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A CEGUEIRA BRANCA DE SARAMAGO E FERNANDO
 
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CLARA ASTORE, São Paulo (SP) · 20/11/2008 · 74 votos · 1
Uma cegueira branca toma conta dos olhos da alma. De repente os olhos da alma se vêem banhados de leite profundo. Derramado cá, dentro de nós, sem sabermos por onde.

Uma branquidão que nos inunda, não há causa biológica, problemas de outra lógica.

Que paisagens podemos contemplar se um contagioso mal branco assola os olhos de nossas almas? Vai a humanidade aquém ou além diante do desamparo instalado frente a angústia monocromática que nos convoca?

É difícil lidar com a imperfeição da alma, mas é ainda mais difícil “ver” que a imperfeição não está na dita “imperfeição” e sim no que não se diz, no que não se vê. O que acontece quando todos nós deixamos de ser nomes, e não mais nos inscrevemos em endereços seguros de grades ponte agudas e lamparinas que clareiam o medo do escuro? O medo do escuro? Ironia do destino? Sim, o leite que embaça nosso divino presente óptico é irônico.

São essas, vicissitudes que impregnam o ávido leitor/espectador do livro, agora também filme, Ensaio sobre a cegueira.

Não conhecemos os personagens dessa história pelos seus respectivos nomes, contudo nos comparecem frente aos papéis sociais que escolheram desempenhar: dona de casa, esposa, médico, prostituta, ladrão, taxista, etc... Papéis esses que apodrecem quando a urgência da angústia exige um reinventar de tudo aquilo que em nós parece consolidado, cristalizado. Não adianta o médico usar de seus traquejos habituais, ali têm feridas e ao montes, mas as suas mãos não dão conta de aplacá-las. Seria pela falta de visão, pela falta de instrumentos ou por que simplesmente ali já não cabe esse saber nem a tentativa estúpida de normatizar um lugar insalubre de uma saúde que não responde as regras de sanidade de um mundo particular?

O pior mal sintomático da cegueira branca não é abstinência de cores e formas, mas a condescendência produzida em maridos famintos que oferecem as esposas ou ainda a dor da honra, de um desavisado chinês (filme), que mascara na cegueira a realidade circunscrita. Quem é a prostituta?

A humanidade está bem representada, não no personagem (filme), na cara lavada de Juliana Moore, com todas as marcas que lhe são de direito, sem os truques da indústria de cosméticos que lhe pintam a face e a de todos os espectadores que assistem apreensivos enquanto a tensão dos rostos racha a grossa base que lhes contêm o movimento.

Saramago guardou nas mãos as pontuações, para reinventar a escrita, a leitura, a respiração, a fluidez, produziu no leitor um movimento automaticamente diferente no encontro com a escrita, o elo perdido tão necessário à realidade da própria história que nos traz em seu livro. O reinventar, o caminho da fluidez. Tivesse seus personagens (nós) se aproximado disso. Não, não estou tentando achar o caminho da redenção, ainda que, confesso, uma outra realidade possível.

Criou um personagem instigante. Como alguém conseguiu passar imune frente a uma epidemia, ainda que lhe lidasse diretamente com os contagiosos? O que a princípio vemos no espaço reservado as vítimas da cegueira branca, uma espécie de manicômio, isolamento, é o abandono. Corpos sem par. Um dos méritos dessa personagem é romper esse ciclo de abandono, se conectando a necessidade do outro, reagindo frente à barbárie.

O filme me fez acreditar, talvez por optar em mostrar a volta da visão num dos personagens nesse grupo central, que essa mulher tivesse um papel preponderante nesse retorno das cores e formas. Sem dúvida, é contato com o outro que nos transforma, que nos amplia o horizonte, que nos concede a falência e a virtude de estarmos no mundo, que muitas vezes nos abre as cortinas das janelas de nossas almas.


tags: Santos SP jornalismo-midia


 
Clara, sua literatura é excelente: punge e urge.

Marcelo Moraes Caetano · Rio de Janeiro (RJ) · 21/11/2008 11:08
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