Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 23/11/2005.
Chega de teoria. Veja aqui os resultados concretos de programas de inclusão digital, questionamento da propriedade intelectual e o impacto das novas tecnologias na produção cultural em vários pontos do país.
Uma cidade do interior integrada com internet de banda larga. Um país com o seu comércio exterior, eleições, Imposto de Renda e sistema financeiro informatizados. Pontos de Cultura em mais de 250 localidades, instigando os jovens a produzirem conhecimento e informação, com softwares livres e interligados entre si. Um músico que disponibiliza suas músicas de graça na rede e, com isso conquista uma carreira internacional, impensável há alguns anos. Por fim, o laptop com custo de US$ 100, disponível às crianças do ensino público.
Com exceção do último tópico, que acaba de ser lançado, todos os outros já aconteceram ou estão acontecendo no Brasil. Naturalmente que são retratos ampliados de algumas experiências que vêm dando certo nas mais diferentes localidades do país, mas seu sucesso demonstra que, se não há soluções simplórias e generalistas para tudo, há casos que merecem ser divulgados tal a inventividade e a capacidade de enfrentar os cenários mais adversos. Se não é fácil, também não é impossível.
Evento realizado no início de novembro no Rio de Janeiro, o
Tangolomango reuniu algumas destas experiências no Seminário Software Livre – Novos Rumos para a Cultura e Comunicação, que tratou também da inclusão digital, propriedade intelectual e impacto das novas tecnologias na produção cultural. O Tangolomango também apresentou oficinas e exposições, e exibiu o documentário Revolution OS, de J. TS Moore, que fala da origem do movimento do software livre e de seus fundadores, Richard Stallman e Linus Torvalds.
Origens do software livre
Até 1970, não havia distinção entre o software e o hardware, ambos vinham juntos e os softwares eram livres, só não levavam este nome, embora seus códigos fossem abertos. Com o boom no final da década da produção de programas, eles começaram a ser comercializados em separado e deixaram de ser específicos para cada plataforma. Neste momento surgiram empresas especializadas em desenhar softwares. A idéia de software livre só iria ressurgir em 1983, com Richard Stallman e o Manifesto Gnu, com a intenção de criar um novo sistema operacional utilizando programas livres e com o código-fonte aberto. O termo "livre" neste caso quer dizer liberdade para executar, estudar, adaptar, redistribuir e aperfeiçoar. Segundo Marcelo Sávio, engenheiro de software IBM Brasil, pode-se fazer uma analogia definindo o software proprietário como uma catedral, e o software livre, um bazar. "No primeiro, temos um time estruturado, hierarquizado, com tarefas e prazos definidos, focados na construção. Já no software livre, o que há é uma rede social, em comunidade, onde importa muito mais a meritocracia, as tarefas e prazos são mais informais, e o foco é na evolução."
É um projeto que nasceu utópico, mas vem atraindo empresas, como a IBM. "Criou-se o ecossistema apropriado para sua difusão", afirma Sávio, lembrando ainda dos desafios a serem enfrentados. "O que ainda precisa ser superado é a redundância de esforços. É preciso também diminuir a esmagadora maioria do desenvolvimento de programas em inglês, a dependência de pessoas chaves, que uma vez que deixam um projeto este esmorece, e a escassez de lideranças", completa.
Se em agosto de 2005 havia 75 mil projetos de softwares livres em desenvolvimento ao redor do planeta, hoje este número já ultrapassou 100 mil. Projetos maduros, porém, não passam de 1,64% do total, enquanto os que ainda estão em desenvolvimento atingem 21,60% do total. Outro dado relevante é que apenas 30% dos programas com o código-fonte aberto são desenvolvidos para venda direta ao mercado, o resto é desenvolvido para atender demandas específicas das empresas que adotam os programas com o código-fonte aberto. Um dado apresentado por Sávio demonstra o avanço de padrões abertos e não-proprietários. As vendas de novos computadores com o software livre Linux embutido representam sete vezes do total vendido ao mercado, e três vezes do número de computadores vendidos com Windows. "A IBM adotou o software livre em 1998 e, atualmente, no Brasil, está envolvida em mais de 150 projetos com 700 funcionários, como o
Open Power Project, que disponibiliza servidores para universidades, onde é possível desenvolver e testar softwares livres para Linux", exemplifica Sávio.
Para Mario Teza, membro fundador do Projeto Software Livre Brasil e recentemente eleito para ocupar um cargo de representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Internet, agora é o momento para desenvolver esta tecnologia dentro do país. "Com o software livre, temos uma enorme oportunidade para os países se apropriarem do desenvolvimento desta tecnologia. O Brasil já tem a maior comunidade que desenvolve a linguagem Java. Fomos um dos primeiros países do mundo a informatizar todo o seu comércio exterior, informatizamos as eleições, o Imposto de Renda, o sistema financeiro. Neste último caso, as matrizes vêm aprender com as filiais dos bancos instalados no país. O que precisamos é de um observatório que reúna as estatísticas sobre software livre, aqui e lá fora."
Projeto Piraí Digital
Interligar todo um município digitalmente através de conexões sem fio (wireless). O sonho que o Google pretende realizar em uma metrópole do porte de San Francisco já é realidade em um pequeno município com pouco mais de 23 mil habitantes a 80 km do Rio de Janeiro. Naturalmente que a cidade norte-americana, com 776.733 habitantes segundo o censo de 2000 (33 vezes maior que a cidade fluminense), exige uma infra-estrutura muito maior, e levar ao cabo um projeto destes em uma cidade do interior que fica na subida da serra, com uma topografia altamente irregular e desfavorável, também não foi algo simples, mas demonstra que não é impossível. O projeto
Piraí Digital tem impulso quando, na metade dos anos 90, com a privatização da Light, empresa de energia do estado do Rio, cerca de 1.200 pessoas foram demitidas. Ao buscar uma solução, a prefeitura viu na integração digital uma oportunidade de gerar empregos. Inicialmente, o problema foi a dificuldade de conectividade devido à falta de estrutura das redes de telecomunicações na região. A solução foi integrar a área em uma rede híbrida com tecnologia via rádio e fibra ótica. Atualmente, 400 computadores estão disponíveis em quiosques nas praças da cidade, além da rodoviária, das 23 escolas, postos de saúde, fazendas e fábricas, todos utilizando softwares livres. "Toda rede de infra-estrutura saiu por R$ 300 mil, valor muito abaixo que gastávamos anteriormente só para pagar a licença dos programas proprietários", explica o ex-prefeito Luiz Fernando de Souza. Com a meta do governo para levar a banda larga ao interior do país entre 2012 e 2014, o projeto Piraí Digital pode ser considerado um sucesso. Obteve a chancela da Unesco e ganhou o I Prêmio Latino-americano de Cidades Digitais, junto com Bogotá, Florianópolis, São Paulo e Jundiaí, na categoria de cidades até 100 mil habitantes. Em junho último, recebeu, em Nova York, o prêmio Top Seven Intelligent Communities, ficando entre as sete cidades mais inteligentes do mundo em 2005. E no ano passado, a cidade integrou a
reportagem de capa do semanário norte-americano
Newsweek sobre experiências wireless no planeta, ao lado de Londres, Seul, Nova York, Las Vegas, Bagdá, Vaticano, Tallin (Estônia), Tóquio e Auckland (Nova Zelândia).
Muriqui Linux
O Laboratório de Inclusão Digital (LID) de Caratinga, Minas Gerais, surgiu de uma parceria entre o Instituto Doctum, a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais e a prefeitura do município, em maio de 2002. O laboratório atende as crianças da rede pública de ensino e a comunidade em geral, com cursos e oficinas utilizando software livre, e serviu de modelo para a implementação do
Cidadão.NET, projeto de inclusão digital no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais e região mais pobre do estado. Mais de 100 cidades da região ganharam Telecentros Comunitários, onde são capacitados monitores que passam a atender a população e ministrar cursos e oficinas, buscando atender às necessidades da localidade.
Em outro projeto, a Doctumtec, parceria entre o Instituto Doctum e o curso de Ciência da Computação das Faculdades Integradas de Caratinga, desenvolveu o
Muriqui Linux, uma versão simplificada para o usuário leigo, que teve até o momento mais de 11 mil downloads do sistema operacional que homenageia no nome uma espécie de macaco que habita a região.
MetaReciclagem e midiatatica.org
Realizado em 2003, na Avenida Paulista, a primeira edição do Mídia Tática, em parceria com o Next 5 Minutes (festival que envolve mídia, arte e política), reuniu 5.000 pessoas, incentivando a produção de conteúdo de mídia autônomo através de softwares livres. A segunda edição aconteceu na zona oeste de São Paulo, nas localidades de São Miguel, Itaquera, Hermelino Matarazzo, com duração de seis meses e o festival teve aulas de metareciclagem, produção de rádio livre, oficinas gráficas, de DJs, vídeos. Envolveu em torno de 300 crianças e jovens, das quais entre 15 e 20 estão trabalhando na área.
Mas o que seria a
MetaReciclagem? Mais do que simplesmente um curso para remontar computadores, o conceito envolve uma metodologia para a inclusão tecnológica. Com a doação de computadores que empresas ou pessoas consideram sem utilidade, os metarecicleiros destroem as máquinas com o intuito de ensinar como ela é por dentro, ao mesmo tempo em que desmistifica o que, na verdade, é apenas mais um eletrodoméstico. "Computador é igual Lego, igual Fusca. Qualquer um pode fazer funcionar e essa vivência faz a pessoa perder o medo", explica Ricardo Ruiz, que participa do MetaReciclagem, do
midiatatica.info e ajudou a criar os Pontos de Cultura. Esse é o primeiro passo nessa mediação com a máquina, que vem seguida da produção de conteúdo, estimulada e desenvolvida em softwares livres. A partir daí, se vê que pode ser complicado, mas não impossível. Todo material é produzido em
Creative Commons, ou seja, recebe uma licença em que preserva alguns direitos, mas também permite distribuir a obra para que ela seja retrabalhada, inclusive com o intuito de comercialização, sob a mesma licença. Os limites são estabelecidos pelo criador.
Para Ruiz, o termo "inclusão digital" não seria o mais correto. "É muito mais difusão digital. E não basta criar o telecentro e deixar o povo lá. No passado, vimos que assim só se utilizam as novas ferramentas para reproduzir o monopólio já estabelecido. A pessoa usa a internet para entrar no site da Globo.com. É preciso estimulá-los a produzirem informação e cultura através de programas de rádio, TV, clipes, textos. Acabou-se o tempo dos consumidores passivos", afirma. A primeira leva de oficinas regionais ocorreu em vários cantos do país, como Sergipe, Bahia, Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais, Amazonas, Amapá, Mato Grosso do Sul, Acre e Brasília.
Tem a ver com os Pontos de Cultura, que vêm sendo instalados em todo o país, e vão formar laboratórios autônomos de produção cultural em grande escala. Em março de 2004, 254 entidades foram escolhidas para se tornar os primeiros Pontos de Cultura. Vão receber uma verba de R$ 150 mil por um ano e meio mais um kit multimídia formados por software livre no valor de R$ 20 mil. Atualmente, mais 350 Pontos de Cultura estão sendo instalados em comunidades de baixa renda, além de comunidades quilombolas e indígenas. O próximo passo é a conexão entre os Pontos de Cultura, para então cortar o elo com o governo e os idealizadores do projeto, para que se evite a todo custo qualquer espécie de paternalismo e tutoria. "A idéia é estimulá-los a serem pró-ativos, mudar a atitude com baques emocionais, fazer a pessoa se sentir enganada esse tempo todo", para ver então que é possível produzir.
Durante a semana em que aconteceu o Tangolomango, rolou também o I Encontro de Conhecimentos Livres do Rio de Janeiro, na antiga estação de trem da Leopoldina, onde funciona o Ponto de Cultura da Estação Barão de Mauá. O encontro teve oficinas (software livre, vídeo, áudio e produção gráfica, entre outras), debates, mostra de vídeos e montagem de telecentros "metareciclados".
Por fim, Ruiz falou sobre os projetos como o Brain Computer Interface, que estão desenvolvendo formas de o cérebro se comunicar diretamente com a máquina através de sensores instalados na cabeça e comandados pelas células nervosas. "Em março de 2005 conseguiram ligar uma pessoa ao computador. Era um software fechado. Há projetos que envolvem biotecnologia, também com softwares fechados. Daqui a 30 anos, seu filho vai estar com um computador instalado na cabeça através de um software proprietário, provavelmente conectado a um provedor de conteúdo pago. Mais do que nunca, agora é hora de produzirmos conteúdos locais, para a memória humana manter-se independente", finaliza.
Re:combo
Re:combo não tem somente uma definição fechada, mas poderia ser um coletivo de arte livre, ou uma sociedade secreta. Tudo começou com a troca de bases de arquivos digitais, de forma despretensiosa, entre pessoas que não se conheciam, mas queriam trabalhar juntas. Colaborativamente, estas pessoas produziam e trocavam som, imagem, textos, vídeos. Então surgiu a dúvida e começaram a se perguntar de quem seria a obra. E a autoria? E a remuneração? Aconteceu aquilo que Caio Mariano, advogado e integrante do combo, classificou de síndrome de Alexandre Pires. E se o famoso pagodeiro se utilizasse das bases do grupo para fazer mais um dos seus sucessos?
O coletivo encara a criação não como propriedade, que induz ao monopólio e um sem-número de regras, mas algo passível de ser utilizado, modificado e redistribuído. O termo mais adequado seria então generosidade intelectual, até porque nada é produzido intelectualmente de forma sozinha e isolada. E para escapar da síndrome, foi feita uma Licença de Uso Completo Re:combo (Lucr). A licença permite o uso, cópia, distribuição, execução, modificação e comercialização de um trabalho, incluído aí obras artísticas, literárias ou científicas, audiovisuais, fonogramas, softwares de código-fonte aberto ou não, programações, bases de dados ou qualquer trabalho derivado baseado em um trabalho originário. A justificativa é que, como consta no preâmbulo da licença, "as legislações atuais e os princípios que regem a propriedade intelectual hoje em dia praticamente proíbem a criação livre através da recombinação de obras de terceiros sem que passem por trâmites burocráticos de diversas variáveis" e a licença vem para facilitar, agilizar e proteger a recombinação. A licença teve uma repercussão interessante, inclusive com uma homenagem feita pelo Creative Commons, que nomeou sua licença de samples e recombinação com o nome do coletivo.
Muitos poderiam se perguntar: mas, afinal, como se ganha dinheiro, já que toda a produção é disponibilizada livremente? "Tem gente que vive do trabalho no Re:combo, outros não. Participamos de muitas feiras de arte digital, por exemplo, que rende um dinheiro", explica Caio Mariano. No preâmbulo da licença, falam sobre o tema: "O Re:combo não é contra a remuneração dos criadores intelectuais como forma de contraprestação ao seu esforço interior no processo de desenvolvimento criativo. Por outro lado, acredita que os institutos extremamente restritivos e mantedores de uma proteção excessiva e exclusivista quanto ao uso de obras intelectuais pelo autor ou por outros titulares de direitos sobre determinada obra (notadamente em grande parte cedidos em sua totalidade para as megacorporações da indústria do entretenimento e com prazos indeterminados de uso) não mais condizem com a nova ética e com o comportamento decorrente dos avanços tecnológicos, da revolução digital e muito menos com as possibilidades surgidas desde então". Para novos tempos de criação artística, novas formas para manter alguns direitos, mas permitindo a ampla e irrestrita difusão, caso a pessoa que desenvolveu a obra assim deseje.
O Re:combo ainda não estreou em uma mídia física, mas Mariano falou que devem sair duas compilações em breve. "Uma gravadora nos procurou para lançar um disco. É simples, as músicas estão lá no site, é só baixá-las e lançar. Não precisa de contrato, nada, todas estão sob a licença Lucr", que não deixa de fazer um trocadilho com lucro. As restrições ficam por conta da utilização de conteúdos preconceituosos envolvendo gênero, raça, credo, orientação sexual, classe social, etnias, línguas e espécie ou pedofilia. Além disso, trabalhos relacionados à política, agremiações e times de futebol ou com fins de publicidade ou vantagem comercial precisam ser consultados. Este conceito de generosidade intelectual é o mesmo que vem sendo utilizado pelos Pontos de Cultura, criados pelo Ministério da Cultura em todo o país.
[Update:
O Re:combo morreu]
A crise no direito autoral
Criado para proteger, remunerar e incentivar o autor, o direito autoral entra no século 21 em crise. O privilégio de uso e monopólio de qualquer criação artística é regido hoje no Brasil pela Lei n. 9610/98, que como toda lei, tem uma concepção própria de um momento histórico. No caso dos direitos autorais, diz respeito a um momento histórico que estamos nos destacando, tal é a velocidade dos avanços tecnológicos que diminuíram a dificuldade e o valor final da produção artística em geral. Sem falar na facilidade com quem é possível trocar essa produção, distribuí-la e recombiná-la. A exclusão do acesso a terceiros, que a legislação sobre direito autoral permite de maneira totalmente esdrúxula, pode ser considerado o ponto que gera as maiores controvérsias. O artigo 46 da citada lei prevê que é possível tirar uma cópia de livro, por exemplo, somente do original, sem finalidade de lucro, para uso privado do copista, desde que ele próprio faça a cópia. Ou seja, praticamente impossível de ser cumprido à risca. Essa dificuldade de acesso à obra pode ser uma das responsáveis pela pirataria, que vem inundando o mundo na mesma proporção em que vai ficando cada vez mais simples e barato copiar um CD, por exemplo.
Contra isso, as grandes corporações da indústria do entretenimento têm investido em mais repressão, em leis mais restritivas e que prevêem penas mais graves. No Brasil, a lei prevê uma prorrogação excessiva dos prazos de proteção, de 70 anos após a morte do autor da obra. Nos Estados Unidos a legislação, por incrível que possa parecer, era menos rígida que a nossa, onde o copyright está garantido por lei e não precisa ser anunciado. Assim é atualmente nos EUA, mas até os anos 90 era obrigatória a presença do ã seguido da frase "Todos os direitos reservados". Obras sem o símbolo do copyright e a frase eram consideradas livres de direito. Ao longo do século XX, estes direitos foram prorrogados 11 vezes, o que notadamente pode ser visto como uma pressão da assim chamada indústria cultural e o forte lobby que tem feito junto aos congressistas norte-americanos.
A última prorrogação ocorreu em 1998, às vésperas do primeiro desenho animado de Mickey Mouse, criado por Walt Disney, entrar em domínio público. Exibido pela primeira vez em 1928, no desenho animado Steamboat Willie, uma paródia de Steamboat Bill, Jr., filme do comediante Buster Keaton, que também era uma referência a canção "Steamboat Bill", Mickey poderia ser utilizado por quem quisesse a partir de 1998, quando os seus direitos foram protegidos por mais 20 anos, até 2018. Se não bastasse, a prorrogação atinge todas as obras criadas no mesmo período, como as canções de Gershwin e Cole Porter, e parte da obra de Ernest Hemingway, por exemplo. Fora os riscos que enfrentamos de ver alguns direitos sendo prorrogados ad infinitum, como desejava Sonny Bono, ele mesmo, o parceiro de Cher nos anos 60 que sugeriu que os direitos fossem eternos e, por isso, nomeou a lei que deu uma sobrevida ao camundongo da Disney. A mesma Disney que se utilizou da apropriação criativa, sem pagar copyrigths, quando adaptou os contos de fadas escritos pelos Irmãos Grimm (Branca de Neve, Cinderela...).
Esta história está contada no livro de Lawrence Lessig,
Cultura livre – Como a mídia usa a tecnologia e a lei para barra a criação cultural e controlar a criatividade, que ganha uma versão impressa em português, em parceira entre o projeto Trama Universitário (bancada pela Vivo, Natura e Philips) e a Editora Francis. Lessig é um dos idealizadores do Creative Commons, licença cuja obra está licenciada, podendo ser distribuída livremente, desde que não tenha finalidade comercial. A primeira tiragem foi distribuída no II Encontro de Mídias Universitárias, realizado em São Paulo no mês de setembro, e a segunda vai ser destinada às bibliotecas de universidades de todo o país. Já circula pela Internet uma versão traduzida por Fábio Emilio Costa (que pode ser encontrada
aqui e
aqui), e o
Trama Universitário deve disponibilizar a sua até o final do ano em seu site. O termo pode gerar alguma confusão, mas, como explica Lessig no prefácio da obra, "uma cultura livre não é uma cultura sem propriedade, da mesma forma que um mercado livre não é um mercado aonde tudo é liberado. O oposto de uma cultura livre é uma 'cultura da permissão' — uma cultura na qual os criadores podem criar apenas com a permissão dos poderosos ou dos criadores do passado". Como define a licença do Creative Commons, se fala em "alguns direitos reservados", não "todos os direitos reservados", o que só vem servindo à indústria cultural para proteger seus interesses e um momento onde a cada dia mais e mais da produção artística e cultural do planeta vem se tornando disponível na rede, seja através de programas de trocas de arquivo (peer to peer) ou de projetos colaborativos, como a
Wikipedia. Ao invés de se render a uma realidade cada vez mais gritante, e tentar conviver com ela, as corporações do big business tentam a todo custo fazer da Internet mais um tentáculo do capitalismo vigente. Processaram o Napster, primeiro programa a alcançar relativo sucesso na troca de arquivos, criado por um jovem de 18 anos que depois o vendeu para estas mesmas empresas. Atualmente, processam universitários que trocam arquivos on-line, com o intuito de amedrontar e desestimular os demais jovens que vêm se utilizando da prática.
Bnegão
Entre os casos bem sucedidos de quem disponibilizou sua obra na rede de graça e está colhendo bons frutos, está o rapper
Bnegão, ex-integrante do Planet Hemp. Com os Seletores de Freqüência, Bernardo lançou o álbum Enxugando gelo, em novembro de 2003, encartado no primeiro número da
Outracoisa, revista editada por Lobão. Nessa mesma época o músico tinha ouvido falar em copyleft, conceito fundamental que daria origem ao Creative Commons. Em dezembro daquele ano ele disponibilizou o disco na íntegra no site do
Centro de Mídia Independente (CMI).
Desde então, o disco está entre os mais vendidos na distribuidora independente Tratore. "Tivemos a opção de lançar por uma gravadora grande, mas já conhecia experiência com o Planet Hemp e as amarras são fortes. Optamos por ser totalmente independente", diz Bnegão. Entre abril e maio de 2004, Bnegão e os Seletores foram a Portugal e Espanha, convidados para tocar em um festival em Barcelona. Os 2.000 ingressos esgotaram-se, a casa estava lotada. E você deve imaginar que o disco estava lançado lá fora, com campanha de marketing, mas não, Bernardo chegou até lá de graça, no boca-a-boca, ou melhor, numa espécie de boca-a-boca on-line. Claro que casos como estes são exceções, mas demonstram que quanto mais você dá acesso à sua obra, mas pode obter de retorno, sobretudo a produção independente que disputa de forma desequilibrada o espaço com a produção que vem recheada de investimentos em "marketing", eufemismo para o famigerado jabá, praticado desde os anos 60 no país, conforme revelação feita por André Midani a
Folha de S. Paulo, em 21 de maio de 2003.
O fato é que Bnegão e os Seletores de Freqüência voltaram à Europa em outubro daquele ano e além de repetir os shows em Portugal e Espanha, tocaram na Alemanha e Inglaterra. Este ano, estiveram no Roskilde, famoso festival na Dinamarca, além de shows pela França e Inglaterra. Se não tivesse disponibilizado seu trabalho, seria impossível imaginá-los em turnê pela Europa. E o exemplo demonstra o quanto é enviesado o discurso das gravadoras. "As corporações realizaram uma pesquisa, que seria utilizada para comprovar a queda das vendas, mas o que ela demonstrou foi que os discos mais baixados na Internet são exatamente os mais vendidos. Acabaram nem divulgando a pesquisa, mais ou menos como a Monsanto faz quando uma pesquisa financiada por ela não atinge os resultados esperados", dispara Bernardo. "Engraçado que criminoso é quem compra o disco pirata, não quem vende um disco a R$ 30. Outra coisa interessante de se perceber é como a cultura do copyright ainda está incutida na cabeça das pessoas. Já aconteceu de nos perguntarem, em shows pelo Nordeste, onde podem comprar o disco, eu falei 'Baixa de graça, tem no site do CMI', mas nego falou 'Não, não pode, tem que comprar'. Ouvi várias vezes esse papo."
Mesmo que ainda demore alguns anos, o fato que as mudanças proporcionadas pela internet na facilidade para se distribuir qualquer obra digital vieram para ficar. "A internet equilibra o jogo um pouco pro lado dos independentes, que estão fora do esquema do jabá que domina nas rádios. Tirando o programa do Mauricio Valadares, o
Ronca ronca, que vai ao ar segunda-feira a meia-noite em uma rádio comercial [Rádio Cidade], não ouço rádio porque simplesmente não tocam o que tá rolando. A
Nação Zumbi, pra mim a melhor banda do Brasil, não toca na rádio." O motivo ele mesmo explica, fazendo aquele clássico gesto de esfregar o polegar no indicador: "Não tem qualidade", ironiza, dando a entender que o que falta mesmo é grana para o "marketing".
Laptop de U$ 100
Outra boa notícia é o desenvolvimento de um projeto que prevê levar às crianças dos seis maiores países em desenvolvimento, Brasil, Nigéria, Egito, China, Índia e Tailândia, o laptop de U$ 100. Apresentado recentemente na Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, realizada em meados de novembro, na Tunísia, o projeto "Um Laptop por Criança" vem sendo desenvolvido pelo Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). O computador portátil tem o tamanho de um livro e tela LCD de sete polegadas e baixa energia, inovação desenvolvida pela equipe de Nicholas Negroponte, responsável pelo projeto, e que deve garantir os baixos preços, associada a grande quantidade que se espera produzir do equipamento. Baseado no Linux, vai utilizar softwares livres e estimular às crianças a desenvolverem programas. Movido à manivela, pilha ou eletricidade, é equipado com processador de 500 MHz, utiliza uma memória flash de um giga para armazenamento e tem acesso sem fio (wireless) a internet, além de possuir microfone e caixas de som embutidos, o que deve permitir seu uso como telefone, utilizando-se da tecnologia de VoIP (sigla para Voz sobre IP, em inglês). A previsão para o início da produção em massa é o próximo ano, e o MIT estipulou pedido mínimo de um milhão de computadores e pagamento adiantado para que os computadores possam chegar aos estudantes do ensino público. Apesar do grande assédio da indústria ao projeto, o produto não será lançado comercialmente, ao menos por enquanto.
Em entrevista a revista
Wired, Negroponte afirma que está conversando com alguns fabricantes interessados em fazer uma versão comercial do laptop. "Não estamos tentando fazer algo comercial, mas se eles decidirem tentar, poderemos ter três benefícios. O primeiro é uma parceria técnica, o segundo, uma maior distribuição e o terceiro, dentro dos limites da jurisdição internacional, poderíamos ter um subsídio cruzado. Poderíamos ter máquinas comerciais a US$ 225. Se conseguíssemos que US$ 25 deste valor fosse para o "Um Laptop por Criança", o custo cairia para US$ 75. Mas há leis anti-dumping que tornam isto não tão simples como afirmei".
Na Tunísia, o ministro Gilberto Gil afirmou que o Brasil negocia com o MIT a aquisição dos aparelhos de US$ 100, porém, não precisou datas. Negroponte esteve no Brasil em julho para apresentar o projeto ao presidente Lula. Conforme relatado no site do
Ministério da Cultura, "Lula mostrou-se muito entusiasmado, mas os ministros envolvidos na negociação do projeto acabaram deixando o governo logo depois do encontro realizado em Brasília. 'Negociar com governos é muito difícil', comentou Negroponte. 'O alto escalão fica entusiasmado, mas os níveis abaixo são muito burocráticos'".
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Assista a estes dois vídeos em flash sobre o Creative Commons. O primeiro,
Seja Criativo, explica de forma didática como surgiu e funciona a licença. O segundo,
Reticulum Rex, avalia o movimento alguns anos depois de seu surgimento, comenta seus pioneiros, como o MIT, que disponibilizou todo seu material didático on-line gratuitamente para todo o mundo, e aponta os caminhos daqui pra frente. Confira.
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