Publicado originalmente por Marcelino Freire em 05/12/05
"Ana Paula Maia está aí", disse-me o escritor Santiago Nazarian. Ele, que havia apresentado para mim a literatura de Ana Paula.
Li e quis imediatamente fazer com ela um "De Olho Neles". Não tão "imediatamente" assim. Demorei pacas.
"Você só faz com gente que conhece pessoalmente, não é?", continuou o Santiago, meio alfinetoso, sei lá. "Não sou astronauta", disse eu. Nunca vi um astronauta de perto. É natural que sendo escritor eu conheça outros escritores. A gente se bique pelos mesmos botecos.
Em tempo: Ana Paula Maia estava no Mercearia São Pedro em virtude do lançamento da antologia Contos sobre tela, da qual é uma das autoras. Fui conversar com ela. Disse logo que daquela semana não passaria. Minha Maria! E agora? Tenho de segurar a promessa. E segurei.
Aqui está. Repito agora o que falei: "gostei de sua estréia". O original e galopante romance O habitante das falhas subterrâneas, saído em 2003 pela Coleção Rocinante, 7Letras.
Ana Paula também é uma das 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, livro este organizado em 2004 por Luiz Ruffato, Editora Record.
"E tive ainda um conto meu lançado na Itália". Contou-me da coletânea Sex'n'bossa, publicada este ano pela editora Mondadori.
"Não tem mulher escrevendo desse jeito", comentou o Santiago. Pelo menos assim, uma prosa mais longa (são quase duzentas páginas, em letra miúda), de fôlego, sem frescurinhas cor-de-rosa. E em voz raivosa e masculina, de um garoto chamado Ariel Esperanto. Algo inspirado em O apanhador no campo de centeio, de Salinger. E também em um amigo da autora, que se matou ainda jovem.
"Meu primeiro romance nasceu dessa tragédia", diz ela. E diz mais: acerca de seu próximo livro, intitulado A guerra dos bastardos (título dado pelo Santiago), ainda sem editora: "É uma pauleira do ínicio ao fim". Ou: "É a coisa mais violenta que escrevi até o momento". E mais: "Por um bom tempo, esse livro foi meu labirinto".
É isso: não tem melhor definição para a prosa de Ana Paula Maia. Labiríntica.
"Você precisa falar sobre ela lá no Portal", insiste o Santiago.
Sobretudo depois que a li, que saída eu haveria de ter, meu caro, que saída?
ELA POR ELA MESMA
Nasci no Rio de Janeiro em dezembro de 1977. Um calor insuportável, disseram, e tenho baixa resistência ao sol. Ele me dá ânsia de desmaio. Mas nunca desmaio.
Passei por três, quatro escolas. Desde pequenina perseguida por professores ferozes. Aos cinco anos, queriam me expulsar da primeira escola. Lá, sobrevivi até montarem uma comissão para me dar um chute no traseiro. Fui para a escola liberal. Lá, enlouqueci. Usava um cadeado no pescoço como pingente, fazia teatro e andava com uma garota duas vezes o meu tamanho e que me defendia. Caí durante uma partida de handball. Ganhei um traumatismo craniano e uma nova escola. Mas o traumatismo não me impediu de ir ao show do Iron Maiden semanas depois. Essa nova escola era para os marginais. Lá, fui suspensa por tentativa de incêndio, beber whisky durante a aula de geografia e outras coisas. Consegui terminar o segundo grau, sempre com uma expulsão vigente. Sempre que era suspensa, matava o tempo bebendo e jogando flipper. A escola tentou me sabotar.
Aos 16 anos, estudei na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), com feras como o Sérgio Brito [ator] entre outros. Tomei pau lá. Reprovei e aí só me dediquei à minha banda de punk rock, onde eu tocava bateria. Toquei numas baladas pauleiras dos 15 aos 18 anos. Depois cansei. Aos 18, já estava bem cansada e resolvi estudar informática. Fui nerd nesse troço por um tempo, mas já não sei mais nada. Eu me dividia entre números e alguma filosofia. Platão, Aristóteles, só os bons.
Comecei a me exercitar, esportes, essas coisas. Fui pra capoeira, mas um dia voltando à noite, bem cansada e de abadá, tomei uma dura da polícia. Escopeta apontada para minha cabeça. Um horror. Não esqueço. Fiquei sabendo que era um grupo de extermínio e andaram matando algumas pessoas. Larguei a capoeira sem pensar duas vezes. Passei a odiar a polícia desde então e sempre que posso mato um deles no papel. Mas só ficou mesmo o susto. Sobrevivi à escola e aos policiais. É aquilo, né? Eu tinha que vingar.
Fui para o curso de publicidade. Lá, me formei também. Cabeça da turma. É... de alguma forma, virei CDF. Até hoje, não entendi como passei de "expulsiva/marginal" à melhor da turma. Aí um dia, eu acordei e pensei.... putz, tá faltando alguma coisa. Sentei no computador e comecei a escrever compulsivamente. E tô aqui... escrevendo, escrevendo... e ultimamente ando resmungando num blog: [www.killingtravis.blogspot.com]
EU & ELA
[ Uma conversa por e-mail entre mim e Ana Paula Maia ]
EU - Conte um pouco do seu romance O habitante das falhas subterrâneas. Como nasceu? Como foi publicado, enfim, assado.
ELA - Acredite. O habitante foi o primeiro texto literário que escrevi. Antes dele havia escrito um roteiro para curta-metragem chamado "O entregar de pizza", filmado, mas nunca finalizado. Eu fazia faculdade de publicidade na época e todos aqueles cases de "sabão em pó", "pó de café", "Lufthansa" não preenchiam, entende? Numa vertigem, escrevi o roteiro, logo após um princípio de estafa. Sou meio molenga. Vivo caindo doentinha com algum troço que faz tudo girar. O médico disse que era pra ir mais devagar. Abrir mão de alguma atividade. Abri e comecei a escrever "pra relaxar". Hahaha. Quando tinha 16, 17 anos, um sujeito que eu conhecia e que foi até próximo durante certo tempo, deu um tiro na cabeça. Foi chocante. Uns meses antes ele foi se desculpando com as pessoas que conhecia por alguma coisa que pudesse ter feito de ruim e coisa e tal. Ninguém entendia, claro. Alguém chega pra você e diz: "Oi, olha se fiz alguma coisa que te chateou, pô aí.. foi mal. Desculpa." Era gente boa toda vida. Trabalhador. Responsável. Ele se matou de joelhos, em seu quarto, diante da cama, logo depois de deixar a mãe e outras pessoas conversando na sala, numa boa. Um fim de semana como outro qualquer. Família reunida. A bala que usou era a tal da dum-dum. E a mãe ainda catou seus miolos sobre a cama. É péssimo contar isso, mas aconteceu. Agora eu pergunto: Por que ele fez isso? Isso martelou na minha cabeça por um bom tempo e o Ariel, protagonista/narrador do livro, nasceu dessa tragédia. Todo o tempo, ele, o Ariel, evoca o possível suicídio. Existe um desespero nesse menino que ninguém percebe, ninguém nota, mas que está lá. Ele, com os dois pés diante do abismo. Ele quer consertar as coisas, quer ser bom para os outros, mas ninguém olha para ele. Nem os mais próximos. Assim como aconteceu com esse garoto que eu conheci. Ninguém teve uma explicação, ninguém nunca percebeu seu desespero ou viu seus pés no abismo. O habitante foi escrito bem rápido. Dois meses e meio. Entre dezembro de 2001 e fevereiro de 2002. Em 2003, a editora 7Letras topou fazer o livro e acertamos a publicação para a Coleção Rocinante.
EU - Seu fôlego é sempre longo. Romances com páginas e páginas. Como é isso, num momento em que proclamam uma crise no gênero, em que prevalecem as narrativas curtas, novelas enxutas e eta danado?!
ELA - Quanto aos textos enxutos que existem por aí, não sei o que dizer. O que ocorre comigo é que sou passional e acho que o fôlego vem daí. Quando escrevo, me lanço no abismo. Abro mão de mim pelo personagem. Quando se está apaixonado você cruza desertos e mares, nunca se acha ridículo, enfrenta uma tempestade crendo que terá um final feliz. Ou, pelo menos, algum final. Tenho um coração indomável e meus nervos estão nas pontas dos dedos. Por isso sou meio arredia às vezes. Sou um tanto isolada. Sinto um peso imaginário nos ombros. Preciso de cuidados. Costumo dizer que escrever é meu videogame, porque é exatamente isso. Sempre joguei com os nervos, invadindo os espaços da história. Tenho facilidade para me transpor para a história que crio, para nascer e morrer no papel. Para sofrer, bater, correr. Estou em cada capítulo, em cada frase, ao lado de cada personagem. Tenho imenso prazer nisso. Em ser todos eles. Quando termino uma nova história, eu adoeço. Essa parte é ruim... mas é que fico fraca e sem fôlego. Minhas histórias roubam tudo de mim. Estou acorrentada a isso e o pior é que gosto. Dizem que quando apanhamos liberamos endorfina e isso causa prazer. Escritores liberam muito dessa droga.
EU - Como você vê a nova literatura feita no Rio? E no Brasil? Que escritores você lê, dos novos aos clássicos, assim, à cabeceira?
ELA - Gosto dessa agitação literária. Todos os encontros, feiras e bienais. Você conhece gente bem legal. Interessante. Sinceramente, essa coisa de regionalismo me pega de jeito. Sei lá o que se faz aqui no Rio. É aquilo, não pratico álcool faz muitos anos, nem tenho muita disposição para sair. Sempre existem aquelas rodas regadas a bebida, sei lá. Conheço poucos escritores, mas acompanho o pessoal através de alguns sites. Literatura é literatura, né? Pra mim, ela não tem sexo, idade, religião, localização geográfica. No geral, gosto muito da produção atual. Leio todos os que caem no meu colo... ooops... e gosto assim... deles no meu colo. À cabeceira? Estão três livros neste exato momento: Demain, do Hermann Hesse; Guerrilha psíquica, do múltiplo Luther Blisset, e Olívio, do Santiago Nazarian. Mas posso citar alguns escritores que leio, já li: Julio Verne, Rilke, Schopenhauer, Nietzsche, Fante, Dostoiévski, Salinger, Dashiell Hammett, Fitzgerald, Hemingway, Poe, Asimov, Huxley e por aí vai... é quase uma embolada literária.
EU - E a sua passagem pelo teatro, fale-me. A sua prosa traz alguma influência do palco? E no palco, o que há, assim, de literário?
ELA - Depois do roteiro para o curta-metragem, que agradou bastante, o ator Ricardo Petraglia, que trabalhou no filme, me pediu um texto para teatro. Eu disse: "Putz... eu nunca fiz isso. Nem vou ao teatro." Mas ele estava acreditando e mãos à obra. A obra é bem rock´n´roll. Quem dirigiu foi o Moacir Chaves. Da concepção à escrita, tudo em um mês e meio mais ou menos. Escrevi até a metade, o restante, outro autor finalizou tempos depois. Ele gostou, então serviço cumprido. Eu só tinha 23 anos na época e ganhei um dinheiro legal. Tenho minhas restrições quanto ao texto, mas me disseram que é assim mesmo. Foi a única coisa que fiz para o teatro até agora. De literário, não tem muita coisa não. Alguns podem discordar. Shakespeare é belíssimo, acho até bem literário, mas não é literatura como vejo alguns apregoarem. São processos diferentes. No cinema, ocorre o mesmo. Você tem o texto, o ator, a música, a sonoplastia, o diretor, o produtor, o cenógrafo, e a tal da verba que comanda tudo isso. Você precisa escrever com um olho no público, outro na quantidade de atores que colocará no palco, e por aí vai. Na literatura, o escritor encontra uma liberdade absurda. Nela, você constrói quantas quimeras for necessário e só precisa de um punhadinho de palavras pra isso. Basta uma palavra e tudo se cria, outra, e tudo se acaba.
EU - E o romance que você está escrevendo? Já tem editora interessada? Como está sendo o novo livro, vai dizendo.
ELA - Corrigindo: o novo romance já está pronto. Desde abril. Chama-se A guerra dos bastardos e quando eu comecei a escrevê-lo (o que levou dois anos), eu queria abrir fogo. Estava sentindo raiva e frustração. Algumas coisas haviam saído da maneira errada. Não estava vendo muita saída e resolvi sentar e esperar, mas escrevendo, certo? E esse livro foi meu labirinto por um bom tempo. Foi melhor me perder dentro dele, fazer o sangue jorrar ali, xingar ali dentro, morrer dentro dele. É a coisa mais violenta que escrevi até o momento. Provocou alguns pesadelos, mas só parei quando os demônios estavam caídos e eu esgotada. A guerra havia terminado. E eu havia sobrevivido ao livro. Mas percebi que ele havia engolido boa parte de mim. É um livro de conteúdo enorme. Que te massacra, uma pauleira do início ao fim. Gosto muito do resultado. É lindo, ainda que bem violento. Mas se você olhar bem no fundo dos parágrafos, pode perceber que ele jorra um sentimento quase genuíno. É praticamente uma obra melancólica, trágica, sufocada por sangue e golpes. Mas só se olhar bem no fundo. Este livro é quase dez mil palavras menor que o meu primeiro, mas parece ser bem maior. Estrutura narrativa é isso. O livro é menor, mas seu conteúdo em todos os vinte capítulos é bastante intenso. Engana os sentidos. Aprendi muito com ele. São muitos personagens, uns quarenta talvez. Pelo menos uns quinze sobressaem mais. Não existe um protagonista desta vez, estão todos amarrados por uma teia de acontecimentos fatídicos ou quase isso. E uns desses acontecimentos citados ocorreram. É triste saber... mas a violência na vida real é a pior. Agora vem a parte chata... essa é de matar. Procurar por editoras. Mas tô aí... tentando. E a segunda parte da guerra só tá começando.
ELA & O TEXTO DELA
[ Leia trecho do romance inédito "A Guerra dos Bastardos", de Ana Paula Maia ]
"Debruçado sobre o balcão, está o subgerente da Kumbuca videolocadora e irmão de criação de Edgar Wilson, isso mesmo, sou eu, Dimitri..... Dimitri Callaros, esse é meu nome completo. Pelo menos aqui dentro o calor não chega por causa do poderoso ar-condicionado central que recebe a todos que atravessam a porta com um sopro resfriado. Enquanto assisto às cenas finais do último filme de Bruce Lee, passando a metros de distância na televisão que fica no topo da parede, eu concluo uma ligação: Tá certo, senhora. Vou reservar os dois pra essa tarde. Bato com o fone no gancho de maneira bastante entediada e logo um cliente suspende dois DVDs, ansioso por uma resposta. Um tipo que já te olha de maneira prepotente. Um velho arrogante que afasta os DVDs o máximo que pode, espremendo os olhos na tentativa de ler a sinopse. É deprimente uma coisa dessas. E não demora, inicia as perguntas em série, digo as piores perguntas a serem respondidas. Gostaria de trabalhar numa farmácia, logo enterraria metade da população. Então? O que você acha desses?, pergunta o velho. Gostaria de responder que cianureto faz bem para o fígado e vender-lhe duas caixas disso, mas ainda estamos numa videolocadora. Eu não devo me meter no gosto dos clientes, digo. Como assim? Você está aqui para orientar as pessoas, diz o velho.
Certo, sei que sou cínico durante várias horas do dia e que a palavra cinismo tem origem do grego Kuvikos, que quer dizer canino. Sou filho de grego, filho bastardo, mas ainda assim filho. Sei lá quantos anos antes de Cristo havia um certo Diógenes que levava uma vida realmente miserável, como um cão. Dizem que vivia num tonel para demonstrar seu desprezo pelos outros e masturbava-se em praça pública. Ótimo sujeito esse Diógenes, não me admira sermos conterrâneos; enfim, daí temos o cinismo. E essa lengalenga digressiva toda é só para salientar que apesar do vovô aí achar que me pareço com um tipo de cão para orientar cegos, ele acabou de se enganar.
Estou aqui pra receber por essas locações e não pra escolher qual filme o cliente deve assistir, digo, Sou contra essa política opressora do que se deve ou não assistir. Na dúvida, leve os dois. Assim o senhor poderá fazer um balanço e tirar suas próprias conclusões. E ele fica parado, o velho com o ridículo chapeuzinho de palha ouvindo a tudo boquiaberto. São só filmes, santo Deus. Apenas filmes, ele diz, Basta dizer qual dos dois teve uma melhor saída.
Sim, admito, são dias de cão e logo eu encontraria meu próprio tonel fétido e miserável. É disso que estou falando, digo, O senhor escolheu sua mulher porque antes ela teve uma melhor saída? Perdão? - ele franze o cenho e estica o pescoço para frente tentando entender melhor.
O maldito chapeuzinho de palha, bastante ridículo, arrefece minhas opiniões. Uma súbita vontade de arrancá-lo me sobe pelas entranhas. O senhor escolheu sua mulher porque antes ela teve uma melhor saída? Isso são obras de arte, santo Deus.
***
De acordo com minhas previsões, cerca de dois anos atrás, neste exato momento eu estaria fazendo filmes com capital do governo e empresas privadas, porém, continuo parado na mesma posição, intoxicando-me de frustrações consecutivas, tédio invariável e uma paixão crescente em fazer cinema.
Se críticos de cinema são cineastas frustrados, então trabalhar numa videolocadora seria o caso de estar abaixo de todos os críticos frustrados e diretores fracassados, e esse raciocínio silogístico me faz lançar ácidos venenos, obtendo algum prazer em meu dia ao responder e elucidar questionamentos como os que acabo de fazer.
O cliente, indignado, derruba algumas fitas de vídeo no chão, lança-me à face meia dúzia de impropérios e retira-se da locadora. Dou de ombros e recolho os filmes sem me importar, coloco outro filme para assistir, volto para trás do balcão, aperto o play no controle remoto e aumento o volume da televisão de onde gemidos agudos de prazer ecoam pelo ambiente.
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