Publicado originalmente por Tomás Eloy Martínez em 29/11/04.
Nunca vou me esquecer da primeira vez que li Rubem Fonseca. Sei o dia exato, a hora, a temperatura, o ângulo em que o sol batia num certo café de Sabana Grande, durante as últimas semanas do meu exílio em Caracas. Estava sentado a uma mesa junto à calçada, esperando por um professor de inglês que me dava aulas de conversação às vésperas de uma longa viagem que eu faria para os Estados Unidos. Desanimado pela insólita demora do professor — já atrasado em vinte minutos, talvez mais —, fui até a livraria em frente à procura de algum texto que aliviasse minha inação. O vendedor-chefe, que eu conhecia fazia muito tempo, me emprestou um volume de contos que, segundo suas próprias palavras, ele tinha lido com o coração na boca, sem conseguir dormir. Foi assim que "Feliz ano novo" me caiu nas mãos, na tradução espanhola de Pablo del Barco. Depois que entrei na atmosfera banal de "Passeio noturno (Parte I)", por trás da qual se escutam os tambores do inferno, nada foi igual para mim. Essas poucas páginas bastaram para o universo de Fonseca tatuar minha alma com a malignidade de uma planta carnívora e a destreza de uma ave de rapina.
Naquele tempo, toda crueldade inútil parecia possível. As ditaduras militares do Sul da América se encarniçavam contra os dissidentes, e em Caracas — assim como na Cidade do México, em Paris, Madri, Bogotá, ou na Lisboa do general Eanes — erravam milhares de imigrantes expulsos pelos maus ventos do despotismo. Os sociólogos discutiam sobre a construção social do medo e associavam a violência ao poder. Surpreendeu-me ver que, na obra de Fonseca, esses vínculos iam sempre além, até os extremos de uma língua desconhecida, como que movendo-se num limbo em que não havia consciência política nem desolação moral, só a pura e simples condição humana entregue a sua incredulidade e sua desolação sem esperança. Os personagens de Fonseca habitavam — e continuam a habitar — um mundo anterior a Deus, ou no qual Deus é indiferente, ou quem sabe um mundo em que Deus é desnecessário. Sem pecado, nem culpa, nem nada além de um incessante Mal inocente. Que mal pode fazer o Mal quando não passa de mais uma vibração da natureza, como a água, o ar e o impulso sexual? Se o Mal é uma ocupação, um trabalho, uma distração, uma pequena chama que arde à toa no deserto da vida cotidiana, quem se importa com a transcendência do Mal?
Fonseca instala o medo ou o Mal no próprio interior da linguagem, cada uma de suas palavras é como uma nota musical arrancada da sinfonia do Mal. A exemplo dos poetas, ele faz as palavras tocarem a borda extrema de seus sentidos. Lendo-o, sente-se o poder de dissuasão ou de perversão que até a mais surrada palavra pode comportar. Muito poucos conseguiram, como ele, criar um personagem com dois ou três traços, urdir tramas cujas costuras não se vêem. Quando o Cobrador de seu livro
O Cobrador diz "Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, boceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo", toda sua vida cabe nessas linhas. Aí já temos o que o Cobrador fez e fará a seguir. Seu sentimento do que o mundo lhe tirou antecipa o que ele queria tirar do mundo: "Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda…". Não há como pagar tudo isso. Se o Cobrador acumula uma dívida tão imensa, é porque um outro por aí deve estar vivendo sua vida sem que ele saiba. Se ele quer recuperar o que perdeu, terá de fazê-lo passo a passo. O ódio não pode ser desperdiçado.
Nenhum escritor é mais cinematográfico que Fonseca. A passagem de uma cena a outra é feita sem explicações, de maneira natural. Enquanto o lia, muitas vezes me perguntei como ele seria, que tipo de surpresas me causaria se o conhecesse. Uma imaginação tão cheia de sordidez, sujeira, piedade e compaixão deve corresponder a uma vida subterrânea muito misteriosa, pensei. Mas sei que nem sempre é assim: Kafka, por exemplo, carece quase por completo de biografia; Buñuel teve de inventar, em suas memórias, uma vida chamativa. Segundo o que li por aí, Fonseca foi crítico de cinema e advogado criminalista. Litigou em favor de negros sem dinheiro nem dentes para defendê-los da injustiça. Mas isso não basta para entender a fineza de agulha com que ele penetra nas dobras da vida marginal para ali colher habilmente tanto as complexidades de uma linguagem cujo sentido vai sempre além do que se diz como as turbulências de um comportamento cujas linhas se escrevem certas mas se lêem tortas. Dois grandes exemplos dessa sabedoria estão em "A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro" e "Madrinha da bateria", onde a realidade é tão turva que pode ser tocada com as mãos. Zira, a madrinha que no final será destituída, cifra seu orgulho na fantasia que vem preparando desde abril, desde que os últimos ecos do carnaval se apagaram no morro. Cidinho, o primeiro passista da Escola, não está mais apaixonado por Zira. Ele agora prefere carne fresca e bundas menos volumosas, conforme as pautas ditadas pelas revistas femininas. A tragédia de Zira consiste em sua maturidade, na enormidade de sua bunda, nos códigos implacáveis do morro, que só Fonseca e o povo da Escola entendem. Menos atroz, embora não menos comovente, é a história de Kelly, uma das vinte e oito putas às quais Augusto, o andarilho do Rio, ensina a ler em quinze dias valendo-se de um método infalível, cujo único segredo é o amor sem sexo.
Quem chegou até este parágrafo já deve ter percebido que, depois de ler "Passeio noturno (Parte I)" num meio-dia de tédio em Caracas, eu me dediquei com afinco a procurar e ler tudo o que Fonseca tinha escrito ou estava escrevendo, sem que nunca me desapontasse. Eu me perguntava que espécie de homem ele seria. Quando, faz coisa de dois anos, esteve em Guadalajara para receber o prêmio Juan Rulfo, quem o viu me contou que se movia como um fantasma, ao mesmo tempo dócil e esquivo ao implacável assédio dos jornalistas. "Fonseca vaut le voyage", disse-me Gabriel García Márquez, repetindo a frase com que, setenta anos antes, Pierre Drieu la Rochelle celebrara sua descoberta de Jorge Luis Borges. "Você devia conhecê-lo." Mas existe melhor lugar para apanhar um autor fugidio que seus próprios livros?
Tentei descobrir as fontes de Fonseca, porque tudo o que fluía dele me desconcertava: Kafka, por momentos, mas com vapores de humor que amenizam o desatino do mundo; às vezes Machado de Assis e William Faulkner, embora o que Fonseca revela do subterrâneo humano pareça menos apreendido com a imaginação do que com a experiência crua. O fato de seus contos serem tecidos com violência e crime me fez pensar, às vezes, mais em Dashiell Hammett que Raymond Chandler, embora seu advogado Mandrake, o cínico, pudesse lembrar o detetive Marlowe, se não fosse indigno, corrupto e enxadrista. Todas essas comparações são tolas, porque Fonseca só se parece consigo mesmo, ainda que sua linguagem mude de pele como as cobras. Não é a mesma coisa a voz desesperada do lutador no ringue de "O desempenho" que a voz predatória de "O corcunda e a Vênus de Boticelli" — onde alguns poemas levantam vôo para servir como aves de cetraria —, assim como também não há identidade alguma entre a voz educada de Mandrake e a amorosa curiosidade do narrador de "Copromancia", que encontra o sentido do mundo na leitura das fezes. Todos eles criam beleza mediante a profanação da beleza, todos são filhos de um mundo sem Deus, mas se se cruzassem na rua não se reconheceriam. Os únicos textos que têm algo em comum com os de Fonseca são as crônicas de amadores publicadas nos jornais marginais dos morros de Caracas e de Medellín: o que nestes são fragmentos de realidade desolada bruta, naqueles são poesia e calafrio, a arte maior de quem cruzou as portas do inferno e contemplou com lucidez o que há dentro dele.
Alguns torturadores das ditaduras tinham códigos que podiam ser chamados de morais. Já faz algum tempo, li em Citizens of fear, uma coletânea de ensaios sobre violência urbana, as confissões que Martha K. Higgins colheu junto à polícia paulista. A maioria dos policiais condenava o descontrole individual, a tortura por pura satisfação pessoal ou ganho econômico, a perda do juízo durante os interrogatórios por efeito do álcool ou outras drogas. Um deles se justifica: "Para mim foi um choque ver pela primeira vez alguém pendurado no pau-de-arara, com uma mangueira enfiada na boca. Eu não concordava com isso, mas o que é que eu podia fazer? Já estava dentro do quarto e tinha que apoiar os caras que torturavam".
Os personagens de Fonseca não têm esses escrúpulos. A única moral que os rege é a de saciar a si mesmos. Mas saciar o quê? Ao contrário do que ocorre nas ficções tradicionais, o personagem sabe por que faz o que faz, enquanto o leitor não entende. Fica de fora, pasmado, não porque o texto deixe algo sem explicação ou porque a clareza se perca no caminho, mas porque a violência ultrapassa todos os limites, vai além do seu alcance, como os apitos que, de tão agudos, só podem ser ouvidos pelos cachorros. É uma violência tão excessiva que envolve tudo mas não se vê. Respiramos sua atmosfera tóxica e não nos damos conta. Em Kafka, os personagens aceitam com resignação o absurdo em que se encontram, porque o absurdo é o eixo, a razão de tudo. Em Fonseca, o leitor contempla fascinado um absurdo feito de omissões e de silêncios que só os personagens entendem.
"Encontro no Amazonas" é, nesse sentido, característico. O narrador e seu sócio, Carlos Alberto, perseguem uma pessoa durante anos. "Soubemos que ele havia se deslocado de Corumbá a Belém, via Brasília, de ônibus", começa o conto. O perseguido vinha do Sul, da fronteira com a Argentina, e de repente desaparece não se sabe em que direção: talvez rumo a Macapá ou Manaus, ou quem sabe mais a oeste, para Porto Velho e depois Rio Branco. Nem sequer as feições do homem (deduz-se que é um homem) são claras para os perseguidores. "Sonhei com ele", diz o narrador. "Não era a primeira vez. Eu nunca o tinha visto mas sonhava com ele. Com a descrição que me haviam feito dele." É sempre assim. Nunca se sabe quando se pisa em terreno seguro, nunca se sabe por que acontece o que está acontecendo, nem para quê. A arte dos contos de Fonseca é retesar a corda das palavras para que expressem o vazio do mundo, a antipatia dos indivíduos pela espécie: neles se mata e se destrói por inércia, se trepa por inércia. O amor pode destruir tudo. Até um personagem apaixonado como o policial de "O balão fantasma" sacia seu amor correndo atrás de algo que não existe.
Diante de cada relato de Fonseca, lembrei-me dos extremos de individualismo e amoralidade pregados por William Faulkner em uma entrevista à The Paris Review: "O artista só é responsável perante sua obra. Se for um bom artista, será completamente desumano. Ele tem um sonho, e esse sonho lhe provoca tamanha angústia que deve se livrar dele. Enquanto não o fizer, não terá paz. Joga tudo pela janela: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo. Tudo para escrever seu livro". Essas palavras são escandalosas, mas não despropositadas: no horizonte da história, os homens acabam sendo sua obra antes que eles mesmos.
Na declaração de Faulkner há uma insaciável sede de liberdade. Ninguém é o que é abrindo mão da liberdade. Esse é o alento que a obra de Fonseca exala: o de alguém que está em paz consigo mesmo porque jogou tudo pela janela para deixar sair o que há dentro dele: ternura, besteiras, malícia, perda de fé, solidão ante o mundo, estupor ante o corpo, sexo, calúnias, fedores. Sem a menor vergonha. Não existe veneno mais letal para a criação que o pudor e a vergonha. Lendo Fonseca, também me lembrei de "Nocturnal turnings", o último texto de Music for Chameleons. Nele, Truman Capote declara que gostaria de reencarnar em um abutre. "O abutre", escreve, "não tem que se preocupar com a aparência nem com seu poder de sedução; não tem que posar de nada. Seja como for, ninguém vai gostar dele: é feio, indesejável, mal recebido em toda parte. E há muito a dizer sobre a liberdade que isso dá." Fonseca não teve a sorte de ser mal recebido, mas dá a impressão de que não se incomodaria se a tivesse. Os abutres não se importam com o que pensam deles.
Esta reunião de contos, que vai se abrir como um teatro de prodígios a partir da página ao lado, seria um dos poucos livros que eu levaria para uma ilha deserta. Para que me lembrasse dos medos e da insensatez do mundo, do nada que existe do outro lado das desgraças. O dia em que li "Passeio noturno (Parte I)" em Caracas era 2 de abril de 1982. O termômetro marcava 29 graus e, quando voltei da livraria, a sombra do meu corpo era um ponto ínfimo sobre o asfalto. Os militares argentinos tinham acabado de invadir as ilhas Malvinas, mas isso parecia um fato sem importância. A tragédia pública da guerra era menos poderosa que a tragédia privada do "Passeio noturno". Pensei que meu professor de inglês devia ter levado o conflito a sério e desistido da aula, porque eu, argentino no exílio, agora era seu inimigo. Mas ele apareceu, com uma hora de atraso. Estava pálido e com a camisa manchada de sangue. "Tive um pequeno incidente no metrô", disse. "Enquanto esperava o trem, vi um homem com o corpo meio encurvado e segurando a barriga, como que com dor de estômago. Estava de capa. Como você sabe, em Caracas é raro ver alguém vestido assim. Me aproximei dele para oferecer ajuda. 'Vá embora', disse o homem, 'me deixe em paz.' Vi que estava muito machucado e não quis abandoná-lo. Na altura do estômago, a capa estava vermelha, escorrendo sangue. Disfarçadamente, procurei um policial e lhe expliquei a situação. Um homem está morrendo ali, à vista de todos, e não deixa ninguém ajudar. O policial correu até o ferido, que tentou se esquivar com agilidade. Já não era um pobre homem fraco e agonizante, mas um gato acuado e furioso. Por fim, vi que o policial o derrubou e lhe arrancou a capa. Só então percebi que o homem não estava ferido. O que ele apertava contra a barriga era a mão de uma mulher, coberta de jóias. Tinha acabado de decepar aquela mão de uma mulher num sinal fechado, para lhe roubar os anéis."
Depois disso, tudo o que leio de Fonseca produz em mim um assustador efeito de realidade. Ele escreve com a liberdade de um falcão, ou de um abutre, mas as palavras que desfia tecem um desenho do qual o leitor jamais consegue se desvencilhar, como acontece com as moscas capturadas pela voracidade da aranha.
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