Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 14/11/2007.
Os bastidores da pesquisa do livro que virou polêmica em 2007: "Você não consegue mais contar a história do Brasil se valer para os outros o que está valendo para Roberto Carlos", diz Paulo César Araújo, autor da biografia censurada pelo cantor.
"Foi uma surpresa, porque foi um erro. E Roberto Carlos não é muito de errar. Até explico isso no livro, que uma das razões para o sucesso de Roberto é que ele acerta muito, tem um feeling para tomar as decisões certas. Mas, neste caso do livro, ele cometeu um dos maiores erros da carreira dele. E eu, sinceramente, não esperava que ele fosse cometer este erro. A editora estava muito mais otimista do que eu, mas eu não esperava que chegasse a esse grau, com essa truculência, com essa agressividade, movendo processo cível e criminal."
Acostumado a medir cada movimento que dá, Roberto errou o passo. Mas conseguiu, em parte, seu objetivo. Censurou a primeira biografia de fôlego a seu respeito, embora o livro circule pela internet, em versões que vêm sendo acrescidas pelos leitores. Porém, chamou mais atenção para o livro que queria ver extinto. O Portal Literal conversou com o historiador e professor Paulo César Araújo sobre a longa pesquisa, que durou 15 anos e também deu origem ao primeiro livro
Eu não sou cachorro, não (Record), que trata da música brega. O papo aconteceu num café ao lado do sebo Berinjela, em uma galeria na av. Rio Branco, centro do Rio de Janeiro. Ao fim da conversa, em uma olhada na vitrine do sebo, quem estava lá? Ela mesma, a censurada biografia
Roberto Carlos em detalhes (Planeta), à venda por R$ 70.
Como começou a pensar na idéia de escrever esta biografia do Roberto Carlos?
Paulo César Araújo. Eu me lembro que a idéia surgiu em 1990. Ali por volta de março, abril, eu estava na PUC, na faculdade de Comunicação na época, e, você sabe, tem um busto de Kennedy no pilotis da PUC. E meses antes tinha morrido Nelson Cavaquinho, morreu em 1989, depois Luiz Gonzaga. E aí eu pensei "caramba, to vendo aqui nessa faculdade o busto do Kennedy, minha turma mal sabe quem é Nelson Cavaquinho, quem é Luiz Gonzaga". Pensei em iniciar uma ampla pesquisa sobre a história da música popular brasileira. E o primeiro projeto que me veio à cabeça, dentro dessa pesquisa, foi fazer um livro específico sobre Roberto Carlos, já àquela altura, com 40 anos de sucesso, fenômeno da música brasileira, não tinha nada sobre ele. Eu identifiquei, primeiro, uma grande lacuna na historiografia, para tentar entender quem é esse cara, como ele surgiu, como ele construiu a carreira, quais as influências que ele teve, quem que ele influenciou – eram questões que eu tinha. Mas, veja, isso dentro de um projeto maior da música brasileira. Mas, enfim, pela importância do Roberto e pela ausência da historiografia, eu achava aquilo fundamental. Então eu iniciei em novembro essa pesquisa.
Comecei simplesmente entrevistando todo mundo da música brasileira, quem estava ali, disponível em 1990. Entrevistei Tom Jobim, a primeira entrevista que eu fiz, depois Caetano Veloso, aí fui pegando um por um. Todos falando sobre suas respectivas carreiras, claro, e também sobre Roberto, algum episódio, a opinião deles sobre a obra do Roberto. Nesse ano de 1990 eu tentei também – ao mesmo tempo em que eu estava entrevistando Tom, Chico, Caetano – entrevistar o Roberto, claro. Fiz os primeiros contatos com a assessora de imprensa dele. Então foi isso, a caminhada começou aí. A pesquisa prosseguiu, quer dizer, nos intervalos de aulas, do trabalho, eu ia à Biblioteca Nacional. Quando terminei a faculdade, fui fazer um mestrado. No meio do caminho dessa pesquisa me veio a idéia de fazer o que acabou se tornando meu primeiro livro, que foi o
Eu não sou cachorro, não (Record) – outra lacuna na historiografia. Iniciei a pesquisa para o mestrado e resultou nesse livro, cujo subtítulo é
Música popular cafona e ditadura militar. Mas a pesquisa sobre o Roberto continuou paralela, porque era a mesma época, né? Eu ia para a Biblioteca Nacional e apenas separava o material que era para um trabalho, o que era para outro. Aí comecei a entrevista os cantores bregas também, Odair [José], Waldick [Soriano]. Então foi isso. A pesquisa foi até o final de 2005, exatamente 15 anos, pensando, refletindo, pesquisando sobre música brasileira, e resultou nesse livro,
Roberto Carlos em detalhes, que não é uma biografia simplesmente do Roberto, é um livro de história da música brasileira, tendo o Roberto Carlos como fio condutor.
Não sei se você leu o livro, tem capítulos ali, como "Roberto Carlos e a bossa nova", "Roberto Carlos e a mpb", "Roberto Carlos e a televisão", onde eu traço um panorama da música brasileira, mas seguindo os passos do Roberto, por onde ele passou. E ele é um personagem rico, né?, quer dizer, o meu objetivo primordial é explicar a música brasileira, fazer uma revisão dessa historiografia. O Roberto me pareceu um personagem rico pra isso, porque ele começa muito cedo, com 9 anos, na era do rádio ainda. Então meu livro começa explicando isso, Roberto no rádio, como é que era essa era do rádio. Ali eu mostro que o importante não era o cara gravar um disco. A prioridade de um artista, de um cantor era ter uma rádio para ser contratado. Era assim que acontecia na época. E depois se chegava no disco. Por isso que o objetivo do Roberto quando saiu de Cachoeiro [do Itapemirim, ES] era ser contratado por uma rádio. Esse era o sonho dele. Aí depois ele se encanta com a bossa nova, aos 18 anos, com João Gilberto, e o livro conta essa história, o que era a bossa nova, porque que ele se encantou, o que aquilo provocou na geração dele. Aí ele fracassa como cantor de bossa nova, adere ao rock, o livro vai em frente. Ela passa por todas essas fases. Nesse sentido, ele é um personagem rico para você contar essa história. Então o livro foi sendo construído, pensado ao longo desse período aí.
E ele ia sendo escrito paralelamente à pesquisa, ou você ia fazendo fichas, organizando o material?
Paulo César. Eu já escrevia algumas coisas, mais esboços, já ia definindo alguma coisa. A redação mesmo foi nos últimos três anos, quando fiquei mais centrado em escrever. Mas a idéia surgia, às vezes pegava as anotações, ia dando uma forma, aos poucos. Não foi pesquisa, e depois redação. Agora, nos últimos três anos, a ênfase total foi basicamente na redação. Que é a coisa mais difícil. Eu tenho o maior prazer em pesquisar, confesso a você que não tenho prazer nenhum em escrever, não tenho.
Por quê?
Paulo César. Pra mim é um parto escrever, acho difícil, não tenho nenhum prazer, nenhum. Tenho que escrever, me propus a isso, a pesquisar e produzir um trabalho, devolver isso à sociedade de alguma forma. E te falo que tenho imenso prazer em pesquisar, eu era expulso sempre da Biblioteca Nacional, porque, por mim, eu ficava. Se ela funcionasse 24 horas, eu ficaria lá pesquisando. Adoro pegar aqueles jornais antigos, entrevistar as pessoas, chegar na casa de alguém, buscar na memória da pessoa... imenso prazer na pesquisa. Esse imenso prazer na pesquisa não tem contrapartida no ato de escrever. Na hora de escrever, para mim, é sofrimento.
Além dessa dificuldade de escrever, que outras enfrentou nesses 15 anos?
Paulo César. A dificuldade mesmo foi de ordem estrutural, econômica, no sentido de que eu não fiquei disponível para isso. Eu tive que fazer essa pesquisa nos intervalos. Você imagina: eu estava estudando e trabalhando, depois me formei em História, comecei a dar aula, como todo professor, dava aula de manhã, de tarde e de noite. Às vezes, na terça à tarde eu estava livre, ia para a Biblioteca Nacional, saía às seis horas, ia dar aula em Niterói à noite. No outro dia, às vezes estava livre à noite, ficava na biblioteca até às oito horas. Muitos personagens, tive que entrevistar uns em Santa Catarina, que estavam morando lá, outros no interior de São Paulo. Eu ia nos feriados, aproveitava. Essa pesquisa foi feita durante 13 anos de forma autônoma, quer dizer, de 1990 até 2003, eu fiz isso de forma autônoma, sem bolsa, nada. Em 2003, a Planeta me chamou para publicar o livro. Então ela já me deu um adiantamento mensal que tornou a coisa um pouco mais fácil. Mas aí já foi na fase da redação, basicamente.
Outra dificuldade foi o não-acesso à Roberto Carlos. Não tive, da outra parte, nenhuma facilidade, o que aumentou o trabalho. Vejo essas pessoas que publicam livros, os artistas recebem os autores, entregam a eles uma pasta de documentos, de recorte de jornal. Que beleza, né? Que bom! Enfim, parti do zero e as dificuldades foram estas. Só eu sei as esquinas que passei para fazer este livro. Só eu sei as esquinas que passei. E para achar alguns personagens destes aí? É fácil você achar um Chico, um Caetano. Sei que é difícil você conseguir a entrevista, mas você sabe, o escritório é ali, o assessor é fulano. Para achar aqueles músicos que não tocam mais, um compositor dos anos 1970 que está fora do circuito. O cara na época não tinha telefone, aí eu ia lá para o subúrbio do Rio, ficava andando, "ah, o cara mora ali perto do posto de gasolina", chegava lá, tinha se mudado para Marechal Hermes, aí eu ia para Marechal Hermes. Mas o importante é que eu consegui pegar todo mundo, né? Consegui responder às questões todas que achei relevantes. E só ia publicar o livro quando tivesse estas respostas. Foi por isso que o livro não foi publicado nem com cinco, nem com dez, nem com doze, nem com treze anos. Só depois que eu tive todas as respostas que considerei relevantes é que eu publiquei o livro.
E nessa década e meia, muitas surpresas, de descobrir coisas, encontrar pessoas que dava como desaparecidas?
Paulo César. Claro. Evandro Ribeiro, por exemplo, que foi produtor do Roberto, responsável direto pelos primeiros sucessos dele, os primeiros discos de rock. Ele nunca tinha dado entrevista, nunca tinha dado depoimento a ninguém, um cara discreto. Localizar Evandro foi difícil, ele também já estava fora do circuito. E depois que eu o localizei, para ele dar entrevista foi difícil, foram seis meses tentando, até que ele decidiu me receber. Um depoimento inesquecível foi o de Carlos Imperial, foram quatro, cinco horas de gravação. Infelizmente, ele morreu sete meses depois, de uma forma até surpreendente. Confesso a você que me surpreendi com o grau de dificuldade do Roberto no início da carreira dele. A gente sabe que o artista tem dificuldades, todo início de carreira é difícil. Mas eu mesmo não tinha idéia de como foi difícil para Roberto aquele começo de carreira. Aquilo que eu relato passo a passo, sendo recusado em todas as gravadoras, todas as rádios não querendo contratá-lo. Fui uma surpresa que tive na pesquisa, nos depoimentos. Porque a gente se acostumou tanto a ver o Roberto como símbolo do sucesso, né? Porque, mais ou menos, a história dele é contada assim: Roberto saiu de Cachoeiro, aí gravou um, dois sucessos. Parece que era um artista destinado ao sucesso, escolhido por deus. Não foi nada disso.
Aliás, uma coisa que eu também sou crítico é dessa visão mitológica. Nada. Não acredito em nada disso. O livro revela esse Roberto Carlos humano, demasiadamente humano, cara que recebe porta na cara. Por vários momentos, a carreira dele poderia não ter dado certo, porque acredito que nada está definido, não, que o destino está traçado – não tem nada disso. Acho que o acaso existe, que tem que estar no momento certo, na hora certa, a sorte de encontrar as pessoas certas. E Roberto foi dando certo assim, depois de ter dado muito errado, conseguiu dar certo. Mas poderia não ter dado. Vários acasos ali contribuíram. Então a pesquisa foi me revelando esse quebra-cabeça aí que me surpreendeu um pouco.
Essa período de recusa era já com a banda que ele teve com Tim Maia, Os Sputniks [no final dos anos 1950], ou se refere ao momento anterior a isso?
Paulo César. Não, já era nessa época aí, anterior, durante e posterior a isso, inclusive. Ele só consegue, quer dizer, é quando ele entra na CBS, no início dos anos 1960. Ele chega no Rio em 1956, você vê aí, foram quatro anos batendo cabeça. E mesmo na CBS ele fracassa com o primeiro disco, de 1961. O sucesso só vem para Roberto em 1963. Antes ainda grava um 78 [rotações], que foi mais ou menos. Ele vai ter sucesso com "Splish splash", em 63. Sucesso, assim, no Rio, nada daquele sucesso que alcançaria depois. Isso o livro conta em detalhes, passo a passo. E ele vai explodir nas paradas em 1965, como grande sucesso. Então, desde que ele chegou no Rio foram 10 anos, você pode botar, escrevi isso lá: 10 anos depois de ter chegado no Rio, 15 anos depois de ter começado a tocar no rádio, ele chega a se tornar esse Roberto Carlos que a gente conheceu. Porque ele começou cedo, por isso que conseguiu o sucesso aos 25 anos, o que é relativamente cedo.
Sobre o Eu não sou cachorro, não, você disse que ele surgiu da pesquisa do mestrado, onde foi se familiarizando com o tema da música brega e o preconceito que se tinha com ela, na época e hoje ainda, algo não legitimado.
Paulo César. Tanto a música brega quanto Roberto já faziam parte da minha memória afetiva, né? Isso é parte da minha história, no sentido em que eu cresci ouvindo estas canções. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma intimidade com o samba, nada de samba. Eu, na verdade, só fui conhecer samba depois que eu mudei pro Rio. Lá na minha cidade, Vitória da Conquista [BA] não tinha negócio de samba, terreiro, roda de samba, nada disso. Nunca vi isso na minha vida. Eu era um garoto do subúrbio, interior da Bahia, ouvia rádio, você ouvia música italiana, um monte de coisa. E o que tocava mesmo na época era Roberto Carlos, música brega, enfim, as baladas românticas. Então a minha memória afetiva foi formada por estes artistas, cantores do rádio do início dos anos 1970. Música internacional, como Elton John, Elvis. Sem falar os brasileiros que cantavam em inglês, que tocavam muito. Era isso que eu ouvia, que estava nas trilhas das novelas. Essa, a minha memória afetiva, essa música brega. Na faculdade, com o intuito de estudar a história da nossa música, fui ler de tudo, os fascículos da Abril [sobre música popular brasileira], e aí fui identificando a lacuna. Roberto Carlos, para mim, já estava claro. Mas o brega, "caramba, aqui não fala nada desses caras". Li os livros todos do [José Ramos] Tinhorão, nenhuma palavra sobre esses caras. Enfim, eu vi que tinha um vasto mundo a pesquisar, a revelar. Então foi um pouco da memória afetiva com a constatação na própria pesquisa, o que me levou a me aprofundar nestes artistas. Afinal, será que é isso mesmo, eles eram simplesmente alienados e não tinham nada a dizer para o Brasil? Isso faz parte da cultura do nosso país, não é só samba, choro. Essa questão, de isto ser parte do Brasil, me levou a deixar o Roberto, até por conta da dificuldade do acesso a ele – porque eu alimentava a expectativa de ser recebido pelo Roberto. O que contribuiu, de certa forma, para a riqueza do trabalho, porque, se ele tivesse me recebido, talvez ficasse fácil, de repente. Mas não, o fato de ele não ter me recebido me fez aprofundar na pesquisa, ela foi se estendendo e contribuiu para o livro ficar melhor.
E estes lugares comuns, de que a música brega era alienada, não questionava. Tinha a dupla Dom e Ravel, que apoiava, cantava músicas de apologia ao governo militar. Teu livro sustenta que o questionamento não necessariamente era explícito, mas vinha na forma dos costumes, do comportamento. Isso já vinha dessa memória afetiva, ou foi se desdobrando na pesquisa?
Paulo César. Alguma coisa, sim. Posso te falar de uma canção do Dom e Ravel que me incomodava, "Você também é responsável". Eu ouvia aquilo e me dava uma tristeza, não sei se você já ouviu essa música, é linda a canção. [Cantarolando] "Eu venho de campos, subúrbios e vilas, sonhando e cantando... Eu sou brasileiro, anseio um lugar." Quando eu lia sobre Dom e Ravel, só falando de "Eu te amo meu Brasil", me perguntava "E aquela música, 'anseio um lugar', falando de um cara excluído?". Isso aqui é Chico, é "Cotidiano". A memória afetiva ajudou, mas é evidente que não tinha essa noção, foi a pesquisa que foi me revelando, sobretudo a respeito da censura que estes artistas também enfrentaram. Eles têm outra música, que foi censurada, "O caminhante" ["Eu ando caminhando por aí / Procurando uma região sem dono, / Local do qual me sinta proprietário, / Usuário do que dele eu extrair. / Tomaram palmo a palmo quase tudo"], falando sobre os sem-terra. Isso tudo descobri na pesquisa e foi me surpreendendo. Então fui seguindo essa pista. Sem dúvida, se não tivesse essa história, não chegaria a esse resultado. Então acho que estes dois livros, principalmente o sobre o brega, é resultado disso: da minha história com a minha formação de historiador, aqui no Rio.
E ao que tu creditas essa coisa da legitimação? É uma disputa de poder, algo previamente calculado? O que faz com que essas coisas sejam tiradas de sua devida importância, pela imprensa, pelos críticos?
Paulo César. Eu tentei explicar isso no penúltimo capítulo do livro, que acho o mais importante, "Tradição e modernidade". Não tem nada
a priori, algo como "vamos esquecer disso", nada disso. A formação da elite cultural brasileira é pautada pelo parâmetro da tradição e da modernidade. Ou seja, o gosto musical, o interesse estético, no Brasil, foi formado tendo como parâmetro a identificação entre tradição e modernidade. Os artistas que o público de classe média, ou seja, os escritores, os jornalistas admiram, conhecem, ouvem são identificados com o samba, a tradição, ou com a modernidade, com a arte de vanguarda. Toda aquela produção musical onde eles não identificam nem a tradição, nem a modernidade, para eles não tem o menor interesse, não escutam, não mexem. Então o desprezo é um pouco por aí. Você pega, por exemplo, um artista como Waldick Soriano. Por que ele é considerado brega? Porque ele não faz samba, ok? Não tem nenhuma identificação com raiz, boemia, boemia, não, malandragem, como se fala no samba, ou seja, tradição. Também não está identificado com nenhuma vanguarda, concretista, bossanovista, nada. Ele é o quê? Brega. Qualquer um. Pega Agnaldo Timóteo, a mesma coisa. Então, os artistas, para serem respaldados, precisam ser identificados ou a uma, ou a outra, ou a ambas. Chico Buarque, por que ele é considerado o maior músico brasileiro? Porque ele é identificado à tradição, pelo ritmo, e também à modernidade, pela verve literária. Então ele é considerado deus. Nesse capítulo tento fugir de reducionismos como "o brega é o popular". Ora, Martinho da Vila também é popular, mas identificado à tradição do samba. E a história é escrita por quem tem o poder, e quem tem o poder é essa classe.
Tu enxergas isso também em estilos mais recentes, como o sertanejo, chamado de "breganejo" nos anos 1990, o axé, o funk carioca hoje?
Paulo César. Você vai aplicando isso aí. No "breganejo", a crítica era que seria um falso caipira, está se evocando a questão da raiz, da autenticidade. Zezé de Camargo & Luciano não é a tradição da música caipira nem a modernidade. A desqualificação passa por aí. Se tiver algum pé na tradição, algum pé na modernidade, tem uma possibilidade maior de ser aceito. Uns tem mais, outros menos. O que as elites vão gostar é Pena Branca & Xavantinho, porque ali se vê a tradição.
De onde vem essa mania de pureza, autenticidade? Quem estuda um pouco a nossa música popular sabe que aquilo que é considerado "puro, genuíno" é também uma mistura de várias outras coisas e estilos.
Paulo César. Pois é, é uma visão que se consolidou aí no Brasil. Chamo até de uma certa obsessão, né?, pela autenticidade, formada pelos enquadradores de memória. Isso vem lá de Lúcio Rangel. Se você for antes, nos anos 1930, já estavam reclamando de Pixinguinha. É uma questão também da identidade nacional, e no Brasil isso é gritante, se reflete nisso. Imagino que o francês não tenha tanto esse problema, entendeu? Quando você vê aquela crítica toda com Tom Jobim, de que seria música americana... Uma vez perguntaram a Frank Sinatra qual o melhor compositor americano no momento. Ele respondeu "Michel Legrand". Os franceses acharam aquilo bacana. Se falam isso do Tom, é assim: "Olhaí, tá vendo? Tá provado, tá vendido mesmo". Então é isso. É um vasto mundo a ser estudado ainda.
Voltando a Roberto Carlos. Como era a resposta, quando o procurava?
Paulo César. Era simples. Você ligava para a assessoria, comecei com a Ivone Cassu, assessora de imprensa dele desde 1978. A resposta é a mesma de todos os outros: "Olha, o Roberto, no momento, não está podendo dar entrevista". Está gravando, está viajando, em turnê. Aí partia para o empresário dele na época, o Robson Paraíso. E era a mesma coisa. Depois vou para o outro empresário, e era a mesma coisa, sempre postergando. É importante que nunca disseram "não". Em nenhum momento fui desautorizado a escrever, nada disso. Só adiavam infinitamente. A editora Planeta, por exemplo, estava bastante otimista. Falavam que o Roberto iria me chamar para almoçar. Pelo resultado do livro, pela forma como estava contando a história. Por conhecer melhor o Roberto, eu achava que ele não iria falar nada. Quando for perguntado sobre o livro, vai dizer que não leu, eu achava. Mas eu pensava isso diante da recepção da própria editora. Fiz esse livro para chegar com força. Claro que ele poderia ficar incomodado com alguma coisa ou com outra, é natural, mas, diante da qualidade, da força do livro, o Roberto Carlos vai tomar essa decisão de não falar nada. Quando saiu o livro, e toda a crítica foi unânime – a Folha de S. Paulo deu um artigo que se chamava "Daqui pra frente tudo vai ser diferente", foi capa da Bravo!, coisa que Roberto Carlos nunca tinha sido –, diante dessa força, pensei que ele pudesse ter essa postura. Então nesse sentido foi uma surpresa, porque foi um erro. E Roberto Carlos não é muito de errar. Até explico isso no livro, que uma das razões para o sucesso de Roberto é que ele acerta muito, tem um
feeling para tomar as decisões certas. Mas, nesse caso do livro, ele cometeu um dos maiores erros da carreira dele. E eu, sinceramente, não esperava que ele fosse cometer este erro. Imaginava que os empresários fossem aconselhá-lo a dar um tempo. Mas, não, ele cometeu o erro. A editora estava muito mais otimista do que eu, mas eu não esperava que chegasse a esse grau, com essa truculência, com essa agressividade, movendo processo cível e criminal.
Sem falar no péssimo precedente que esse caso abriu, de refrear dezenas de biografias, levar o caso para os departamentos jurídicos das editoras. Mas a censura, de certa maneira, chamou mais a atenção para o livro, não esquecendo que o livro já vinha chamando a atenção por si só. Qual o saldo que tu tiras até agora dessa história?
Paulo César. O fato em si da censura abriu um precedente. Se valer para os outros o que valeu para Roberto, você não vai mais poder escrever a história do Brasil, não vai. Dou aquele exemplo do Fernandinho Beira-Mar. Quem quiser contar a história do crime organizado no Brasil pegando o Fernandinho Beira-Mar como fio condutor – o mesmo que eu fiz, pegando a história da música brasileira tendo o Roberto como fio condutor. Ele pode usar os mesmos argumentos que o Roberto, dizer que não autorizou, que a história dele é um patrimônio dele, que conta para quem quiser e se quiser, quando quiser. Invasão de privacidade, uso de imagem. Você não consegue mais contar a história do Brasil, se valer para os outros o que está valendo para Roberto. Nesse sentido, o caso é realmente grave, necessita da reação da sociedade contra esse absurdo. Nesse momento, o que posso dizer a você, é que não é mais o meu caso, nem o caso do meu livro. É a questão de até que ponto vai prevalecer no Brasil o direito à informação e à liberdade de expressão. Esse é o grande debate. Nesse sentido, isso foi, de certa forma, positivo para, pelo menos, chamar a atenção para isso. E tentar, de alguma forma, fazer prevalecer isso. No caso do livro, o que é absurdo, o mundo me pergunta – porque eu dou entrevista para Portugal, Argentina, México – como é que pode isso, se ele questionou alguma coisa específica. Eu digo que não tem calúnia, não tem nada. Ele reclama da invasão de privacidade e do uso de imagem. Só que no caso da privacidade, não houve invasão alguma. Na minha defesa, eu e o advogado pegamos todos os pontos que ele diz ser invasivo e mostramos que tudo já saiu na imprensa, em livros, e onde saiu. No que diz respeito à vida pessoal do Roberto, aqueles menos de 5% [do livro] de que ele reclamou, tudo já era de conhecimento público. Então não há invasão, não peguei correspondência dele, não subornei camareira para pegar informação restrita da casa dele, nada, nada. As grandes revelações do meu livro estão na parte histórica. Aí, sim, tem revelações históricas. Nos capítulos "Roberto Carlos e a bossa nova", "Roberto Carlos e a mpb", "Roberto Carlos e a televisão", "Roberto Carlos e o rádio". Essa coisa da vida pessoal do Roberto, essa parte menor e secundária no livro, foi a coisa mais fácil de fazer, porque foi só selecionar o que já havia saído. Então não se sustenta nada e por isso que é um absurdo essa proibição do livro. E por isso que estou lutando, no cível e no criminal, para trazer o livro de volta. Não tem cabimento. Até para não abrir precedente, e prevalecer isto. Neste sentido, o momento é de luta. E as perspectivas são boas, porque a sociedade reagiu positivamente contra essa barbárie. Espero agora que a Justiça esteja atenta a isso.
Outra biografia a caminho?
Paulo César. Não tenho ainda um... Como tenho cerca de 200 entrevistas exclusivas que fiz ao longo destes 15 anos, tenho um material para dois livros, pelo menos, nessa perspectiva de continuar contando a história da música popular brasileira. Devo fazer um para o ano que vem. Mas ainda não sei se vou fazer uma coisa mais abrangente, como foi o primeiro livro, ou se vou fazer alguma coisa mais focada. Ainda não consegui definir. Vou me debruçar sobre este material. Mas com certeza vai vir aí mais um livro sobre música popular. Usei parte deste material nos dois livros que fiz. Tem entrevistas riquíssimas com figuras que nem estão mais aí, como o Tim Maia, Carlos Imperial.
Como foi com o Tim Maia?
Paulo César. Foi sensacional. Fui com uns amigos meus da PUC, e ele gostou da gente. Fizemos duas entrevistas, uma no estúdio, depois lá na Barra. Ele ia fazer shows no Circo Voador, e ficava "Alô, rapaziada da PUC. Ô, PC, cadê você, PC?". Era um barato. Ficou uma relação, ele recebia a gente no camarim, ficava lá tomando todas. Foi muito bom, com o Tim. Mais que uma entrevista, foi um encontro. Ele falava assim: "Paulo César, você tem que ser nomeado ministro da Cultura desse país". Porque eu falava da minha pesquisa. É uma grande figura. Está pra sair o livro do Nelson Motta sobre o Tim.
E que outras lacunas a gente tem nessa história? Bom, a gente tem dezenas, né?
Paulo César. Lacuna é o que mais existe. Você pode ter certeza, nós estamos começando a contar esta história agora, da música brasileira. Porque isso ficou durante muito tempo aí, sem maiores..., basicamente na mão de memorialistas, jornalistas. O pensar, o refletir, a academia se debruçar, isso começou mais recentemente. A bossa nova, por exemplo, ainda precisar ser explicada. Se até ela, que é um gênero da elite cultural, precisava ser investigada, imagina o resto. As lacunas são as maiores possíveis. O mais difícil é você apontar onde não há lacuna.
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