Simone Campos, autora dos livros “A Feia Noite”, e “No Shopping” – esse último publicado quando ela tinha apenas 17 anos – nos fala sobre a sua formação como leitora, seu processo de criação e sobre a cara da nova literatura brasileira.
por Alexandre Landim
AL: Gostaria de começar perguntando qual livro você está lendo atualmente. Fale-nos um pouco sobre ele.
Simone: Estou lendo um livro imenso para a Copa de Literatura Brasileira, de que vou ser jurada. Não dá para ler mais nada, senão não termino. Chama-se “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves. É a saga de uma africana que é raptada para ser escrava no Brasil e acaba participando da Revolta dos Malês. Estou achando bom, embora um tanto didático. Estou gostando do ritmo, da forma como a autora coloca os diálogos parafraseados e não com travessões ou entre aspas. A crítica completa ainda demora um pouquinho, mas o site está aqui:
http://www.copadeliteratura.com/.
AL: De que maneira se deu a sua formação como leitora? Os livros sempre foram algo natural na sua vida?
Simone: Foram. Aprendi a ler com gibis quando engessei o pé, aos cinco anos. Depois, aos sete, li todo o Monteiro Lobato. Comecei devagar, mas logo estava lendo um por dia. Eram livros emprestados, então alguns eu pedi outra vez para ler de novo. Emprestava também da biblioteca da escola e da Casa de Ruy Barbosa, onde minha avó me levava para passear. Eu não ligava muito a TV – cresci na década de 80 e consegui nunca ver “Goonies” e “Curtindo a vida adoidado” inteiros. Com 9 ou 10 anos, já lia tão rápido que minha mãe chegou a proibir meu pai de comprar mais livros. Li tudo o que existia na casa, até os livros impróprios. Só fui ler mais e melhor na biblioteca do meu terceiro colégio, a mais completa do Rio de Janeiro no nível de ensino médio. Aí passei para Clarice Lispector, Dostoiévski, Vladimir Nabokov etc.
AL: Você já se formou em Jornalismo, e agora estuda Produção Editorial. Em relação à sua formação acadêmica, até que ponto ela contribuiu, ou contribui, para a sua carreira como escritora?
Simone: O Jornalismo contribuiu porque foi um curso tão, mas tão picareta, que jamais atrapalhou os meus estudos. Em Produção Editorial eu senti que realmente aprendi alguma coisa; agora penso no livro também como objeto vendável e estético, me interesso por diagramação, capas bem-cuidadas, políticas de fomento à leitura, questões de distribuição etc. Não sou mais alienada, que droga.
AL: Você começou a escrever muito cedo. A escrita pra você é uma necessidade? O que pretende comunicar quando escreve?
Simone: Realmente eu decidi que queria ser escritora muito nova. O primeiro saiu quando, aos sete anos, li os romances de banca que minha mãe lia. Achei-os muito ruins e decidi escrever um melhor. Não queria que a minha mãe lesse aquela porcaria, queria que ela lesse coisas boas (e era convencida o suficiente para acreditar que conseguiria fazer melhor). Quer dizer, as primeiras tentativas foram estimuladas pela necessidade de ser acompanhada em meu bom-gosto, trazer as pessoas para o meu mundo, porque eu não conseguia achar graça no Xou da Xuxa. Acontece que eu tinha autocrítica e sabia que aquelas tentativas não prestavam para publicar. Tive que ler autores bons para ter uma idéia do patamar onde eu queria chegar e investigar o que já tinha sido feito. Eu sou muito exigente com as pessoas e comigo mesma. Mas há pessoas por aí que valem a pena, com as quais pretendo me comunicar. Não são as pessoas mais afáveis, nem são as que entram em contato, nem as que me elogiam e recomendam. O livro é como se fosse um bilhete secreto para elas – um que não precisa ser respondido, mas é muito bem-vindo. É uma confirmação de que não estamos sozinhos. É também um leve peteleco evolutivo, um instrumento para pensar e acelerar coisas que acontecem e estão prestes a acontecer. De certa forma, eu escrevo para me sentir bem-acompanhada.
AL: Na época da publicação do seu primeiro livro, “No Shopping”, sucesso de crítica, você estava apenas com 17 anos. Nesse primeiro momento você tinha plena consciência daquilo que escrevia, você possuía um estilo metódico, ou o ato de escrever se dava de uma maneira mais orgânica, instintiva? Qual a principal diferença que você enxerga em relação à sua produção atual?
Simone: Eu não tinha um método definido ainda. Defini ali. Percebi que meu ponto forte era criar fragmentos, fragmentos de linguagem original, e que poderia funcionar – dado o tema do livro – deixar a história toda fragmentada. Fiz assim, respeitando o tempo da narrativa – também bem acelerado e econômico. Mas não poderia ter me arriscado a começar com outro tema que não o shopping, porque teria dificuldade em desacelerar e pôr um só final na história (“No shopping” possui três finais, o que chamei de “multiplex”). Hoje já me arrisco em outros temas, porque consigo ligar os fragmentos com mais coesão. O cimento vem melhorando de qualidade. Ler ajuda. Viver também.
AL: Como surgem as idéias para as suas histórias? Elas são elaboradas a partir de acontecimentos pessoais, ou a partir de leituras, filmes? Ou tudo isso junto? Como você constrói uma personagem?
Simone: As histórias surgem no entre – eu choco um comportamento que vejo na rua com um anime japonês, por exemplo, e surge a faísca da história. É importante observar, cotejar e sentar para produzir um trechinho, um fragmento. O personagem surge a partir de um arquétipo, da subversão de um arquétipo e/ou da hibridização de vários deles.
AL: No seu processo de criação você fica muito tempo incubando uma idéia? Faz sinopses, pesquisas, ou parte direto para a escrita?
Simone: Primeiro eu tenho a idéia. Achando-a boa, escrevo um parágrafo. Guardo o parágrafo bom no estoque de bons parágrafos. Quando tenho alguns parágrafos bons do mesmo universo, brinco de ligue os pontos. Se, no meio dessa montagem da história, preciso saber de alguma coisa específica, aí faço pesquisa. Adoro pesquisar – inclusive pesquiso como profissional, para projetos dos outros, e aí meu lado nerd cai na esbórnia, usando todas as suas canetinhas –, mas detesto escrever literatura com base nisso. Fica ruim. O ideal é pesquisar, mas não escrever para mostrar que pesquisou. Aliás, as pesquisas que faço “para fora” acabam dando bons textos depois – nunca sobre o objeto da pesquisa em si.
AL: O escritor Marçal Aquino diz que nunca sabe como vai terminar um conto quando começa a escrevê-lo, e que um dos motivos de continuar escrevendo-o é para descobrir como será o final. Com você acontece algo parecido? Você sempre tem em mente qual vai ser o passo seguinte da história, o próximo acontecimento, ou a história vai nascendo naturalmente na medida em que você escreve?
Simone: Depende de o parágrafo que tiver em mãos pra começar, se for mais perto do final ou do início. Nesse último livro “A feia noite” teve isso, eu não sabia o final, até porque era uma questão que eu não consegui pensar sozinha. Usei o livro, os personagens e todo o universo deles como um computador para descobrir a resposta à grande questão. E a resposta era 42.
AL: E a sua relação com a gramática, com a utilização da língua portuguesa, como é? Você tem uma preocupação especial na utilização dela, ou deixa o texto fluir?
Simone: Aí varêia. Procuro adequar essa utilização da gramática ao tema e ao humor do texto. Já cometi erros de propósito (não tão crassos como esses aí do início) quando escrevi o blog da Maria Luiza (personagem de “A feia noite”, em
http://afeianoite.blogspot.com ), porque ela era um gênio da matemática, não do português. Quando o personagem é mais preso, tenho mais tenência gramatical, uso pretérito mais-que-perfeito e tudo. Manter sempre assim só para a professora elogiar é que não dá.
AL: Em uma entrevista sua, cedida à Amanda K., você disse que existe fraude na literatura contemporânea brasileira. Explique melhor essa afirmação.
Simone: “Algumas fraudes”, eu disse. Chamo de fraudes escritores que colocam uma romantização da própria vida na frente da obra para mascarar como ela (a obra) é ruim; e outros que recorrem a um sistema de créditos sociais que não premia o bom livro, mas o escritor com melhor pose de erudito ou mais bem-conectado lá em seu torrão. Isso é fraude porque desse mato não sai literatura e isso ocupa o espaço dela, já tão pequeno.
AL: Diga-nos quais são, em sua opinião, os bons escritores contemporâneos brasileiros, aqueles que você lê e que valem a pena comprar.
Simone: Beatriz Bracher, Índigo, Daniel Galera, Ana Paula Maia, Santiago Nazarian, Cíntia Moscovich. Há gente boa no gênero blog também – leio Hermés Galvão (
http://superego.colunas.entretenimento.globo.com ), Alexandre Soares Silva (
http://www.apostos.com/soaressilva/ ), o Frost do Manipulação (
http://manipulacao.blogspot.com ). Blog é um gênero. Nietszche era blogueiro. Mark Twain era blogueiro (“Dicas úteis para uma vida fútil”). Toda vez que você escreve uns poucos parágrafos com grande concentração de referências de nicho, que podem ser desdobradas, e partiu de uma observação de costumes, está blogando.
AL: Juntamente com outras autoras, como Andréa Del Fuego e Cíntia Moscovich, você fez parte da antologia “25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira”, organizada por Luiz Ruffato. Em sua opinião, existe uma literatura que seja genuinamente feminina?
Simone: O que acontece é que se presume que é mais fácil ou interessa mais ao autor falar do próprio sexo (e classe, e cor), enfim, não necessariamente falar da própria vida, mas da própria experiência. E é verdade, mas não significa que de vez em quando o autor não queira vivenciar algo fora da sua experiência – e isso é possível através da literatura (e da atuação, e da realidade virtual). Talvez falassem nisso de literatura feminina porque a mulher era minoria e precisava de “cotas” – mas abre o olho, a gente está dominando o pedaço. Minha lista de favoritos tem mais mulheres, e não é por proteção. É claro que há uma segmentação: hoje em dia é recomendável que o próprio autor pense em “com quem está falando” e informe isso para o departamento de marketing antes que eles façam besteira. O autor também pode de vez em quando escrever um livro sem pensar em público, escrever do jeito que lhe der na telha, para poucos, mas com consciência; ou seja, tem que ser uma edição pequena, calculada com base no número de parentes e fãs do primeiro livro. Nenhum dos dois é receita certa para o sucesso.
AL: Da mesma forma que Fernando Sabino e Marcelo Rubens Paiva, em suas respectivas épocas, você é apontada como uma autora de geração e, além disso, uma autora da nova geração. Você concorda com essa classificação? Ela de alguma forma te incomoda? E, ainda pegando carona no título da antologia, qual é a característica da nova literatura brasileira?
Simone: Não me incomoda. Acho alguns autores “de geração” bons e outros ruins. Alguns ficam e outros não. É difícil falar do todo. Acho que essa pergunta é difícil porque não há uma característica universal em nenhuma geração literária. É como dizer que todas as quinze debutantes têm nariz chato e martelar o nariz das duas que não têm. Lembro que quando lia aquelas tabelinhas de vestibular – “características do romantismo”, “do parnasianismo” – eu imaginava os espíritos dos autores emputecidos, puxando as barbas e berrando: “Não! Não! Não era nada disso!” ou “Eu era diferente de todo mundo! Veja, veja este recorte da Gazeta!”. Mas o que se há de fazer?
AL: Em sua opinião, o que faz com que sua literatura seja assim classificada? Tanto no “Feia da Noite”, como no livro “No Shopping”, quais são esses elementos?
Simone: É engraçado porque no que escrevi até agora não contei a minha história, mas a da minha geração. Eu tive uma vida tão fora do padrão para minha geração que não gosto nem de contar, porque as pessoas acham que estou mentindo. E, no entanto meus livros são chamados de autobiográficos a torto e a direito. Normalmente tomo isso como elogio: vai ver, entrei tão bem na pele da patricinha maquiavélica (Delia, em “No shopping”) que até passei por uma. Mas na vida real as patricinhas me odiavam e não eram maquiavélicas, mas burras. Estou me lixando para a reprodução da realidade, especialmente a minha. Para mim, literatura é tudo aquilo que está entre a capa e a contracapa do livro. Se a obra só fica boa quando você leva em conta a vida que o autor levou, não é literatura. É fofoca. Aí, extrapolei: para “A feia noite” inventei um marqueteiro político bonzinho e uma prostituta carioca de pele alvíssima, de cabelos pretos e encaracolados, chamada Maria Luiza. Mesmo assim teve gente dizendo que era autobiográfico! E ainda vieram me dizer: “ah, mas Maria Luiza não é nome de prostituta”. Queriam a Bruna Surfistinha. Paciência. Quem não entendeu a piada, não entendeu. Basicamente, meu estilo é esquizóide. Ele é um estilo Zelig. Ele se adapta ao universo em que eu o coloco, aos personagens que invento. Os contos para o meu livro novo estão ficando tão início-meio-e-fim. Vocês vão ter uma amostra quando sair o livro da “Mojo” (veja abaixo). Mas há sim certo fio condutor perpassando tudo até agora: a maldade.
AL: Qual dica você daria aos jovens escritores? Quais livros ler, como aprender a escrever?
Simone: Finja que seus textos são de outra pessoa - de preferência uma que odeie. Esse exercício serve para exorcizar a auto-condescendência e para se descolar da própria percepção, coisa fundamental a quem pretende escrever de vários pontos de vista e não sempre do próprio. Pensando nos seus textos como nos de outra malquerida pessoa, compare-os aos textos de seu autor preferido (preciso mandar você “ler muito”? O mundo está perdido). Quando e se você sobreviver a essa etapa, pense em escrever não “melhor” que ele, mas “adiante” dele. O que você escreveu contém algo de novo? Se você visse numa livraria, compraria? E não saia mandando originais não-solicitados às pessoas: escritores, editores, o que seja. Não seja um operador de telemarketing. Há editoras que recebem originais de braços abertos e até fazem concursos. Comece por elas. Eu fiz assim.
AL: Você está com algum projeto novo, poderia nos adiantar algo?
Simone: Agora, dia 4 de novembro, saiu um livro meu pela coleção virtual Mojo (
www.mojo.com.br), inspirado no álbum “Exit Planet Dust”, dos Chemical Brothers. Terminei um livro de ficção científica on-line chamado “Penados y rebeldes” (
http://penadosyrebeldes.blogspot.com). Também fiz um roteiro de cinema para meu livro “A feia noite”, que ao contrário do livro, é bem linear. Parece sabe o quê? Um “Tropa de elite” classe média. Ganhei a bolsa do programa Petrobras Cultural, então estou fazendo um livro de contos a sair pela editora 7Letras. Terá contos de ponto de vista feminino e masculino, velhos e moços, ricos e pobres, brancos e negros. É uma mistureba, portanto vai se chamar “Amostragem complexa”. Aqui vai um trecho do “Elidu”, o conto da “Mojo”:
E tendo ajeitado cuidadosamente o cinto de espinhos como um anel de saturno sobre a minissaia, Silvânia deslizou a cadeira de rodas da Vovó pela porta até o elevador.
Vovó estava quase desmontada, a tal ponto que era difícil de visualizar como seria caso pudesse ficar de pé. E pois é: não podia. Mas ainda gostava de passear.
Numa tarde típica de verão, um ônibus que atravessasse o Largo do Machado cruzaria com em média três netas/empregadas empurrando inválidos. Silvânia era neta, mas parecia empregada. A Vó era magra e pálida; a neta tinha saído bronzeada, fruto de sucessivos acasalamentos a beira-mar.
A banca de jornal estava tocando pagode-de-corno.
– Bom dia, meu anjo.
E a coxa morena de Silvânia se alongava vez a vez. A nádega direita trocava de lugar com a esquerda bem devagarinho para Vovó poder ver a vista e sorrir para cada vizinho. Sorriu para o jornaleiro também, como se “meu anjo” fosse com ela.
– Vó, você quer entrar na lojamericana?
– Hein?
(gritar com ternura para velhos ensurdecidos, é uma arte)
– Não quer entrar...
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