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A ausência de uma presença múltipla
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 29/7/2008 · 49 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Luiz Fernando Vianna em 05/05/2003.

Poeta, letrista e agitador fundamental para a Tropicália e as várias contraculturas, Waly Salomão morre aos 59 anos, pouco depois de se tornar secretário nacional do Livro e da Leitura e tentar, literalmente, levar a imaginação ao poder. Seus versos e as lembranças de sua personalidade exuberante garantem a permanência dos muitos Walys que foi.


O poeta e artista de sete instrumentos cujo nome vinha sempre associado a rótulos como "marginal" e "contracultura" se despediu da vida como secretário de Estado. E não há qualquer ironia ou contradição nisso. Waly Salomão não entendia poesia, música, ação cultural, mídia, governos como coisas estanques que se relacionam aqui e ali. Para este filho de pai sírio e mãe baiana que se tornou um desbragado carioca, culturas, fatos, palavras e pessoas poderiam interagir das mais variadas formas, contanto que houvesse na tal interação fortes doses de desejo, criação e exuberância. As "algaravias" - título de um livro seu - que Waly não se cansava de produzir foram interrompidas nesta segunda-feira (5/5), aos 59 anos do poeta, por um câncer.

Seu velório na Biblioteca Nacional reuniu Caetano Veloso, Cacá Diegues, Gal Costa, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Jards Macalé, Antonio Cicero e muitos outros que tinham por ele a única coisa que era possível (mesmo que, às vezes, pudesse ser em forma de raiva): paixão. Um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando o Afro Reggae, grupo/movimento de Vigário Geral do qual era diretor e grande entusiasta, fez soar suas percussões em torno do caixão fechado, num ritual de triste alegria. Seu corpo será cremado na terça-feira, às 9h, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Deixa dois filhos.

Waly soube há duas semanas do câncer e pediu licença do cargo de secretário nacional do Livro e da Leitura - que ocupava desde janeiro, a convite do ministro, parceiro e amigo Gilberto Gil. Internou-se na Clínica São Vicente, no Rio, onde morreu. O câncer avassalador surpreendeu mesmo amigos próximos e quem o viu há pouco tempo falando com a prolixidade e a empolgação de sempre. Foi assim no dia 8 de abril, quando participou na Fundação Casa de Rui Barbosa de um debate organizado pela Liga Brasileira de Editores (Libre), no qual de principal convidado passou também a mediador, e de mediador a orador quase exclusivo, enfileirando idéias, indiscrições e neologismos com a veemência habitual.

Neste encontro, assim como em todas as entrevistas que dava - inclusive a feita por Heloisa Buarque de Hollanda para a seção Aerograma do Portal Literal - Waly ressaltava as dificuldades orçamentárias de sua secretaria e de todo o Ministério da Cultura, mas não parava de formular planos. Ele fazia o que Gil pediu em seu discurso de posse: "Que ele coloque toda a sua energia criativa a serviço de uma reviravolta na situação do livro no Brasil".

Sua missão oficial terá que ser continuada por outro(s), mas a tarefa de levar a imaginação ao poder, como se clamava nos anos 60, de outras formas Waly já fizera. Embora não gostasse muito de ser chamado de tropicalista (afinal, é inútil se manter soldado de um movimento que já não está mais em movimento, pois já cumpriu suas funções), tudo o que fez nos anos 60 e 70 ao lado de Caetano, Gil, Torquato Neto, Hélio Oiticica, Tom Zé, Jards Macalé etc. foi fundamental na formação de cabeças e sensibilidades da sua geração e das seguintes; na construção de falas políticas alternativas à dicotomia direita-esquerda; e na elaboração de formas imprevisíveis e não convencionais de se fazer jornalismo, arte e, de um modo geral, vida, pois Waly não entendia nada do que fazia como profissão, como uma tarefa de subsistência que estivesse desligada da montanha ambulante de afetos que era.

Seu primeiro livro, Me segura que eu vou dar um troço (1971), dá uma idéia disso. Foi escrito no Carandiru, onde ele estava preso por porte de maconha, e serviu como liberação das vivências, reflexões e leituras que vinha acumulando desde a primeira juventude na então efervescente Salvador - onde, vindo da Jequié natal, conheceu Gil no Colégio Central e outros futuros tropicalistas. Morou em São Paulo com Caetano e Dedé Veloso, e conheceu no Rio Hélio Oiticica, seu irmão de experiências que diagramou Me segura... - e sobre quem, nos anos 90, escreveu o livro Qual é o parangolé.

Lançou vários livros de poesia: Gigolô de bibelôs, Surrupiador de souvenirs, Armarinho de miudezas, Algaravias, Câmara de ecos, Lábia, Tarifa de embarque, a antologia O mel do melhor... Como é praxe no gênero, nenhum fez grande sucesso, mas há neles poemas brilhantes. Como, para ficarmos apenas em um, "Açougueiro sem câimbra": "Pego a posta do vivido,/ talho, retalho, esfolo o fato nu e cru,/ pimento, condimento/ povôo de especiarias,/ fervento, asso ou frito/ até que tudo figure fábula."

Já nos anos 70, seus versos ficavam mais conhecidos graças à música. É sua a letra de "Vapor barato", lançada no show "Fa-tal", em que dirigiu Gal Costa, e que voltou com toda força nos anos 90 por causa do filme Terra estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas. Além de Gal, Maria Bethânia gravou várias letras suas, como as parcerias com Caetano "Mel", "Talismã", "Alteza", "Da gema" e "Olho d'água" - recentemente Caetano musicou seu poema "Cobra coral" para o disco "Noites do Norte".

Nos anos 80 e 90, foi parceiro, entre outros, de João Bosco (normalmente dividindo a letra com o grande amigo Antonio Cicero), Lulu Santos ("Assaltaram a gramática"), Roberto Frejat ("Balada de um vagabundo"), Itamar Assumpção ("Zé Pelintra") e Adriana Calcanhotto, que vem com sucesso musicando poemas seus, como "A fábrica do poema", "Pista de dança" e "Programa".

"Presença inovadora, inspiradora e eletrizante", como Gil o classificou ao tomar posse, Waly terá seus versos, sons e as lembranças de seus gestos espalhafatosos para preencher a ausência inevitável. O que ele nunca conseguirá deixar de ser é múltiplo, como resumiu em alguns versos: "Eu, por exemplo, inteiramente perdido,/ passei a confiar só em mim/ e sou a pessoa menos digna de fidúcia/ porque não sou uno, monolítico, inteiriço."; "Sou volátil, diáfano, evasivo."

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