Certa noite, eu tive um sonho, foi um pesadelo. Andava nalgum lugar, sozinho. A escuridão estava ao meu redor. Ouvi um estampido surdo. Era um disparo, um tiro. Ele foi certeiro. Senti-me como se tivesse levado um choque elétrico. Meu corpo estremeceu, da cabeça aos pés, por dentro e por fora, ele estremeceu. As imagens começavam a apagar-se em minha mente. Tive a sensação de que uma lâmina gelada estivesse dilacerando-me. Senti muito frio. De repente, era como se a água gelada estivesse correndo sobre meus pés. O frio aumentava, e a água parecia subir cada vez mais. Eu perdia os sentidos. Figuras indescritíveis esvoaçavam diante de mim. Anjos ou demônios, não havia como saber, pois eles iam e vinham sem cessar. Enfim, visualizei em meio às sombras a silhueta ainda mais escura de um segador. O ar faltou-me. “Morri”, foi o que eu pensei. Acordei logo em seguida, sentindo-me como se eu tivesse sido arrebatado de um lago de águas profundas e geladas, onde eu estaria para me afogar. Foi somente um sonho, um pesadelo!
Quando as sombras começarem a se alongar envolvendo a alma, e a escuridão deixar de ser apenas um simples e momentâneo fechar de olhos, ela surgirá, fria, negra, inevitável...
Sutilmente tratada, a literatura considera-a como um evento tristemente belo. As pessoas negam-se, o quanto podem, a lembrar-se dela. Criam termos metafóricos: viagem sem volta, sono eterno, descanso, fim de todos. A verdade é que ninguém suporta encarar friamente um assunto tão sinistro e misterioso: A MORTE.
A morte terrifica em qualquer situação. Mesmo com uma certa dose de humor ou de senso da beleza, seu enigma é sempre assustador. “A morte engana, como um jogador de futebol, a morte engana. Como os caixeiros escolhe, meticulosa, entre doenças e desastres”, declama Carlos Drumond de Andrade.
A morte como notícia é suportável até certo ponto. Mas, às vezes, aproximando-se do interesse e do pitoresco como relato, passa para a meia-luz do bastidor e provoca medo.
Vale mencionar Gilgamesh, o rei lendário e mais antigo herói das epopeias humanas, o qual foi agraciado com a vida no dilúvio babilônico e partiu em busca da pedra filosofal da vida, tentando obter a imortalidade. Ele próprio meditou junto ao cadáver do seu inseparável amigo Enkidu:
—Que espécie de sono é esse que te tomou? Eu tenho medo.
Misterioso, inquietante, sinistro, o sono do qual ninguém até hoje acordou já perturbava o homem desde que se tem notícia de sua existência no planeta. Infindáveis lamentações pelos mortos atravessam as epopeias e as mitologias. O luto estende-se do homérico Aquiles ao mítico nórdico Siegfried, passa pela francesa Joana D'Arc e encontra, pelo caminho, um dinamarquês famoso, magro, enamorado de dúvidas eternas, fascinado pelo enigma da morte: o príncipe Hamlet que, com uma caveira nas mãos, pensa no seu universal ser ou não ser.
Morrer modernamente, sob a aparelhagem dos hospitais e prontos-socorros, não difere, em essência, de morrer como nos clássicos quadros antigos. Em épocas passadas, o patriarca moribundo reunia a seu redor filhos e netos. E as crianças, vivendo em famílias enormes, povoadas de muitos filhos, viam de perto a morte dos pais e irmãos mais velhos. A morte era, afinal, algo natural. Atualmente, as crianças são como que dolorosamente poupadas de encará-la, pois, hoje existem adultos que nunca se defrontaram com um morto.
A expectativa que as religiões abriam para a morte, como começo de uma vida incorpórea e melhor, perdeu, para muitos, o crédito. Hoje em dia, restou ao homem a necessidade de libertar-se dos pensamentos com a morte. Há esforços para isso e, como formulou um filósofo, Max Scheler, luta-se para “afugentar” a morte. O homem moderno teme a imortalidade e também não quer ser mortal. E, por isso, “o homem tenta matar a morte”. Psicologicamente, é essa esperança e ilusão de driblar a morte que explica o crédito mágico e nada crítico com que indivíduos que estão perdendo a mocidade valem-se nervosamente de “elixires da longa vida” e de tratamentos para o rejuvenescimento.
Poetas e filósofos, profetas e sacerdotes do passado procuraram dar um sentido de consolação à morte. Mas ela permaneceu sempre como um ponto indefinível e imponderável da natureza humana, localizada entre a esperança e a desesperança. No passado, a discussão frontal da morte foi evitada ardilosamente e até por meio de truques dialéticos. Com a frase: “Filosofar significa aprender a morrer”, do francês Michel de Montaigne (1533-1592), deu-se título a um ensaio sobre a morte. O grego Epicuro evitava sempre esse assunto tão desagradável, e depois, em Roma, o pensador Cícero dizia: “Enquanto existimos, a morte não existe e, quando a morte existe, nós já não existimos mais”.
Até o último sopro de vida, apenas um reduzido número de cultivadores da arte da vida e da morte conseguiu conservar uma atitude humorada diante da morte. Morrendo, em seu leito, o Imperador Augusto, por exemplo, pediu um espelho para ajeitar o penteado. Ele ainda disse aos que o assistiam: “Se vocês gostaram da encenação, aplaudam, para que eu possa sair de cena feliz”.
Tanto refinamento diante do fim da própria vida é fato pouco comum. Leon Tolstoi, autor de “Guerra e Paz”, deixou-se dominar pelo desespero e pavor e saiu correndo, desvairadamente, no meio de uma tempestade de neve, para morrer.
Horrível e vitoriosa, a morte tem conseguido torturar a vida dos homens. Ela é indefectível, ninguém lhe escapa, um dia todo mundo vai perecer. Séculos e séculos de arte médica, contudo, não moveram ainda o “marco final” quanto à longevidade humana: o prazo dos setenta anos e, quando muito, seu prolongamento para além dos oitenta anos. Se o objetivo sonhado pela humanidade fosse o da juventude, se não eterna, pelo menos prolongada, e se pudesse ou não ser realizado, seria, antes de qualquer consideração, uma questão de fé na ciência. Está estabelecido que o homem nunca rompeu com a regra cíclica e natural, que vai do nascimento à morte. O simples prolongamento de uma vivência senil (que seria o mais provável) poderia não valer a pena e disso já foi testemunha o herói épico de Swift. Trata-se de Guliver que se encontrou com o lendário Struldbrug no Reino de Lugnac, onde havia homens imortais. Nesse reino, aos noventa anos de idade, os homens estavam tão decrépitos que não podiam mais ler, pois no final da frase já se esqueciam do que estava escrito no começo.
A morte fascina, amedronta, comove, terrifica, por tudo o que ela representa. E o que ela representa? Um fim? Um começo? Um recomeço? Não, ainda não há respostas... Ou a resposta estaria na própria morte? Mors omnia solvit — A morte tudo resolve —, já se dizia numa das fábulas de La Fontaine.
Não há mais o que dizer, para morrer basta estar vivo, mas termino com um pequeno poema, em francês, o qual surgiu em minha mente enquanto escrevia este texto. Não o traduzo porque perderia sua essência e rima.
Aujourd’hui nous vivons,
mais demain on sait pas,
c’est pourquoi nous devons
chercher toujours la joie!
H. R. Cenci
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