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Cão sem dono
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 26/8/2008 · 12 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 01/06/2007.

"Você já amou alguém?" Assim, ao ser interpelado sobre como seria possível transpor para o cinema o livro de Daniel Galera, Até o dia em que o cão morreu, Beto Brant respondeu, perguntando e desarmando alguns dos presentes após a primeira exibição do filme, que leva o título de 'Cão sem dono'.


A exibição aconteceu no Rio de Janeiro, para estudantes na Escola de Comunicação da UFRJ, na última segunda, 28 de maio, no campus da Praia Vermelha, na Urca. O filme tem estréia no Rio marcada para 15 de junho e, como o segundo livro e primeiro romance de Galera, fixa-se na construção da intimidade entre Ciro e Marcela, através dos gestos que vão sendo desarmados, dos movimentos que se pretendem não calculados ou programados.

Ciro, ali entre os 20 e tantos e os 30 anos, faz uns bicos de tradução, vive isolado com seu cão sem nome em um apartamento no centro antigo de Porto Alegre, deslocado no tempo e no espaço. Marcela, um pouco mais jovem, saiu do interior gaúcho e da vidinha mais ou menos programada, para tentar a sorte na metrópole, ser modelo, viajar o mundo. A história se desenrola a partir dessa relação. Formado basicamente por uma equipe gaúcha, com exceção dos diretores, Beto Brant e Renato Ciasca – também roteiristas, junto com Marçal Aquino –, e do fotógrafo, Toca Seabra, o filme rodado em Porto Alegre, assim como os três últimos do diretor, não teve um roteiro propriamente dito. Naturalmente que, adaptado de um livro, partiu-se de algumas concepções e idéias, sobretudo para a formação dos personagens. "O filme não estava claro quando chegamos lá. Abrimos muito para os atores. No livro, o cachorro é um grande contraponto, o que não acontece no filme. Não queria dirigir cachorro", disse Beto no papo informal.

A conexão com o livro segue até determinado ponto do longa, que então passa a ser reinventado, como no caso do personagem de Julio Andrade – que chegou a morar com o cão no apartamento onde foram as locações para se aproximar da solidão de Ciro –, quando deixa um pouco a frieza e o silêncio imperial do romance.

Diferentemente de seus primeiros filmes, Matadores, Ação entre amigos e O invasor – onde dão a tônica a violência no interior do país, a luta armada, e a opressão asfixiante que vêm tomando conta das metrópoles há algumas décadas –, Cão sem dono aproxima-se de seu filme anterior, Crime delicado, um diálogo com a novela de nome similar de Sérgio Sant'anna (Um crime delicado, Companhia das Letras), e um foco mais intimista, voltado para as relações pessoais e seus meandros. Nas palavras do diretor, "uma leitura subjetiva, uma imagem que não seja o senso comum", como o motoboy sem moto, a modelo sem fotos, poses e tiques. Um espaço para o afeto e ao mesmo tempo um paralelo das doenças, física no caso de um, da alma no caso de outro. "Quando você se fecha, passa a se reconstruir no espaço íntimo", acrescentou Brant, explicando que ele próprio se viu assim após os três primeiros longas.

Sobre o fato de não fazer mais roteiros há três filmes, Brant explicou que "não adianta no papel planejar e impor uma verdade. A literatura nos guia e por mais que não consultemos, tem roteiro". Julio acrescentou que "o roteiro existe para o ensaio, há tópicos do que os atores vão falar, mas há liberdade para colocar do nosso jeito, o que também não é improviso".


Com o cachorro sem nome relegado a um papel secundário no filme, o título também faz menção muito mais ao espírito de inadequação dos personagens principais, a estranheza, o ininteligível do sujeito que vai pro mundo e ao mesmo tempo não se enquadra nele, que procura uma fuga, mas não sabe onde encontrá-la. Em tempos velozes, "às vezes a intimidade genital é mais fácil que a intimidade afetiva. Não deixa de ser uma fuga para o que vivemos hoje", afirmou Tainá Muller, que com sua estréia no cinema ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Cine PE – Festival do Audiovisual, realizado em Recife (o filme levou também o Prêmio Especial da Crítica e o Troféu Calunga – honraria máxima do festival – como Melhor Longa-Metragem). "É uma ressaca dos anos 1970, quando nossos pais eram jovens. Hoje falta pelo que lutar, dá uma preguiça de viver. Todas as perspectivas da vida se anulam, ao mesmo tempo em que tudo parece ser possível, nada realmente é", completou a atriz, que também é jornalista e modelo.


Pautado pelo mínimo, pelo silêncio e pelo escuro, inspirando-se no romance de Galera para expressar esse mal-estar, Cão sem dono faz bonito ao optar por esse caminho. O que não deixa de ser uma característica dos filmes de Beto Brant. "O imponderável da procura e dos riscos é responsável por isso, por construir essa condição de liberdade. Estamos interessados no filme, primeiro para o deleite do nosso olhar, e depois para levar isso adiante e promover esse corpo a corpo com vocês, esse papo franco e aberto. Do olhar bovino, não fazemos questão", fechou o diretor, referindo-se ao fato de que o cinema não escapa, em última instância, de ser negócio e estar atrelado ao esquemão do big business. Mas demonstrando que os caminhos existem e aí estão para quem quiser se aventurar.


Leia e veja mais:

> Entrevista com Daniel Galera, autor do livro

> Dramafilmes.com.br/caosemdono



tags: Porto Alegre RS artes-visuais cao-sem-dono cinema beto-brant renato-ciasca daniel-galera ate-o-dia-em-que-o-cao-morreu


 
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