Publicado originalmente em 15/09/2008.
O escritor norte-americano, mais conhecido pelo romance
Infinite Jest (1996), enforcou-se aos 46 anos em sua casa na Califórnia, na sexta-feira, dia 12 de setembro.
[Publicado originalmente por Daniel Galera, autor de Dentes guardados, Até o dia em que o cão morreu e Mãos de Cavalo, no site http://ranchocarne.org ]
David Foster Wallace cometeu suicídio ontem, dia 12 de setembro de 2008, aos 46 anos. Recebi essa notícia como se soubesse da morte de um amigo próximo. Em 2005, publiquei no meu finado blog um post inspirado pela leitura do extraordinário conto "Good Old Neon", da coletânea Oblivion
- um dos vários textos dele em que o suicídio e o solipsismo surgem como temas importantes, monstros que só podem ser combatidos na batalha absurda que visa romper a prisão do indivíduo e estabelecer conexões profundas, verdadeiras, com os outros seres humanos. Eu o republico aqui temporariamente, como insignificante mas sincera retribuição ao que obtive de sua literatura. A bandana nunca se apagará.
O OUVIDO NA FECHADURA
Este é mais um paradoxo, que a maioria das impressões e pensamentos mais importantes na vida de uma pessoa são os que passam pela cabeça tão rápido que rápido não chega nem a ser a palavra exata, eles parecem ser tão diferentes ou alheios ao tempo normal e seqüencial do relógio que rege nossas vidas e possuem tão pouco em comum com o inglês meio linear, de uma- palavra- depois- da- outra, com o qual todos nos comunicamos que poderia levar uma vida inteira, fácil, só para expôr em detalhes um segundo do conteúdo de um clarão de pensamentos e conexões etc. - e apesar disso parece que continuamos tentando usar o inglês por aí (ou seja qual for a língua nativa usada em seu país, não precisa nem dizer) para tentar transmitir aos outros o que estamos pensando e descobrir o que eles estão pensando, quando bem no fundo todo mundo sabe que é uma piada e que faz tudo parte de uma encenação. [David Foster Wallace, "Good Old Neon"]
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O trechinho acima faz parte de um dos melhores contos do David Foster Wallace que li até hoje, Good Old Neon, publicado em Oblivion. Claro que o trecho não dá conta da complexidade do conto, com seus três níveis narrativos diferentes e todos os requintes típicos do DFW, que poderiam ser taxados de exibicionismo se ele não fosse de fato um escritor brilhante que pode se dar ao luxo de fazer o que quiser. Uma das camadas do conto lida justamente com a desproporção entre o universo interior de cada indivíduo e os meios limitados que possuímos pra expressar o que se passa nesse universo, não somente pros outros mas também pra nós mesmos. A reflexão é conduzida por um personagem que se suicidou depois de perceber que estava condenado a ser uma fraude, pois não suporta a constatação de que todos seus atos desde os quatro anos de idade tiveram o objetivo de moldar uma imagem de felicidade e sucesso diante do olhar dos outros. As páginas finais são arrepiantes, inclusive porque o autor liga o limite da capacidade de comunicação do universo interior de qualquer ser humano com a incapacidade de expressão de um artista, como por exemplo um escritor, como por exemplo ele mesmo, e tudo se fecha com um clique perfeito, o clique de um conto magistral.
Quem já tentou escrever ou filmar ou desenhar ou compor alguma coisa certamente passou pela experiência de elaborar uma idéia imensa, complexa, perfeita em sua forma e suas interconexões, uma condensação abstrata de inúmeras opiniões e sentimentos, só pra sentir a quase total incapacidade de transformar aquela idéia abstrata em palavras, imagens, sons quando chega a hora de botar a mão na massa. Quando se sobrevive ao processo, mesmo o resultado bom é somente a ponta do iceberg da idéia original, e no máximo se pode ter a expectativa de que a obra resultante tenha a capacidade de apertar os botões certos nos leitores/ ouvintes/ espectadores para que, com alguma sorte, reflitam em seu inconsciente uma parte daquilo que nos moveu a buscar um meio de expressão pra começo de conversa. É como se todos vivêssemos dentro de quartos fechados (e essa analogia é emprestada do conto do DFW, já vou avisando), ligados a todos os demais quartos somente por buracos de fechadura. É muito pouco para transmitirmos o que se passa dentro de nosso quarto. Tentamos encontrar truques para descrever nossa estante de livros, o papel de parede que escolhemos, o modo como a lua cheia ilumina a cama em determinadas noites. Tocamos nosso som favorito no volume máximo, torcendo pra que alguém do outro lado da porta escute e goste também. Mas é sempre tão pouco. Então o negócio é aproveitar o buraquinho da fechadura da melhor maneira possível. Escrever é como sussurrar uma história pelo buraco. Um filme é como mostrar uma seqüência de imagens pelo buraco, e por aí vai. (Ok, agora estou desenvolvendo a analogia ao meu gosto, como já devem ter percebido). E raramente, muito raramente, bem na hora que a gente bota o olho no buraco, tem alguém espiando exatamente ali no mesmo instante. É claro que o quarto é ilusório. No fundo não existem paredes. Mas saber disso não ajuda muito, não é mesmo?
Arrisco dizer que escrever é a forma mais mentalmente extenuante de tentar transmitir nosso fluxo interior de pensamentos e impressões. As palavras são pecinhas muito pequenas, com regras de encaixe manhosas, chatinhas. Tentar transformar um clarão intuitivo em uma seqüência linear de palavras pode ser bem complicado. Mas é possível, e bons livros estão cheios de momentos "pára tudo", porque um conjunto de páginas triunfante consegue transmitir algo da mesma forma que três segundos de alguns filmes ou algumas músicas. O poder ocasional de um olhar de um ator em um filme ou de um refrão de uma música às vezes me deixa em uma espécie de estado de graça, e buscar esse efeito em parágrafos e páginas às vezes me parece uma tarefa tão imensa que quase acredito, por um instante, que escrever é coisa de louco (não é).
É nesse sentido que o estilo prolixo e ultradescritivo e a atordoante variação lexical do DFW resultam em uma experiência de leitura única. Ele tenta transformar o mais pessoal monólogo interior e seus mecanismos subconscientes em frases, sem perder nada, sem elipses, sem atalhos. Transforma a epifania momentânea de um personagem em duas horas de leitura pausada. É como se ele quisesse que de fato tudo estivesse ali em palavras. É como montar um porta-aviões em tamanho real com pecinhas de Lego. E o que ele freqüentemente demonstra com isso é que a compreensão minuciosa do funcionamento de nossa mente, de nossas neuroses e de boa parte da filosofia séria que já foi transformada em senso comum em nossa época não muda muito nossa condição. A porta do quarto segue trancada.
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