maioria como inédita.

Mara. Tenho apenas a impressão de que este site vai ser um delicioso pano de fundo para encontros literários entre autores interessantes e leitores amorosos, movendo trocas nem um pouco mórbidas... sob a égide de que vale a pena se matar de amores pela literatura, essa deusa amarga e atemporal.

Como se deram as escolhas? Algo a ver como uma nova geração de escritoras? Como vêem essa urgência de classificar e rotular gerações, correntes etc.?

Silvana.
Outro dia levei um susto. Descobri que um poeta, cuja poesia sem rótulo eu admirava há tempos, virou neo-barroco da noite pro dia. Ele agora é neo-barroco, mas a sua voz continua a mesma. (Adelaide do Julinho, uma de nós, depois dessa, deu pra dizer que é uma poeta neo-barraco). E achei muita graça nos versos de outro, num soneto, mais ou menos assim: "Doutor, eu sou moderno. Não reparou no modelo do meu terno?". Em suma, não entendo a urgência, mas acho que a classificação e a definição de correntes têm uma importância acadêmica, que, na prática, não influi na minha vida.

Silvia. Olha, eu, sinceramente, não estou vendo "nova geração" nenhuma. Primeiro que, como já se elucidou, a maioria das partícipes já tem letra impressa no currículo, algumas delas há tempos. Segundo, que as idades variam muito entre todas, de modo que não dá para falar em "geração" mesmo. E terceiro, que o "suicidas" não é rótulo: é nome como outro qualquer.

Mara. Eu sou retrô. Longe de mim querer ser nova ainda. Sou antiga de alma, de letras e de cara. Se eu tivesse essa paixão por novidade, não faria literatura, há algo mais analógico e passado que a palavra escrita? Se gostasse de novidades eu poderia, por exemplo, ser DJ de Ipod. Me falaram que já existe isso...

O que acham desse papo de literatura feminina? Existe, não existe, serve para quem e para quê?

Silvana.
Eu acho engraçado. Se a minha escrita é reconhecida como feminina e forte, certamente, estou escrevendo como homem. (Ou como gente grande?)

Silvia. Eu acho que não existe não; existe é um mito de "sensibilidade feminina", que enche muito os ovários das mulheres que inventam escrever de outros jeitos. E não sei a quê ou a quem serve; talvez àqueles que acham que mulher que não escreve sobre esganiçar-se de amor não é bem mulher. Sei lá.

Mara. Não existe e é um perigo muito grande. Como algo que não existe pode ser tão perigoso? É só pegar uma dessas autoras que fazem poesia no feminino, ou mesmo uma das que escrevem coçando um saco imaginário, em ambas a questão do gênero é um mal, apenas para quem lê, claro. A saudade, a paixão, o amor, a morte, o ciúme e mais cinco ou quatro temas que realmente importam, independem de gênero.

O título é uma referência, homenagem a autoras como Ana Cristina Cesar e Sylvia Plath?

Silvana.
Não é. Embora elas mereçam a homenagem.

Silvia. E aí seria "poetisas suicidas", né? (Risos) Em todo caso, não gosto da primeira, e olho a segunda com muitas reserva .

Mara. Para mim o título é belo e me lembra o tempo todo que ao invés de pedalar, por exemplo, eu estou sentada, sobre livros e textos. Ao invés de ganhar mais dinheiro, para quem sabe, conhecer a Espanha, eu estou lá, parada e febril e pior: não posso viver de melhor forma. E há algo de estranhamente suicida nisso. Quanto às autoras gosto muitíssimo de ambas. E gosto do fato de terem se matado, eu mesma penso muitas vezes que não deve haver mal algum em apressar um pouquinho as coisas. Porém um dia desses, pesquisando justamente sobre o suicídio, descobri que só conhecemos bem os suicidas geniais, é muito triste a carta final de um suicida desinteressante. E há uma imensa maioria de suicidas burros. Estou repensando meus valores com base nessa seriíssima pesquisa.

tags: São Paulo SP entrevista escritoras-suicidas coletivo literatura ficcao eliana-pougy silvana-guimaraes silvia-devereaux mara-cordello


 
tenho muito gosto em participar do "escritoras suicidas"!

lírai porto


líria porto · Belo Horizonte (MG) · 13/11/2008 09:08
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