Por Gabriel Nepomuceno Vieira.
Foi depois de ler, em exatas 2 horas e 30 minutos, um livro sensacional chamado
Uma Carta por Benjamin, que decidi procurar mais sobre a autora, uma gaúcha chamada
Jana Lauxen. Encontrei seu blog e ali passei um longo tempo, mergulhado em suas divagações. Um dia escrevi um e-mail para ela, comentando que tinha gostado muito do livro e perguntando quando ela lançaria o próximo, pois estava ansioso. Surpreendentemente ela respondeu, sem empáfia nem monossílabas, e depois da troca de alguns e-mails, me surgiu a idéia de entrevistá-la.
Ela me parecia alguém que tinha muito a dizer, apesar de ter somente 24 anos, e a entrevista abaixo comprova que eu estava certo.
Jana Lauxen.
Guardem este nome.
Como tudo começou?
Resumidamente quando descobri que a única coisa que eu sabia fazer direito era escrever.
Uma Carta por Benjamin foi seu primeiro livro lançado, mas o quarto a ser escrito. Porque ele passou na frente dos três primeiros?
Justamente porque foi o quarto a ser escrito.
Era o mais maduro.
O primeiro tem 280 páginas em fonte 12 e entre linhas simples, então imagine só.
O segundo é sobre política, e eu não tenho mais certeza se ainda acredito no que escrevi ali.
E o terceiro é ruim mesmo e já foi até descartado.
Admito que peguei seu livro em mãos sem muita pretensão, e fui verdadeiramente surpreendido, arrebatado, logo na primeira página. Penso que este é um obstáculo que o novo autor precisa aprender a superar, tendo em vista que novatos ainda são vistos com desconfiança pelos leitores e pelo mercado editorial em geral. Concorda?Em partes.
Concordo que novatos são vistos com desconfiança, mas não são somente os escritores novatos. Os médicos novatos, os engenheiros novatos, os jornalistas novatos, também são.
Além do mais, ninguém pode querer começar a escrever hoje e mês que vem ganhar o Açorianos.
O autor precisa saber o que e porque está escrevendo - precisa, antes de qualquer coisa, saber escrever.
Se souber e tiver um pouco de persistência e sorte, mais cedo ou mais tarde ele chega lá. Então deixa de ser novato e passa a ser veterano, visto com bons olhos pelos leitores e pelo mercado editorial. Mesmo que escreva um livro médio ou até ruim.
Mas fico feliz que o livro tenha te arrebatado.
Escrevi o que gosto de ler.
Para mim, Uma Carta por Benjamin possui uma mistura muito curiosa de folhetim com filosofia. Você escreve para quem?Escrevo para quem gosta de histórias.
E se conseguir atingir um número cada vez maior e mais variado de leitores, melhor ainda.
Já recebi dois e-mails me dizendo que
Uma Carta por Benjamin, por exemplo, foi o primeiro livro que a pessoa leu na vida, e que adorou.
Eu achei isso fantástico.
São para pessoas assim que eu escrevo.
O baixo número de leitores no Brasil preocupa você?
Não chega a tirar meu sono, pois sei que este é um quadro que, devagar e sempre, irá mudar.
E a internet é uma grande aliada, pois nem só de livros, inicialmente, se faz um leitor.
Muita gente, que nunca leu um livro, um jornal, uma revista, lê blogs, por exemplo.
Por isso, creio que o número de leitores só tende a aumentar.
Você tocou em um assunto comum nas entrevistas com escritores: a internet. Um escritor que não utiliza as ferramentas disponíveis pela rede mundial de computadores é um escritor pela metade?
Pela metade, não, pois a internet é apenas um meio, e não um fim.
Mas acho que ele perde, sim.
Sabendo usar, os blogs, sites e perfis em comunidades virtuais são um jeito bacaníssimo de se aproximar e alcançar novos leitores.
Eu, enquanto autora iniciante, só tenho a agradecer pela existência da internet.
Sem ela, de que maneira eu, por exemplo, vivendo em uma cidade pequena do interior, sem dinheiro, sem padrinhos, sem eira e nem beira, conseguiria angariar leitores na Bahia, em Minas Gerais, em Moçambique? Nunca.
Internet é democracia pura e não tem porque não ser aproveitada.
Sempre com inteligência e bom senso, é claro.
E como a sua família encara o fato de você ser escritora? Eles te apóiam?
Sabemos que muitos artistas não são valorizados dentro da própria casa.
Por sorte, não foi o meu caso.
Meus pais sempre me apoiaram cem por cento, o que não canso de dizer que foi, é e sempre será fundamental para minha saúde literária.
Meu marido,
Afobório, também é escritor, logo nos entendemos muito bem.
E além destes, não me interessa muito a opinião.
Mas tenho a nítida impressão de que meu avô preferiria que eu tivesse carteira assinada, rarara.
Lendo seu blogue, percebi que costuma tocar em assuntos bastante delicados, como fé e política, com muita facilidade, seriedade e bom humor. Você publica tudo o que pensa no seu blogue?
Imagine!
Se eu fizesse isso provavelmente já estaria presa ou morta.
Passo tudo o que escrevo numa peneira bastante severa, onde busco analisar quais assuntos, de fato, valem a pena serem discutidos em um blogue e quais não valem o esforço.
Não pretendo criar discussões tolas que saem do nada e vão para lugar nenhum.
Porém, alguns assuntos merecem e precisam ser abordados sim, e por isso são.
Você recebe muitos e-mails de leitores te xingando?
Sabe que não?
Recebo alguns, é claro - sempre tem quem tenha tempo ocioso o suficiente para desperdiçá-lo enchendo o saco alheio.
Mas os cães ladram e a caravana passa, não é assim que é?
Eu sempre digo: querem discordar? Maravilha! Mas para que perder a compostura? Sempre respondo os e-mails que recebo, e já troquei muitas mensagens discutindo assuntos com leitores que discordavam de mim.
Eu apresentava um argumento, eles contra-argumentavam, tudo muito interessante e saudável.
Agora, se o cara já chega falando palavrão, bem, ele vai para a lixeira no ato.
Alguma vez você pensou em desistir?
De verdade, não.
É claro que tem dias que bate um desânimo e a gente pensa que nunca vai dar certo e que era melhor arrumar um ‘trabalho de verdade’ e etc.
Daí eu sento e espero essa vontade de mandar tudo para o inferno passar.
E ademais, tem coisas que a gente não consegue deixar para trás, não pra sempre e não de verdade.
Você tem uma facilidade muito grande de contar histórias – basta ler seu livro e seus contos disponíveis na internet. A que atribui essa facilidade?
Certamente ao fato de eu ouvir, ver e ler muita história, desde sempre.
E vamos combinar que a vida é um caldeirão de histórias potenciais pipocando por todos os cantos.
Basta aprisionar algumas e colocá-las no papel.
Benjamin é alguém que você conhece?
Conheço muitos Benjamins.
Eu mesma já fui um, e acredito que todo mundo, se ainda não foi, lá pelas tantas acabará sendo.
Benjamin é um cara que se depara com uma decisão que precisa tomar, algo que vai mudar sua vida e a vida de todas as pessoas que o rodeiam.
É um momento decisivo em que, metaforicamente falando, decidimos de que lado vamos ficar.
Quando o escrevi, havia acabado de tomar uma decisão assim, e precisava colocar tudo aquilo no papel, até para que eu pudesse entender melhor o que se passava.
Deu certo.
Você me disse uma vez que escrever é uma forma de pensar. Como funciona isso?
Não sei os outros, mas acredito que seja igual para todo mundo: meus pensamentos são desorientados, histéricos, bagunçados.
Escrevendo, consigo organizá-los, observá-los e decodificá-los melhor.
Por este motivo, se eu não escrevesse, certamente seria bastante perturbada.
E ainda mais confusa.
Como os meios de comunicação têm recebido seu livro?
O poder centralizador dos grandes meios de comunicação – que costumam fechar as portas para os novatos – dividiu-se entre outros veículos menores, porém de iguais atributos e credibilidade.
Hoje, além de redes de televisão consagradas, jornais, revistas e grandes portais, existem muitos projetos voltados para arte e literatura, com qualidade e espaço para quem está começando.
Destes, não posso reclamar, pois todos receberam Benjamin de braços abertos.
Agora, é claro que encontrar espaço e oportunidade em grandes conglomerados de comunicação é muito difícil, mas como escrevi anteriormente, este é o início de uma carreira, e em inícios de carreiras nem todas as portas se abrem com facilidade.
De qualquer maneia, nem eu nem qualquer outro novo escritor pode reclamar do espaço que atualmente possui para divulgar seu trabalho.
Só precisa correr atrás porque, de início, eles não vão correr atrás de você.
Nem os pequenos, nem os grandes.
Um texto com dicas suas para novos escritores correu a internet, despertando os mais variados tipos de comentários. Neste texto – muito claro e direto – você desmistifica o romantismo da profissão de escritor e fala que, sem trabalho duro e persistência, ninguém chega a lugar nenhum. Porque você resolveu publicar estas dicas para novos escritores?
Porque, por motivo que desconheço, muita gente me escrevia perguntando coisas sobre a vida de escritor.
Só que eu não sei nada sobre a vida de escritor.
Já sobre a vida de aspirante a escritor, sei tudo, então pensei: se eu, quando estava dando meus primeiros passos na literatura, tivesse lido um texto esclarecedor e sincero sobre a profissão, teria sido bem mais fácil e simples, e eu teria dado menos cabeçadas. Daí escrevi.
Quais cabeçadas você deu, enquanto dava seus primeiros passos na literatura?
Ah, erros elementares.
Quando terminei meu primeiro livro, por exemplo – aquele de 280 páginas em fonte 12 e entre linhas simples – imaginava (como quase todo mundo imagina, ingenuamente) que o enviaria para a Editora Record e eles ficariam empolgadíssimos e me publicariam imediatamente, agradecendo a Deus que uma escritora fantástica e sensacional como eu tivesse escolhido a editora deles para lançar seu primeiro livro.
Rarara.
Nem preciso dizer que nada disso aconteceu.
Até eu me aperceber que deveria iniciar pelas editoras menores, e dar um passo de cada vez, e trabalhar duro, desperdicei muito tempo.
Na verdade, também possuía uma visão romântica da profissão, e a perdi na marra.
Por isso, resolvi compartilhar minha experiência e ajudar outros escritores iniciantes a pegar o atalho, pular etapas e bater menos a cabeça contra a parede.
Recentemente você teve um conto (Joaquina Pede Água) adaptado para os quadrinhos (com roteiro de Sergio Chaves e arte de Sueli Mendes) e publicado na revista Café Espacial, que este ano levou o Troféu HQMix de Melhor Publicação Independente de Grupo. Como está sendo esta experiência?
Fantástica.
A Café foi um projeto que caiu no meu colo casualmente e eu adotei com todo carinho.
Entrei para a equipe espacial início deste ano, e só tenho tido alegrias.
Sou leitora de quadrinhos, comecei lendo quadrinhos, leio quadrinhos até hoje e, de repente, você tem uma história sua transformada em quadrinhos.
É uma tremenda realização.
Aliás, as HQs deveria ser mais valorizadas, principalmente pelas escolas.
Nem todo mundo gosta de Machado de Assis, mas todo mundo gosta de gibi.
É uma maneira inteligente e divertida de fazer a garotada ler cada vez mais.
Pais e professores: reflitam sobre isso.
Como está sendo sua experiência na organização da coletânea de contos policiais brasileiros Assassinos S/A, em parceria com a sua editora, a Multifoco?
Rica, muito rica.
O segundo volume deverá ser lançado em janeiro do ano que vem, e já selecionamos os 24 textos que comporão a antologia, além dos oito ilustradores que darão formas as histórias.
É muito gostoso saber que estamos criando oportunidade para promissores escritores começarem a mostrar seu trabalho.
Também buscamos, eu e
Frodo Oliveira, reunir poucos textos, de poucos autores, porém com qualidade inquestionável.
Existem no mercado muitas coletâneas em andamento, mas a maioria delas cobra de seus autores a publicação (nem que seja uma cobrança disfarçada) e, em conseqüência disso, criam livros-varejos, com 40, 50 autores e pouquíssimo predicado literário.
Publica-se quem pode pagar, e não quem sabe escrever.
Nós buscamos o oposto disso e, com sinceridade, acredito que estamos alcançando nosso objetivo com louvor.
E estes livros-varejos, você considera uma erva daninha no mercado editorial?
Para esta pergunta ainda não encontrei resposta.
Por vezes acho que sim, pois a quantidade de antologias sem nenhuma preocupação com a literatura acaba roubando a atenção de trabalhos sérios, que primam pela qualidade antes de priorizar o dinheiro.
No entanto, é inegável que antologias (boas, médias e ruins) acabam criando um número maior de leitores, e isso é válido.
Explico: uma coletânea-varejão reúne, por exemplo, 40 autores. Cada um deles se responsabiliza em comercializar um número X de exemplares, 20 por exemplo. Só aí temos 800 livros vendidos. Os autores vão vender estes exemplares para a família, os amigos, os colegas de trabalho, pessoas que nem iriam ler, mas acabam lendo para prestigiar o amigo.
Por este lado, as antologias, mesmo as varejão, têm lá suas vantagens.
Paulo Sant’Ana, colunista renomado do jornal Zero Hora de Porto Alegre e fumante inveterado, costuma escrever sobre seu vício com bastante naturalidade em sua coluna diária, e isso já gerou inclusive protestos de alguns de seus leitores, que o acusam de promover o tabagismo. Esta é uma questão que deve ser analisada: até que ponto o escritor se auto-censura, quando busca não influenciar negativamente seus leitores? O fato de um escritor ser formador de opinião obriga-o a ter cautela na hora de escrever?
Cautela sim, censura nunca.
Veja: o escritor vai escrever sobre assuntos que lhe são importantes, que interessam a ele antes de interessar aos outros.
Agora, como já diria minha vó, prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Vamos supor que um escritor fume maconha.
Em minha opinião, ele não precisa escrever: eu fumo maconha.
No entanto, não vejo problema nenhum dele dar sua opinião sobre a droga – e para isso, não precisa se assumir como usuário.
Paulo Sant’Ana escreve com carinho sobre seu hábito de fumar, e pode apostar que tem muito fumante que se apóia em seus argumentos para perpetuar-se no vício.
Porém, se pensarmos assim, não poderemos mais escrever sobre nenhum assunto, pois tudo poderá influenciar negativamente os leitores.
A coletânea Assassinos S/A, então, seria uma ode à violência e ao crime?
Não, é só literatura.
Mas é evidente que um leitor desavisado, que apresente antecipadamente tendências homicidas, pode matar alguém e culpar o livro, do mesmo jeito que um outro leitor pode começar a fumar e culpar o Sant’Ana.
No entanto, tanto o leitor assassino quanto o leitor fumante matariam e fumariam de qualquer jeito, e só buscam no escritor um bode expiatório para suas culpas.
Repito: cautela é importante, mas é impossível que o escritor se baseie no que poderão achar seus leitores na hora de escrever.
Se ele fizer isso, não escreve.
Os escritores são uma classe unida?
Os escritores criam núcleos e, dentro destes núcleos, são unidos sim.
Mas, de uma maneira geral, acho que é cada um por si.
O que vemos por aí são grupos de amigos que fundam uma editora pequena e passam a se publicar, um divulgando o outro, um incentivando o outro.
Agora, é evidente que estas pequenas editoras, formadas por pequenos grupos de escritores, não incentivam umas as outras, até porque representam concorrência.
Como você vê o futuro da literatura no Brasil?
Com olhos otimistas e coração apertado.
E o seu futuro na literatura, qual é?
Espero que brilhante, rarara.
Algum projeto em andamento?
Sim, sempre.
Estou com meu próximo livro pronto, com lançamento previsto para a primeira metade do ano que vem através de um novo selo editorial que está surgindo no mercado.
Será de contos e se chamará
Quando Eu Morri.
Tenho também um projeto que misturará literatura com quadrinhos, ilustração e fotografia, não necessariamente nesta ordem, reunindo novos artistas brasileiros.
Além, é claro, de outras idéias mirabolantes que estão sempre assaltando minha cabecinha.
Para encerrar, Jana, deixe aqui as informações sobre onde nossos leitores poderão te encontrar.
Principalmente no meu blogue (www.janalauxen.blogspot.com), na revista Café Espacial (www.cafeespacial.com), na Zena (www.revistazena.com.br), no jornal Vaia (www.jornalvaia.com.br), no Blog Cabeças Cortadas (www.blogcabecascortadas.blogspot.com) e no site 3:AM Magazine (www.3ammagazine.com/brasil).
Passem lá.
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