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Cão sem dono (mas com bom roteiro)
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 26/8/2008 · 12 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Miguel do Rosário em 14/06/2007.

Autor de Até o dia em que o cão morreu, romance em que se baseia o novo filme de Beto Brant, Daniel Galera se diz um otimista em relação à disputa entre o audiovisual e os livros. Para o escritor, "Há muitos bons roteiros originais, mas não suprem toda a demanda do cinema por boas histórias."


Tem certas horas em que tudo que pedimos é uma presença silenciosa que alivie o sentimento de solidão. Sem rompê-lo totalmente, todavia, visto que, às vezes, não nos sentimos preparados para enfrentar a figura de julgador que uma outra pessoa sempre representa. Em A idade da razão, Sartre descreve o bar como o espaço ideal para estarmos sozinhos sem sentirmos solidão; a presença anônima e distraída de outros bebedores de um bar escuro nos põe em contato com os homens sem o incômodo de conversar com eles. Entretanto, nada como um cão vira-lata, afetuoso e independente, para fazer uma companhia sem cobranças. Na mesma linha, Vinicius de Moraes cunhou a frase em que chama o uísque de "cão engarrafado".

Em seu primeiro romance, Até o dia em que o cão morreu, relançado recentemente pela Companhia das Letras e agora transformado em longa-metragem pelos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, Daniel Galera narra a história de um jovem solitário que perambula pelas ruas de Porto Alegre. Existe uma certa amargura nesse personagem. È a conta cobrada pela solidão. Um homem sempre precisa de alguém a quem dedicar algum afeto, nem que seja um cão. Enfim, surge o triste vira-lata, pelo qual o jovem cultiva uma suave amizade. Com sua capacidade afetiva restaurada, o personagem conhece uma mulher, que passa então a ocupar espaço dominante na história.

O livro de Galera não passou despercebido. Muitos observaram que na linguagem sóbria e despretensiosa do autor gaúcho nascia uma voz original na literatura brasileira. Cativou, especialmente, o fato de Galera procurar uma narrativa simples, nadando contra a corrente pós-moderna, com sua estética fechada, seu experimentalismo e hermetismo, que absorveu grande parte dos esforços romanescos dos últimos anos.

A decisão de Beto Brant de basear seu novo filme no primeiro romance de Galera, portanto, não causou surpresa; mas constituiu um extraordinário reconhecimento para o jovem autor porto-alegrense. Todos sabemos do poder catalisador de vendas que o cinema representa para a literatura, que gira eternamente no círculo infernal de pouco marketing e vendas minúsculas. E quando falamos em aumento de vendas não pense apenas em quantidade, mas na conquista de um grande número de novos bons leitores, que saberão compreender o sentido da obra e repassar a dica para outros.

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Aproveitando o lançamento do novo longa-metragem de Brant e Ciasca, que mudaram o título para Cão sem dono, e que já começa a acumular alguns prêmios (foi o grande vencedor do Cine PE, com três prêmios, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz (Tainá Muller) e Prêmio da Crítica), vale a pena meditar sobre a relação entre filmes e livros. Um bom tema de pesquisa seria analisar como a invenção do cinema provocou deslocamentos na literatura. Teria sido um processo semelhante ao sofrido pela pintura, por ocasião do advento da fotografia?

Creio que não. A fotografia libertou a pintura da necessidade de espelhar a realidade, liberando forças abstratas por muito tempo reprimidas. Já o cinema parece ter orientado a literatura na direção inversa. O cinema magnetizou o real, tornou-o mais rico, mais fascinante. Saiu de moda uma forma cansativa de descrever cenários, como fazia Balzac, é verdade, mas o realismo – em oposição ao romantismo – consolidou-se na literatura, e hoje, perto da virada para segunda década do terceiro milênio, está mais forte que nunca. Existe a literatura de fantasia, cujo maior representante é Harry Potter, mas mesmo esta é caracterizada por descrições extramemente realistas dos ambientes fantásticos.

O cinema tornou o mundo acessível a todos, com suas diversas trilhas sonoras, personagens bizarros, países em guerra, paisagens sujas ou deslumbrantes. O que no século XVI era privilégio de alguns navegantes ibéricos, hoje está ao alcance de qualquer garoto de 12 anos: conhecer "os mares nunca dantes navegados". A literatura também havia mostrado o mundo, mas seu filtro é muito maior. Como se costuma dizer, a literatura fala da cobra que matou e descreve, com ricos detalhes, o pau que a matou. O cinema, por sua vez, mostra, ao vivo e a cores, a cobra e o pau ensangüentados.

A verdade é que os escritores não puderam nem quiseram fugir à influência do audiovisual, que afetou o próprio processo de criação literária. Em entrevista ao Portal Literal, o gaúcho Daniel Galera admite pensar em histórias como se fossem seqüências de cinema. Mas que vantagens o cinema trouxe para a literatura? A escritora e pesquisadora de literatura brasileira contemporânea Marcia Denser acredita numa espécie de "reprocessamento" da sétima arte pelos escritores:

"A respeito da influência do cinema sobre a literatura, Cortázar já disse em alguma parte que, ao contrário das demais artes que colocam objetos no mundo, como quadros, estátuas, catedrais, filmes, a literatura vai se apoderando das coisas - às quais chamamos 'temas' – e, de certa forma, as subtrai, rouba-as do mundo, e as etapas dessa posse delineiam-se através do nascimento dos gêneros. Então assim é que também a literatura se apropria, modernamente, das técnicas, e no caso, da narrativa cinematográfica, mas as 'reprocessa', num movimento de transcodificação, tornando-as fenômenos estéticos literários. Um exemplo: você conhece a técnica de Vargas Llosa de fazer avançar a história através dos diálogos que se deslocam no tempo e no espaço – fulano pergunta algo no presente e siclano responde no passado – com simples cortes entre eles? Essa técnica só pode ser realizada pelo cinema, não é 'naturalista ou realista', mas pura edição, não é?A literatura dela se apropriou e a transformou novamente em fenômeno literário. Quanto ao aprofundamento psicológico, acho que Proust já esgotou a análise – no aspecto formal-literário –, mas os fenômenos estéticos ou a grande poética da arte é eterna porque inacabada porque em eterna mutação, não é mesmo? Imperialismo universal da Literatura à parte, claro."

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Nesta entrevista, Daniel Galera trata de sua relação com o cinema e se diz um otimista em relação à disputa entre o audiovisual e a literatura. Para o escritor gaúcho, "Há muitos bons roteiros originais, mas eles não suprem toda a demanda do cinema por boas histórias."


O cinema influenciou muito a sua literatura? No momento de criar histórias você pensa também em filmes que viu, em personagens do cinema?

Daniel Galera.
Influenciou, sim. Quando estou pensando em histórias, é comum as cenas surgirem na minha imaginação como se fossem seqüências de cinema, e tentei explorar isso no Mãos de cavalo, em particular. Imaginei várias passagens do livro como se eu pretendesse dirigi-las para um filme. Ou seja, eu não busco filmes específicos como referência para escrever, mas a estética do cinema guia um pouco minha imaginação, ou pelo menos foi o que aconteceu com esse livro, em que o cinema de ação dos anos 80 é uma referência cultural dos personagens adolescentes e ao mesmo tempo uma referência visual para mim na elaboração das cenas.

Você acha que o predomínio do audiovisual na cultura moderna transformou o aparelho cognotivo das pessoas, fazendo-as lerem livros procurando paralelos no cinema e rejeitando elocubrações lingüísticas ou metafísicas, ou seja, procurando fórmulas simples de imagens e ação, o que explicaria o fosso cada vez mais profundo, entre a literatura dita comercial e a chamada alta literatura (essa distinção faz sentido para você)?

Galera.
Não creio que isso seja verdade. Quando se vê livros como Budapeste ou Neve ocuparem a lista dos mais vendidos por semanas, não podemos fazer uma generalização dessas. Acho que as artes audiovisuais deslocaram um pouco a literatura, ocuparam certos espaços em que antes ela reinava. Literatura, cinema e televisão são formas de expressão que se devoram mutuamente, mas não creio que esse processo esteja alargando o fosso entre a literatura comercial e a alta literatura, uma distinção que em si já é duvidosa. A Oprah acaba de eleger o romance The Road, de Cormac McCarthy, para o seu clube de livros, o que significa que meio milhão de pessoas ou mais lerão um romance extremamante denso, sofisticado e sombrio. Não sou um pessimista nesse sentido.

A história de amor entre cinema e literatura é antiga. Por quem os sinos dobram foi filmado meses depois de Hemingway lançar o livro; A Ciocioara, do Vittoria de Sica, também foi lançado imediatamente após o romance de Alberto Moravia (valendo um Oscar para Sophia Loren); quase todos os principais livros do Stephen King vão pra telona; você acha que todo bom romance deveria, um dia, ser transformado em filme?

Galera.
Não. Um romance não precisa de um filme. Acontece que muitos filmes precisam de um bom romance. O cinema tem essa demanda enorme por histórias elaboradas e envolventes, mas quando um escritor resolve ficar dois ou três anos se dedicando a escrever algo assim, dificilmente ele pensa em escrever um roteiro. Ele escreve um romance. Ou um livro de contos, ou sei lá o quê. Por isso as adaptações são numerosas, creio. Há muitos bons roteiros originais, mas eles não suprem toda a demanda do cinema por boas histórias.

Saindo um pouco da questão do cinema: li seus dois romances, Até o dia em que o cão morreu e Mãos de cavalo. Voce é um romancista que optou pela história, com uma linguagem enxuta, sóbria. No Brasil, tem algum escritor nessa linha que te influenciou? E nos EUA?

Galera.
Gosto de escritores dos mais variados estilos, e a opção por uma linguagem enxuta e sóbria (embora eu não ache que meu texto seja tão enxuto e sóbrio assim, com freqüência faço meus personagens pensarem demais, explico coisas que não precisam ser explicadas e libero um pouco de poesia reprimida em espasmos) não foi muito intencional. Foi um estilo que fui descobrindo ao escrever, o que me pareceu ser mais eficiente para mim. Cresci admirando os contos enxutos de Luiz Vilela e Sérgio Faraco, mas também os textos mais poéticos e caudalosos do João Gilberto Noll e da Hilda Hilst, por exemplo. Gosto muito da literatura americana – hoje em dia, Melville, Phillip Roth, Cormac McCarthy e David Foster Wallace são monstros literários que me atingem profundamente como leitor, o que naturalmente se estende um pouco para minhas ambições como escritor.


> Leia textos sobre o filme e conversa com o diretor Beto Brant e os atores Tainá Müller e Julio Andrade.


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