Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 12/04/2008.
Como o país adere ao processo irreversível que torna a cultura livre, com livros, discos e filmes lançados diretamente na internet. Confira a quarta parte da reportagem sobre os negócios em um mundo onde o "grátis" começa a render dinheiro.
[Confira também
Pirata bom, pirata mau,
Indústria vs. Cultura livre e
O mundo é livre.]
"O discurso da "pirataria" está pra lá de gasto e não convence mais. Os desdobramentos dessa nova realidade cultural estão em pleno andamento, cada vez mais rápido e, como vimos, não tem mais volta. Ainda bem."
Enquanto isso, no Brasil...
Por aqui, já têm aparecido experiências baseadas
nesta idéia desenvolvida por Chris Anderson e
publicada em 2004 na
Wired, revista editada pelo autor, e que sugere um cenário diferente que poderia ser aproveitado pela indústria. Ele a chamou de
Cauda Longa (
Long Tail). Saiu em livro no exterior, em 2005, e no Brasil foi publicado pela
Campus Elsevier em 2006].
Ainda em 2003, o rapper Bnegão disponibilizou seu primeiro disco solo com o Seletores de Freqüência,
Enxugando o gelo, e, por conta disso, foi convidado a excursionar pela Europa, tocar em alguns dos principais festivais de verão do velho continente. Desde então tem ido constantemente para lá, agora com o
Turbo Trio, seu novo projeto.
Lucas Santanna lançou seu disco mais recente,
3 sessions in a greenhouse, com licença Creative Commons, que pode ser baixado em seu
site e também libera as músicas para remix, igualmente disponíveis lá. O próximo trabalho, que vem sendo gravado, também sai no mesmo esquema. Por que distribuir gratuitamente o disco? "Porque a distribuição física já se mostra deficiente em relação a distribuição digital. Para 2.000 discos vendidos são 10.000 downlodeados. Os números não deixam dúvidas. Mesmo com o disco sendo oferecido de graça, vendemos a primeira tiragem em 8 meses. Isso nunca tinha acontecido antes. Agora vamos prensar mais 2.000 cópias físicas pela Eletrocooperativa", explica Lucas.
Sobre o retorno, o músico afirma que tem sido além das suas expectativas. "Na verdade, no meu caso o disco ficou muito vinculado ao
diginóis e vice-versa. Então pelo fato de eu alimentar o blog do diginóis quase diariamente, o site acabou virando mais um filtro de informação na rede e atraindo muita gente que nem sabia do disco num primeiro acesso", completa ele, acrescentando os próximos passos do projeto. "Já tem algumas coisas anotadas para modificar no diginóis daqui a pouco. Esse ano, dois discos saíram pelo selo. O do Buguinha Dub, que produziu comigo o
3 sessions... e o do Guizado. Tudo no diginóis foi se dando como experiência, então vai continuar assim, no acerto e erro. Sempre calcado na resposta que os leitores vão dando", conclui Lucas.
A pequena Mallú Magalhães, ao completar 15 anos, pediu de presente de aniversário algumas horas em estúdio. Gravou cinco músicas que remetem aos velhos folks de Bob Dylan e Johnnie Cash, de quem ela é fã, postou-as no
Myspace, e se transformou no mais recente fenômeno da música brasileira, noves fora todo o hype em cima da menina. Desde então apareceu no programa Altas Horas, estreou uma série de vinhetas na MTV, foi a primeira entrevistada na volta do Programa do Jô em março passado, e já se apresentou no Rio de Janeiro, Brasília, tem show marcado em Porto Alegre, sem falar nos shows em casa, em São Paulo. No Rio, participou do festival Evidente na pequena Cinemathèque, em março, com capacidade para 200 lugares, a presença de vários executivos de gravadoras. Seu Myspace, criado em junho do ano passado, tinha ultrapassado os 760 mil acessos nesta sexta-feira, 11 de abril. O disco sai neste ano e, segundo seu empresário, é bem provável que seja independente.
Por aqui ainda não apareceu nenhuma iniciativa similar ao
Radiohead, que, em outubro de 2007, lançou seu disco In Rainbows, diretamente na internet, sem intermediários nem atravessadores, e deixou na mão dos fãs o valor que gostariam de pagar pelo disco, entre zero e 999 libras esterlinas. Em 1º. de janeiro, saiu a versão física do disco, com CD extra e vinil. Em média, os fãs pagaram quatro libras pelo disco. A maioria não pagou, mas números divulgados ainda em outubro falavam em 1,2 milhões de downloads no primeiro, dados que foram contestados pela banda. Em dezembro passado, o grupo lançou um pen drive com 4 gigas, contendo todos os álbuns anteriores da banda, com a arte e encarte. E no primeiro minuto deste ano, junto com CD físico nas lojas, o Radiohead lançou na rede o
Scoth Mist, vídeo com todas as músicas do novo disco tocadas em estúdio. Mais recentemente, saiu o site de relacionamento dedica á banda, o
W.A.S.T.E.
Seguindo esse novo caminho, o Nine Inch Nails, banda liderada por Trent Reznor, lançou seu mais recente disco,
Ghosts, no mesmo esquema, disponibilizando as 36 músicas instrumentais do projeto em seu site. Muitos outros devem aparecer. Já o REM voltou com um excelente disco depois de muito tempo fora de cena, divulgando-o antecipadamente em sua página do
Myspace. Na contramão, Jack White, das bandas White Stripes e
Raconteurs, anunciou o novo disco do Raconteurs uma semana antes do seu lançamento, tentando assim evitar seu vazamento. Não conseguiu e logo após o anúncio o disco já circulava pela rede.
O recifense DJ Dolores lançou seu disco novo,
1 real, por um selo gringo, já que sua carreira é impulsionada sobretudo pelos shows na Europa. Para divulgar o álbum, distribuiu alguns discos a um famoso camelô, DJ Pequeno, que vende CD-Rs dos grupos mais populares de Pernambuco nas praias de Recife.
Atitude inovadora é a aposta da Trama, gravadora presidida por João Marcelo Bôscoli. Responsável também pelo
Trama Virtual, site que reúne boa parte da produção independente brasileira, e que vem, desde o ano passado, remunerando os artistas por cada
download feito, a Trama vai lançar seu primeiro álbum virtual, gratuito para o ouvinte e sustentado por publicidade.
Para liderar a iniciativa, Tom Zé foi o escolhido e o
primeiro álbum virtual será a versão ao vivo de Danç-êh-sá, seu mais recente disco, que deve sair ainda neste semestre. Com 72 anos, o músico baiano tem um público basicamente formado por jovens. Em entrevista ao
O Estado de S. Paulo, afirmou que "a internet é uma pescaria que não tem anzol sob medida. O João Marcelo sempre acreditou que não se podia castrar a liberdade da internet, e que a empresa precisava se adaptar. Realmente eu me sinto alegre".
Livros
Algumas editoras também têm apostado no conceito de disponibilizar gratuitamente seus livros para atrair mais leitores e também tornar a casa editorial mais conhecida. Até porque muitos dos livros, quando editados via lei de incentivo, já estão pagos quando saem das gráficas. A editora carioca Casa 21 disponibilizou para download todos os livros da série
Cidades Ilustradas, onde um artista gráfico traduz em desenhos algumas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Belém, Curitiba, Florianópolis, São Paulo e as Cidades do Ouro, em Minas Gerais.
Questionado a respeito da decisão de distribuir gratuitamente os livros, Roberto Ribeiro, editor da Casa 21 afirma: "A internet vem há algum tempo conquistando um número crescente de leitores exigentes. Leitores ativos e não mais passivos. Com o desenvolvimento de novas ferramentas e suas redes sociais e a democratização do acesso a partir da banda larga, os criadores e produtores de conteúdo devem assumir os novos desafios da sociedade da informação se não quiserem ser superados pelos novos tempos. O público consumidor não só de livros ilustrados ou em quadrinhos, mas, eu diria, da literatura de forma geral, ainda continua fiel ao produto formato impresso. Há, entretanto, uma evolução nesse sentido e pode-se prever, em um futuro não muito distante, uma redução desse público devido às novas tecnologias que estão surgindo como o e-book e instrumentos que poderão absorver uma grande quantidade de livros em sua memória e que simulará as funções do livro impresso. A disponibilização gratuita dos livros da série
Cidades Ilustradas foi facilitada por termos desenvolvido um site específico para o projeto mas também, pelo fato, da série ser patrocinada a partir de recursos públicos o que nos coloca na necessidade de retribuir o incentivo público. Mas nossa grande motivação é o reconhecimento do potencial da internet e seu público. Pretendemos estender, em breve, essa política para todos os demais livros editados pela Casa 21."
E a disponibilização gratuita diminuiu as vendas? "As vendas através da internet ou livrarias não diminuíram a partir da disponibilização gratuita dos livros da série. O fato de novos leitores poderem ler os textos e apreciar as ilustrações vem colaborando para uma maior divulgação da série e influenciando pessoas que preferem adquirir o formato impresso. São públicos complementares." Com isso, a participação dos leitores aumentou. "Estamos contentes, pois, muitos leitores estão enviando ilustrações e desenhos sobre suas cidades. Quem sabe, um dia, conseguiremos editar um livro a partir de ilustrações dos leitores!", acrecenta Roberto.
A Editora do Bispo, de São Paulo, também disponibilizou parte do seu catálogo para
download, entre eles o impagável
Manual para fazer das crianças pobres churrasco, de Jonathan Swift. Xico Sá, um dos editores, ao lado de Pinky Wainer, fala sobre a opção de liberar os livros. "A editora é a favor da livre circulação de idéias, textos, conhecimentos e ignorâncias. Nada mais combina com o espírito dessa época do que comungar arquivos na rede, sejam músicas, livros, haikais, epopéias. Isso tudo sem prejudicar o autor, que recebe a sua porcentagem de praxe. A prática vai abarcar todo o catálogo. Estamos chegando lá. Não disponibilizamos 100% por questão técnica, tempo etc." E qual o retorno até agora? "Um retorno de leitura, que é o que conta para a editora, que fazem nossos livros best-sellers absolutos. Quando eu seria lido por 15 mil pessoas, publicando por uma micro-editora?, total de leitores que baixaram o meu catecismo -
Catecismo de devoções, intimidades & pronografias - na página do Bispo. E assim tem sido a tendência de todos os livros. O livro do Peréio -
Por que se mete, porra? Delicadezas de Paulo César Peréio - já ultrapassa os 10 mil leitores, o livro da Pinky Wainer -
vendo alma vagabunda com tatuaje del che - chegou a 5 mil em menos de um mês e por aí vai. O mais interessante é que, além dos livros serem bem lidos, começam a vender mais - na versão impressa - depois que circulam livremente na internet. Agora para reflexão rápida: se uma editora micro pode fazer isso sem prejuízo, e pagando os 10% de praxe aos autores, por que as gigantes do mercado não podem? Sábio é o Paulo Coelho, que se antecipou à pirataria e jogou tudo na rede."
A idéia agora é lançar livros somente para a rede. "Aí se o leitor for um gutenberguiano tarado ele faz cópia e lê bonitinho na sua versão impressa", acrescenta Xico, que finaliza: "O bom é que estamos sendo lido por muita gente fora do tal eixo. Não podemos, por causa da cadeia perversa do mercado do livro, chegar com uma boa distribuição em todos os lugares, mas aí vem a coisa linda do download: o cara lá no Amapá ou em Fernando de Noronha baixa o nosso livro, grátis, grátis, e lê na buena. Esse é o prazer do negócio".
Entre as pequenas editoras brasileiras, iniciativa similar teve a também paulista
Hedra, cuja Coleção de Bolso vem sendo disponibilizada na íntegra no
Google Books.
E enquanto a Universidade de São Paulo (USP) tem a louvável iniciativa de disponibilizar dois bancos de dados oficiais, um com suas
teses e dissertações e outro de
obras raras, assim como também é louvável a iniciativa do Ministério da Educação, que em novembro de 2004 lançou o portal
Domínio Público, a Associação Brasileira de Direito Reprográficos (ABDR) tem a retrógrada atitude de impedir o acesso ao link Biblioteca do site da União Norte do Paraná de Ensino (Unopar), de Londrina (PR), através de uma ordem judicial de antecipação de tutela (espécie de liminar) sob pena de multa diária de R$ 500. A alegação é de pirataria, já que a Unopar reproduziu digitalmente e disponibilizou o conteúdo integral, mediante apresentação de nome e senha, de cinco mil livros, que fazem parte do acervo da biblioteca da universidade. Não interessa se a atitude da Unopar não visava o lucro, e sim a democratização de conhecimento para seus alunos.
Filmes e música
Lançado pelos próprios produtores, o desenho animado
South Park foi o primeiro produto do
mainstream a disponibilizar oficialmente todos os episódios da série pra lá de politicamente incorreta na internet.
Na verdade, só tornaram "legal" o que já acontece indiscriminadamente na internet, com
centenas,
milhares de sites que disponibilizam
filmes e
séries. O mesmo se dá com os blogs de mp3, que já foram tema de uma publicação impressa, o jornal
Metrô, que é distribuído gratuitamente em São Paulo.
Ou a indústria revê, e rapidamente, suas estratégias, ou vai continuar perdendo dinheiro ao mesmo tempo em que sua imagem vai sendo vista com receio pelos consumidores, que cada vez mais são também produtores de conteúdo. O discurso da "pirataria" está pra lá de gasto e não convence mais. Os desdobramentos dessa nova realidade cultural estão em pleno andamento, cada vez mais rápido e, como vimos, não tem mais volta. Ainda bem
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