Thomas Mann escreveu seu livro
A Montanha Mágica por volta de 1920. A tuberculose era então um mal praticamente incurável, e contagioso, por isso internavam-se os doentes em sanatórios, espécie de hospitais especializados onde eles ficavam indefinidamente. Foi no alto dos Alpes Suíços, no ambiente meio surrealista de um imenso sanatório para tuberculosos ricos, que ele criou uma comunidade isolada do mundo exterior, com variados tipos e particularidades, e construiu aí uma estranha metáfora da condição humana.
O início dos anos 1920 foi um período tenebroso, o sentimento coletivo da sociedade estava forte como nunca, a Europa ressentia-se das feridas da Primeira Guerra Mundial enquanto olhava temerosa para as nuvens negras que se formavam no leste com o clima revolucionário na Rússia.
Ao publicar esse livro Mann foi direto ao ponto que, nessa época, era a questão fundamental da humanidade. Para isso ele coloca no seu Sanatório, tentando influenciar o protagonista Hans Castorp, dois filósofos de tendências opostas: o italiano Settembrini e o jesuíta radical Naphta.
Basicamente o que o humanista Settembrini defende é a prioridade dos sagrados direitos do indivíduo contra os do Estado. Naphta, o racional, está do lado oposto, e sua razão pode ser sintetizada no seguinte princípio: o Estado no seu interesse pode tudo, porque afinal o
todo é sempre mais importante que a
parte.
Sem dúvida que é, mas isto nos leva a esta que talvez seja a principal de todas as questões políticas: até que ponto o indivíduo pode ser reprimido em nome da coletividade? – visto que algum poder sobre ele o Estado tem que ter. Sabemos que tanto em democracias quanto em ditaduras, pois isto são apenas rótulos, o poder do Estado pode ser exercido com mais ou menos força, apesar de as pessoas tenderem a fazer classificações maniqueístas.
Pois bem, Settembrini e Naphta, os dois excelentes personagens do livro
A Montanha Mágica, representam os pólos desse transtorno bipolar da humanidade. Foi o pensamento racional (“o interesse da sociedade é mais importante que o interesse do indivíduo”) que justificou o regime comunista que se formaria na Rússia, e inspirou todos os regimes totalitários que se seguiram, de Stalin a Hitler, de Mao Tse Tung ao
comandante Fidel Castro. Não falaremos de Filosofia. Basta saber que o argumento deles é racionalmente imbatível – por isso é “racional”.
E é racional porque resume tudo a um frio cálculo: dez é mais que cinco, portanto a vida de dez homens vale mais do que a vida de cinco, e tantos outros corolários que podemos deduzir daí. Argumentos assim foram usados por todos os reis, desde a mais remota antiguidade, para fazer o quem quisessem. “Interesses de Estado” são superiores aos interesses dos indivíduos. Ninguém praticou isso tão bem quanto Stalin. Os marxistas acreditavam nesse racionalismo cego, e a vitória final do comunismo era para eles algo como um teorema já provado matematicamente. Não se podia discutir com um marxista.
Em oposição a isso, do lado do Settembrini, tivemos a louvação do indivíduo, cercado de uma aura sublime, empencado de direitos inalienáveis etc. É preciso lembrar que esse “indivíduo” assim engambelado e cujos privilégios na lei geralmente são maiores do que a Natureza pode dar, é criação bem recente – quero dizer, é da Idade Moderna. O capitalismo, como vêem, sempre agradou mais desse lado de cá. "O freguês sempre tem razão", ele diria.
Ao final das contas e do século vinte, foi a louvação
irracional do cidadão que produziu os melhores resultados. Foram os regimes democráticos que criaram mais riqueza e bem-estar, apesar dos apregoados males do capitalismo. Somos obrigados a reconhecer que o indivíduo não é mais importante que o
todo (isso é realmente matemático), mas a gente finge que é, as pessoas se motivam mais, e ao final temos excelentes resultados, inclusive em “felicidade bruta”, se posso usar aqui essa expressão.
Então não somos mais “racionais”? Decerto que somos, mas só parcialmente. Pois escrevi até aqui só para poder falar dessa contradição presente nas sociedades de hoje: usamos os métodos de produção e administração positivistas (científicos), junto com uma organização social que se funda, em última instância, no idealismo.
Usamos ao mesmo tempo o positivismo e o idealismo em nosso benefício, onde cada um deles nos dá o seu melhor. O
todo é administrado usando os princípios práticos. Mas as partes, que são os indivíduos, permanecem sempre num plano idealista.
Devo esclarecer aqui que estou me referindo ao idealismo expurgado de todo veneno racional, expurgado da
História de Hegel, expurgado até mesmo do
cogito ergo sum cartesiano. É o idealismo ingênuo, talvez nem do Bispo de Berkeley,
esse est percipi. É acreditar simplesmente em alma, em imortalidade, em Deus, enfim, em idéias agradáveis.
É esse idealismo ingênuo, intuitivo, que dá sentido às vidas das pessoas. Sempre admirei os que nessas questões que envolvem princípios, como a da pena de morte, nunca abandonam sua crença nesse homem idealizado que é o esteio da sociedade – mesmo que a adoção ou não da pena de morte tenha reflexos mínimos no frio cálculo positivista. Sequer importa vermos reconhecidos canalhas permanecerem impunes graças aos princípios idealistas que norteiam as leis; ou em nome da liberdade de expressão permitirmos empresas de comunicação praticarem coisas muito diferentes das que dizem o texto da concessão que receberam.
Estamos situados, como povo, incoerentemente, entre esses pólos. O coletivo é administrado usando princípios científicos, mas os indivíduos estão no plano idealista.
O excesso de idealismo leva ao totalitarismo. Do idealismo racional dos marxistas já sabemos, mas falo aqui de um totalitarismo mais ingênuo, do tipo
Santa Inquisição. E também o excesso de positivismo pode levar ao totalitarismo, que é para onde iremos se começarmos a tratar seres humanos como meros números em nossas estatísticas.
Porque afinal de contas não estamos firmados em certeza alguma. O simples fato de homens muito bem intencionados terem defendido sincera e honestamente as duas concepções opostas de Estado, e tudo em prol do bem-estar comum, é uma prova disto. O filósofo William James na primeira da série de conferências publicadas no seu livro
Pragmatismo sugere que essa disputa tem mais a ver com tipos psicológicos do que com pensamento.
E se formos também pragmáticos, podemos verificar que a História tem muitos exemplos de como a submissão cega a dogmas leva a situações extremamente perigosas. Todos os regulamentos foram feitos para serem derrubados. Todos os princípios são efêmeros, como o próprio homem – e de resto, as sociedades e os povos.
Querem um exemplo? Darei logo milhares. Nossos políticos mais proeminentes (do governo e da oposição) hoje com mais de 60 anos, na maioria já foram marxistas e durante grande parte de suas vidas defenderam as idéias totalitárias do filósofo Naphta. Quem não era marxista era estigmatizado, e tem até uma expressão, criada por Cacá Diegues, que ficou célebre: “patrulhas ideológicas”. A “ditadura do proletariado” modelada na União Soviética era o destino do qual não poderíamos escapar. O famoso
paredão do Fidel Castro era louvado por todos. Queriam fazer um igualzinho no Brasil.
Hoje não. São todos democratas, e defendem o sistema capitalista americano com a mesma certeza inabalável do rótulo anterior. Afinal os militares, naquele mundo bipolarizado, defendiam o quê? Eu, por exemplo, não me lembro mais. Talvez a História só possa se tornar fidedigna depois que o homem inventar a tal "máquina do tempo". Pois se a Constituição cidadã tivesse sido escrita apenas vinte e poucos anos antes, pelos mesmos homens, suas sagradas cláusulas pétreas e eternas seriam totalmente outras.
Meu propósito aqui foi só o de ilustrar como nessa matéria tendemos a ser incoerentes. É porque, como disse, as partes não se encaixam muito bem no todo, são concepções de natureza diferente. E iremos nos defrontar com essas contradições sempre que lidarmos com o cidadão e o Estado, simultaneamente. É comum, por exemplo, os parlamentares assumirem a posição de defesa do cidadão idealizado (a
parte) fingindo ignorar que o Executivo não pode fugir ao seu papel de administrador positivista do
todo. De que lado realmente estamos?
O jovem poeta inglês John Keats uma vez falou de uma qualidade humana muito valiosa, que chamou de “capacidade negativa”, e que definiu como a capacidade, que só alguns homens possuem, de permanecerem sempre num estado “de incertezas, mistérios e dúvidas, livres da irritante procura do fato e da razão”. “Incerteza” é bem parecido com a posição onde verdadeiramente estamos, e os homens quase sempre sentem-se desconfortáveis nela. Têm que escolher um lado. Há obviamente exceções. A melhor que me ocorreu aqui foi a do Raul Seixas, que numa única expressão sintetizou isso melhor que muitos filósofos.
Cleber Resende é autor do ensaio Massificação Cultural e Religião, que pode ser visto no Google Books.
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